Assim que os motores do avião desligaram, uma chuva torrencial começou a cair sobre a cidade. Obviamente, aquilo não impediu Veruca Salt de correr pelo aeroporto, jogar um passageiro concorrente para o lado e mergulhar dentro do táxi. O motorista a olhava, pelo retrovisor, assustado. Os limpadores de pra brisa trabalhavam enfurecidamente e ainda assim pareciam trabalhar inutilmente. Os carros passavam por eles lentamente, os pedestres se tumultuavam em qualquer refúgio que encontrassem ou saíam correndo com suas roupas encharcadas.

– Para a fábrica Wonka. — Berrou a mulher que ainda fechava a porta do veículo. — Para ontem!

Ϣ.Ϣ.

Charlie estava dormindo, quando escutou o relâmpago cair sobre a fábrica e explodir em um berro que tremeu toda a estrutura do lugar. Ele saltou da cama com o susto que levou, sentindo o coração disparado e a respiração descontrolada. Houve um novo relâmpago, porém ao longe, que explicou a tempestade que tinha engolido a cidade. A fábrica, por ter torres altas, era uma guia perfeita para os raios que se perdiam por aqui e acolá.

O herdeiro saiu do quarto e caminhou pelos corredores com rapidez. Willy Wonka odiava o barulho dos raios e trovões. Ficava irritado, com medo e acanhado. Se aninhava na cama como um feto e resmungava qualquer coisa que lhe passasse pela cabeça enquanto apertava um travesseiro sobre ela.

Charlie Bucket entrou no quarto do tutor e teve a “agradável” surpresa dele não estar lá.

– Willy? — Chamou o mais novo.

A única resposta que teve, foi de um relâmpago que brilhou há um ou dois quilômetros de distância. O pupilo respirou fundo e saiu do quarto. Não fazia a mínima ideia de onde procurar o chocolateiro, mas queria fazer aquilo. Queria saber se Willy estava bem, mesmo que fosse escutar um resmungo mal educado como resposta.

Optou, então, por seguir os instintos. Caminhou pensando se o chocolateiro estava bem, se Dóris e Lane tinham comida e se chocolate com cranberry seria gostoso. Pensou, também, que seria muito bom ter pernil no natal em vez de peru. E que lançar uma lata especial de biscoitos natalinos Wonka, onde a língua muda de cor para uma mistura de vermelho e verde, seria interessante.

Parou de caminhar e sentiu o coração se acalmar. O jardim da fábrica estava mal iluminado, como se estivesse sendo banhado por uma lua fraca e obstruída por nuvens finas. Era algo que Willy tinha bolado. Algumas vezes, aquele lugar ficava iluminado como se fosse a própria lua cheia, de um caloroso verão, brilhando no topo do teto da fábrica. Outras vezes, ela ficava assim: bonita, mas fria.

– Willy. — Chamou o mais novo.

O chocolateiro olhou para a porta em que em Charlie estava e voltou a olhar para o teto. Estava deprimido e não sabia se queria falar com alguém. Depois que toda a raiva se esvaiu (e alguns móveis teriam que ser reparados), ficou aquela mágoa. Era a segunda vez naquele dia e ele sentia que não era a última vez que ia acontecer.

– Está trovejando lá fora. — Charlie murmurou ao se aproximar.

– Está com medo? — Willy questionou.

– É o seu papel, Willy.

– Eu estava pensando que estou velho demais para brincar de ser criança. — O Wonka revelou. Charlie lhe dava tanta paz, que mesmo se estivesse com todas as suas células odiando o herdeiro, ainda desabafaria quando ficasse a sós com ele. — Não tenho mais fôlego para me irritar ou preocupar tanto. Estou cansado, Charlie. Cansado e magoado.

O herdeiro ficou quietinho. Tão quieto quanto um bebê adormecido, que escuta o pai revelando seus medos ao encarar a nova fase. Ali, deitado na grama, ao lado de Willy Wonka, Charlie deixou que o chocolateiro se sentisse no direito de falar o que bem entendesse.

– Eu estava pensando em deixar tudo nas suas mãos. — O mais velho sussurrou. — Acho que finalmente me cansei da fábrica.

A quantidade de coisas que se passaram na cabeça de Charlie Bucket, foi incontável e impossível de se entender. Ele manteve-se calado, com a respiração levemente agitada e o pânico deitando sobre seu corpo.

Como ninguém falou nada por um bom tempo, a fábrica resolveu reclamar a decisão. Ela atraiu um raio para perto de si e deixou que a eletricidade piscasse as luzes que estavam acesas. Foi uma explosão memorável. Um berro alto e forte que humilhava qualquer tempestade que já tinha caído e que viria a cair. A fábrica tremeu suas paredes enquanto berrava e uma de suas janelas estourou apavorada. Não teve um ser vivo, ali dentro, que não acordou.

Mas Willy Wonka, que tanto tinha medo de tempestades, apenas soltou um riso ralo e silencioso.

