A Fera
24 A Maldição de Adam
—- As coisas estão muito diferentes agora – Adam murmurou. Ele encarava o par de pedras de gelos dentro do seu copo, balançando a bebida de vez em quando para assistir as pedras se movimentarem atordoadas.
—- Diferentes como? – Fordy murmurou de volta. Estavam juntos no quarto de Rafael, em uma reunião. Rafael estava mais adiante deles, em sua mesa. Parecia distraído, desenhando alguma coisa que Fordy não conseguia enxergar direito àquela distância.
—- Não sei – Adam rebateu, irritado. Estava começando a sentir o efeito da bebida antes mesmo de terminar o segundo copo. – Eu só... Tenho sentido coisas estranhas quando venho aqui.
Fordy ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada. Não queria contradizer os sentimentos de Adam dizendo o óbvio.
—- Talvez devesse conversar com Rafael a respeito – ele disse, ao invés. Estava com os braços cruzados sobre o peito, ainda encarando fixamente o papel que ele rabiscava com uma urgência estranha e incomum. Parecia que estava de volta a dois anos atrás, antes daquilo tudo, quando Rafael era só um garoto. Ele corria para a sua mesa e desenhava ou escrevia, já que não gostava da presença do pai e preferia dar atenção a outra coisa. – Tenho certeza de que ele irá adorar conversar com você sobre mudanças.
—- Ele não vai a lugar nenhum – Adam rebateu logo, com a mesma pressa que alguém com dor teria pelo tratamento.
Não só Fordy como também Rafael pararam o que estavam fazendo para encontrá-lo. Rafael, por um breve momento e Fordy, durante todo aquele tempo.
—- Adam – o velho disse. – Está sendo precipitado. Nem ouviu o que ele tem a dizer sobre isso. Lembra-se do que Salvatore disse também?
—- Não ligo para o que aquele homem ganancioso pensa – Adam se apressou. Ele se levantou com pressa e, ainda encarando o liquido dentro do copo que segurava, se esgueirou até a janela como uma sombra. – É tarde demais para recorrer a outros caminhos, Fordy. Acredite em mim.
—- Tarde demais para quê? – Rafael interveio. Não ergueu os olhos do papel, apenas soprou as lascas de lápis dos dedos e voltou ao objeto. – Para mim? – Adam soltou um grunhido. – Ora, pai. Estou tão surpreso com a novidade quanto você.
Adam engoliu o restante do liquido com relutância, sentindo-se nauseado logo em seguida. Ele se aproximou de Rafael a passos lentos e calculados e encarou o papel rabiscado que ele tentava esconder debaixo dos cotovelos.
—- Adélia? – Disse, apontando para o desenho. Sentiu um pouco de decepção ao notar os contornos de pétalas, que pareciam despencar de uma flor que Adam não reconheceu.
—- Gardênia – Rafael corrigiu apressado. Sentiu vergonha do comentário de Adam e mais ainda por, de qualquer forma, estar pensando nela.
—- Imagino que não tenha lhe feito visitas ultimamente -- Adam continuou, passando para o lado esquerdo de Rafael. Ali, começou a folear as folhas já rabiscadas por ele, provocando incomodo no garoto.
—- Pelo contrário – Rafael o interrompeu, puxando com aspereza os papeis da mão de seu pai. – Fui na noite passada, quando me obrigou a entregar um presente para ela. Que, inclusive, ficou maravilhada.
—- Não estou falando disso – Adam pôs uma mão sobre o ombro dele, assustando-o. O calor que irradiava da pele de Adam fez o corpo inteiro de Rafael congelar em alerta. Não era frequente receber toques vindo dele e, sempre que acontecia, Rafael sentia um peso e a dor. – Quando foi a ultima vez que conversaram?
Rafael engoliu em seco sem conseguir desviar os olhos de Adam, que o encarava com intensidade. Parecia querer lhe transmitir alguma mensagem só com o olhar.
—- Por que se importa? – Rafael se ergueu com uma velocidade surpreendente e se afastou, zonzo. Já era de costume ter Adam se metendo na sua vida, tentando ter alguma relevância nela. Mas se incomodava muito mais quando ele queria se meter entre ele e Adélia.
—- Eu estive conversando com ela ultimamente – ele admitiu, vangloriando-se ainda mais quando Rafael o lançou um olhar que mesclava choque e terror.
