A Feiticeira Amazona
2 Capitulo 2 – A origem dos dons extras
Lembra quando eu disse que o destino é cruel e impiedoso? Então, não bastava eu ter perdido a minha família original, eu precisava perder parte da minha nova família.
Mila Woodhand faleceu no fim do meu penúltimo ano na academia, eu não sabia como reagir aquela piada de mal gosto que tinham traçado pra mim, não conseguia conviver com a minha própria dor e ainda ver Carter e Ichabod sofrendo daquela maneira. Eu ficava sempre o mais próximo que conseguia dos dois, tentando neutralizador a dor, mas isso era algo complicado, tentar neutralizar qualquer coisa quando se está devastada é quase impossível e costuma consumir o triplo de energia que geralmente é necessário, então optava por ficar sentada no canto da sala, encolhida contra a parede, abraçada com o Carter. Era a única maneira que nós dois encontramos para superar aquela situação juntos, e isso me deixava ainda mais angustiada por guardar essa história só pra mim.
Sei que até irmãos tem segredos, Carter mesmo é o único Feiticeiro que eu conheço que não precisa de um totem para canalizar seus poderes, já perguntei inúmeras vezes pra ele o porque disso e ele sempre me responde que não sabe, mas algo me diz que ele simplesmente não quer (ou não pode) contar.
Mas eu sou algo ainda mais diferente, nunca ouvi falar em ninguém que fosse como eu, por isso tive medo e não contei pra ninguém.
Lembram das minhas dores de cabeça? Não amenizaram com o treinamento dos meus poderes, parece que elas foram aumentando com o passar do tempo, Mila não havia entendido porque, as dores sempre amenizavam com o treinamento, só as minhas que não pareciam ter pressa de sumir.
Mas uns quatro dias depois daquele ultimo “Primeiro Festival” que teve na academia (aquele que o menino de touca amarela apareceu e a Mila começou a apontar pra ele e falar com a voz mor grossa: “Começou Ichabod... Já começou... É ele! Ele é o primeiro... O primeiro, Ichabod...”) uma coisa muito estranha aconteceu.
A minha cabeça começou a doer muito, mais que o normal, bem mais que o normal, a pressão dentro da minha cabeça era tanta que eu esperava que meu cérebro fosse ceder a ela e simplesmente me levar a uma morte cerebral.
Quando não aguentava mais aquela dor, simplesmente desmaiei. Quando abri os olhos eu não estava mais na academia, estava em uma floresta. Não sei porque, mas sabia que aquela não era a floresta que cercava a Woodhand. Olhei em volta a procura de alguma coisa e não encontrei nada além de arvores, olhei então para o céu e perdi até o fôlego com tamanha beleza: a lua estava linda, enorme e brilhante, parecia estar tão perto que eu tinha a sensação de que se esticasse as minhas mãos, seria capaz de tocá-la.
— Alicia.
Uma voz me chamou, olhei novamente ao redor, mas nada havia mudado desde alguns segundo a trás. Meu extinto foi de ir atrás daquela voz, eu não sabia dizer porque, mas precisava encontrar a origem dela.
Como nada naquela floresta me passava uma sensação de medo, comecei a adentrar no desconhecido. Procurava alguma coisa que pudesse me passar respostas, queria saber onde estava ou de quem era aquela voz que me chamava, até que ele me encontrou.
A primeira vez que o vi foi há algum tempo atrás, no meu ritual de busca do totem, um lindo lobo branco gigante, tão grande que acredito que se ficasse sobre suas patas traseiras, seria maior que eu.
— Como vai garoto? – disse enquanto afagava entre suas orelhas. Ele fechou os olhos e inclinou o focinho para cima, como se tivesse gostando do carinho.
Eu não conseguia sentir medo dele, desde que apareceu no ritual, carrego comigo uma lembrança dele: um lobo de madrepérola branca em tamanho médio como pingente em um colar. Meu totem.
Quando ele se desvencilhou do meu toque e começou a andar para mais adentro da floresta, senti como se meu totem me falasse “siga-o”, e assim eu fiz.
