Notas iniciais
Apresentando: Virginia Potts, a Escritora

⌘ Virginia ⌘



—Bom dia, Zzy.— chego à cozinha, beijo minha filha e ela permanece estática, ela segura caneca de café e olha para o nada, nem notou a minha presença, sequer retribuiu o beijo que dei em sua têmpora em sinal de bom dia. Há alguns meses percebo que ela está angustiada, com certeza é algo com o trabalho, embora ela tenha parado de falar mal de seu chefe, sei que continua descontente. Quando Zoey foi contratada ela estava radiante, seu sonho desde o primeiro dia na faculdade de cinema foi trabalhar como Produtora Executiva, mas quando nosso advogado leu a proposta de emprego, tive certeza de que ela não faria nada do que sonhou, tentei alertá-la sobre a cilada, mas, segundo ela, Tony Stark a prepararia para assumir posições maiores em sua empresa, então ela assinou com ele sem que eu quisesse. Ela é adulta, afinal de contas. —Zoey, você não não tinha horário?— pergunto enquanto preparo um café e a tiro do devaneio. Embora ela seja uma mulher, não há como não me preocupar, sei que tenho a deixado de lado desde que comecei a trabalhar no livro novo. Simplesmente não consigo escrever e tudo parece irrelevante, não tem sido fácil.

—Meu amor, está acontecendo alguma coisa?— perguntei ao perceber seu olhar confuso.

—Nada.— ela respondeu —Preciso ir. Te amo.— ela fala e me deixa sozinha.

Volto ao meu escritório, tenho uma reunião com minha editora, a deixei lendo o que já tenho escrito e espero seu veredito. Deixo sua caneca de café sobre a mesa e me sento próximo à janela enquanto aguardo seu parecer.

—Parece que você está querendo se lançar novamente.— ela diz ao retirar seus óculos de leitura e voltar sua atenção para mim —Temos coisas muito boas aqui, mas…

—Há palavras demais.— dizemos juntas, a nossa conexão não poderia ser melhor.

—Tudo o que tenho escrito parece supérfluo. Eu tô me sentindo assim. Você se sente assim?— pergunto para Jackie.

—Eu me acho absolutamente fascinante.— ela responde cheia de autoconfiança. Esse sentimento que tem faltado em mim e em sua neta, pelo visto.

—É porque você é.— afirmo. Jackie é mãe do meu marido, alguns podem dizer que é anti profissional ela ser minha editora, mas foi ela quem me “descobriu” e por trabalhar no meio editorial há muito tempo, talvez tenha me aberto portas. Claro que não haveria sucesso se eu não tivesse talento, mas dificilmente uma escritora estreante teria seu livro publicado facilmente numa editora tão grande —Estou com medo, não escrevo nada com o coração há tanto tempo.— confesso minha insegurança.

—Foi uma saga de muito sucesso, Ginnie, e então a vida te atropelou, mas você se reergueu. Criou aquela garota linda e agora não sabe para onde ir. E está tudo bem.— ela diz —Você precisa se perguntar “Quem eu era antes de ser tudo para todo mundo?”, “Para onde quero ir?”, “Porque eu escrevo?”— suspiro, são muitas questões.



—Escrevo pra pôr pra fora o que penso sobre as coisas que não entendo.— respondo.

—E quais coisas não entende agora?— ela contrapõe.

—Não entendo praticamente nada desde que o Charlie morreu.— deixo escapar.

—Mas você nunca escreveu sobre o Charlie.— ela diz, mal sabendo que, tudo o que escrevi era sobre seu filho. Claro que ela não pensaria que um romance, em três partes, sobre uma mulher que sabia ter tomado decisões importantes ainda muito nova e que na maturidade havia descoberto o verdadeiro amor e o sentido da vida tinha a ver comigo ou seu filho, até porque quando escrevi tudo aquilo eu era mais jovem, mas tinha muito a ver com meu marido e com a nossa vida —Quero que saiba que você pode escrever sobre qualquer coisa, até sobre o meu filho. Inclusive prefiro ser sua editora do que ser “a mãe do Charlie”.

—Só que você foi primeiro a minha sogra.— eu falo.



—Mas antes de ser isso, antes de ser mãe, ser sogra, eu era apenas uma jovem com muitos sonhos, eu queria ser a Stevie Nicks.— ela ri, eu sorrio —Ainda somos tudo o que sempre fomos, garota. E ao contrário de mim, você não é uma senhorinha viúva e pode realizar muitas coisas, se joga.

(...)