Rafael tentou se manter calmo, mas era impossível. Sentia seu peito se apertar com aquela ideia. Não confiava nem uma agulha à Adam, quanto mais na sua palavra.
Adam abriu a boca, mas foi interrompido por um pigarro vindo de Fordy, que se prontificou diante da porta. Ele lançou um olhar de alerta para Adam antes de deixá-los sozinhos, mas tão discreto que foi quase imperceptível.
Adam percebeu o aviso e recuou um passo, surpreso consigo mesmo pela desistência repentina. Estava cansado demais para pirraçar Rafael naquele momento, atordoado demais com o que viria a seguir e ansioso.
—- Não convém ao caso agora – ele disse. Sua expressão ficou séria e ele pôde sentir o peso daquilo, daquela sombra obscura e pesada sobre seus ombros quando encarou os olhos prateados de Rafael.
Estavam claros naquele momento, como os de Adam. Na verdade, tudo naquele garoto o lembrava de si próprio de algum momento há tempos – um alguém que gostaria de esquecer, que poderia matar naquele instante.
Aquilo o fez lembrar-se de Adélia de forma inexplicável. Talvez fosse só porque passara metade de seus últimos dias com ela, ou conversando com ela. Sentia uma necessidade intensa de procura-la e lhe contar coisas boas, mas Adam era incapaz de pensar em qualquer coisa que a fizesse o odiar menos.
Claro, a ideia de lhe permitir se manter conectada com os seus pais foi incrível, mas, no fundo, ele sabia que não era o suficiente.
Ainda havia Rafael, e aquela coisa também inexplicável que ele despertava. Adélia era muito mais fácil de lidar do que seu filho, mas Adam sabia que devia muito mais a ele do que a ela.
—- Precisamos conversar – ele confessou, melancólico. Não sabia como havia ficado tão sensível; na verdade, aquilo vinha acontecendo com muito mais frequência do que Adam gostaria de admitir. Mas ele sabia que precisava aguentar. Precisava se manter firme porque sabia e precisava acabar com aquilo o mais cedo possível.
-- Por que eu sinto que isso não é bom? – Rafael murmurou, soltando um suspiro exasperado. – Não quero ouvir o que tem a dizer, Adam.
—- Eu quero lhe fazer um alerta – ele disse, ignorando completamente o apelo de Rafael. Ao invés, o conduziu até a poltrona onde Fordy estava, o obrigando a se sentar. – E também quero lhe confessar algumas coisas.
Rafael sentiu sua garganta se fechar graças ao bolo que se formou, sufocando-o. Ele encarou Adam de olhos arregalados, assustado com aquelas poucas palavras. Sua cabeça gritava o nome de Adélia, mas seu apodrecido coração murmurava outra coisa, outro nome que ele sequer conhecia.
—- Conte-me logo, então – disse, mais impaciente do que gostaria de demonstrar.
—- Preciso que prometa algo antes – Adam insistiu. Não parecia nervoso, mas sua voz e seus olhos continham uma urgência jamais vista por Rafael. – Preciso que prometa que ouvirá tudo o que tenho a dizer antes de ir.
—- Ir? — Rafael devolveu na mesma intensidade de sua voz. – Ir para onde?
—- Para qualquer lugar, Rafael! – Adam exasperou-se. – Sei que vai ser difícil, por isso estou lhe pedindo isto. E... tem algo mais.
Adam enfiou os dedos nos cabelos, resistindo à vontade de arrancá-los. Sentia sua boca seca pela falta do álcool.
—- Eu... eu não espero que me perdoe, Rafael – ele disse, desejando amargamente estar com a sua melhor garrafa de vinho nas mãos. – Mas espero profundamente que me dê uma chance de explicar tudo o que aconteceu.
—- Ah— foi tudo o que Rafael conseguiu dizer naquele momento. De repente, todo o desconforto que havia se acostumado a sentir deu espaço para nada. Simplesmente nada. – Não sei o que esperar, Adam. Mas sinto que, independentemente, ficarei até o final. Até que tenha me dito até a ultima palavra do que preciso saber.
Adam assentiu, acenando positivamente para ele.
—- Muito bem, então – ele disse. Tentava ao máximo se manter calmo ou pelo menos demonstrar menos o quanto se sentia nervoso, mas a tremedeira em sua voz e mãos o denunciavam. – Prefiro começar com a confissão.
