A Family Affair
2 Capítulo 2
Notas iniciais
⌘ Zoey ⌘
“Espero que já esteja a caminho?”— vejo a primeira mensagem do dia e ignoro. Ele é incapaz de dizer um bom dia.
Quando comecei a trabalhar para Tony Stark achei que seria a oportunidade da minha vida. Produtora, esse foi o cargo oferecido, hoje não passo de uma mera assistente pessoal. Odeio o meu chefe. Odeio o meu trabalho, mas não tenho coragem de pedir demissão, seria vergonhoso desistir mais uma vez, por isso eu procrastino pra não ter que lidar com as minhas questões.
—Zoey, você não não tinha horário.— mamãe pergunta enquanto coloca a cápsula na cafeteira e aperta o botão. Ela está no meio do processo de seu novo livro que, com certeza, será outro sucesso. Na minha idade ela tinha uma filha pequena e um casamento, mas ainda assim focou em sua carreira e já era uma promessa da literatura. E eu sou um fracasso. —Meu amor, está acontecendo alguma coisa?
—Nada.— repondo —Preciso ir. Te amo.— desço do banco, pego as chaves, meu celular e vou em direção ao pátio.
Quando saio para a rua o trânsito é incomum para o horário, estava enrolando, pois tinha certeza de chegar na hora, Tony havia escolhido um restaurante que não ficava tão longe de casa, tínhamos fechado uma permuta, mas eu estava mais atrasada do que pretendia.
—Nova mensagem de Tony Stark.— o sistema de som do carro integrado ao meu telefone anuncia. Numa esquina deixou que um carro de auto escola entre na minha frente, mas logo depois um caminhão também quer passar, ao olhar no aplicativo de mobilidade o tempo do trajeto é cada vez maior. Não ouço essa mensagem nem as que vieram depois, e lá se vão cerca de 20 minutos até uma nova mensagem, dessa vez a ouvi.
“Não ligo se está sangrando ou se tiver que vender um órgão vital, chega logo aqui ou será demitida”— após mais uma vez me certificar de que o porta-joia está dentro da bolsa ao terminar de ouvir a mensagem saio da fila de carros e corto pela contramão, meu destino está na próxima esquina, ao estacionar vejo Happy aguardando dentro do Audi RSQ8 preto. Chego na entrada do restaurante e o hostes me recebe como se não tivesse sido eu quem negociou esse brunch.
—Você sabe que vazaremos que Tony Stark esteve aqui e seu restaurante irá bombar.— negocio minha entrada, enquanto Tony me observa de sua mesa, mostro que estou com a caixa e ela quase escapa das minhas mãos quicando como uma peteca. Ele faz sinal para que eu me aproxime de sua mesa, vou pela esquerda e quando percebo que Ashley está procurando algo do lado posto jogo a caixa, boa pegada, velhote.
Me sento ao balcão não muito longe de onde Tony está com Ashley, é o terceiro fim de relacionamento nesses dois anos que trabalho pra ele, e eu nunca sei qual parte é a pior, o começo, meio ou fim. Belisco algumas castanhas enquanto ouço suas justificativas confusas, que fazem com que ela tenha certeza de que está sendo pedida em casamento, até notar que a caixa da joalheria chiquérrima tem nada mais que um par de brincos de diamante, iguais aos que ele deu para Kim quando terminou com ela 7 meses atrás, e para a outra que veio antes.
—Tchau.— ouço Tony dizer e assim que Ashley sai, me levanto e sento ao seu lado.
—Ela agiu como uma campeã, melhor do que a última.— comento, ele reclamou por dias da audácia de Kim jogar gin na cara dele, para sua sorte estavam num lugar mais reservado.
—A minha sorte, é que da última vez minha assistente não atrasou, então foi tudo muito rápido.— Tony me provoca, eu nem estava lá naquela noite, ele sequer se lembra que havia me pedido para entrar no apartamento da Kim para tirar as coisas dele de lá enquanto saía para jantar com ela, lembrar disso é humilhante —Onde diabos você estava?!— ele me pergunta, me levanto e o deixo falando sozinho, simplesmente não respondo. Saio e ele vem no meu encalço, insistindo, passo pelo hostes que se despede com um sorriso, estamos saindo sem pagar e ninguém diz nada, trabalhar para um astro de Hollywood tem suas vantagens. Passo por Hogan, que agora está parado ao lado do carro, aceno e sigo até o meu Buick cinza-grafite —Vou com ela.— ouço ele avisando ao Happy.
—Por Deus, Tony, estou tendo uma manhã horrível.— resmungo quando ele invade o meu carro e senta no banco do carona. Depois de me perguntar novamente a razão do meu atraso, Tony desiste quando ligo o rádio, e foi a pior coisa que poderia ter acontecido. A canção Believe, da Cher ressoa pelos alto falantes, ele se envolve com a letra e começa a cantar. Se ele não fosse Tony Stark, o galã de meia idade que troca de namorada como quem troca de roupas, poderia jurar que ele é gay, afinal de contas, nunca vi um homem, cis, hetero curtir tanto essa canção.
