Notas iniciais
Quem é que não só passou muito mal em setembro, como também está trabalhando como um cavalo agora? Isto mesmo! Esta escritora tapada e com graves crises de criatividade :D

Willy Wonka estava sentado sobre a mesa de madeira. Os olhos perfurando a janela que outrora seu herdeiro olhava e a mente amaldiçoando qualquer pessoa ou coisa que passou pela vida dele. A sala estava destruída. Todas as cadeiras encontravam-se quebradas e a mesa voou para a janela que, agora, estava quebrada, mas que não deixou o pedaço de madeira ultrapassá-la.

Wonka explodiu quando soube que fora traído. Quando viu que sua fábrica e seus Oompa Loompas, que Dóris, estava cuidando de sua vida sem perguntar se podia tomar decisões tão drásticas. Como poderia confiar neles de novo? Nos Oompa Loompas, na fábrica, em Dóris ou em Charlie?

O chocolateiro respirou fundo, sendo agraciado pelos pulmões se dilatando em uma espreguiçada longa e dolorosa. Fazia horas que estava sentado ali, olhando o nada e revivendo os anos que tina vivido dentro e fora daquele mundo. O corpo reclamava da posição e, pelo menos, os pulmões pararam de tremer descontrolados como faziam enquanto ele chorava e berrava pelo cômodo.

– Está mais calmo? — A voz do herdeiro esgueirou-se pelo ambiente.

– Mandei sair. — Resmungou o chocolateiro. Sabia que quase atingiu o herdeiro enquanto explodia contra o mundo.

– Não posso lhe deixar. Você está péssimo.

– Então pense comigo. — Convidou Willy. — Vamos Charlie, se coloque no meu lugar e pense comigo.

– O que você estava pensando?

– Eu criei este mundo para provar ao meu pai que doces são as melhores coisas que já existiram. Então, sou traído pela humanidade e fecho as portas, mas nunca deixei de evoluir este pequeno mundo fantástico. Conheci os Oompa Loompas e até hoje os dou tudo o que posso. Evito que eles experimentem minhas criações, mas os danadinhos imploram para serem cobaias. Eu destruí incontáveis Oompa Loompas e suas famílias. Sou o herói e, quando eles querem, me torno o monstro deles. — O chocolateiro virou o rosto. Um ato pequeno, mínimo. — E agora eles destruíram meu mundo. — Os olhos voltaram para a janela.

Charlie Bucket nunca se sentiu tão apavorado. Willy tinha permitido que ele visse o que jamais tinha visto: desistência. O Wonka estava desistindo da fábrica!

Não!

Não podia!

Não um cara tão incrível quanto ele! Não o cara que fez milhões de pessoas sonhar um pouco mais. Quando provou que o incrível mora dentro da cabeça das pessoas!

– Eu não confiava nos humanos e passei a confiar por você. — Sussurrou Willy. — Charlie, você consegue entender que eu já não confio mais nos Oompa Loompas ou na fábrica? Não confio neles, em seu pai, você e muito menos em mim.

– Wil...

– Onde posso me esconder de mim? Em que lugar, eu mesmo não existo?

– Ly...

– Eu não sei o que fazer. Por mais que eu repasse todos estes anos que carrego em meu corpo, não encontro uma solução. Por que diabos vivemos tanto? Só para nos ferirmos? Para entender que a humanidade é repleta de idiotas traidores? Que ser um humano é destruir o outro?

– Eu lhe destruí? — Charlie questionou. — Lhe fiz algo de ruim? Algo que você jamais se recuperaria?

– Não. — Willy sorriu. — Ainda não.

– Não vou lhe trair!

– Então será traído. — Sussurrou o mais velho.

– Eu aguento este fardo! — Berrou o herdeiro. — Vamos lá Willy, eu carrego! Você só precisa parar e pensar por outro ângulo! Há algo bom nisso tudo!

O chocolateiro saltou da mesa. O corpo estralou com o ato repentino, aproveitando para reclamar mais ainda das horas em que ficou parado ali. Só que Willy ignorou. Ele deu dois passos pesados na direção de Charlie e com o sorriso impecavelmente malicioso, explicou:

– Não há nada de bom em tudo isto.

Charlie prendeu a respiração. Não conseguiu escutar Willy Wonka, pois estava preso em suas lembranças. Havia uma mentira ali, naquelas últimas horas de vida. Uma ponta solta que os dois tinham se esquecido logo depois de embarcarem na caça à invasora.

– A carta. — Sussurrou Charlie.

A carta. Pensou Willy. A carta de Veruca que alegava ter alguém caçando uma forma de entrar na fábrica. Willy não demonstrou o alívio que sentiu, pois a mente ainda analisava a informação.

A carta, Lane, Dóris.

– Dóris revelou que ajudou alguém a invadir a fábrica. — Wonka soltou.

– Então havia mais alguém.

– Acha mesmo que aquela vermezinha não mentiria? — Willy jamais confiaria naquela invasora.

– Tanto quanto sei que Dóris não mentiu. — O herdeiro bateu o pé.

