A Face Oculta Da Lua

22 Quando A Brisa Anuncia Os Ventos Da Tempestade


Notas iniciais
Com esse capítulo, ultrapassamos as 110.000 palavras... Caramba, parece que foi ontem que eu decidi fazer a 2ª temporada e comecei a planejá-la... Obrigada aos que ainda me aturam, só por causa de vocês eu cheguei até aqui!O capítulo de hoje é dedicado a duas pessoas: À DaniMines, que mandou a sexta recomendação dessa fic e me fez muito feliz por suas palavras! Muito obrigada, sua linda, amo recomendações, e a sua realmente me deixou pra lá de contente ^^ Também dedico esse capítulo à Lady Chess, uma leitora nova fã do House que deve estar puta da vida comigo por eu ter matado seu ídolo! Mas quem não está, né? rsrsrsrs (Seja bem-vinda, gata, espero que esteja curtindo a fic! ;])

Alice estava sentada em sua cama, permitindo-se curvar diante do próprio desânimo, tentando despistar todas as lembranças que lhe remetiam ao Coringa, ao Bruce, ao Batman... ao seu passado e presente naquele inferno de cidade. Encarou a tela acesa de seu celular, procurando por um nome específico em sua lista de contatos.

Efetuou a chamada assim que o encontrou, levando o aparelho ao ouvido e esperando com impaciência que o interurbano se completasse.

_ Ra’s Al Ghul! – uma voz entrecortada atendeu após alguns poucos toques, num tom que denotava surpresa com a procedência da chamada.

_ Nureen! – Alice o cumprimentou de volta, endireitando a sua postura ao finalmente ter um pretexto para distrair a própria mente de si mesma – Você pode falar agora? – perguntou quase sussurrando, cautelosa.

_ Sim. Estou sozinho, mas... Espere um pouco, Ra’s, melhor ir para algum lugar mais privado... Um momento... – pediu, parecendo apressado. A hippie aguardou em silêncio até que o ninja tornasse a se manifestar, e um breve instante calado se formou entre eles, até que novamente a voz de Nureen chegou pouco clara aos seus ouvidos – Pronto! – avisou.

_ Nureen, o que você descobriu até agora sobre a morte de Ducard? – dispensou qualquer formalidade e foi direto ao ponto – Me deixe a par da situação e me informe sobre os seus avanços aí...

_ Eu fiz o que você ordenou, Ra’s Al Ghul. Desenterrei o corpo de Ducard e contratei um médico para realizar uma autópsia confiável, só que... Até agora não tivemos grandes progressos... – contou, parecendo suspirar do outro lado da linha – O legista designado parece não chegar a nada de fato conclusivo. Ao que tudo indica, Ducard realmente morreu por um infarto no miocárdio.

_ Que Ducard morreu por uma insuficiência cardíaca não resta dúvidas, o que eu quero é saber se isso se deu por causas naturais ou se foi um infarto induzido! – Alice disse, aborrecida. Fechou os olhos e respirou fundo por um instante, tentando acalmar-se – Desculpe, Nureen, sei que você não pode fazer milagres por aí. Continue procurando pelos sinais de homicídio, tenho certeza de que a pessoa que fez isso soube camuflar muito bem os rastros de assassinato!

_ Ra’s Al Ghul, perdoe a intromissão, mas... – hesitou – Você tem alguma suspeita de quem fez isso? – perguntou, interessado.

_ Suspeitas são tudo o que eu tenho, Nureen, e esse é o meu maior problema! Enquanto esse assunto se resumir a suposições, prefiro mantê-lo apenas para mim.

_ Claro, Ra’s, claro. Compreendo. Espero conseguir informações mais específicas antes que vocês retornem e o nosso sigilo se torne impraticável. Aliás, quando pretendem voltar à Liga?

_ Isso ainda não está decidido. Por quê? Você precisa de mais gente aí com você?

_ Não exatamente. Só preciso saber com antecedência quando será o retorno para ter tempo de enterrar novamente o corpo de Ducard e dispensar o médico que contratei. – avisou, prático. – É de seu interesse que ninguém saiba o que eu estou fazendo aqui, não estou certo?

_ Ah, sim! – massageou o pescoço com a mão livre, fechando brevemente os olhos numa concordância passiva – Não se preocupe, assim que eu souber estipular um prazo, eu te aviso! E qualquer novidade, me ligue imediatamente! – ordenou, sem grandes esperanças.

