A Feiticeira Amazona
5 Capítulo 5 – Verdades
Notas iniciais
A história do livro é linda, te envolve e te emociona, o autor consegue te fazer mergulhar naquele mundo de uma maneira tão forte que às vezes me sentia parte dele. O John Green tem esse poder, parece que ele consegue pegar vidas simples e transformá-las numa história tão linda que nos faz querer vivê-la também.
Mas preciso concordar com o Caio, o final é decepcionante. Acho que fui com tanta sede ao pote que acabei assustando quando percebi que ele não tinha água. Depois de tudo que o Quentin passou, eu queria um final melhor pra ele, queria mesmo acreditar que aquele final não era de verdade, mas infelizmente ele era.
Fiquei tão apaixonada pela história que reli o livro umas três ou quatro vezes, tudo para absorvê-la o máximo que fosse possível, adorei aquela poesia escrita em forma de história.
E finalmente tinha entendido a frase, ela fala sobre deixar algo pra trás, cada um pode ter sua própria conclusão, mas pra mim aquela frase significa: “Deixe para trás aquela menina que vivia nos cantos sozinha, que não tinha amigos, que era amargurada pelas peças do destino, deixe aquela menina sem graça e sem vida que tomou conta de você desde o incidente, deixe tudo isso para trás e nunca mais volte a ser ela”. Eu não podia, não suportaria continuar vivendo assim. Eu sentia que aquele livro tinha algo importante pra me dizer, e agora sabia o que era.
É de esperar que tendo relido o livro tantas vezes em tão pouco tempo, a figura do livro em minhas mãos pela casa dos Woodhand’s tenha se tornado algo comum, e com isso, os sorrisinhos inoportunos do Carter também. Eu não entendi o que aqueles sorrisinhos que ele me dava quando me via com o livro nas mãos significavam, mas vindo dele, não era boa coisa.
Conforme o inicio do ano letivo chegava perto, meu coração doía, não queria devolver o livro, mas precisava. Na verdade eu não sabia o que era pior: ter que devolver o livro ou aguentar todas aquelas reações estranhas que tenho quando vejo a tempestade dos olhos do Caio.
Quando o dia do Primeiro Festival chegou, eu não queria sair do dormitório 14, queria ficar trancada lá dentro, abraçada com aquele livro. Tinha medo de ver o Caio, de como ia reagir quando visse seus olhos cinzentos novamente. Mas eu não poderia evitá-lo por muito tempo, nem se eu tentasse com muita força de vontade. Então, quando faltava um pouco menos de meia hora para as apresentações começarem, resolvi bater na porta do dormitório 13 dos meninos.
Foi o próprio Caio que atendeu a porta e o sorriso que acompanhou seus olhos quando me viram me fez perder o fôlego, de novo.
– Olá Alicia.
– Oi Caio, fez uma boa viagem?
– Sim, estou tão empolgado com tudo.
– Gostou do dormitório e do pedaço da academia que conheceu até agora?
– Sim, é tudo tão legal, nem sei dizer se isso é um sonho ou não. – aquele menino empolgado por poder ser o novo Avatar voltou, e eu não podia ficar sem rir. – Porque você gosta tanto de rir da minha cara?
– Não estou rindo da sua cara, estou rindo do seu ladinho nerd que brota do além em certos momentos, é engraçado, seus olhos até brilham quando você começa a falar assim. Me desculpe, mas é mais forte que eu. – tentei tampar a boca pra risada não sair, mas ficou pior do que se eu tivesse deixado com que ela saísse, o barulho estranho que isso gerou também levou o Caio a rir.
– Tudo bem, você esta perdoada, deve ser engraçado mesmo. – Caio coçou o cabelo meio encabulado com tudo.
– Bem, vim aqui te devolver isso, — estendi o livro para ele. – e agradecer, a história é realmente linda. Esse John Green parece ser um ótimo autor, da a impressão que essa é só mais uma história normal, a vida de uma pessoa normal, que aos olhos dele se tornou algo especial. Você já leu outros livros dele?
– Sim.