– Ela fiz isto pouco antes de você chegar. Não aceita que eu lhe deixe enquanto estou vivo, mas não se preocupou com o que eu sentiria ao me trair.

– Willy, a invasão não pode ser tão ruim assim. — Charlie sussurrou. Estava com a garganta seca e o coração aos saltos.

– Eu sei. Pensei nisto há pouco. — Willy encarou o pupilo. — Mas não sei se quero continuar com tanta responsabilidade. E enquanto eu não souber quem ajudou aquela vespa a entrar, eu não farei mais nada.

– Mas, quando você encontrar as respostas que busca, vai voltar a ser o dono da fábrica? — Charlie questionou enquanto sentava sobre o gramado adocicado.

As pupilas de Willy se dilataram quando ele abriu os lábios. A voz travou na garganta e um gemido curto escapuliu com a resposta.

O chocolateiro nunca imaginou que Charlie se quebraria tanto, ao escutar que Willy estava deixando tudo para trás. Ele jurava que o pupilo era forte e capaz de passar por tudo com tranquilidade. Jurou que nunca veria Charlie se quebrando, a não ser que o pupilo estivesse diante da morte de alguém que ele amava.

Nada escapou da boca Wonka, pois Charlie carregava o desespero de escutar um sim. O desespero de saber para onde correr e ter o seu tutor de volta como tutor e guia.

Pobre Charlie. Willy Wonka não pretendia voltar a ser o dono e criador da fantástica fábrica.

Ϣ.Ϣ.

A campainha da fábrica soou de forma baixa e acanhada. Não demorou muito para que Willy chegasse em frente a câmera externa e visse a visita olhando ansiosa para a câmera. Prontamente, o chocolateiro abriu os portões externos e internos, e pediu que um Oompa Loompa lhe trouxesse uma toalha e chocolate quente.

– Bem-vinda, estrelinha. — Zombou o mais velho.

A mulher, que estava de frente para Willy Wonka, tremeu. Não importaria quantos anos passariam desde que ela visitou a fábrica, sempre teria medo daquele lugar. Quando Veruca Salt se perdia naquelas lembranças, percebia que sua sina não tinha sido tão assustadora quanto a de Augustus ou de Mike. Também era infinitamente mais leve do que virar uma blueberry e viver com a coloração azul por anos. Só que, isto não mudava o fato de ser algo aterrorizante. Podia ter sido incinerada viva, ter virado parte de um punhado de cinzas e um pouco de fumaça filtrada.

– O senhor não devia estar sentado? — Ela mergulhou na brincadeira. Pois não queria deixar Wonka ciente de seus medos e receios.

E também, não queria se deixar abater. Aquela fábrica precisava de ajuda e a sanidade de Willy também — mesmo que ela já fosse quase nula.

Willy Wonka, por sua vez, não arredou o pé de onde estava. O chocolateiro mantinha-se em pé, com a bengala perfeitamente alinhada ao corpo e o fraque alinhado. Ele, por mais tarde que fosse, não tinha trocado para roupas noturnas e nem tinha ânimo para por um pijama quente.

– É muito bom que esteja aqui, senhorita Salt. — A mulher bebia o chocolate quente com prazer. Aquele olhar apaixonado que só os esfomeados sabem dar. — Agora, me diga, como sabia que eu queria falar com você?

Ela ergueu os olhos. Parecia um pouco assustada ou confusa.

– Não sei. — Ela gemeu. — Eu só tive que vir. Uma premonição?

Veruca se arrependeu de ter pisado na fábrica, de ter saído de sua cidade natal e de ter encaminhado uma carta para aquela fábrica dias antes da segunda visita. O semblante de Wonka era o responsável por isto. Ele estava com o rosto sereno, mas os lábios comprimidos como se algo quisesse saltar deles para matar a primeira pessoa que encontrasse pela frente. E os olhos... Eles queimavam. Queimavam como os de um psicopata.

A mulher começou a tremer. Não só pelo medo, mas pelo ambiente ter resfriado subitamente. Era como ter saltado de um país tropical com clima aconchegante e ter pulado no polo sul sem roupa alguma. Veruca se encolheu no sofá e bebeu mais do chocolate quente.

O coração de Willy doía. Ele sentia que a fábrica tinha pedido socorro para a mimada e, se isto fosse verdade, a fábrica não tinha mais limite algum. Willy tinha dedicado mais da metade de sua vida para amar e proteger a fábrica e agora...

– Quem queria invadir minha fábrica? Como você sabia? — Precisava esquecer a decepção e o ciúmes e se dedicar ao assunto principal.

– Senhor Wonka...

– Você sabe como entrar aqui, não sabe? Conhece a fábrica por dentro! — Explodiu Willy. — Como conseguiu comprar meus Oompa Loompas para que trabalhassem para você?! O que você fez? Como fez?

Salt apertou a caneca vazia contra o peito. O cheiro de amendoim que emanava de Wonka estava lhe entorpecendo, o medo transbordando e as palavras fugindo. Tudo estava errado. Mesmo que tudo não passasse de uma brincadeira, Willy não deveria ter se descontrolado tanto. A vida de alguém não deveria se prender em algo que se perde facilmente. E se Lane fosse uma catástrofe natural que devastaria toda a fábrica? Ele se mataria daquela forma?