—Tá ouvindo essa letra?— ele questiona animado, me deixo rir sem que ele perceba —“Do you believe in life after love? I can feel something inside me say I really don't think you're strong enough, no…” Eu tô tentando, Cher. Juro que estou.— diz enquanto canta.
A música questiona se é possível acreditar na vida após amor, mas está falando de um fim de romance, a Cher tinha tomando um pé na bunda, como o que ele acaba de dar na Ashley, ou seja, ela é quem deveria estar cantando isso a plenos pulmões. E o que ele vive com essas mulheres nem pode ser chamado de amor, nem mesmo é uma paixão. É conveniência.
—Você é patético.— resmungo sem tirar os olhos do fluxo.
—Onde você estava?— ele insiste, ao desligar o rádio batendo sobre o painel, me assusto —Estava conversando com a sua mãe novamente?— ele assunta, uma vez falei com ele sobre minha mãe e a cobrança que sinto, depois disso toda vez que estou mal Tony acha que é por causa dela. Ele nem ouviu a história toda, ele jura que minha mãe mora longe e que é uma senhorinha autora de livros de autoajuda —Você tem sorte que eu sou muito bom com improviso, sabe? Fiquei lá improvisando, inventando o que dizer. Essa foi uma das melhores performances da minha vida.— então Tony volta ao seu assunto favorito, ele —Sabia que fui campeão de improviso no colégio?
—Não sabia.— respondo —Foi há bastante tempo, não foi?— sou sarcástica. Adoro tocar no seu ponto fraco, sua idade, tenho certeza que ele só namora mulheres mais jovens por pura e simples autoafirmação. Certa vez, no antigo twitter, fizeram uma trend com todas as namoradas dele e descobriram que quando elas completavam 25 anos o namoro acabava. Questionei sobre isso em minha entrevista, e me lembro como se fosse hoje a gracinha que ele fez.
—Quantos anos você tem, Srta Potts?
—22.— respondi —E é Ford.— eu o corrigi, profissionalmente uso o sobrenome do meu pai.
—E você prefere ser minha produtora ou namorada, Srta Ford?— ele me sorriu com um sorriso cafajeste e galanteador.
Mas sei que minha contratação foi ideia de seu agente, eles queriam alguém mais novo na equipe para lidar com “assuntos de jovem”. Juro que gostei do primeiro filme do Homem de Ferro, o personagem alavancou a carreira do Tony a um patamar estratosférico, mas eles não sabem a hora de parar.
—Eu tive que falar mais do que tinha planejado, então a Ashley deve estar muito mais magoada do que eu queria que ela estivesse.— ele continua —Eu realmente gostava dela. A rejeição que ela está sentindo é culpa sua.— ele acusa.
—Como assim? Você está colocando a culpa em mim?— me defendo —É sério?
—A sua incompetência faz com que eu queira demitir você.
—Então me demite.— contraponho quase suplicando. Já que eu não tenho coragem de pedir, que ele me mande embora de uma vez.
—Não.— respondo —Eu gosto de você, embora você não goste dos meus filmes.
—Isso ainda é sobre o filme?
—Claro, Zoey— Tony responde —Se a bilheteria não for boa, não vão negociar o contrato pra sequência.
—Quem liga?— eu desdenho —Se você deixar essa franquia terá mais tempo pra se dedicar a outros projetos como ator, filmes mais conceituais, mais sérios.
—Quem disse que não tem um conceito?
—Ficar enfiando um super-heroi novo a cada filme não é um conceito, a linha do tempo é confusa, é preciso assistir todos os filmes pra entender um. Isso é um saco, Tony.
—Eu gosto de ser ele.— Tony resmungou.
—Eu sei que você gosta de ser o Homem de Ferro, mas você não pode interpretar esse cara pra sempre.— replico. Sei que ele ama o personagem, e que tem medo de que o matem na franquia, então proponho uma mudança no arco do heroi —Podemos humanizá-lo, deixá-lo menos arrogante, quem sabe trazer um conflito familiar ou interesse amoroso com aquela personagem, a secretária? Sabemos que eles são loucos um pelo outro…
—E se humanizassem o personagem?— ele pergunta, fingindo que tudo o que acabei de falar saiu da cabeça dele —Podíamos contratar um novo roteirista.— resmungo porque foi isso o que acabei de falar —Vou falar com os meus agentes, vamos passar um pente fino e buscar uma nova roteirista. Chega em casa cedo amanhã, mas antes, você precisa resolver essas suas questões.— ele fala como se me advertisse —E passa na casa da Ashley pra pegar as minhas coisas. Não quero nada meu sendo leiloado na internet.
—Ah, não, pelo amor de Deus, Tony.— eu reclamo —Toda vez que entro escondido na casa das suas ex me sinto como se estivesse violando túmulos.— sério é muito humilhante.
—Lá em casa, às 8h, não 8:30h, e me leva um latte. Com leite de verdade, tá?— ele ordena ignorando todo meu protesto.
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