A Face Protetora

7 Encontrei! Encontrei!


De forma inexplicável, o carro havia parado. Fora num ápice de pensamento, quando ela pensava em tudo, e em nada. Seus olhos, a mesmo tempo em que vagavam, faiscavam promessas passadas. No entanto, estavam vazios, sem brilho. Restituindo os cacos de sua visão, já partida, encarou o mortuário. Sentia-se como qualquer um, meus caros, que, ali, jazia. E, inverossimilmente, recompunha forças para caminhar.\ \ Seu estômago embrulhara. O lugar, tão frio, tão mórbido, estava, ao que se aparentava, perdido. Fitava as esculturas, as estátuas. Eram, de forma esplêndida, reais. Chegava, tolamente, a se perguntar se, algum dia, elas sentiram seu sangue correr, sim, nas veias. Apercebia-se, também, da ironia: Por baixo de tão belas formas, havia, somente, podridão. Apercebia-se, e tentava, inutilmente, revivê-las ao olhar. Não podia, não conseguiria. Mas, creiam-me, ela tentava.\ \ Roçagando a grande saia do vestido, pousou, de forma gentilíssima, o pezinho no solo. Apesar de seu calçado, todo viçoso e forte, seu membro de carne, então, congelava-se. Ao toque da pungente temperatura, pensou em recuar. Mas, não. Aquele lugar, apesar de todo o frio, de toda a tristeza, era tranqüilo. Estranhamente tranqüilo. Afinal, quem gostaria de um cemitério? Mas, ela? Ela, não. Não se importava com críticas, com pilhérias. Importava-se, somente, com o enigma: “Ele, podendo voar, a paz encontrará.”. Pensava nele, e no Fantasma, que não abandonava seus pensamentos, e seus pesadelos.\ \ Enternecendo os passinhos, flutuou. Acariciou, com os belos olhos, o chão, que estava coberto pela água da chuva. Atravessou, sem esforço, o grande cemitério, sentando-se, calmamente, a um Mausoléu. Pousando a mãozinha em seu colo, dirigiu suas pupilas ao céu. \ \ \ \ — “Ele, podendo voar, a paz encontrará!”. Deus meu! Que é isto? Seria um homem, o qual sonha em voar? Sim! Então, se pudesse voar, encontraria tranqüilidade, por realizar seu sonho! Encontraria, assim, a paz!- Sorriu-se. Logo depois, avermelhando-se, rosnou: — Não! Ridículo! Qual homem! Não! Não se encaixa com o Fantasma, ou com o que ocorre naquele teatro. “... Podendo voar, a paz encontrará.” — Nisto, prosseguiu, quando, volvendo os olhares para um ponto distante, avistou um pássaro. Um corvo, para condizer-me com a verdade. – Ou, senão, um pássaro! Sim, um pássaro, um pássaro, então, que... Não. Não há sentido em “a paz encontrará”. Maldição! Aborreço-me! Queres saber de algo? Esquecerei esta história! História estapafúrdia! – Então, pôs-se em pé, correndo. \ \ Tomou a carruagem, que ainda esperava. Aproveitando o “passeio”, fora a algumas compras. Chegou, então, pela noite. \ \ \ \ -Malrora! Onde fostes?- Perguntou uma bailarina, achegando-se a ela.\ \ \ \ -Resolver assuntos pendentes, Aurore. Nada importante, querida. –Sorriu-se, em seu tom polido e grave.\ \ \ \ -Tu não sabes!- Continuou a bailarina – Albine viu-o!\ \ \ \ -Viu quem, oras?\ \ \ \ -O fantasma!\ \ \ \ -Ora, qual! \ \ \ \ -Deveras! Se tu não crês... \ \ \ \ -Não, não creio neste homem. – Mentia. – Agora, se tu me permites, minha cara, vou trocar-me. Preciso comer. – Retirou-se, ofegando.\ \ Seus trajes, como ia deitar-se, eram simplíssimos. Não possuíam enfeites, ou decoros. Ali, jantando, estavam todas suas companheiras. Estavam silenciosas, e discretas, quando escutaram, em alto tom, uma voz. Uma voz, meus caros... vinda de cima. Não sabiam se pertencia a uma mulher... Ou a um homem. \ \ Entreolharam-se. Nada. Então, algumas velas, em seqüência, apagaram-se. Vale-me lembrar, então, de que as janelas estavam fechadas. Então, pôde-se escutar, nitidamente, um som... Algo que assemelhava-se a uma lamúria. Uma triste e arrastada lamúria. Isto, seguido de passos. Sim, passos. Sobre a cabeça de todas elas. \ \ Rapidamente, ergueram-se, e sumiram-se, assim: como a fumaça de um incenso. \ \ Contendo a confusão, Malrora disse:\ \ \ \ -Esqueçam isto. Nada era. Poderia, apenas, ser um servente. \ \ \ \ -Um servente esdrúxulo, não? – Irritou-se uma delas, fazendo alusão à voz do intruso.\ \ \ \ -Calem-te. Quanto mais tocarmos neste assunto, pior ficará! – Alertou Meg, confusa. Deitou-se, apagando o candelabro de sua cabeceira. \ \ \ \ -Concordo com Meg. – Disse outra, fazendo o mesmo. \ \ Ao fim, todas estavam deitadas. Todas, exceto Malrora. \ \ \ \ -“Ele, podendo voar, a paz encontrará”. Pois bem: Pássaro, ou homem? Ou, então, nenhum destes? – Pensava. De súbito, algo, como se soprado a seu ouvido, perpassou-lhe o espírito. Agitada, ergueu a cabeça. – Meg! Meg! Meg! – Como esta, então, não acordasse, foi à sua cama. – Meg! Desperta!\ \ \ \ -Como?... Malrora!... Que queres?... – Perguntou, sonâmbula.\ \ \ \ -Lembra-te, Meg, de manhã? Recomendaste algo, o que não me lembro, a uma das serventes! Poderia repeti-lo, sim, para mim?\ \ \ \ -Ora! E como não lembraria? Pedi que fosse, sem rodeios, ao correio, para mim. Ah, sim! Depois, mandei-a ter com mamãe. Ela iria pedir a servente, então, que limpasse a sujeira dos pombos.\ \ \ \ -Isto! Meg, és um anjo! – Exclamou Malrora, correndo para a cama. \ \ \ \ -Sim, um anjo! Que precisa dormir! – Exclamou Meg, deitando-se.\ \ \ \ -Deixe-me ver: Não pode ser um homem, pois seria ridículo. Então, por que não seria um pássaro? Agora, encaixemos! “Ele, podendo voar, a paz encontrará”. A paz encontrará! Em relação ao que Meg disse... Pombos! Pombos, em qualquer lugar, remetem à paz! Tranqüilidade! Pombos são tranqüilidade, paz! “Podendo voar, a paz encontrará!” Isto! – Pausou. –Mas... Que tem, isto, a ver? “Pedi que fosse ao correio, pedi que limpasse a sujeira dos pombos!” Pediu que fosse ao correio... Limpar a sujeira dos pombos... Espere! Em certa época, em certas guerras, e, inclusive, até hoje, envia-se mensagens, sim, através de pombos... A eles, então, atribui-se o nome de... Pombo Correio! Isto! Tenho de mandar uma mensagem! E, obviamente, à Christine Daae! Não me esquecerei! Ah! Agora, posso repousar, e sonhar! \ \ Fechando os olhos, teve a impressão de ouvir, levemente, uma voz de além-túmulo sussurrar: “Parabéns”. \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \ \