A Face do Fauno

2 Capítulo 2: O Dia Seguinte


Notas iniciais
* Os personagens principais e os cenários pertencem ao grande C.S.Lewis.
** Spoilers dos livros "As Crônicas de Nárnia: O Sobrinho do Mago" e "As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa".

Era uma manhã tranquila no bosque do Ermo do Lampião. O sol tentava aparecer, mas as nuvens do inverno forçado não deixavam e, ao contrário disso, ainda continuavam jogando neve nas árvores. Até então, mais ninguém sabia do ocorrido na noite anterior. Mas logo, essa situação iria mudar.

Na casa de Tumnus, ele dormia calmamente – depois de algumas horas de insônia. Dormiria até bem tarde, não fosse um pequenino ficar pulando sobre a barriga dele.

- Acorda, Tumnus! Levanta! — dizia o esquilo enquanto pulava como se o fauno fosse um trampolim macio.

- Não, Alegrete. Só mais um pouco.

- Já estamos quase na metade do dia. Vai dormir o dia todo? — o fauno abriu os olhos e viu que o esquilo falava a verdade.

- Levanta logo, ou eu vou ter que tirar você a força. — brincou o esquilo.

- Vou levantar se você parar de pular em cima de mim. — disse Tumnus, se divertindo com a situação. Ele levantou um pouco contrariado, mas concordou que já era hora mesmo.

- Está bem. Vou preparar um chá para nós.

- Já preparei. Só estou esperando você pra comermos. — disse o esquilo e Tumnus o olhou meio de lado para ver se era verdade.

- Ahn... Muito bom. Obrigado pela sua ajuda.

Depois de se arrumar, o fauno apareceu na sala, onde o esquilo o esperava de frente a lareira. Tudo do chá parecia estar em ordem, o que chamou a atenção de Tumnus pois não imaginava que o amiguinho sabia preparar um chá. Ele se sentou em uma das cadeiras e o esquilo na outra.

- Vamos ver. Hum... Parece que está ótimo. — disse Tumnus, para a alegria do esquilo, e começou a tomar o chá acompanhando com as rosquinhas trazidas pelo Alegrete.

- Se importa se eu comer apenas estas castanhas que encontrei? — perguntou o esquilo.

- De forma alguma. Fique à vontade. — respondeu o fauno, depois de tomar um gole. — Este chá está realmente maravilhoso.

- Gostou mesmo?

- Adorei. Não sabia que você era bom com chá.

- Não faço muito. — respondeu o esquilo.

- Pois deveria. Chá é um ótimo reconfortante.

- Por falar em reconfortante, você dormiu bem?

- Demorei um pouco para dormir, mas tive um sono bom. Estou me sentindo ótimo. — alegrou o fauno.

Os dois tiveram momentos agradáveis. Riram, brincaram e jogaram conversa fora o tempo todo na hora do chá. Na verdade o esquilo só estava adiando. Esperava o momento certo para conversar com Tumnus sobre a noite anterior. Quando viu que não podia esperar mais, resolveu conversar com o fauno.

- Tumnus, você pensou sobre ontem à noite?

Enquanto colocava a xícara na mesinha entre as cadeiras, Tumnus olhou o esquilo e, tentando não mostrar que ficou incomodado com a pergunta, respondeu.

- Muito. Na verdade estava tentando esquecer.

- Sabe que não pode. — Tumnus ouviu essas palavras de Alegrete e suspirou pesadamente.

- O que você sugere?

- Que contemos aos outros. Acho que vão concordar que este é um sinal que os Filhos de Adão e as Filhas de Eva logo estarão aqui.

- Não sei se é bom espalhar uma notícia dessas. Não temos provas e os outros podem não acreditar na gente.

Alegrete sentiu que o fauno precisava ser convencido. Não iria desistir fácil assim. O esquilo pensou um pouco, lembrou-se de algo e correu para a estante de livros que havia na pequena sala, acompanhado pelo olhar interrogante de Tumnus. Subiu até na direção de um em especial.

- Tumnus, pegue esse aqui.

O fauno não entendeu muito bem o porque, mas se levantou e pegou o livro que o amigo indicou.

- “Estudo da Lenda Popular”... porque?

- Vamos... abra aí e procure o capítulo que fala do Rei Franco e da Rainha Helena.

- Está bem... Vamos ver.

Enquanto Tumnus foleava o livro, o esquilo subiu até o braço da cadeira onde o fauno se sentava. Não demorou muito para que o fauno encontrasse as páginas que o esquilo queria. Logo, começou a ler o que dizia o capítulo.

