A Face do Fauno
3 Capítulo 3: Visitas
Notas iniciais
Spoilers do livro "As Crônicas de Nárnia - O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa"
O tempo se passou rápido em Nárnia. A notícia sobre a visita da Filha de Eva para Tumnus se espalhou por entre aqueles que acreditavam na Profecia. Mas todos concordavam que deveriam evitar que os fiéis da Feiticeira ficassem sabendo desse fato. Quando essa notícia chegou ao Beco, aqueles refugiados que ali viviam viram nascer a esperança de voltar para Nárnia, apesar de gostarem muito daquele lugar.
O Beco é um lugar que o rei da Arquelândia, da época em que Jadis tomou Nárnia, reservou para os narnianos refugiados que pediram exílio a ele. Como estava descontente por seu exército não poder ajudar Nárnia, pôde ver que os narnianos ainda confiavam nele. Por isso mandou que reservassem terras na Arquelândia onde aqueles refugiados achassem melhor para que morassem e vivessem. E escolheram logo um campo aberto, próximo ao Monte Pyro, que era um local agradável e se mostrava mais próximo e parecido com Nárnia. Logo aquele local passou a ser conhecido como Beco e ficou sendo a principal porta para que os narnianos que insistissem em viver em Nárnia conseguissem alimentos, roupas ou outras necessidades, já que, por causa do “inverno forçado”, a maioria não conseguia nem a própria comida.
Quem levou a notícia ao Beco foi um centauro. Ele já estava voltando para Nárnia calmamente, pensativo. Sabia o que aquela notícia representava para quem a ouvisse; que uma simples garotinha aparecendo do nada no Ermo do Lampião significava muito para quem sabia da Profecia. Só que andando pela floresta cheia de neve, teve a concentração quebrada por um revoar de pássaros que estavam esperando justamente que ele aparecesse. Todos repetiam o nome dele e o mais próximo disse bem claramente.
- Siga-nos, Oreius. Temos uma surpresa para você. — Dizia o rouxinol, enquanto os outros já voavam para onde deveriam ir.
O centauro não tentou entender o que estava acontecendo. Sabia que nada de ruim viria daqueles pássaros, então resolveu ir atrás deles. Acompanhou-os por uns dez minutos, passando por um riacho congelado e por uma passagem estreita de pedras no meio da floresta. Chegando em um vale com árvores enormes e afastadas umas das outras, viu a surpresa que o estava esperando. Junto a alguns animais e anões estava o Grande Leão; os pássaros foram pousar bem perto dele. Quando Oreius chegou, Aslam conversava com aqueles que estavam próximos; estava de costas para ele, mas se virou logo assim que notou a presença do centauro.
- Seja bemvindo, Oreius, meu filho. Estava esperando por você.
Oreius tentava acreditar no que via. Há muito não sabiam de Aslam; há tempos que ele não aparecia. Primeiro pensou que poderia ser uma brincadeira de alguém, mas não demorou para tirar esse pensamento da cabeça, pois o Grande Leão era inconfundível. Logo, o centauro se abaixou, prestando uma reverência.
- Senhor, estou honrado em estar na sua presença. Há muito esperávamos o seu retorno.
- Eu sei disso, meu filho. Já tem muito tempo que a Profecia foi proferida e está na hora de ser cumprida. E estou aqui para ajudar vocês a libertar Nárnia.
- Nós? Senhor...
- Sim, meu querido Orieus. Todos vocês. — interrompeu Aslam, antes que o centauro perguntasse. — Não vai demorar para que os dois Filhos de Adão e as duas Filhas de Eva cheguem em Nárnia e precisamos estar todos preparados para a chegada deles. Você está pronto para liderar nosso exército? — perguntou olhando diretamente para os olhos do centauro, que não sabia o que responder.
- Eu não sei, Senhor. É muita responsabilidade...
- Mas estou certo que será um ótimo general, meu bom Orieus. Estou muito orgulhoso pela sua luta contra a opressão da Feiticeira. Se há alguém em Nárnia que fará um bom trabalho como general, esse alguém é você.
Aqueles animais que estavam perto de Aslam se alegraram ao ver quem seria o general para o exército de Nárnia, murmurando em aprovação à escolha do centauro e se mostrando cada vez mais animados com os acontecimentos. E nem mesmo aquele centauro sabia explicar o que sentiu naquele momento. Um sentimento de alegria se espalhou pelo peito dele, embora mantivesse no rosto a expressão séria que todo centauro demonstra. Sabia que era muita responsabilidade liderar um exército e sentia a necessidade de fazer tudo certo.
- Senhor, só posso agradecer pela confiança. Farei de tudo para não decepcionar.
- Estou certo disso, meu filho. Uma coisa eu lhe digo: você tem o mesmo sangue de valentes e sábios centauros que já estiveram em Nárnia. Sabia disso? — o centauro não respondeu. Aslam, vendo que Oreius não sabia o que dizer, continuou.
- Sei que sua mãe era uma das centauras místicas mais sábias que já viveu em Nárnia. Mas o que você sabe sobre seu pai, meu bom Oreius?
