A Feiticeira Amazona
6 Capítulo 6 - O Jogo
Notas iniciais
Eu não queria admitir, mas o Carter estava certo, eu estava começando a gostar do Caio. Eu tinha medo, receio, incertezas, era muita coisa vindo tudo ao mesmo tempo. Já tinha gostado de outros meninos quando era mais nova, aquelas bobeirinhas de escola, mas nunca tinha sentido nada parecido com isso.
Simplesmente não sabia como agir dali em diante, nunca tinha tido um encontro amoroso na vida, nunca tinha me relacionado com um menino antes, sempre gostei de ficar na minha. Não saber exatamente como me sinto me perturbava.
Não conversei com ninguém no fim daquela noite, nem com as minhas colegas de dormitório. Algumas vieram perguntar porque estava deitada tão cedo, mas só olhei com cara de “não estou bem” e elas simplesmente me deixaram de lado.
No outro dia, quando avistei o Carter, simplesmente fui para o outro lado, sentei longe dele nas aulas e preferi comer sozinha no horário das refeições. Basicamente eu não estava sendo eu, então, quando minhas aulas da tarde terminaram, resolvi ir para o ginásio e assistir o treinamento dos Heróis.
Por sorte ou apenas coincidência eles estavam jogando Handebol, esporte que por acaso eu treinava na minha antiga escola. Embora os Heróis tenham uma grande aptidão física, se a atividade não envolver porradaria e luta, não tem graça para eles.
Eu apenas observava tudo atentamente até que vi uma heroína com o cabelo vermelho escarlate arremessando a bola ao gol. A força dela era realmente admirável, a bola pegou na trave e voou até onde eu estava, mas ela caiu no chão assim que a barreira tentou bloqueá-la.
Ela se levantou rápido e foi buscar a bola que eu tinha acabado de pegar.
– Oh Feiticeira, passa a bola aí – ela gritou.
Fui andando até mais perto da grade da quadra para entregar a bola na mão dela.
– Você tem um ótimo arremesso – falei.
– Obrigada – ela respondeu inflando o peito.
– Mas você é relaxada – acrescentei.
– O QUÊ? –ela perguntou já exaltada.
– Não, pera, não é uma critica, é uma observação. Quando você salta, você pula com as pernas para frente, isso tira seu eixo de equilíbrio e dá pra defesa uma maneira fácil e limpa de te derrubar, aumentando as chances de impossibilitar o gol.
Ela me olhou como se eu tivesse zombando da cara dela.
– Eu estou falando sério, tente manter seu eixo central mais voltado pra frente, vai aumentar a alavanca de força e impossibilitar com que a defesa tire seu equilíbrio com facilidade.
– Alexa, dá pra continuarmos o jogo ainda hoje ou você vai querer ficar de papinho com a Feiticeira aí? – algum herói gritou debochando dela. Ele era alto, tinha os cabelos negros e espetados, igual ao Carter, e olhos verdes, não tão esmeraldas quanto os do Carter, mas eram lindos da mesma forma.
– Está tão ansioso assim pela derrota cabeça de bagre? – a menina, Alexa, respondeu de volta para o garoto. – Se você estiver certa, vou te dever uma. – disse sussurrando enquanto pegava a bola para retornar ao jogo.
Dessa vez fiquei ali na grade mesmo assistindo o jogo que mais parecia um Handebol de luta livre. Eles não marcavam os jogadores, eles espancavam uns aos outros, eu ainda não tinha entendido se o objetivo do jogo era fazer o gol ou ver qual equipe dava mais socos.
Quando Alexa pegou a bola e arremessou, eu prendi a respiração. Foi um movimento simplesmente perfeito. Assim que ela terminou o salto sem cair no chão e viu a bola dentro do gol, olhou pra mim com um sorriso enorme que claramente significava “deu certo”. Eu ri, não dela, mas por esse momento, me senti bem com isso, só não sei porque.
Dali em diante, ninguém segurava ela, o menino de cabelos negros arrepiado estava começando a reclamar.
– Alexa não vale, sua equipe tem um integrante a mais que a nossa, não tem como haver um vencedor se uma das equipes está em desvantagem.
Pera, eu estava vendo um Herói chorando porque a equipe está com um integrante a menos, insinuando que por isso estão perdendo? Fui obrigada a rir disso.
Alexa me ouviu, sorriu pra mim e se virou para o menino dos olhos verdes.
– Olha bebê chorão, como sua mãe está bem longe, eu vou ser boazinha com você, vou deixar o Dart ir para o seu time. – ela disse com convicção.
O menino sorriu o sorriso mais maligno da face da terra.
– E vocês ficarão em desvantagem, aí quando perderem vão usar isso de desculpa.
– Bem Guilherme, o caso é que não preciso dele para acabar com você, já tenho outro jogador. – Alexa respondeu.
– Serio? – Guilherme riu. – Quem?
– Ela. – e Alexa apontou pra mim.
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Eu fiquei um tempo em estado de choque. Ela estava me chamando para entrar no meio daquele ringue de pancadaria?
– Você vai chamar uma Feiticeira para um jogo entre Heróis? – o menino, Guilherme como eu descobri, falou rindo.