Rafael assentiu, se retorcendo em seu assento. Por Deus, estava tão ansioso que tremia!
—- A sua mãe – ele disse, sentindo a lembrança queimar em sua cabeça – não amaldiçoou você.
Rafael piscou, resistindo a vontade de apontar para si mesmo diante de Adam e constatar o óbvio.
—- Sei o que está pensando, mas deixe-me explicar – ele pediu, e Rafael notou quando ele engoliu em seco. – Essa maldição não pertence a você, Rafael. Ela pertence a mim.
—- O que isso que dizer? – Rafael se surpreendeu com o tom calmo de sua voz.
—- Você é a maldição – seu pai murmurou. Adam ficou encarando Rafael por um tempo, esperando qualquer reação, mas ele não fez nada. Estava ficando surpreso com as ideias, mas simplesmente não conseguia reagir. — Você é a minha maldição.
Ah, Rafael pensou.
—- Ela me puniu depois que eu a deixei para trás – Adam continuou. – Escute, vou tentar explicar melhor desta vez: há alguns anos atrás, quando ainda estávamos juntos, eu era uma pessoa... assim como você é. Mas ela, bem, era muito diferente de todas as outras mulheres que eu já havia conhecido. – Adam engoliu a bola de fogo que ameaçava sua voz. – Eu a amava, de verdade. Eu queria que tivéssemos um futuro, mas ela era tão gananciosa quanto eu. Tão mesquinha quanto eu.
Adam fechou os olhos e se arrependeu no mesmo instante. Pensando nela e contando sua história em voz alta tornava muito difícil não pensar nela. Se se permitisse, poderia voltar lembrança atrás de lembrança até o ultimo e raro momento de felicidade que teve há anos atrás, quando ainda era jovem e, consequentemente, apaixonado pela única e verdadeira mulher que amou durante toda a sua vida.
—- Eu queria ter poder e dinheiro, muito dinheiro. Sempre falávamos sobre como seria bom termos três refeições por dia ou como seria mágico viajar para onde quiséssemos.
—- E a sua família? – Rafael o interrompeu.
—- Eu não tinha família – Adam deu de ombros. – Cresci na rua, passando as noites no que eu acreditava ser um abrigo para crianças abandonadas. No fim, era só um cara que treinava pequenos ladrões de rua, futuros saqueadores ou as piores pessoas que você puder imaginar.
—- Isso me parece trágico – Rafael confessou. Não conseguia esconder a tristeza e nem a satisfação que se misturavam por estar vivendo aquele momento com Adam.
—- Não importa – Adam sacudiu a cabeça com força, como se quisesse afastar algum pensamento ruim. – Eu a conheci na rua, quando eu tinha aproximadamente a sua idade. – Adam se levantou de repente, sentindo a ponta dos seus dedos pinicarem por conta do frio que sentia. Não gostava de pensar nela, não gostava de pensar em seu passado, embora, na maioria das vezes, só o álcool pudesse amenizar as feridas.
Rafael sentiu-se deslocado, sem rumo. Nunca havia presenciado um Adam inseguro, vulnerável. Nunca havia imaginado que chegaria o dia em que descobriria alguma coisa sobre seu próprio pai -- quem o criou e o visitou durante todos aqueles anos.
Não que estivesse sentindo orgulho dele por ter, aparentemente, vencido uma fase ruim da sua vida – Rafael não fazia a menor ideia do que aquilo significava. Na verdade, ainda não havia conseguido decidir se aquela conversa era boa ou ruim.
—- Ela não conseguiu esconder por muito tempo quem ela era de verdade. Parecia deslocada, vivendo em uma realidade a qual não pertencia. – Adam deu as costas para Rafael, evitando encarar seus olhos. – Ela era uma das mais poderosas de sua casa. Era uma fugitiva também, por isso se escondia nas ruas.
—- Uma feiticeira? – Aquela palavra queimou na linga de Rafael, soando de forma tão estupida que ele próprio se sentiu estupido.
—- Uma bruxa. – Adam o corrigiu com paciência. – Não me lembro bem, mas parecia fugir de uma profecia. Mas isso não interessa agora.