O centauro estava perplexo. Nunca havia conversado aquilo com ninguém e não esperava que logo o Grande Leão tocasse nesse assunto.
- Não sei nada, Senhor. Minha mãe nunca falou dele. Sempre dizia que era melhor que meus irmãos e eu não soubéssemos. Com o passar do tempo, nunca mais perguntei.
- Eu entendo, meu filho. Sábia como sua mãe era, só queria proteger a todos vocês. Mas acho que já é hora de saber a verdade. Seu pai foi um centauro muito importante na história recente de Nárnia. Graças a ele, a Profecia chegou aos quatro cantos do reino.
- Mas Senhor... Está me dizendo que meu pai... Era o lendário Óruns? — perguntou o centauro, tentando não demonstrar a incredulidade dele.
- Sim, meu bom Orieus. Ele mesmo. Ele viveu por um tempo com sua mãe, mas teve que deixá-los quando a Feiticeira passou a persegui-lo mais ferozmente. Passou-se muitos anos, até que ela conseguiu capturá-lo. Ninguém sabe qual foi o fim dele. Mas o legado dele não foi em vão. A Profecia se espalhou e isso ajudou muitos narnianos a manterem suas forças. E agora chegou a nossa hora. A hora de colocar as coisas no seu devido lugar. Concorda comigo?
O centauro suspirou e fez um sinal em resposta a Aslam. Não tinha mais palavras para dizer qualquer coisa. O que ouvira de Aslam era algo que sonhara desde muito tempo e acabou por ser melhor do que ele poderia imaginar; nunca imaginara ser filho do centauro que espalhou a mais importante das profecias de Nárnia. Aslam, se virando para os outros animais e anões, que estavam estupefatos com a notícia, e disse firmemente.
- Então todos vocês já sabem. Vão até todos os narnianos que não estão do lado da Feiticeira e os chame para o nosso exército. Devemos nos reunir próximo à mesa de pedra. Lá, iremos nos preparar para a chegada dos Filhos de Adão e das Filhas de Eva. Vão, meus amiguinhos. Estarei esperando todos vocês. Tenham todos bastante cuidado.
Aqueles animais e os anões prestaram uma reverência para o Leão e se foram. Mas antes que todos tivessem ido, Aslam chamou uma raposa, um javali e um ouriço.
- Tenho uma responsabilidade a mais para vocês, meus queridos. Sei que vocês três conhecem o fauno Tumnus. Ele corre grande perigo.
- Como, Senhor? A Feiticeira já sabe? — perguntava o javali, que estava mais próximo do que os outros dois.
- Ainda não. Mas saberá logo – respondeu Aslam, brandamente — Por isso quero que ajudem Tumnus até que ele chegue à Mesa de Pedra. Mas tenham cuidado com a Feiticeira. Se ela os encontrar, ou fizer alguma coisa, não tentem nada. Ela estará preparada para qualquer coisa que façam.
Com essa recomendação e uma reverência, os animais saíram para cumprir as ordens recebidas. O centauro que ainda aguardava viu Aslan se virando para ele para mandar que o seguisse.
- Vamos, meu caro Orieus. Também temos trabalho a fazer.
E os dois seguiram floresta adentro para um destino que o centauro não sabia qual era. Mas decerto não ignorava que o Grande Leão sabia o que fazia. Enquanto corriam pela floresta, as árvores se remexiam dando ao centauro a impressão de que também faziam reverências a Aslam. A presença dele enchia de alegria e esperanças a quem o via e dava a certeza que tudo se acertaria em Nárnia.
E esse mesmo sentimento de esperança o esquilo Alegrete sentiu quando se dirigia novamente para a casa do Tumnus. Estava quase chegando quando viu a portinha de madeira bem trabalhada aberta e notou que o fauno estava com uma visita. Já esperava quem seria, e se alegrou mais ainda ao confirmar. Lúcia estava na casa do Fauno, fazendo companhia a ele, num almoço que cheirava muito bem. Conversavam alegremente e nem pareciam suspeitar que os narnianos se alvoroçariam em saber que ela estaria ali novamente. Mesmo assim, o esquilo resolveu não entrar. Sentiu que aquele nobre momento pertencia ao amigo fauno e que ele poderia estragar ou atrapalhar a conversa dos dois. Ficou esperando por muito tempo porque Tumnus e Lúcia também pareciam não notar o tempo passando. Resolveu se espreguiçar num galho de árvore próxima e comer algumas frutas que carregava. Era o melhor a fazer até que a menina se fosse e ele pudesse conversar com o amigo.
Não muito longe dali, o senhor Castor e o amigo texugo caminhavam e conversavam animadamente no meio da neve. Se mostravam um tanto sujos e cansados mas sabiam que a senhora Castor havia preparado um excelente almoço e estava esperando pelos dois.
- Mas você não acha que ficou grande demais?
- Ora essa, e você acha que deveria ser um túnel pequeno? — perguntou, ressabiado, o senhor Castor.
- Não, não é isso. Mas ainda fico com medo que ele desmorone se alguém muito pesado passar por cima dele.