– Ele tem mesmo esse poder? Ele sempre consegue fazer de histórias simples algo grandioso e digno de ser escrito?
– Sim, devo admitir que esse é um dos dons dele, ele parece que vive aquela história, as vezes parece que são até relatos pessoais, mas é só mais uma história para um livro.
– Me recomenda a leitura de outros livros dele então?
– Com toda a certeza.
– Obrigada, vou procurar então.
Caio pegou o livro da minha mão e ficou olhando pra ele por um tempo.
– Hã... você está a caminho do Primeiro Festival? – Caio me perguntou tirando os olhos do livro.
– Sim, só passei aqui porque é caminho.
– Posso ir com você? Não tenho a mínima ideia de como faço pra chegar no grande salão.
– Claro que sim, vamos.
– Vou guardar esse livro, já volto.
Ficamos conversando sobre os pontos de vista que tivemos em relação a história o caminho todo até o grande salão. Quando chegamos lá a mesa dos Feiticeiros estava quase toda ocupada, então tivemos que nos separar, Caio foi se sentar com os alunos novos e eu me sentei perto do Carter, já que ele tinha insistido que fizéssemos parte da apresentação dos Feiticeiros desse ano.
O diretor Ichabod Woodhand deu as boas vindas a todos os alunos e explicou para os novatos porque existia o Primeiro Festival, dando inicio as apresentações.
A primeira classe a ir se apresentar foram os Caçadores. Pelo corredor principal alguém vestido com uma capa entrou, a touca tampava seu rosto então não sabia quem era. A música de fundo dava a impressão de algo sombrio. O cara encapuzado carregava um arco e uma aljava presa as costas, quando chegou na metade do corredor, puxou uma flecha e mirou o teto. Preso em cima do palco tinha uma coisa redonda e dourada enorme, assim que a flecha voou, cortou a corda que sustentava o objeto preso, fazendo um barulho ensurdecedor quando caiu no chão. Quando o barulho cessou, as luzes se acenderam e vários alvos espalhados pelo salão foram revelados, os Caçadores que estavam no palco tinham em posse arcos e bestas, cada um mirou em um alvo e ao comando de voz atiravam. Eram flechas voando à cima de nossas cabeças todo segundo, era algo magnífico. Não se passaram nem um minuto, mas todos os alvos estavam abarrotados com flechas, eles eram muito rápidos. Quando o som de um gongo soou, todos abaixaram as armas, agradeceram e foram se sentar.
Depois dos Caçadores subiram os Noturnos, em seguida foram os Metamorfos, os Heróis, os Humanos (que quase pifaram o sistema de som) e pra fechar as apresentações da noite, os Feiticeiros. Eu estava um tanto quanto nervosa, se o Carter não tivesse insistido muito, provavelmente eu não participaria.
Todas as luzes se apagaram e os focos de luz foram usados, quatro Feiticeiros iniciaram a apresentação, conforme o foco de luz os iluminava eles iam mostrando suas habilidades de atacantes, passando pelos quatro elementos: água, ar, terra e fogo. Quando Carter terminou de criar seu sistema solar em chamas todos os quatros focos iluminaram o centro do palco, onde cinco Feiticeiros esperavam a sua vez. As luzes foram se acendendo aos poucos, quatro Feiticeiros defensores formavam um quadrado e no centro dele era onde eu me encontrava. Os atacantes lançaram seus poderes contra os defensores e os defensores agiram rápido criando um campo de força para nos proteger. Um dos defensores gritou “Água”, olhei para a Feiticeira atacante e neutralizei seus poderes, a água se extinguindo como uma nascente seca, outro gritou “Ar” e me virei para o garoto que criara um pequeno redemoinho, o mesmo não passou de uma brisa suave em questão de segundos, outra defensora gritou “Terra” e as pedras viraram areia fina na mesma hora, quando a defensora que nos protegia dos ataques do Carter gritou “Fogo” não pude conter o sorriso, as bolas de fogo que saíram das mãos dele não passaram de fumaça a partir do momento que neutralizei seus poderes. Quando todos os atacantes estavam neutralizados, agradecemos e fomos nos sentar.