Lembro que por inúmeras vezes esse lobo apareceu em meus sonhos. Ele aparecia e sumia tão rápido que se assemelhava a uma assombração, por isso o batizei com o nome de Fantasma. Ele me lembrava o lobo branco gigante de uma história que havia lido, só que na história o lobo tinha olhos vermelhos e o meu Fantasma, tinha olhos tão brancos quanto seu pelo.
Fantasma caminhou em silencio pela floresta comigo em sua cola durante um bom tempo, não sei dizer exatamente quanto tempo se passou, só sei que certa hora comecei a ouvir o som de uma correnteza.
Quando cheguei ao que pareceu ser o fim da floresta, encontrei um local magnífico, cheio de plantas de diversos tipos, que acabava em um rio que corria muito forte. Como se dividisse a clareira aberta e a floresta fechada, um trono enorme feito de galhos de arvores grossos e retorcidos guardava seu posto. Ao seu lado esquerdo repousava um arco prateado e ao seu lado direito, uma cama de folhas tinha sido montada.
Fantasma correu e se acomodou em sua cama de folhas, ao lado direito do trono, quando parecia estar acomodado, uivou.
— Finalmente Alicia. – uma voz ressoou atrás de mim. Quando me virei, finalmente encontrei a origem de todo esse mistério.
Era uma mulher elegantemente alta, branca, pele com sardas, cabelos avermelhados trançados perfeitamente com que o parecia ser fios de prata, vestia uma túnica branca, botas de pele branca e um diadema prateado que contornava toda sua cabeça e se fundia a sua trança. Seus olhos era a coisa mais surreal que eu já tinha visto na vida, eram hipnotizantemente de um dourado líquido, parecia ouro em estado líquido e fervia como ouro em estado líquido. Seu semblante era ao mesmo tempo severo e suave e uma energia muito poderosa exalava dela.
— Devo dizer que é um prazer enorme te conhecer. – ela caminhou até o trono e se sentou de frente pra mim. Assim que a mulher se sentou, Fantasma ergueu o focinho pra cima, como se tivesse pedindo carinho também, tudo que o se passou pela minha cabeça foi “traidor.” – Você é uma grande incógnita pra mim, sabia criança?
— Criança? – perguntei incrédula, que tipo de pessoa me chamaria de criança?
— Sim. – ela me analisava agora e sua resposta foi um tanto quanto seca.
— Queira me desculpar, mas... quem é a senhora mesmo?
O semblante da moça perdeu sua severidade e deu um lugar à um sorriso.
— Me desculpe por essa falta de formalidade, como já te observo a um tempo, esqueço que não fomos apresentadas. – ela cruzou as pernas e uma áurea forte pareceu emanar dela. – Eu me chamo Ártemis, sou a deusa da lua, da caça e dos animais selvagens.
— Hã? – fiquei olhando pra ela por um tempo como quem espera um anuncio de pegadinha depois de uma afirmação como essa. – Espera só um minuto, — completei — quer dizer que você é a Ártemis? A Ártemis de verdade? A filha de Zeus, irmã gêmea de Apolo e tudo isso?
— A própria. – o sorriso em seus lábios era uma obra de arte, tenho certeza que muitos pintores se matariam por uma visão como essa, me xinguei mentalmente por ser um desastre com lápis ou pincéis.
Não sabia como tinha certeza disso, mas algo me fez acreditar naquelas palavras e eu percebi diante do que eu verdadeiramente estava. Quando a ficha caiu meu lado nerd lutou bravamente para surtar com algo do tipo: “SOCORRO, ESTOU DIANTE DE UMA DEUSA DA MITOLOGIA GREGA DE VERDADE”, mas consegui conter esse lado com muita força de vontade e um pouco de bom senso.
— Eu ... eu ... é ... é uma grande honra te conhecer. – disse gaguejando, enquanto segurava meu ladinho nerd que queria surtar. – Não consigo acreditar que realmente a mitologia grega seja real, isso é tão legal. – OK, não dava pra segurar tanto né? Eu precisava passar uma leve vergonha alheia. – Eu ... eu estou sonhando?
— Não, você não está sonhando criança. – ela parecia de repente tão paciente. — Eu apenas tirei você do seu plano mortal e te trouxe para o meu santuário, na floresta sagrada dos deuses. Tudo isso está acontecendo de verdade, mas não no seu mundo.