- E você acha que gigantes ou animais pesados circulam pra todo lado em Nárnia atualmente? Francamente...
Rindo, os dois continuaram a caminhar e conversar. Estavam próximo a alguns arbustos congelados quando ouviram guizos ao longe. E quando ouviram já perceberam quem seria.
- Será?... — perguntou o texugo e o outro apenas apurou os ouvidos e fez sinal para fazerem silêncio. Por ordem do senhor Castor, os dois correram para se esconder nos arbustos pois perceberam uma ordem da Feiticeira Branca para que parasse o trenó.
- Aqui está bom, majestade? — perguntou um anão atarracado, quando as renas se aquietaram e o trenó parou.
- Sim, está. — Respondeu a Feiticeira, olhando para os lados, se certificando que estavam sozinhos. Como não pôde reconhecer se aquelas árvores eram leais a ela ou não, e não notou ninguém mais, ela perguntou ao anão.
- Que acha, Ginnarbrik? É possível que ele não faça o que mandei?
- Duvido muito, minha rainha. A senhora foi perfeita em persuadi-lo.
- É, eu fui mesmo. Foi muito fácil convencer aquele menino... Edmundo. Quando olhei nos olhos dele, reconheci que podia usá-lo. Essa profecia idiota não vai se cumprir, mesmo que eu tenha que sujar minhas mãos...
- Mas e o fauno, minha rainha? Não devia ser preso? — interrompeu o anão, fazendo a Feiticeira se virar repentinamente pra ele. Ela pareceu considerar o que ouviu de Ginnarbrik e, então, concordou.
- Tem razão. Ele deve pagar por não me entregar a Filha de Eva.
Naquele momento, o texugo e o castor se entreolharam e entenderam o que os dois estavam falando. Sabiam que Tumnus não avisara a Feiticeira sobre a visita de Lúcia e que corria grande perigo. Agora que Jadis já sabia, iria depender dos dois para avisar aos amigos e salvar o fauno. Os dois prestaram atenção aos ocupantes do trenó, pois a Feiticeira passou a mão em uma espécie de bolsa que carregava junto a ela no banco, e tirara de lá uma coisa pequena, parecida com um apito. Era curvo e um pouco comprido e, quando a Feiticeira o soprou, saiu dele uma fumaça densa estranhamente preta. A princípio, a fumaça ia se espalhar pelo ar, mas de repente se condensou, fazendo aparecer um falcão que tinha um olho só e todas as penas pretas, lembrando um grande abutre.
- Majestade... — voando, o falcão prestou uma habitual reverência.
- Preciso que você chame minha polícia. Mande Maugrim reunir todos para irem atrás do Fauno Tumnus. Quero que o prendam nas masmorras por não me entregar a Filha de Eva que apareceu.
- Será feito, majestade – disse o falcão, se virando para voar o mais rápido que podia, sendo acompanhado pelos olhares da Feiticeira e do anão. Não demorou muito e a Feiticeira se virou para o anão e ordenou sinistramente:
- Quando chegarmos no castelo, Ginnarbrik, quero que você prepare um bom lugar para mais quatro estátuas. Vão ser as melhores companhias para o fauno.
Apreensivos, o senhor Castor e o texugo aguardaram que a Feiticeira fosse embora. Quando o trenó se arrastou para longe dali os dois puderam respirar melhor, mas a conversa que ouviram foi inquietante. O Castor se sentou no chão, pensativo, e então teve uma dimensão do que aconteceria.
- Ela quer eliminar os Filhos de Adão e as Filhas de Eva. Era de se esperar que fizesse isso...
- Claro... Mas porque o espanto? — o texugo tentava acompanhar o raciocínio do castor.
- Porque logo um deles foi se entregar?
- Um deles? Como assim?
- Não se lembra de Tumnus dizer o nome dos quatro?
- Não... — o texugo olhou para baixo, na tentativa de lembrar, até teve uma súbita lembrança, que parecia que alguém tinha martelado na cabeça dele – Ah, mas é claro.
- Isso mesmo! Edmundo é um deles. Precisamos correr até a casa de Tumnus. — dizendo isso, o senhor Castor se pôs a correr, mas logo notou que o texugo ficara no mesmo lugar.
- Que foi?
- Eu sou uma vergonha para a minha espécie...
- Ora essa... Não é o momento para isso — disse o senhor Castor se aproximando do texugo.
- Ah, mas minha mãe sempre reclamou da minha falta de memória.
- Olha pra mim – segurando nos braços do texugo, o senhor Castor tentava animar o amigo. — sei que você não tem memória fraca. Você é o meu melhor amigo e sempre me ajudou quando eu precisei. Agora Tumnus precisa da nossa ajuda.
- Certo... Tem razão. Como chegaremos antes da polícia? — perguntou o texugo,
- Eu não sei. Precisamos correr. Vamos...
E os dois se apressaram para a casa do fauno. Como não viram nenhum conhecido, perceberam que dependeria deles para que alguém soubesse e o fauno estar a salvo da Feiticeira.
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