_ Certamente, Ra’s Al Ghul! – concordou respeitosamente, e Alice quase pôde vê-lo anuir como sempre fazia quando recebia um comando direto. Após uma breve despedida, ambos encerraram a ligação, porém Alice continuou encarando o aparelho móvel, como se ele pudesse lhe revelar algo mais...

_ Baguera! – Alice sorriu, contente ao vê-la se esgueirando com seu típico rebolar felino até a ninja – Vem cá, sua desertora. Preciso de um dos seus sábios conselhos – brincou, batendo de leve no colchão até que a enorme gata desse um de seus pulos certeiros para o lado da dona, e lá se aconchegasse, preguiçosa e cheia de ronronares a oferecer. Alice tratou de acariciar o pescoço da gata distraidamente, fitando o nada – O que você faria no meu lugar? Veja bem, pense bastante antes de responder! Eu sei bem qual o próximo passo devo dar, mas tenho medo de que ele seja em falso... – olhos amarelos a encararam, como se de fato a entendessem. Melhor até do que muitos olhos humanos – Porque tudo o que eu mais quero é descobrir todos os nomes envolvidos na morte do Krusty. Você teria gostado dele... – sorriu, deixando que as lembranças a carregassem para longe. Mas o presente logo apagou aquele sorriso fácil de seu rosto, munindo-o de novas feições pesarosas – Mas, ao mesmo tempo, essa busca pelos fatos está me destruindo, Baguera... Não só me destruindo, como me fazendo definhar, céus, o que foi aquilo com o Coringa? Quem em sã consciência se permitiria cometer exatamente os mesmos erros que o trouxeram a essa situação? Eu nem sei mais o que pensar, essa é a terrível realidade, se quer saber... Nenhuma verdade pode trazer o meu menino de volta, e esse caminho está machucando não só a mim, mas também pessoas que eu amo. – encarou a gata na dúvida antes de prosseguir – O Bruce, por exemplo... Sabe tudo o que ele arriscou e fez por mim? Tudo o que ele deixou pra trás pela minha segurança? E agora ele simplesmente descobre que eu estou tão viva quanto ele, assim, num piscar de olhos. Sabe, Baguera, se eu sequer desconfiasse de que ele seria envolvido nisso, acho que jamais teria voltado! Eu devia ter ficado na Liga, recomeçado por lá, esquecido tudo o que me feriu aqui em Gotham... Por que eu simplesmente não consigo me desvincular de tudo isso? Por que eu cismo em sempre buscar o caminho mais difícil, aquele que mais machuca? Eu sei o que você vai dizer! – arqueou uma sobrancelha na direção do belo animal, levantando de leve a voz como se o interrompesse – Que eu sou estúpida por deixar que minha busca pela verdade se torne tão obsessiva a ponto de criar novas feridas. E quer saber? Você está certa! E tem razão de jogar isso na minha cara assim, na lata. Mas também, por outro lado, como ser capaz de simplesmente esquecer e apagar o passado quando ainda existem tantas dúvidas rondando sua mente noite e dia, sem sossego? Baguera, eu só queria ser capaz de resolver isso e ao mesmo tempo deixar todos fora dessas confusões... Não queria envolver ninguém nos meus problemas, só queria chegar e sair de fininho, como você sempre faz...!

_ Tarde demais – uma voz rouca ecoou por detrás da ninja, fazendo-a virar com rapidez, de olhos arregalados.

_ Eita, porra! – permitiu-se um sobressalto de surpresa ao ver o Cavaleiro das Trevas bem à sua frente, negro e ameaçador, quase volátil pelo próprio terrorismo que ele fazia questão de emanar. – Há... Há quanto tempo você está aí? – olhou-o com amargura.

_ O bastante – respondeu simplesmente, fitando-a com tanta frieza que chegava a sufocar, assim como seu tom distante, que mais pareciam chicotes dilacerantes estalando contra sua carne.

_ E por que a máscara? Ainda estamos no meio da tarde, e talvez você ainda não tenha percebido, mas eu sei quem você é, senhor Morcego... – falou bestamente, sentindo que seus olhos a traiam.

_ Você sabe quem eu sou, mas a recíproca é falsa. Por isso a máscara. – disse secamente, fazendo-a desviar os olhos até sua gata. Se ele ao menos desconfiasse o quanto ela estava cansada... exausta... perdida...