Willy marchou até a porta e ordenou, com um rosnado firme e irado:

– Leve Dóris até a senhorita Kenneth. — Já no corredor, olhou para a porta e maliciosamente adicionou – Seja rápido, pois vou começar a bater nela na hora em que eu pisar naquela cela.

Charlie Bucket nunca correu tanto. Nem quando pegou o bilhete dourado e correu até seus pais. E também, jurava que nunca correria tanto quanto naquele momento. A porta da sala em que Dóris estava, estava aberta e o herdeiro bateu o ombro no batente ao parar derrapando.

– Venha comigo. — Pediu à Oompa Loompa. — Para ontem!

A pequena criaturinha saltou da cadeira na mesma hora, mas nunca poderia correr tanto quanto o herdeiro. Ficou alguns segundos para trás e só não o perdeu porque estava dando todo o fôlego que o pequeno pulmão conseguia ter. As perninhas não colaboravam, mas ela deu o seu melhor.

Então, quando terminou de saltar os degraus do calabouço da fábrica, quis chorar. Charlie tentava segurar Willy, mas não parecia muito bem-sucedido. Willy era verdadeiramente forte, mesmo com a idade avançada. E seu fraque estava jogado no final da escadaria, junto com fivela que usava no lugar da gravata. As mangas da camisa social estavam arregaçadas, as luvas estavam sujas de sangue assim como alguns pontos da roupa que ele usava.

Willy Wonka, tinha esmurrado Lane Kenneth com as próprias mãos. E a mulher gemia contra o colchão da cama em que estava presa.

– Você demorou, Charlie. E ela se recusa a contar o que sabe. — Os olhos castanhos brilhavam furiosos. — Dóris será a próxima, se não começar a falar agora!

– Vai ter que passar por mim!

O rosto de Wonka, brilhou. O sorriso sádico que soltou contra Charlie, era um desafio.

A voz do pupilo fora um trovão potente, que estremeceu a alma de Dóris e ela sabia que estava reverberando sob a pele de Wonka.

– Sabe que eu não teria problemas.

Lane tossiu e o barulho amenizou o berro que a bochecha de Charlie soltou quando encontrou-se com a luva roxa que o chocolateiro usava. Um tapa. O herdeiro havia recebido um tapa contra o rosto e a marca já brilhava em vermelho escarlate. Não houve pausas ou silêncios para que o ato pudesse ser digerido. Os olhos amêndoas de Willy brilhavam possessos e os pulmões soltaram um riso silencioso.

– O que você quer saber, Willy? — Dóris questionou desesperada.

Absolutamente desesperada.

– A carta de Veruca. — O chocolateiro fuzilava a Oompa Loompa com os olhos. — O que ela tem com Kenneth e você?

A pequena criaturinha, nascida na opressora Oompalândia, pensou. Rápida como um rato fugindo junto ao pequeno pedaço de toucinho roubado sob as garras de um gato mais ligeiro ainda. Ela pensou. Pensou em três respostas enquanto Willy Wonka dava um mínimo passo em sua direção.

Pensou em três mentiras, pois não sabia o que aquelas três coisas tinham em comum.

Lane invadiu a fábrica e Dóris sentiu que precisava deixar alguém entrar. Mas nunca tinha visto aquela mulher.

– Carta? — Pensou, erroneamente, em voz alta.

Willy Wonka soltou uma risada arrepiante de tão maligna e, se não fosse por Charlie, a pequena Oompa Loompa teria sido erguida pelo pescoço.

– Willy, por favor! — Implorou o pupilo.

Segurar Willy não era fácil.

– Já passou! — Choramingou o mais novo.

Sabia que era errado jogar para o chocolateiro, a ideia de que as piores coisas já tinham acontecido. Fazê-lo aceitar que não era nada demais. Mas era sua única chance.

– Agora temos tomar uma medida preventiva!

Wonka se contorceu contra a pegada do pupilo e puxou o braço em uma luta que ele não desejava perder. Escutava a vozinha rouca da criança de dez anos lhe dizendo que tudo era menor do que parecia e que agora só precisavam se proteger do futuro. Escutou cada letra enquanto ainda era movimentado pelo calor do ódio que crepitava em seu coração.

Uma medida preventiva entretanto, era um balde de água gelada e perfeita para empedrar o coração do mais velho. Então percebeu, que seu mundo se misturava. O presente e o passado manchando-se na vã tentativa de criar um mundo perfeito para se viver. Não houve força o suficiente para manter o braço erguido e ele caiu junto com o do pupilo, que suspirou pelo alívio de ter parado Wonka.

Por que era tão difícil, para aqueles três, entender que a vida de Willy Wonka quebrou-se assim que a fantástica fábrica foi invadida? E por qual motivo, eles se tornaram as três pessoas mais importantes de sua vida?

Pobre são os seres, pensou Wonka, que nunca conseguem se colocar no lugar do outro e entender a importância de um sonho. Mas, não seria mais pobre aquele cuja a vida nunca teve realidade?