Passei o dia com a conversa de mais cedo dando voltas em minha mente. O “se joga” dela diz tanto, Jackie está mais uma vez pedindo pra que deixe de me retrair, seja na escrita ou na vida. Fiquei viúva muito cedo, eu amava o Charlie, amava demais, e foi difícil aceitar no que nosso casamento estava se tornando pouco antes dele ficar doente. Estávamos apaixonados quando decidimos nos casar, mas éramos muito jovens, ele entrou na faculdade e eu não, pois estava grávida da Zoey. Tinha acabado de completar 18 anos quando ela nasceu.

Depois que ela cresceu, quando Charlie já tinha uma carreira, foi que voltei a pensar no meu sonho. Ingressei na universidade, mas, devido ao ciúme do meu marido e inúmeros desentendimentos, logo abandonei o curso de Literatura, porém sempre soube que a escrita estava dentro de mim e eu podia fazer isso em casa, sem sentir que estava abandonando a minha filha ou abrindo mão do casamento. Um dia Jackie me pegou escrevendo e depois de muita insistência tive coragem de mostrar minha história, daí em diante foi tudo muito rápido. Ficar “maior” que o Charlie foi a gota d’água, porém descobrimos a doença dele, e eu não consegui escrever por um período, nosso casamento, que estava fadado ao fim, acabou apenas quando ele faleceu.

Após ficar viúva tive alguns encontros, mas nada muito sério. Alguns homens que pareciam muito bons, outros nem tanto. Jantares, às vezes ótimas aventuras, outras nem tanto. A verdade é que eu não me jogava, não me aprofundei em nenhuma relação depois do Charlie, Zoey estava entrando na adolescência e eu tinha receio de que outro homem tentasse me podar.

—Mãe.— Zoey chega e me encontra na varanda nos fundos da nossa casa, há horas estou olhando o mar e pensando na vida.

—Oi, meu amor.— faço sinal pra que ela se sente ao meu lado —O dia está lindo, não é?

—Vendo daqui, sim.— ela concorda, tira o celular do bolso coloca sobre a mesinha ao lado da taça de Chardonnay que acabo de beber e se aconchega ao meu peito —Não falei com a vovó mais cedo, como ela está?

—Ótima.— respondo —E como em todas as vezes em que tenho reunião com ela, precisei mandar mensagem pra minha terapeuta.— eu brinco, embora seja verdade.

—Muitas questões?— minha filha pergunta ao se aconchegar ainda mais em mim.



—Me diz você.— afago seus cachos loiros e beijo sua cabeça, ela suspira.

—Mãe, você tinha a minha idade quando publicou seu primeiro livro?— sua pergunta me faz começar a desvendar sua angústia.

—Tinha 29.— respondo —Porque?

—Só estou querendo saber quando a minha vida vai começar.— ela responde, então percebo que ela está com aquela sensação de estar atrasada com algo.

—Zzy, a sua vida não vai e nem deve ser igual a minha.— a acalanto —Você tem 24, meu amor, é inteligente, talentosa e esforçada, terá seus resultados. Tony Stark não está te preparando pra assinar a produção do próximo projeto dele?



—Às vezes eu acho que ele esqueceu das promessas que me fez.— ela murmura.

—Então não o deixe esquecer.— eu digo —Mostre pra ele o que você quer, faça com que ele se lembre todos os dias porque foi contratada. Não deixe ele abusar apenas por ser famoso. Tome as rédeas da sua carreira, nem que pra isso você tenha que lhe dar um ultimato.

Estamos conversando quando seu telefone toca, vejo o nome de seu chefe na tela, ela ignora. O sol está se pondo, nosso assunto já acabou, mas ela ainda permanece em meu colo, quando o insistente Stark a aciona outra vez.

—Oi, Tony.— ela atende irritada —Como assim, umas comprinhas?— ela se endireita, me dá um beijo no rosto e sai. Tenho plena certeza que esse homem não amarra os sapatos sem ela, mas não serei eu a dizer isso, a minha filha precisa descobrir.



(...)

Quando fui deitar Zoey ainda não havia chegado, hoje ao acordar ele já havia saído. Tomei café, saí pra correr, fui à terapia, ao mercado e quando estava preparando o almoço ela apareceu.

—Zzy, é você?

—Oi, mãe.— ela me encontra na cozinha, parece exausta.

—O que foi?— pergunto preocupada.

—Nada, só estou cansada.— ela desconversa, abre a geladeira e pega uma água com gás —A Debs está lá fora estacionando, ela veio pegar uma roupa. Malcolm vai levá-la pra conhecer os pais, num evento super formal.

—Que maravilha!— Deborah e Zoey se conhecem desde o jardim da infância —Você talvez não tenha nada no seu armário, mas eu tenho, vocês podem pegar o que quiserem no meu quarto.

