Notas iniciais
Troquei, infelizmente, o título do capítulo. Afinal, não lembro-me, já, do outro.
O dia estava, para a infelicidade de algumas, chuvoso. As bailarinas, os coristas, as sopranos, e todos, estavam ao palco, no momento do intervalo. Aproveitando-se disto, Malrora achegou-se a uma mulher, que conversava com alguns serventes: -Permita-me! Poderias levar ao correio, por obséquio, esta carta? É para Christine Daae! -Christine Daae? -Sim, mande-a. — E, entregando a carta à mulher, retirou-se, refestelando-se em júbilo. O que continha a carta, meus caros, transcrevo-vos, aqui: “Madame Daae, Longe de mim, caríssima, aparentar intrusa, insolente, ou algo da epopéia. Sou nova soprano, moça, da Ópera Populaire. Desde que ingressei no Teatro, presencio fatos estranhos, e ouço histórias medonhas! Não, minha cara, permitindo-me dizer, assustadoras. São, em realidade, ridículas. Se a ofendo, perdoe-me. Porém, tenho de ser franca. Existem dançarinas boateiras, que dizem coisas de péssimo calibre, tanto sobre ti, quanto sobre o tal Fantasma Da Ópera. Se desperto alguma inquietação, perdoe-me. Entretanto, preciso saber a verdade. Quem é o Fantasma da Ópera? Atenciosamente, Malrora Morisset.”Voltando, então, à nossa narrativa, Malrora volta ao centro do palco, para ensaiar seu papel. Sua voz, como doce mel e fragrância, saltava-lhe os lábios, brincando nos ouvidos de todos.Após o cansativo ensaio, Malrora saiu, apressada. Embarrou-se com algumas pessoas, e, temendo que elas lhe perguntassem algo, eclipsou-se dos bastidores. Por seu espírito, perpassou uma incrível vontade, assim, de isolar-se, e permanecer sozinha. Completamente sozinha. Não pensava em nada, não odiava nada, não amava nada. Desejava, apenas, eclipsar-se. Então, correu a uma sala. Buscando, com os olhos, uma saída, avistou a porta, sim! A porta do camarim de Christine. Sorrindo, adentrou-o, e ganhou solidão. Sem ponderar duas vezes, atirou-se a uma cama, que estava vazia. Gargalhou, chutando o ar. Portanto, num ingênuo segundo, sua consciência retornou, destruindo-lhe as audácias, e as lascívias. Seus olhos, opacos e sem vida, avistaram o espelho. Aquele espelho, sim, de que falara Meg. Ergueu-se, pensando. Seria melhor, então, que ela corresse até lá. Se encontrasse algo, ou alguém, seria ótimo! Poderia, então, desvendar o ridículo mistério, e voltar à vida normal. Se este “algo” a ferisse, ela não se importaria. A vida é um sopro. Se seus olhos delatassem a inexistência de um ser vivo, voltaria, e esperaria... Esperaria, então, outra pista. Atirando fora, já, a melancolia, implantou-se a coragem e a veracidade. Sorriu-se, e seguiu. Tomando posse de uma tocha, abriu o vidro, passando por ele. Andava, apressada. Nada lhe assustava. Nem, ao menos, os ratos. Seus olhos queimavam, faiscavam. Será que, finalmente, descobriria algo útil? E o Fantasma da Ópera? Seria, realmente, um fantasma? Ou seria, por suposto, de carne e osso? Nisto, seu espírito encontrava ânimo para continuar. Apesar do que Meg havia contado-lhe, ela possuía dúvidas. E se o homem fosse, por desventura, falecido? Caminhou por algum tempo, até encontrar um belo cavalo. Seus olhos encheram-se de brilho. Se, ali, havia um animal, e tão belo, alguém o cuidava. Excitada, apressou-se, encontrando um bote. Vestindo fulgor lucífero, agarrou um remo, e aventurou-se. Se o fantasma existisse, então, seria, realmente, feio? Ou isto, por suposto, seria algum mau boato? Inverossimilmente, ela, agora, interessava-se pelo homem. Estranho! Nunca vira-o, e estava muito curiosa! Neste momento, não ansiava-lhe a biografia, mas o próprio espectro da Ópera. O bote relutou-se contra algumas pedras, o que a fez despertar. Confusa, desceu do transporte, soltando o remo, e fitando o lugar. Como era estimulantemente bem decorado. Realmente! Quem quer que habitasse-o, possuía, de fato, muito bom gosto! E, obviamente, era homem! Ora! Uma mulher sombria, por mais carrancuda que seja, irá decorar sua estada, meus caros, com tênue morbidez. Não com aquela miscigenação! Era uma mistura. Uma mistura de luxúria, com goticismo. Uma mistura de sangue, de ouro, de ébano. Enfim! Uma, verdadeiramente, excitante mescla! Afinal, abastou-se de suas visões aristocráticas, de suas visões artísticas, para entregar-se ao mistério, e a ação. Saltou os pensamentos, e caminhou. No entanto, caminhava lentamente, temerosa de aparentar uma intrusa. Temerosa, também, de encontrar algo... ou alguém. Arrastou-se, atraída, para o piano, onde parou, e deslizou os dedinhos pelas teclas. Então, abandonou o instrumento, para retornar a uma miniatura. Sua surpresa fora grande, ao dar-se conta de que, a miniatura, retratava o palco da Ópera. De modo ainda mais chocante, havia bonecos. Entre eles, havia um que assemelhava-se à sua pessoa! Levou, mais que depressa, a mão aos lábios. Vira, pois, desenhos. Desenhos de uma mulher. Uma bela mulher. Viu, também, bonecos que expressavam a mesma jovem! Seguiu, então, a um manequim. Um manequim perfeito! Deus! Faltava-lhe, apenas, a fala! Ela vestia-se de noiva, e possuía uma belíssima face. Espere! É a mesma mulher! A mulher que se encontra nas fotografias, nos desenhos, nos bonecos! Esta é... Christine Daae! Pouco adiante, encontrou uma bela cama! Realmente, era belíssima! Que era? Uma águia? Ora, não seria um pombo! – Pilheriou, sorrindo. Entretanto, estava, tudo, em perfeita ordem. Os candelabros que, ali, existiam, não estavam acesos. Nem por isto, o lugar era negro. Era, apenas, pouco obscuro. Mesmo, pois, nada, ali, demonstrava sinais de moradia, exceto pelo cavalo! O lugar estava, de forma completa, morto. Seus olhos baixaram para uma pequena caixa de música. Era graciosa, e divertida! Ali, estavam todos os detalhes possíveis! Sorriu-se. Segundos depois, enfureceu-se, fitando sua volta: -Não há ninguém, aqui!- E, então, correu-se dali.