Rafael assentiu. Não estava entendendo bem a situação que Adam tentava lhe narrar, mas preferiu não se manifestar no momento. Ao invés disso, ergueu-se com relutância e se pôs ao lado de seu pai, em expectativa.
—- Ela queria mais. – Ele disse, ao notar a proximidade de Rafael. – Ela me deu tudo o que sempre quis: dinheiro. Muito dinheiro. Mas, no fim, isso teve um preço muito alto para nós dois.
—- Rafael Blessed — Rafael chutou. Adam soltou uma risada seca e rouca em resposta.
—- Isso despertou a atenção de sua família; afinal, ela estava usando seus dons com um mero mortal. – Adam respirou fundo e engoliu em seco. – Eles a ameaçaram com todas as formas aterrorizantes possíveis. Claro, eu não sabia de tudo, mas o pouco que ela havia me contado foi o suficiente para provocar a ira das quatro mais poderosas feiticeiras do mundo mundano...
—- Eu não entendo... – Rafael tentou. – Disse que eu era a sua maldição, e que minha mãe havia...
—- Deixe-me terminar! – Adam grunhiu, exasperado. – Ela queria que fugíssemos, mas eu não podia. Depois de ter conquistado tudo o que eu mais queria, fugir era a última coisa que pensava. – Havia tanta dor na voz de Adam que Rafael sentiu-se sem ação. Sabia que o mais certo a se fazer era se manter calado, mas era impossível se manter quieto enquanto assistia, pela primeira vez em sua vida, Adam sofrendo. – Eu me neguei a ir embora com ela, a entrar naquele mundo louco de demônios, bruxaria... Eu a abandonei porque era demais para mim viver daquela forma. Era demais... E as coisas que precisava fazer...
Por um instante, Rafael pensou que Adam iria chorar, mas logo mudou de ideia quando o homem ergueu a cabeça com resistência, como se estivesse pronto para encarar o próprio mal.
—- Ela me puniu, é claro – disse, encarando Rafael de esguelha. – Ela o trouxe até mim quando tinha apenas dois ou três anos, não me recordo bem. Estava bem diferente naquele dia: havia tanto ódio em seu olhar que mal consegui encará-la sem me sentir um miserável.
Rafael engoliu em seco, pensando que seria demais para si ouvir aquilo tudo. Sempre acreditou que era amaldiçoado, que sua própria mãe o odiara tanto ao ponto de puni-lo por simplesmente existir. Saber a verdade quanto a sua maldição era assustador, mas não deixava de ser um alívio.
—- Eu também não conseguia olhar para você na época – Adam disse, encarando Rafael. – Era um monstrinho, uma aberração que representava todo o ódio, rancor e mágoa que uma pessoa já sentira por mim. Você fazia com que eu me odiasse.
—- Isso é muito consolador – Rafael murmurou, tentando esconder a mágoa. Estava muito mais magoado do que surpreso por ter sido a pior coisa que já acontecera na vida de alguém.
—- Há uma coisa interessante que você gostará de saber nessa história – Adam disse. – Fordy, quando soube da sua existência, se ofereceu para cuidar de você. No início, pensei que fosse só alguém enviado por ela para lhe causar mal, mas...
Adam calou-se, deixando que um sorriso escapasse por seus lábios.
—- Eu não sabia o que fazer, não fazia ideia do que era ser amaldiçoado antes daquele velho aparecer. Fordy fez questão de oferecer proteção e cria-lo em meu lugar, mas, no fim das contas, nada disso adiantou.
—- E do que eu deveria gostar nessa história? – Rafael indagou, evitando encarar o pai por conta dos olhos marejados. Ao invés, encarou o céu do outro lado da janela até que a luz clara do dia fizesse seus olhos arderem.
—- Ele é o seu avô – assim que pronunciou a última palavra, Rafael virou rápido para encarar o rosto de Adam, em busca de algum vestígio que indicasse o contrario de seriedade. – Ele é um guardião, e a criou como filha porque era sua função. Mas, quando ela sucumbiu ao ódio e a maldade de sua natureza, ele a deixou e veio busca-lo.
—- Me buscar? Para onde ele pretendia me levar?
Adam olhou ao redor e apontou para o ambiente que os cercava.