– Ta com medo de perder pra uma Feiticeira é? – a voz da Alexa lançava um desafio, desafio que ficou tão tenso no ar que eu senti que poderia segurá-lo com as mãos.
– Nenhum pouco. – e todos os outros heróis riam. Os outros jogadores do time da Alexa olhavam pra ela como se perguntassem se ela estava louca. – Pode chamar sua nova jogadora.
Todos os heróis riam disso. TODOS. Menos Alexa.
– Olha aqui, desculpe por isso, mas algo me diz que você sabe jogar esse jogo melhor que todos nós juntos e de verdade, eu estava cansada de ouvir aquele bebê chorão reclamar. Ta pronta?
– Você tem certeza disso? – perguntei.
– Absoluta. – Alexa respondeu enquanto abria o portão pra que eu entrasse.
– Mas o intuito desse jogo é fazer gol ou escapar dos socos?
– Os dois. Então seja rápida.
Respirei fundo e aceitei o desafio. Já tinha treinado contra jogadores mais velhos, mas nunca dentro de um ringue de luta livre.
– As damas primeiro. – Guilherme fez uma reverencia exagerada, como se para ressaltar que éramos meninas e que precisávamos nos lembrar disso. Foi aí que eu realmente percebi que a única menina no jogo era Alexa, e agora eu. Se eles achavam que só por eu ser garota isso seria um jogo fácil, eles terão uma dura jornada pela frente.
O professor de Educação Física, Emerson, veio tentar impedir esse meu ato assassino.
– Pode ficar tranquilo, eu sei me cuidar.
– Tem certeza Alicia? A Mila não ficaria contente com isso. – ele ressaltou o nome dela só pra tentar me fazer desistir.
– Esta tudo bem professor, não se preocupe. Esse vai ser um jogo interessante. – ao dizer essas palavras lancei um sorriso aonde o herói chorão se posicionava.
Assim que o professor apitou, foi como se meu sangue estivesse fervendo, era como se o tempo parada não tivesse existido.
Alexa tocou a bola pra mim e uns dois heróis vieram na minha direção tentando me bloquear, fintei os dois e lancei a bola nas mãos da Alexa, que depois de fintar mais um herói devolveu a bola pra mim e me dando o prêmio de ouro: fintar o Guilherme.
A verdade é que ele não me viu passar. Nem ele e nem nenhum outro herói. Eu era aparentemente bem veloz e pequena, eles não conseguiam interceptar a bola antes que eu a passasse pra frente. Simplesmente o nosso time ganhou de um lindo massacre de 35 à 5, o qual Alexa batizou como “A humilhação publica dos bebês chorões”.
– Sabe, poderiam fazer um feriado sobre isso: “O dia que o bebê chorão perdeu pra uma feiticeira”. Na verdade o dia que um bando de Heróis perderam pra uma Feiticeira, seria épico e todos comemorariam isso. Difícil seria ter tantos feriados durante o ano, porque pelo que eu vi ela pode acabar com qualquer um de vocês com as mãos amarradas nas costas. – Alexa zombava dele todos eles, em especial do Guilherme. – Ficou quieto de repente cabeça de bagre, o que foi, uma Feiticeira roubou sua dignidade em quadra? – e ria descaradamente da fúria que exalava dos outros jogadores.
Foi engraçado, eu juro, nunca me senti tão bem. Eu tinha até esquecido de tudo durante um tempo, isso me fazia bem.
– Alicia, é esse seu nome né? – Alexa perguntou, quando balancei a cabeça que sim ela sorriu e acrescentou. – Você foi muito bem lá me quadra, eu sabia que você era boa nisso, se não fosse esse uniforme amarelo e marrom eu diria que você seria uma heroína ou uma humana, pelo menos foi isso o que eu entendi sobre essas divisões de classe.
– Sim, Humanos são bons em praticamente tudo o que fazem, até mesmo nos esportes, e Heróis tem adrenalina correndo no sangue, então seu raciocínio está certo sim.
– Sabia. – Alexa disse com orgulho.
Eu me distraí tanto com essa adrenalina pelo corpo que não percebi que os feiticeiros do primeiro ano estavam se preparando para aula de Educação Física e bem na porta estava parado ninguém mais, ninguém menos que o Caio.
– Caramba Alicia, não sabia que você era tão boa em Handebol assim. – Caio falou levemente surpreso, como se isso fosse um fato crucial de se falar pra alguém.
Percebi que no seu braço havia uma pulseira feita de cordões de couro marrom e um pássaro azul fora preso de forma que parecia estar voando em seu próprio punho. Senti aquele aperto no coração de novo, e talvez por ainda estar com a adrenalina alta senti uma ânsia tomar conta de mim. Engoli e respirei fundo e tentei sorrir. Alexa me puxou pelo braço até o vestiário feminino antes que eu conseguisse responder qualquer outra coisa.
– O que foi aquilo? Foi impressão minha ou você quase vomitou em cima daquele menino?
– Eu ... ah sei lá.
Alexa me examinou por um tempo antes de falar.
– Quer conversar sobre isso?
– É uma história meio longa.
– Eu demoro um longo tempo para tomar banho e me trocar depois da aula de Educação Física, tenho todo tempo que você precisar.
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