“Rei Franco e Rainha Helena. De todos os reis e rainhas que passaram por Nárnia, Rei Franco e Rainha Helena são os primeiros e os mais lembrados. Foram eles que comandaram a construção de Cair Paravel, no lado leste do reino (na foz do Grande Rio). Descendem deles todos os Filhos de Adão conhecidos em Nárnia e na Arquelândia. A justiça e a honestidade que eles deixaram fizeram parte de todos os reinados depois deles. Dizem que foram coroados pelo próprio Aslam, na época da criação de Nárnia, e o reinado deles foi longo e próspero. Da origem deles pouco se sabe, mas é conhecido que eles vieram para cá trazidos pelo lendário Lorde Digory, a quem sabemos foi o responsável por trazer um fruto dos limites do nosso mundo e plantar a árvore da proteção. Juntos vieram de outro mundo, chamado Londres, na Inglaterra...”

Tumnus parou de ler justamente onde Alegrete queria, pois essa era a chave para que o fauno se convencesse.

- Está vendo, Tumnus? Inglaterra, e não “Englaterra”. A Filha de Eva que você conheceu ontem é da mesma terra dos nossos primeiros reis. — Dizia o esquilo para um Tumnus que estava estupefato com o que leu. — Eu sabia que tinha ouvido esse nome em algum lugar. Foi você mesmo que leu essa história para mim há alguns anos.

- É verdade... Sempre volto a ler este livro, mas nem me lembrei disso.

- Para mim não há duvidas. É o sinal de que os Filhos de Adão e as Filhas de Eva da profecia vão aparecer logo. — Disse Alegrete, enquanto o fauno pensava consigo mesmo.

- Acho que você tem razão. Os outros precisam saber.- dizia o fauno, enquanto Alegrete concordava com ele.

- Que acha de reunirmos alguns amigos? É um bom começo.

- Acho que é uma ótima idéia. Mas onde? Precisa ser num lugar onde não tenha árvores que estão do lado da Feiticeira. — perguntou o fauno.

- Eu sei de um lugar assim. Vou cuidar de tudo e você fique aqui e me espere. Está bem?

- Certo... Quer dizer, não. Não quero ficar sozinho. Se a Feiticeira já sabe, eu posso estar em perigo.

- Tem razão... — disse Alegrete depois de pensar um pouco porque, para qualquer um, desobedecer uma ordem da Feiticeira não era algo muito bom naquela época. — Então você vem comigo. Mas precisamos fazer tudo em silêncio.

- Certo. — concordou o fauno, se levantando para sair com o esquilo.

Sem muita pressa, o esquilo passeou com o fauno por entre o bosque à procura de conhecidos porque não queriam chamar a atenção. Encontraram pássaros, texugos, doninhas, javalis, anões, entre outros animais ao longo do caminho. Não demoraram muito nesta tarefa porque foram apenas nos lugares onde sabiam que encontrariam aliados. Também não disseram a ninguém do que se tratava, apenas que era algo muito importante. A última parada era em um canto da floresta quase único: O dique dos castores.

Se haviam mais castores em Nárnia naquela época, não eram conhecidos porque, quando começou a reinar em Nárnia, a Feiticeira mandou que exterminassem todos os castores no reino. A grande maioria conseguiu fugir. Pouquíssimos foram os que quiseram ficar e tiveram que se esconder dos lacaios da Feiticeira. Os únicos conhecidos, insistiam em viver como se não houvesse nenhuma feiticeira como rainha. Eram um dos casais mais simpáticos que se encontravam por Nárnia.

O fauno e o esquilo chegaram em silêncio porque o local parecia não ter ninguém. Alegrete bateu na pequena porta do dique e pôde ouvir os murmúrios da Senhora Castor que, pelo jeito, parecia andar em círculos.

- Não acredito que o Castor não voltou ainda. Só pode ser brincadeira. Onde já se viu? Demorar tanto assim? O que ele está pensando?

- Será que ela ouviu bater? Parece que não vem... — perguntou Tumnus para que o esquilo resolvesse bater novamente, desta vez chamando a atenção da Senhora Castor.

- Oh! Quem será? — o esquilo a ouviu dizer baixinho e depois mais alto. — Quem está aí?

- Sou eu, Alegrete, Senhora Castor. Estou com Tumnus.

A portinha não se demorou a abrir. A Senhora Castor estava mais do que contente por ver dois rostos conhecidos naquela hora. Recebeu os dois com um sincero sorriso.

- Por favor, entrem. Está muito frio aí fora. Tenho um chá para nós, vou pegar.

- Não precisa, Senhora. Obrigado, mas nossa visita é breve. — disse o fauno depois de entrar no pequeno abrigo do casal.

- O Senhor Castor está? — perguntou Alegrete.

- Não, não está. — respondia, voltando-se para os dois. — Ele viajou com o texugo amigo dele e não voltou ainda. Mas a qualquer momento ele aparece. Sempre faz isso. Posso ajudar?