—É sério?

—Claro!— respondo feliz em ver que, pelo menos uma delas está realizada, elas são como irmãs, Deborah inclusive me chama de…

—Oi, mãe, cheguei.— minha outra filha surge em minha cozinha, parece ainda mais bonita do que da última vez que a vi, a pele morena está bronzeada, os cachos castanhos estão presos com uma presilha, ela veste jeans, top de crochê e jaqueta. Com certeza elas irão direto ao meu guarda-roupas, nenhuma delas tem nada sofisticado pra um jantar com pais de namorados.



—Aaah, a gente tem que comemorar!— Debs abre a geladeira, também pega uma água e brinda com a Zoey, que parece bem sem graça.

—Comemorar o quê?— mostro-me curiosa.

—Minha noite de folga.— Zoey diz.

—Eee— Debs comemora.

—Faz tempo que não tenho uma noite de folga, não é?

—Acho que sim.— repondo e mordo uma vagem da salada que estou preparando.

—Pode fazer espaguete em vez de salada?— minha filha pede.

—E pão de alho?!— minha filha, a de mentira, pede. Quando eu concordo elas me deixam na cozinha e saem cochichando.



As meninas conversaram sozinhas por mais de 1h. Almoçamos juntas. Deborah falou sobre o namorado e da ansiedade em conhecer os sogros, escolhi um segundo vestido pra ela, e no final do dia estávamos apenas eu e Zoey em casa.



—Ô, mãe, o que eu tô fazendo da minha vida?— o questionamento surgiu do nada quando estávamos vendo um filme, aproveitando sua noite de folga, a encaro esperando que ela faça o mínimo sentido —Deixei o Tony. Larguei meu emprego.— ela diz, não sei se é um comunicado ou pedido de intervenção.

—Ah não, querida. Achei que você iria insistir com ele.



—Insistir?— ela pergunta perplexa —Ele não me leva a sério, não me respeita.

—Você se leva a sério?— rebato.

—Pelo seu tom, estou vendo que você também não me leva a sério.— ela diz irritada.

—Filha, eu tenho muita fé em você, ok? Mas percebo que você tem uma tendência em desistir quando as coisas ficam complicadas…

—Eu?

—Lembra das aulas de roteiro de tv?— questiono. As aulas de roteiro estavam na grade do segundo semestre da faculdade, mas ela empurrou até o último.

—Foi você quem…— ela começa —Você sempre soube que pra mim é difícil escrever.

—Zzy, não foi só essa matéria, foram várias…

—Sim, várias, todas as que envolviam escrever, sabe que não sou tão boa nisso quanto você.— ela fala.



—Não desconte em mim…

—Não estou te culpando, eu estou me justificando, te pedindo um pouco de compreensão, mas você só me julga. E tá implicando comigo.— ela diz nervosa, começamos a discutir —Você não me ajuda!



—Tentei te ajudar quando pedi que você me enviasse a proposta de trabalho com a minuta do seu contrato e enviei pro meu advogado analisar, mas você não me ouviu.

—Ah, fala sério, mãe. Então é isso? Você quer ouvir que tinha razão?— ela parece perplexa —Você tinha razão, eu perdi 2 anos da minha vida com um completo narcisista.

—Eu nunca quis estar certa, filha. Só quero o que é melhor pra você!

—Então me fala, por favor, me diz o que é o melhor pra mim?— ela suplica.

—Isso apenas você pode responder.— eu digo e ela respira pesadamente exalando frustração.

—Eu vou tomar banho.— Zoey me abandona na sala, enquanto o filme que ela escolheu continua passando na tv.



(...)

Faz alguns dias que discutimos, Zoey não voltou para o trabalho, mas pelo menos voltou a levar a sério a terapia. Ontem perguntei se Tony Stark a procurou depois do pedido de demissão, mas ela disse que não. Achei estranho, tinha certeza que ele a procuraria. Aproveitando a minha solitude decido arrumar o escritório. Arrumar, não, faxinar, por isso vesti uma camiseta velha do Blondie, shorts jeans puídos e estou usando luvas de borracha, minha estante estava coberta de pó. De repente tenho a impressão de ter ouvido algo.

—Zzy?— chamo ao deixar o escritório, a música está alta, então vou até meu toca discos e interrompo Debbie Harry. Ouço um barulho na sala —Zoey?— chamo outra vez, ninguém responde, então vejo o vulto, de um corpo muito maior que o da minha filha. Volto ao aparador e pego o frasco de spray de pimenta. Quando me viro, percebo que acabo de deixar um astro de Hollywood temporariamente cego.