_ O que você quer? – reproduziu o mesmo tom excluso de sentimento, desejando novamente ficar sozinha, acima de tudo.

_ Quero saber exatamente o que você pretende aqui em Gotham. Quero ter noção de cada passo da Liga das Sombras enquanto vocês estiverem sob os domínios dessa cidade. Quero garantir que nenhum cidadão seja lesado pela presença dos seus... ninjas.

_ Qual é o seu problema? – fitou-o, sem entender – Eu já disse o que você queria saber! Já disse que não vim aqui por Gotham, que minha intenção é só interrogar algumas pessoas...

_ Palavras não me convencem mais com a mesma facilidade. – lançou, quase ofensivo – Eu quero estar ciente dos seus planos e participar deles. Garantir que ninguém sairá ferido com a passagem de vocês por aqui.

_ Eu não acredito! Sério isso? – levantou-se da cama, sentindo-se exaltar – Você acha que pode fazer parte de planos que são meus? Que pode interferir neles? Acha que pode chegar aqui já acusando a mim e aos meus ninjas de um novo atentado sem qualquer motivo?

_ Acho – respondeu simplesmente, inabalável – Eu conheço melhor do que ninguém os tipos de métodos que a Liga das Sombras se utiliza, e depois de tudo o que esses mesmos ninjas fizeram à Gotham, seria descuido meu não acompanhar suas intenções de perto. O que eu mais tenho é aquilo que você chama de motivo.

_ Quer saber? Foda-se! Se é essa a ideia que você tem de mim, fique à vontade para se juntar aos meus planos e espioná-los, senhor Wayne. Sim, Baguera, o Bruce é o Batman! Hora da verdade! – disse, quase berrando em direção à gata, e logo voltou sua atenção irada ao Cavaleiro das Trevas que ainda a mirava sem qualquer expressão – Mas depois que tudo isso acabar, você vai fingir que não nos viu aqui, e meus ninjas e eu iremos embora sem nenhum problema! Temos um acordo, Morcego?

_ Cumpra a sua parte e eu cumprirei a minha! – avisou, sabendo o quanto aquela imposição estaria fora de suas capacidades. Como se Bruce pudesse de fato fingir que não viu Alice... convencer-se de que ela estava morta... fingir que não se importava... Poderia sim dissimular para os outros da mesma forma que fez a sua vida inteira, mas para si mesmo? Suas habilidades não se estendiam a tanto!

_ Era tudo o que eu precisava... – resmungou, ainda com a mesma amargura e nostalgia no olhar. Odiava mais do que tudo ter que lidar com a apatia e frieza de Bruce, tão evidentes naquelas negras íris envolvidas pela máscara do Batman, igualmente negra e gélida – Na boa, Bruce, você não podia simplesmente... Não, esquece! – balançou de leve a cabeça, renegando o próprio pensamento.

_ O quê? O que eu poderia fazer que eu já não tivesse tentado?

_ Demonstrar alguma merda de algum sentimento, por pior que seja. Gritar, me xingar, se lamentar por não ter escolhido a Rachel, me expulsar da sua preciosa cidade, qualquer coisa! Menos essa sua apatia, Bruce. Acho que nossas histórias têm muito em comum pra você simplesmente ignorar todos os meus motivos desse jeito. Eu sei que o que eu fiz com você foi terrível, e queria mesmo ter pensado em outro jeito de...

_ Não vale a pena retomar essa discussão agora, Alice. – ele a interrompeu com sua voz rouca e firme – Eu vim aqui apenas para ficar a par das suas intenções e me certificar delas, nada mais – lançou, cortante. Ela meneou a cabeça em resposta, soltando um suspiro em forma de riso. Encarou-o de volta, ainda envergando de leve os lábios num sorriso derrotado.

_ Tudo bem, eu desisto. Acho melhor você me dizer de uma vez o que exatamente você quer saber, assim nos poupamos do constrangimento da presença do outro.

_ Apenas tudo! – falou num tom que beirava a zombaria, tentando camuflar suas reais emoções tanto para Alice quanto para si mesmo. Contudo, a segunda tentativa mostrava-se cada vez mais árdua. Antes mesmo de sua última conversa com Alfred, Bruce sabia que devia tentar dar algum aporte ao fardo que Alice carregaria ao novamente enfrentar as dores de seu passado. Ele, mais do que qualquer um, sabia o quanto era difícil lidar com o inconformismo da perda, e mesmo que ainda se sentisse profundamente ferido pela mentira de Alice, ainda assim lhe parecia terrivelmente insuportável imaginá-la passando exatamente pelos mesmos tormentos que ele enfrentou com a morte daqueles que tanto amava. Essa era a verdadeira razão que o moveu a ficar próximo da ninja e de seus planos... Por mais que não lhe agradasse saber que a Liga das Sombras se abrigava novamente em Gotham, nem de longe o seu real e mais importante intuito era o de manter aqueles ninjas sob sua protetora visão. Não... Sua maior necessidade residia em, de alguma forma, proporcionar algum consolo à Alice caso ela se mostrasse disposta a recebê-lo. Por mais que soubesse que, mais uma vez, acabaria perdendo-a pelos caminhos opostos que escolheram – O que você tem em mente agora? – obrigou-se a calar aqueles pensamentos inoportunos dentro de si, tão inconvenientes quanto a queimação que se alastrava por uma extensão considerável de seu peito.

_ A história é longa, Morcegão. Sugiro que sente.

_ Você abrevia.

_ Como queira, senhor – disse, tendo que conter uma reverência jocosa que quase lhe escapou em meio à própria raiva. Gastou um segundo extra apenas vislumbrando o pouco que conseguia reconhecer do rosto de Bruce, notando-o tão carregado quanto o dela também deveria estar. Limitou-se a falar, disposta a encerrar de uma vez aquela inesperada e atormentadora visita – Eu cheguei a Gotham sem muita noção do que deveria fazer, apenas sabendo qual deveria ser o meu primeiro passo. Procurar Coringa. Sabia que deveria começar a minha investigação por ele, já que ele foi o princípio de tudo. Cheguei aqui desconfiada de que o Palhaço estava envolvido de alguma forma com o sequestro do meu filho, por razões que não vem ao caso, já que você quer a história resumida – notou Batman empertigar-se, talvez incomodado.

_ Você o encontrou?

_ Não. Ele me encontrou – umedeceu os lábios, sentindo pesar por cada recordação inapropriada – E foi com a intenção de vê-lo que eu ordenei o assalto ao Banco da máfia. Para permitir que Coringa soubesse que eu estou viva e em Gotham, para que eu tivesse a oportunidade de passar esse recado apenas para ele. Bom, ele veio até mim, e eu tive que interrogá-lo limpo...

_ Limpo? O que isso quer dizer? – Batman perguntou, parecendo confuso.

_ Sem a intervenção da droga que eu pedi ao Doutor Crane para fabricar. E sim, o Espantalho está trabalhando pra mim! – adiantou-se ao ver os olhos que encarava se arregalarem de inconformismo.

_ Você está se ouvindo, Alice? Entrar para a Liga das Sombras, contratar psicopatas, fabricar drogas ilegais...

_ Sei, sei, eu já entendi! – ela o cortou, revirando os olhos – Essa é a hora em que você diz “Essa não é a Alice que eu conheci”, me poupe desse discurso, Batmané! A Alice que você conheceu morreu junto com o Krusty, e agora eu quero conhecer aqueles que tornaram essas mortes possíveis, só isso. E pode se fazer de chocado, Bruce, mas por essas respostas, eu assaltaria quantos Bancos fosse necessário, drogaria quem precisasse e contrataria toda a escória dessa cidade. Nada disso pode trazer o meu filho de volta, mas se puder ao menos me devolver uma ínfima porção que seja da minha paz de espírito, meu saldo já será positivo.

_ Eu compreendo isso. – anuiu, para o espanto da ninja – Só quero evitar que você acabe se engajando numa busca que lhe trará dores desnecessárias... Assim como eu... – encarou-a com intensidade, incapaz de evitar o quanto seu peito pareceu aquecer-se ao vislumbrar a expressão atônita de Alice – E agora, o que você pretende fazer? – perguntou, antes que ele se permitisse sucumbir ainda mais àquele fraquejo breve.

_ Bom... – pigarreou, como se tentasse recompor as ideias que pareciam ter se embaralhado em sua mente sob aquele olhar compreensivo que, pela primeira vez desde que retornara, ela pôde reconhecer como sendo de Bruce – No dia em que eu interroguei Coringa, ele deu a entender que, de algum modo, a polícia estava envolvida no sequestro do meu filho, de forma indireta, mas ainda assim envolvida. Agora eu quero conferir até que ponto isso é verdade. Ver quão fundo é o buraco... – pensou alto – O Comissário Gordon vai ser o próximo. Pretendo trazê-lo aqui assim que a droga estiver terminada.

_ Eu estarei aqui! – avisou, redistribuindo a rudeza em seu tom – E vou garantir que o Comissário saia ileso de suas perguntas.

_ Claro que vai... – A ninja tremeu numa nova onda de raiva, achando extremamente difícil escondê-la. Fechou as pálpebras por um segundo, a fim de controlar-se como Ducard lhe ensinou e esconder dentro de si todo o desalento que a dominava – Agora se você... – Alice calou-se ao ver que Batman já havia partido, tão silencioso e escorregadio quanto as sombras em seu quarto – Maldita mania! – rosnou, infeliz, chutando o pé da própria cama na mais completa frustração.

“How can I just let you walk away?

Just let you leave without a trace?

When I stand here taking every breath with you, ohoo

You're the only one who really knew me at all

How can you just walk away from me?

When all I can do is watch you leave?

'Cause we shared the laughter and the pain

And even shared the tears

You're the only one who really knew me at all

So take a look at me now

'Cause there's just an empty space

And there's nothin left here to remind me

Just the memory of your face

Take a look at me now

'Cause there's just an empty space

And you comin back to me is against all odds

And that's what I've gotta face, ohoo

I wish I could just make you turn around

Turn around and see me cry

There's so much I need to say to you,

So many reasons why

You're the only one who really knew me at all

So take a look at me now

'Cause there's just an empty space

And there's nothin left here to remind me

Just the memory of your face

Take a look at me now

'Cause there's just an empty space

But to wait for you, well that's all I can do

And that's what I gotta face

Take a good look at me now

I'll still be standing here

And you comming back to me is against all odds

It's a chance I gotta take; ohoo

Take a look at me now

Against All Odds – Phil Collins

Jonathan Crane caminhava satisfeito ao lado de uma Alice que, visivelmente, não compartilhava o mesmo sentimento. Ao contrário, ela parecia estranhamente focada no piso da porca estalagem, como se estivesse num mundo à parte, bem distante daquele teto que a abrigava.

_ Espero que a notícia seja boa – ela comentou, entediada – Já deu de notícias ruins por hoje! – fungou, tornando o gesto quase birrento.

_ Creio que você vai gostar do que eu tenho a mostrar – sorriu enquanto ainda a conduzia alguns passos à frente, empolgado – Trata-se do nosso pequeno projeto e, ao menos a meu ver, a notícia é relativamente satisfatória.

_ A droga? Você conseguiu? – encarou-o cheia de vida, apressando o ritmo molenga de seus pés para alcançá-lo, de um momento a outro transformando radicalmente sua expressão.

_ Devo dizer que sim. Mas é melhor que você mesma veja antes de tirar conclusões – avisou, quase metido, em plena consciência de sua genialidade. Ele escancarou uma das portas podres do albergue, e esta rangeu em resposta, deixando à mostra um cubículo apertado sem qualquer atrativo – Eu tomei a liberdade de trazer meu experimento para cá, para mostrar-lhe como funciona! – sorriu mais largamente, capaz de sentir o brilho excitado que dançava no azul marinho de seus olhos.

Alice entrou, notando o próprio corpo tremer com a expectativa. Assim que ultrapassou o precário batente da porta que Jonathan ainda segurava, seus olhos encontraram Max sentado no canto do cômodo, desprovido de qualquer expressão e com o olhar mais distante e sem vida que Alice já vira.

_ Ele está drogado?

_ Certamente! – Crane assentiu ao segui-la para dentro do quarto e em seguida fechar a porta – Tão domado quanto o mais fiel dos cães de companhia.

_ Tem certeza? Quer dizer, é só chegar perguntando? Ele nem parece estar nos vendo! – comentou, abanando freneticamente a mão direita a apenas alguns centímetros do rosto vago de Max, sentindo um suor frio gelar suas mãos por conta da imensurável ansiedade que se apossava de seus sentidos em alerta.

_ Eu garanto que está. Porém seus reflexos estão diminuídos, é como se ele não tivesse qualquer percepção sobre o que o rodeia, apesar de ser capaz de captar os estímulos à sua volta. Enxergar sem ver, escutar sem ouvir. Imagino que seja algo do gênero... – comentou com sadismo, admirando a grandiosidade de sua nova obra-prima, ainda mais complexa do que a droga que a precedeu e que era sua maior marca – Sente-se bem à frente dele – instruiu – e firme um contato visual.

_ Ok... – obedeceu, fitando a fundo os olhos que pareciam não encarar nada e encarar tudo ao mesmo tempo. Max tinha uma expressão vazia, totalmente domada e controlada. Totalmente desprovida de entendimento.

_ Você deve chamar a atenção dele dizendo o seu nome. Foi uma das poucas coisas que funcionou durante os meus testes. Parece que eles se focam melhor quando reconhecem títulos, símbolos ou objetos que tenham íntima relação com suas vidas. E nada melhor do que o nome nesses casos – avisou com um notável toque de interesse, mais uma vez estimulado pelas particularidades da mente humana, maravilhado por seus enigmas, alguns ainda tão longe de serem descobertos. Tão inatingíveis quanto sedutores...

_ Tudo bem! – aderiu às sugestões do psiquiatra, voltando-se inteiramente para o homem visivelmente dopado à sua frente – Max? – chamou-o, firme, arrepiando-se ao perceber o homem lhe direcionar imediatamente o pouco da atenção que possuía – O seu nome é Max?

_ Sim... – respondeu com uma voz levemente engasgada.

Alice encarou Crane por um momento, como se esperasse uma nova instrução agora que detinha a atenção do homem, porém o psiquiatra apenas gesticulou em silêncio com uma das mãos, como se dissesse apenas “Prossiga!”. A ninja novamente deixou que toda a sua atenção se focasse no dono do albergue, imaginando que tipo de perguntas poderia fazer. Como um primeiro teste da potência da droga, decidiu que deveria escolher um tema que pudesse comprovar a credibilidade e veracidade daquilo que o homem lhe contaria. Como não conhecia a vida de Max em nenhum aspecto, optou pelo único tema que poderia lhe gerar alguma conclusão mais certeira.

_ No que você trabalha, Max?

_ Muitas coisas... – usou o mesmo tom inexpressivo e desinteressado, totalmente alheio ao que lhe ocorria.

_ Que coisas?

_ Aluguéis... É o que todos acreditam... Mas também vendo... Repasso mercadorias... Esse é o meu verdadeiro trabalho... – contou sem muita coerência, apenas despejando informações meio aleatórias.

_ Que tipo de mercadorias você vende, Max?

_ Qualquer uma... Coisas roubadas, de todos os tipos... Também consigo drogas... Tudo o que o cliente quiser...

_ Então... Seu verdadeiro trabalho é o tráfico? Tráfico de drogas e de objetos roubados que chegam até você?

_ Sim... Sou um dos maiores fornecedores do Narrows... Também trabalho com prostitutas... Marco programas...

_ Então, Max, me conte. O que esse albergue de fato é? Um esconderijo para as suas mercadorias? Um tipo de bordel nas horas vagas?

_ É só uma fachada... – contou, sem qualquer consciência do quanto suas palavras poderiam destruí-lo – Só pra explicar o dinheiro que entra... Pra me manter na condicional... Evitar a cadeia... Burlar as regras sem que os tiras desconfiem...

_ Ora, parece que essa pocilga não passa de uma lavanderia de dinheiro! – Alice olhou-o surpresa, impressionada com o efeito do novo gás que o psiquiatra criou. Era exatamente o que ela queria! A verdade, sem qualquer hesitação ou tentativas de camuflagem. A realidade, nua e crua, como a sobriedade jamais permitiria que fosse revelada. Ela sorriu, realmente satisfeita, virando-se para Crane com um sentimento cúmplice de triunfo – Você realmente conseguiu, Fand... Espantalho! E num prazo recorde, devo dizer... – elogiou, empolgada com tamanha competência.

_ Como eu disse, bastavam alguns testes para acelerar a criação dessa droga! – enviesou os lábios num sorriso convencido, transbordando mais satisfação do que era capaz de controlar.

_ E houve alguma modificação nos planos? Você conseguiu criá-la daquele jeito que me explicou quando eu te contratei?