O Sr. Woodhand foi dar os agradecimentos finais e nos liberar para o jantar, quando o discurso terminou, todos nós levantamos e seguimos em direção ao refeitório.
– Caramba Alicia, você ainda tá neutralizando meus poderes? – Carter perguntou frustrado enquanto tentava criar alguma chama com as mãos.
– Talvez. – respondi rindo e saindo correndo.
Quando me sentei na mesa, Carter ainda estava há alguns metros de distancia, eu era rápida e amava tirar vantagem disso.
– Alicia, queria saber como você consegue correr assim tão rápido. – disse ao se sentar, meio sem fôlego.
– É um dom.
– Ser uma irritante neutralizadora também é um dom? – perguntou rindo.
– Claro.
Carter começou a fazer cosquinhas em mim e eu não consegui mais me concentrar em neutralizar seus poderes. Ele só parou de me torturar quando uma visita inesperada se sentou na nossa frente, Caio.
– Caramba, aquela apresentação foi demais Carter, quando vou saber meu elemento de ataque?
– Olha cara, é bem provável que depois do ritual do totem você consiga descobrir isso. Geralmente quando atacantes vem pra cá sem saber seu elemento, depois que encontram seu totem, ele se manifesta.
– Totem? O que é isso?
– Bem, isso é com você Alicia, eu não tenho um lembra? – Carter falou passando a bola pra mim. Respirei fundo e encarei o garoto a minha frente.
– Totem Caio é tipo um amuleto mágico que nós temos, eles ajudam a canalizar nossos poderes, assim usamos sempre a quantidade certa de energia, nem mais, nem menos. Esse aqui é o meu totem, — falei mostrando o pingente de lobo. – e todo Feiticeiro precisa de um. Quer dizer... todos menos a super estrela do Carter, por algum motivo ele é o único Feiticeiro que não precisa. – Carter fez uma cara que dizia “Eu sei, eu sou demais”.
Os dois garotos riram e meu peito levou outro soco, não aguentava mais aquilo, porque eu reagia dessa maneira quando o assunto era o Caio?
– Carter, eu... eu não estou me sentindo muito bem, acho que vou ir para o dormitório mais cedo hoje. – dei um beijo na bochecha do Carter. – Boa noite Caio.
Cumprimentei os dois, joguei a pernas para fora do banco e comecei a andar em direção aos dormitórios dos Feiticeiros, demorou uns 5 minutos, mas logo Carter me alcançou.
– O que você tem Alicia?
– Eu só estou me sentindo meio indisposta, devo ter energia demais neutralizando quatro atacantes de poderes diferentes. Deve ser só isso, não se preocupe.
– Eu sei que não é isso, você já neutralizou meus poderes por dois dias inteiros quando ficou brava comigo, o esforço que fez hoje não foi nada comparado ao que já vi você fazer. Me conta a verdade Alicia.
– Eu não sei Carter, eu só não estou me sentindo bem, ok? Só quero ir para o dormitório e deitar um pouco. – por algum motivo meus olhos se encheram de água e comecei a chorar involuntariamente.
– Alicia, fala comigo. – dessa vez, Carter parou na minha frente, me impedindo de ir a qualquer lugar.
– Eu só não sei. – quando ele me abraçou, as lagrimas finalmente encontraram um caminho livre para correr, eu sentia muita paz quando o Carter me abraçava assim.
– Sabe o que eu acho que é? – ele perguntou e esperou até que eu estivesse olhando pra ele. – Acho que você ta começando a gostar do Caio.
Empurrei o Carter com toda a força que eu encontrei naquele momento e sai pisando duro para o dormitório.
– Alicia, volta aqui, eu só falei o que eu acho. – ele correu atrás de mim de novo e puxou o meu braço.
– Me solta Carter se não quiser passar a próxima semana sem seus poderes. – me desvencilhei de suas mãos e corri até o dormitório em lágrimas.
Sei que o tom que usei para falar com ele naquele momento o magoou, mas ele tinha me ferido antes. Não por ter dito mentiras, mas por ter descoberto a verdade antes de mim.
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