- Bom... — começou dizendo Alegrete, mesmo duvidando se deveria. — Estou pedindo a alguns amigos que nos encontrem, a mim e Tumnus, mais tarde na cacheira abaixo do Ermo do Lampião. Lá é um local tranquilo e creio que será adequado para o assunto que temos a tratar.

- Oh, meu querido. Sinto muito. Mas eu não posso sair e deixar minha casa sozinha.

- Nós entendemos, Senhora Castor. — respondeu Tumnus.

- Mas eu aviso ao Castor quando ele chegar. Se voltar hoje mesmo, talvez dê tempo. — dizia a Senhora Castor, meio encabulada.

- Tudo bem, senhora. Desculpe pelo incômodo. — disse o esquilo.

- Ora, mas o que é isso?! Vocês dois sempre são bemvindos aqui. Podem vir quando quiserem.

- Obrigado. — disseram os dois quase ao mesmo tempo, cada um com um sorriso amigável, enquanto saíam do dique. A Senhora Castor ficou aguardando na porta até que os dois se misturassem às árvores próximas.

Na hora marcada, os dois foram para a cachoeira para esperar pelos amigos que chamaram. Alegrete estava mais tranquilo, mas Tumnus estava nervoso. O esquilo pensou que era por medo de que a Feiticeira soubesse da Filha de Eva e mandasse prendê-lo. Mas para o fauno não era isso. Ele estava mais nervoso pensando que ninguém acreditaria nele. Quando chegaram na cachoeira, se admiraram em ver que todos aqueles que chamaram já estavam esperando pelos dois. Havia um murmurio abafado entre aquele pessoal, o que dava a impressão de estarem todos dentro de uma sala fechada. Alegrete e Tumnus passaram por entre eles conversando com uns e cumprimentando outros. Para que aquilo não se estendesse muito, Alegrete pediu a todos que se reunissem mais próximos dos dois. Não eram muitos narnianos ali, de forma que puderam fazer um círculo em volta do fauno e do esquilo para que os dois falassem o que precisavam.

- Amigos, obrigado por virem. — começou o esquilo. — Temos um assunto que é do interesse de todos.

Todos silenciaram para ouvir o que o esquilo falava. Esperavam algo realmente importante, para que se reunissem num lugar daquele.

- Noite passada nosso amigo, Tumnus, recebeu uma visita de alguém de fora. Alguém que estávamos esperando há muito tempo. — e os narnianos que ali estavam se entreolharam curiosos. Um jumento, que parecia o mais confuso de todos, perguntou:

- E como uma visita para Tumnus poderia ser do nosso interesse?

- Tumnus, conte a eles. — pediu o esquilo. O fauno limpou a garganta, e começou a dizer para todos.

- Porque a visita que tive ontem não foi uma visita qualquer. Ontem mesmo esteve aqui uma Filha de Eva. — se aqueles narnianos estavam curiosos, agora estavam mais ainda. Fazia muito tempo que não viviam mais Filhos de Adão e nem Filhas de Eva em Nárnia. Eles murmuravam tentando entender o que tinham ouvido, antes do fauno continuar. — Acreditamos que pode se tratar da Profecia.

De repente, houve um silêncio geral. Um anão que estava próximo aos dois perguntou:

- Tumnus, tem certeza disso? — o fauno apenas balançou a cabeça indicando que sim. — Mas então isso é maravilhoso. É a melhor notícia que poderíamos ouvir em anos. — disse o anão, enquanto os outros concordavam. Tumnus pensou que algo estava errado. Não esperava que eles agissem dessa forma, tão receptivos à notícia.

- Vocês acreditam em mim? — perguntou ele para os outros.

- Ora mas que bobagem, Tumnus. — respondia o mesmo anão. — Porque não acreditaríamos? Nós te conhecemos há anos...

- Tumnus, se você diz que encontrou uma Filha de Eva, então só pode ser verdade. — disse uma doninha que estava em cima de um javali.

Uma tímida lágrima de alegria começou a correr pelos olhos do fauno enquanto que os outros começavam a perguntar por mais detalhes da visita. Procuravam entender qual a relação da visita com a profecia e Alegrete e Tumnus se encarregarram de explicar tudo a eles. Era como se a notícia começasse a renovar as esperanças para aqueles narnianos. Finalmente, depois de anos de inverno da Feiticeira, eles teriam uma pista, uma luz, sobre os Filhos de Adão e as Filhas de Eva da profecia, coisa que eles esperavam há muito tempo.

Notas finais
Obrigado a quem está lendo e gostando da história. Fico feliz com isso. Obrigado também a Aki Nara, AnneWitter, Daresh e Milts pelas reviews. É muito bacana o retorno. :)