O queixou de Rafael caiu no mesmo instante em que se dera conta do que aquilo significava. Toda a sua história e a de Adam se mesclaram como uma só, de forma que uma completava a outra. Ainda não entendia aquela maldição, não conhecia quem a lançou, mas, de alguma forma, tudo parecia se encaixar.
—- Por que continuou a me visitar? – Se ouviu dizer, repousando seu olhar sobre Adam. – Disse que me odiava, que eu era fruto do ódio. Se Fordy disse que cuidaria de mim, por que continuar tendo que conviver com isso?
—- Não é tão simples – Adam não conseguia conter o sorriso que se espalhou por seu rosto. Era uma pergunta tão bonita, mas não ousou dizer. – No fim, você é uma parte minha. É um pedaço meu, uma parte do que eu sou...
—- Não sou como você – Rafael se apressou em dizer, ofendido.
—- Sim, você é melhor do que isso. Mas mesmo assim, você é o meu filho. – Adam calou-se e respirou fundo. Ele olhou Rafael de cima abaixo, sentindo seu peito doer com a imagem daquela criatura. – Agora vem o alerta, Rafael. Lembra-se?
Rafael assentiu rapidamente, sem saber muito bem o que esperar daquela parte.
—- Você não pode desistir, Rafael – Adam disse. Ele observou a expressão de Rafael se transformar de confusa para chateação. Ele lhe pareceu exausto, como se estivesse cansado demais para discutir aquele assunto. – Eu sei e entendo, mas você não pode tomar uma decisão antes mesmo de...
—- Eu já tomei, Adam – Rafael o interrompeu. – Por que você insistiu nisso durante todo esse tempo? Por que me deixou conviver com isso durante toda a minha vida? – Quando Adam fez menção de falar, Rafael deu um passo em sua direção e o calou de vez. – Não teria sido mais fácil para você acabar com isso?
—- Não! Você não sabe... – Adam engoliu em seco e se afastou. Chutou com força a pequena mesa de centro entre as poltronas e observou os restos despedaçados do objeto voarem até o outro lado do quarto com uma raiva efervescente, desejando poder quebrar tudo aquilo com as mãos. – Acha que é simples? Que é só morrer e tudo finalmente será melhor?
Rafael ficou tonto. Já havia pensado naquela possibilidade, mas nunca imaginou que aquilo afetaria Adam de alguma forma. Sabia que seu pai teria algumas despesas, talvez uma decepção...
—- Adam – Rafael murmurou, sentindo seu peito se apertar. – Qual é o preço... dessa maldição?
Adam o encarou com olhos marejados, demorando um tempo para responde-lo. Rafael conseguia enxergar a luta que seu pai travava consigo mesmo naquele momento, conseguia sentir inexplicavelmente toda aquela dor, aquele arrependimento e a amargura com a qual aquele homem convivera durante toda a sua vida.
—- Eu ficarei doente – Adam confessou com a voz baixa e rouca, envergonhado. – E, mesmo depois que estiver morto, não terei descanso. Assim como você.
—- Como um ciclo – Rafael murmurou também. Ficou surpreso consigo mesmo por não estar chocado com aquela ideia. – Tudo voltará para você.
—- Não é a pior parte – Adam continuou. – Adélia também seria afetada. – Adam observou atentamente enquanto os olhos de Rafael se enchiam de água. – Assim aconteceu com Celine...
—- Por quê? – A voz de Rafael saiu afetada pela raiva crescente que inundava o seu peito e fazia seu coração doer. Ele fechou os olhos com força, tentando recuperar o controle.
—- É o que o amor faz... — Adam cuspiu aquelas ultimas palavras como veneno, assim como ela o fizera antes de partir para longe. – É o preço que pagamos pelo amor que sentimos, Rafael.
—- Não! – Rafael gritou, despertando de um transe. Parecia estar em outra realidade no momento, tão cego pela raiva que logo subiu por seu corpo que mal conseguia processar uma palavra que vinha da boca de Adam. – O amor não causa isso, Adam. Está errado: o amor deveria ser a cura.
—- E é, Rafael. Mas quem amará alguém como nós? – Adam suspirou, observando Rafael ficar exasperado. – Somos amaldiçoados, filho. Estamos destinados a queimar no inferno.
—- Está errado... – Rafael tentou, mas foi interrompido por Adam.
—- Você quer saber o preço? – Adam continuou. – O que ela quer em troca?