_ Basicamente sim. Eu apenas achei melhor introduzir um hipnótico fraco além de todos aqueles fármacos e hormônios de que já havia lhe falado. Mas, no geral, não me inclinei a grandes mudanças. Apenas alguns aperfeiçoamentos na ideia inicial já foram suficientes.

_ Posso ter a honra de batizar sua obra? – sorriu, travessa.

_ Quem paga é o dono da mercadoria – consentiu.

_ Foi o que eu pensei. Vou chamar sua criação de “Gás Fodeu”: Inalou, contou! Dá até pra fazer um jingle com essa propaganda – soltou um riso gostoso, como há muito tempo não fazia. Crane a acompanhou com mais um de seus sorrisos perspicazes, também satisfeito com os resultados que obteve em tão pouco tempo.

_ Creio que agora que meus honorários não são mais necessários...

_ O cacete que não são! – Alice o interrompeu, ainda rindo – Quero você acompanhando cada interrogatório que eu fizer. Só por desencargo de consciência. Você vai ser o responsável por determinar a dose apropriada que cada um vai receber pra otimizar os efeitos do seu produto – avisou.

_ De acordo. Parece prudente... Mas, ainda assim, acredito que já esteja na hora de receber minha quantia na fortuna da máfia, já que a maior parcela do meu trabalho já foi cumprida – sorriu ainda mais amplamente.

_ Oi? – a ninja levantou as sobrancelhas – Como é?

_ Ora, não vá me dizer que já se esqueceu do nosso acordo, Alice! Terei de ser eu a refrescar sua memória então... Quinze por cento de todos os rendimentos que a Liga obtiver enquanto eu a servir, lembra-se? O dinheiro roubado da máfia encaixa-se perfeitamente nos termos do nosso informal contrato.

Alice arregalou os olhos, surpresa por não ter chegado àquele raciocínio antes.

_ Tem razão, seu safado... Além de tudo você ainda vai faturar uma fortuna... – comentou, boquiaberta. Quinze por cento de todo o rendimento bilionário da máfia faria de Jonathan Crane uma pessoa podre de rica, e a ninja sequer cogitou isso quando trouxe todos aqueles dólares para os seus domínios.

_ Eu lhe avisei que as atividades lucrativas da Liga das Sombras não eram fracas, como você mesma tentou fazer-me crer – riu ao testemunhar o espanto da ninja.

_ Eu só estava tentando barganhar... – deu de ombros, indiferente àquela camuflada alfinetada – Enfim, como diz aquele sábio ditado, a promessa é inimiga da perfeição quando resolvem mover moinhos... Ou algo bem parecido com isso... – franziu a testa ao tentar recordar-se das palavras exatas.

_ Promessa é dívida? – o psiquiatra a corrigiu, arqueando uma sobrancelha e rindo internamente da estranheza daquela mulher.

_ Claro que não, isso não faria o menor sentido! – revirou os olhos, desconsiderando-o – “Promessa é dívida”, que coisa mais estúpida... – bufou – Bom, você entendeu o que eu quis dizer! O raciocínio é quase esse! Trate desses assuntos com o Steve, ele é quem lida com os números. Mas não se esqueça, você ainda está comprometido com a Liga das Sombras mesmo depois de receber esse pequeno abono. – avisou, encarando-o tão profundamente quanto fizera há pouco com Max.

_ Não sou tolo a ponto de tentar passar a perna numa instituição do porte da Liga das Sombras, Alice! Não se preocupe, eu darei continuidade ao meu trabalho aqui até que você esteja satisfeita e me dispense. Até porque, manter-me trabalhando para a Liga das Sombras provou-se algo de fato valoroso... deveras lucrativo, eu diria! – garantiu ainda sorrindo, e Alice soube que Crane era sensato e esperto o suficiente para cumprir cada um dos seus deveres para com todos aqueles ninjas donos das mais ilustres habilidades.

_ Assim espero! Vamos, agora que o Gás Fodeu está pronto, temos muito a fazer! Muito a questionar... – concluiu, pensativa. Enfim poderia tirar as palavras de Coringa a limpo e arcar com todas as consequentes conclusões que adviriam daquele ato. Daquela ousada manobra, que finalmente poderia esclarecer-lhe muitas explicações mal dadas.

Notas finais
Agora ninguém segura essa menina! xP