– O senhor me ensinou que não temos tudo o que desejamos, mas as coisas que lutamos para ter. — Sussurrou a mulher. E realmente não precisava de mais do que aquilo para ser escutada. Willy estava quase montado nela, com o corpo sustentado pelos dois braços apoiados no encosto do sofá que Veruca estava sentada. O rosto estava colado ao dela sem deixar nenhum ponto de fuga. — Mas esqueceu que sua vida não é a fábrica e sim as suas criações.

Ele se afastou um pouco, mas permaneceu com os olhos fincados nos dela. Queria escutar tudo o que ela tinha pra falar e, quem sabe, encontrar a paz que ninguém conseguia lhe dar.

– Eu lacrei a fábrica por ser muito invadida. Minhas criações foram feitas por meus concorrentes que lucraram milhões!

– Minhas coleções também são copiadas. — Ralhou a mulher que, depois de ter se tornado um monte de lixo, se dedicou a fazer moda sustentável e de qualidade. — Mas não são sustentáveis e nem valorizadas como as minhas.

O chocolateiro sorriu com desprezo.

– Acho que seu lucro é melhor do que o meu. — O chocolateiro começou. — Os ricos compram suas roupas e os pobres as desejam. Há milhões de pessoas que dariam o mundo para comprar uma blusa sua e outras que trabalham a vida para ter!

– E mesmo com os outros vendendo suas criações, as pessoas falavam que não se comparava aos seus doces. — A mulher rebateu. — O mundo parou para visitar sua fábrica, para conhecer o louco por detrás do incrível!

– Senhorita Salt, o mundo é cruel e quer te roubar.

– Senhor Wonka, o mundo está em nossa cabeça. Qualquer um pode nos copiar, mas a criatividade que temos é exclusiva. E esta exclusividade nos faz único. — A mulher colocou a caneca sobre a mesa que tinha ao lado do sofá e suspirou. — Todos os meses aparece alguém me perguntando como é aqui dentro. Querem saber quantas portas tem até a sala de criação.

– Qual a sua resposta. — Wonka questionou.

A fábrica não era como as outras. Não se tinha milhares de máquinas em um patio, não tinha só o básico. Tinha vida, tinha espírito e coração. Ela se sustentava, criava sua obra-prima.

– Que por dentro, ela é fantástica. Até a sala de criação se tem um chocolateiro. Até a embalagem, um sentimento. — Veruca sorriu. — E o corredor é a loucura.

Willy se sentou de frente ao sofá que, antes, Veruca estava. Cruzou as pernas e ficou um pequeno momento em silêncio.

– Não posso confiar em você. — O chocolateiro revelou.

– Você não quer confiar. Está machucado e acha que as pessoas não mudam, mas elas mudam. Para melhor ou pior. — Ela contorceu os lábios. — O senhor, por exemplo, passou a pensar mais nos lucros do que no prazer de comer um bom doce.

– Seja realista. — Pediu Willy.

– Você nunca foi realista e isto sempre lhe fez bem. — Veruca alertou. Então, já de frente para a porta, ela sorriu. — Ser pessimista e realista é diferente. E, Willy, todos os dias querem invadir sua fábrica. A minha carta foi só um lembrete, caso a felicidade de ter Charlie tenha lhe feito esquecer.

No mundo dos negócios, cuidado é indispensável. Os concorrentes tentarão descobrir o que você esta criando e lhe roubar a patente. Precisa estar alerta, ter cuidado com os funcionários e estar pronto para guerrear ou formar uma breve aliança. É confuso e até cruel. Muda as pessoas e as torna monstros.

Mas, como Veruca tinha dito, as pessoas se enganam ao achar que realismo e pessimismo são iguais. E mais errado ainda, é achar que a vida pessoal é mais simples ou complicada que o mundo dos negócios. Sejamos francos, as pessoas tentam roubar nossas qualidade, amores e alegrias. Querem nosso sucesso achando que não suamos para obtê-los e acreditam que nossos problemas são menores do que os delas.

Veruca Salt estava certa. Todos os dias alguém tentava invadir a fábrica e Willy já tinha se esquecido que precisava redobrar a atenção ao receber visitas. Lane entrou na fábrica sem que ele pudesse ver. Não revisou as câmeras, não deixou os Oompa Loompas alertas e nem pediu para Dóris fazer um check-up da fábrica. Também tinha esquecido que, mesmo que Lane tivesse invadido os sistemas da fábrica, nada de errado aconteceu e a mulher nem passou perto da sala de mapas ou de receitas.

Ela apenas...

– Reforçou os sistemas. — Sussurrou Wonka.

O chocolateiro saltou do sofá e bateu a bengala no chão. O relógio marcava duas e meia da manhã, a chuva ainda castigava a fábrica e Willy Wonka tinha algumas coisas para resolver antes de ir dormir.