Rafael negou com a cabeça rapidamente, desejando que Adam calasse a boca.
—- Um sacrifício – Adam murmurou. – Ela quer o sacrifico de um amor.
Rafael encarou Adam, afundando no abismo que se abriu sob seus pés. Desejou profundamente estar tomado pela raiva naquele momento ao invés do terror.
—- Um sacrifício por amor? – Aquilo era tão ridículo que o fez rir.
—- Não. – Adam se aproximou dele o suficiente para tocá-lo. – Alguém que o ame de todo coração precisa sacrificar algo que mais preze para salvá-lo.
—- Como abandonar a família e passar o resto dos seus dias ao lado de um monstro? – Disse, ainda achando graça. -- Tem noção do quão patético isso soa? – Rafael parou de rir assim que avistou a urgência nos olhos de Adam.
—- Você continua achando que é simples – seu pai respondeu, irritado pelo descaso que sofria do filho. – É obvio que não é só isso, Rafael. Mesmo que Adélia tenha escolhido ficar...
—- Adélia? – Rafael irritou-se. A ideia de imaginá-la passando por tudo aquilo era demais para ele. – Deixe-a fora disso, Adam.
—- É tarde demais – ele respondeu, seco. – Se Adélia não sacrificar algo por você, nada disso será o bastante para salvá-lo.
Rafael negou diversas vezes, sem conseguir acreditar no que ouvia. Queria poder conseguir pensar em algo, uma solução rápida que calasse Adam e todo o seu pessimismo, mas nada lhe parecia o suficiente.
Ele encarou o ambiente ao seu redor, o quarto que servira de lar durante toda a sua vida. Tudo parecia fora do lugar, sem significado algum para ele – nem mesmo a sua mesa, que usava para desenhar e escrever para Adélia. Era um dos poucos pontos que conseguia se conectar a ela mesmo a distância, e agora apodrecia como uma flor morrendo. Depois, Rafael encarou Adam sentindo os tremores de fúria chacoalharem seus membros. Seu pai parecia absorto, encarando algo além da figura que tremia pateticamente à sua frente.
-- Você entende quando digo que ainda temos uma chance, Rafael? Que ainda há tempo? – Adam comentou, evitando encarar os olhos do filho.
—- Como pode pensar assim? – Rafael murmurou entredentes. – Acha que vou arriscar a vida de Adélia para me salvar?
—- Se nada for feito agora, ela também sofrerá com as consequências – Adam rebateu, esfregando as mãos no rosto. Parecia ter envelhecido dez anos em poucos minutos e até seus cabelos pareciam mais grisalhos que de costume. – Acredite quando digo que ainda tem chance, Rafael. Estou certo de que Adélia...
—- Você não a conhece, Adam. – Rafael se afastou dele, pondo-se a andar de um lado para o outro. Queria poder pensar rápido, encontrar uma solução, mas sua mente estava a mil. Só conseguia pensar em Adélia.
—- É tarde demais, Rafael! – Adam esbravejou em direção a ele, sentindo seu rosto esquentar por conta da fúria que sentiu. – Adélia nutre fortes sentimentos por você e não há como reverter isso.
Rafael não respondeu; ao invés, correu até a porta até ser interrompido por Adam, que gritou atrás dele:
—- O que pensa que está fazendo? Ainda não terminei!
Rafael hesitou por um momento, segurando a maçaneta da porta com os dedos trêmulos. Pensou na promessa que fez, de ficar e ouvir tudo o que Adam teria para lhe dizer. Mas, por outro lado, já não aguentava mais ouvir tudo aquilo.
—- Eu não quero mais ouvir – ele disse, voltando-se para trás apenas para encarar o rosto retorcido de Adam.
Quando Adam fez menção de segui-lo, Rafael se apressou em sair daquele lugar sufocante o mais depressa possível. E, se não fosse pelo barulho vindo atrás de si, jamais teria notado a presença de Fordy parado ali de forma suspeita.
—- Vá – o velho disse, acenando com a cabeça. Rafael ficou grato por ele não ter dito nada além, e pouco se importou se Fordy havia ouvido tudo por trás da porta.
A última lembrança que Rafael teve daquele momento foi a de Fordy entrando sorrateiramente em seu quarto. Em seguida, foi tomado pela água morna da piscina massageando seus músculos de forma acolhedora.
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