Isso tava ficando cada vez melhor.
— Uau, e ... porque exatamente fui transportada até seu santuário Ártemis?
— Por causa do seu cheiro. – tudo bem, agora não estou entendendo mais nada, ela estava falando que eu cheiro mal? – Você tem cheiro de Caçadora.
Cheiro de Caçadora?
— Mas eu sou uma Feiticeira, como assim tenho cheiro de Caçadora?
— Não esse tipo de Caçadora. – ele deu uma leve risada, aquilo pareciam sinos ressoando suavemente. – Se você já leu contos mitológicos e conhece um pouco da minha história, sabe que não tenho filhos.
— Sim, você renunciou os homens e se tornou uma deusa donzela, jurou permanecer virgem, assim como Atena. Mas Atena gera seus filhos pela cabeça, da mesma forma que ela nasceu, então ela tem uma descendência de semideuses.
— Exatamente. – o sorriso dela transmitia um certo orgulho. – E como eu não quis obter homens, mortais ou qualquer tipo de descendência, recebi do meu pai o direito de poder recrutar algumas garotas que, assim como eu, renegassem os homens de suas vidas e jurassem lealdade eterna à mim. Aquelas que fossem corajosas o suficiente de permanecer virgens eternamente, receberiam em troca à imortalidade e caçariam ao meu lado.
“As minhas caçadoras são fortes, ágeis e extremamente corajosas. Esse tipo de coragem deixa uma marca, um cheiro único de flores lunares, e você tem esse cheiro. Não é a toa que meu lobo te encontrou.”
Agora eu olhava para os olhos do lobo branco, então foi o Fantasma que me encontrou?
— E o que isso quer dizer exatamente? – estava confusa, era informação demais, coisa demais, já estava começando a não entender mais nada.
— Só tenho certeza de uma coisa até esse momento: sei que você possui os dons da classe dos Feiticeiros, mas também possui os dons de uma outra classe: a dos Heróis. E é por isso que permiti que o lobo fosse te visitar, pra ele ficar de olho em você e não te deixasse se meter em encrencas, Zeus sabe como esses Heróis adoram uma briga.
Comecei a rir com essa afirmação, treinava a um bom tempo com os Heróis, sei exatamente como eles são.
— Então quer dizer que eu sou uma Feiticeira com dons de Herói?
— Sim, alguma coisa nesse estilo, não entendo direito, só sei que é por isso que você tem dores de cabeça tão fortes, você precisa da benção de um deus para te ajudar a controlar seus poderes, e é por isso que eu te trouxe aqui. – ela levantou do seu trono, apanhou seu arco e começou a caminhar na minha direção. – Embora você não seja uma Caçadora juramentada, é merecedora da minha proteção, sua essência me provou isso e se realmente não fosse digna, meu lobo teria te feito em pedaços no momento em que pisou nessa floresta, você não é uma mortal qualquer.
“Por isso te dou agora a minha benção Heroína, daqui pra frente você terá minhas habilidades e minha proteção. O meu lobo sempre estará a sua disposição quando precisar de ajuda e se algum dia precisar falar comigo é só ir até a ala dos Heróis, acender a lareira e fazer uma prece pra mim que eu irei até seu encontro. Como sinto que você irá se meter em grandes encrencas amorosas, sei que você não vai renunciar os homens, então você será a minha primeira e única Amazona.”
Eu escutava tudo aquilo e ficava desacreditada, como assim eu era uma Feiticeira Heroína? Como assim eu era uma Amazona da deusa Ártemis?
— E esse é meu último presente, — ela completou. – o meu arco. – e estendeu o arco prateado para que eu o pegasse. Assim que a superfície fria do arco tocou a minha pele uma onda de energia percorreu todo o meu corpo, o arco pareceu uma extensão do meu braço e senti como se tivesse nascido para aquilo. Em um momento eu tinha um arco de tamanho real feito de prata na minha mão esquerda, no outro o arco havia desaparecido e uma pulseira prateada com um pingente de lua se encontrava presa no meu pulso esquerdo. – Ele ficará camuflado, mas sempre vai saber a hora que você precisará dele, a mesma coisa acontecerá com as flechas, você não precisa se preocupar, eles simplesmente estarão prontos quando você precisar.
Eu queria chorar e abraçar a deusa, queria dizer que aquilo era a coisa mais maravilhosa que tinha acontecido na minha vida, principalmente depois da morte da minha família. Queria fazer alguma coisa, mas nenhum tipo de reação conseguia se formar. Comecei a repassar todas as palavras que a deusa tinha me dito, até que algumas me chamaram a atenção e me fizeram sair do transe.
— Você disse que sente que vou me meter em grandes encrencas amorosas, o que isso quer dizer? – foi tudo o que consegui perguntar.
— Entenda minha Amazona, assim que senti seu cheiro, outra deusa também sentiu, uma deusa que reprova as minhas crenças e acha um insulto a sua existência o juramento das minhas Caçadoras, uma deusa que faria de tudo para me provar que até alguém com a essência de uma Caçadora pode cair nos encantos dos homens e do amor.
— Oh merda, Afrodite? – perguntei sem um pingo de felicidade.
— Lamento muito minha Amazona, mas temo que Afrodite tem grandes planos pra você, e que isso seja uma maneira de me atingir. Por isso digo que você precisará tomar muito cuidado, não só porque agora você faz parte de uma classe até então inexistente, mas porque aquela deusa do amor provavelmente vai descontar em você toda a raiva que ela tem de mim e das minhas Caçadoras.
Aquilo tudo estava sendo perfeito, aquele momento todo, mas tinha que existir um coisa negativa, o destino sempre gostou de me mostrar suas duas faces nitidamente.
— Tudo bem senhora, acredito que isso seja algo insignificante perto dos presentes que recebi. Nem sei como te agradecer por tudo isso.
— Não precisa agradecer minha Amazona, apenas honre a minha confiança em você e tudo estará pago. – Ártemis tocou em meu rosto e eu senti uma forte energia vinda do seu toque. – Está na hora de ir. Adeus Alicia.
— Adeus senhora. – sorri e recebi um sorriso de volta da deusa. Sua pele estava cada vez mais lúcida e seus olhos começavam a arder como fogo, me obriguei a olhar para o lobo mais uma vez antes da floresta sumir. – Até mais Fantasma.
Quando acordei estava na enfermaria, tinha uma breve noção de que tinha desmaiado devido a grande dor de cabeça, mas não me lembrava do que havia feito para chegar ali. Percebi que meu uniforme amarelo estava sujo com sangue, mas antes que eu pudesse raciocinar mais alguma coisa, braços fortes me apertaram contra um peito familiar.
— Não me assusta assim de novo Ali.
— Carter, você tá me sufocando. – falei rindo, era bom estar de volta e era melhor ainda saber que tinha o Carter aqui comigo.
— Filho, você pode acabar agravando o estado de saúde dela, solte-a. – mãos brancas e preocupadas afastavam Carter de mim. Mila.
— Esta tudo bem Mila. – disse de forma tranquilizadora.
— Não está nada bem não Alicia, você foi encontrada desmaiada no corredor com o nariz e os ouvidos sangrando. Tenho que me preocupar com você sim.
Ninguém sabe dizer quanto tempo fiquei desacordada até ter sido encontrada no corredor e levada para a enfermaria, só sei que lá fiquei apagada por mais de duas horas. Todos ficaram extremamente preocupados, principalmente pelos sangramentos que estava tendo. Quando expliquei que tinha tido uma dor de cabeça extremamente forte, fui submetida a diversos exames, mas nenhum deles mostrou alterações nos níveis cerebrais ou nenhum outro tipo de anomalia que esperavam encontrar.
A minha cabeça não doía mais, era como um dia de sol depois de vários dias de chuva, era pacífico e perfeito.
Passei as semanas seguintes repetindo exames para ter certeza que estava tudo bem comigo e eles continuavam a dar os mesmos resultados. Eu gostaria de explicar que estava tudo bem comigo e que essa dor de cabeça nunca mais iria me incomodar, mas algo no fundo me dizia que não era certo contar pra alguém esse meu segredo, que eu devia guardar pra mim essa descoberta e que ninguém precisava saber da origem da pulseira prateada que apareceu no meu pulso esquerdo desde o dia da minha ultima dor de cabeça.
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