A Face Oculta Da Lua
23 As Verdades Que Eu Não Quero Ouvir... – Parte I
Notas iniciais
Gordon encarava fixamente um dos vários retratos que ocupava o espaço amplo sobre sua mesa, perdido em recordações não tão distantes. Eram distantes apenas pelo decorrer indolente e desinteressado do tempo, porém terrivelmente nítidas e próximas em sua consciência atormentada.
Um dos porta-retratos guardava a imagem sorridente e cheia de vida de seu filho com seus inocentes quatro anos de vida. As mechas loiras e acesas refletiam com propriedade a luz do sol, quase como se competissem com o brilho dos raios de luz, como se aquela claridade fosse emanada do próprio menino. Feixes amarelos e quentes que pareciam iluminar ainda mais aquele rosto tão infantil, tão pequeno e indefeso...
Gordon sorriu sem querer, mas algo amargo no fundo de sua garganta fez o gesto esmorecer no segundo seguinte.
Toda a sua família havia lhe abandonado, e o Comissário conhecia o motivo, embora suspeitasse de que sua esposa nem sequer arriscaria um palpite das causas de sua repentina mudança. E ele rezava em segredo para que ela nunca soubesse, que nunca nem ao menos desconfiasse, para que jamais conhecesse a vergonha que o consumia por cada minuto de seus longos dias. A mesma vergonha que o impedia de adormecer à noite ou que o moveu a se fechar dentro de si mesmo, como se uma redoma o isolasse do resto do mundo.
Morreria com aquele pesar esmagando seus ombros, disso ele não tinha dúvida. E, de certa forma, preferia morrer sozinho. A solidão era um preço menor a se pagar, mais fácil de lidar do que o nojo que a verdade provocaria naqueles que ele tanto amava. Já era castigo suficiente o asco que ele sentia de si mesmo. Já era punição demais ter que conviver consigo.
O Comissário fitou a carta de demissão que há muito escrevera, mas que nunca tivera coragem o suficiente para entregar. O papel estava amassado, mais fino e frágil do que o habitual, tantas as vezes que Gordon já o manuseara, tantas as vezes que Gordon já pensou em entregá-lo, mas sempre acabava escondendo-o de volta à gaveta.
Era um covarde...
Naquelas linhas, Gordon revelava cada vil verdade que ele tanto se esforçou em esconder. Levou dias inteiros redigindo as resumidas palavras ali gravadas, e até mesmo contá-las ao papel mostrou-se um fardo pesaroso... Por isso, ao final, sempre optava por guardá-lo novamente, sabendo apenas que não detinha a coragem necessária para assumir e tornar público seus grosseiros e vergonhosos erros.
Verbalizar aquelas meras palavras, deixar que aquele último discurso se fizesse... Tão simples e ao mesmo tempo tão impraticável...
Ele podia sentir o quanto parecia mais velho do que sua idade deveria aparentar. A cada dia, notava-se mais cansado, cada noite em claro trazia-lhe uma nova ruga como companhia para aplacar a solidão recente de seus dias. Cada pensamento o esgotava...
Gordon esfregou os olhos, como se o gesto fosse suficiente para despistar o cansaço que o envolvia, mas nada, em lugar algum, parecia ser capaz de consolá-lo de si mesmo.
Seus olhos buscaram mais uma vez a imagem radiante de seu menino, e notou-os marejar sobre os curtos cílios que impediam as lágrimas de correrem soltas por seu rosto, segurando-as como uma grossa e impenetrável contenção barrando sua passagem.
Poderia ter sido com ele...
_ Comissário? – uma policial bateu de leve na porta escancarada, encarando-o com evidente preocupação em seu cenho franzido.
_ Entre! – recompôs-se, pigarreando baixo, tentando apossar-se de uma dureza que sabia não existir mais dentro de si, mas que por alguma razão ele ainda buscava em seu tempestuoso íntimo.
_ O senhor está bem? – perguntou, duvidosa, enquanto adentrava a sala do Comissário a passos hesitantes.
_ Seja breve, Ramirez – desviou-se da pergunta sem nem ao menos preocupar-se em abrandar o tom grosseiro que lhe destinou, apenas limitou-se a juntar alguns papéis espalhados pela sua mesa e aglomerá-los numa única pilha ao canto – Meus horários estão apertados e eu já deveria ter saído da delegacia há um quarto de hora... – avisou.
_ Vim apenas trazer um recado, Comissário... – disse-lhe, parecendo pouco firme. Gordon assentiu, incentivando-a a prosseguir – Um recado da Bárbara, senhor.
_ Bárbara? – permitiu que sua voz fraquejasse por um instante, atordoada – Ela está em Gotham? – perguntou confuso. Há meses sua mulher havia partido, e em nenhum momento deu qualquer sinal de que voltaria a essa cidade. Sequer se comunicaram ao longo da distância que os separava.
_ Está sim. Mas creio que não por muito tempo – opinou, parecendo incapaz de encará-lo firmemente. Sempre necessitando desviar o olhar quando eles encontravam ou cruzavam com o de Gordon – Ela quer vê-lo... E me pediu para avisá-lo de que o espera na travessa seguinte à delegacia... – novamente baixou o olhar, incomodada.
_ Como? Por que ela não veio até aqui? Por que não falou diretamente comigo?
_ Eu não lhe fiz perguntas, senhor, mas se bem a conheço, acho que ela quis poupá-lo de futuros constrangimentos caso aparecesse aqui na atual situação dos dois – referiu-se ao divórcio, coçando distraidamente a curvatura de sua sobrancelha ao mencioná-lo, sem muito jeito diante daquelas circunstâncias – E parece que ela decidiu vir de última hora, talvez não tenha tido tempo de avisá-lo, e como nós ainda mantemos contato... – deixou a conclusão em aberto, dando de ombros.
_ Bom, poucos entendem o que se passa pela cabeça da Bárbara – lançou, mal conseguindo conter a ansiedade de vê-la. Jogou o casaco preto por cima do corpo com pressa, já saindo da própria sala a passos longos e apressados – Obrigado, Ramirez – ainda teve tempo de agradecer e lançar um olhar significativo à policial antes de deixar a própria sala. Em resposta, ela apenas anuiu de leve com a cabeça.
Gordon já havia desaparecido de seu campo visual há algum tempo, mas Ramirez ainda fitava a porta por onde o Comissário desapareceu, pesarosa e com um nó sufocante impedindo parte do ar de chegar aos seus pulmões irrequietos.
_ Perfeito, ele acreditou! – uma voz feminina surgiu atrás da policial, que apenas fechou os olhos em pesar. Ramirez virou-se em direção à estranha figura que se escondia atrás de uma máscara sorridente, imaginando quem poderia ser aquela mulher totalmente coberta por panos e máscara. Apenas os seus olhos negros eram visíveis além do pálido e gélido material que cobria o resto de suas feições – Ótima encenação, policial... Quase chegou a me convencer. – riu, e o som propagou-se abafado.
_ Vamos logo à sua parte do acordo! – lançou, seca.
_ Era justamente o que eu ia dizer – afirmou, provavelmente com um sorriso que a policial não era capaz de ver – Aqui está o seu preço, detetive. Incrível como nessa cidade as fardas são negociáveis! – alfinetou, entregando-lhe um bolo de dinheiro.
_ Minhas contas excedem o meu pagamento... – deu início a uma justificativa, como se tentasse convencer a si mesma de que fizera o certo.
_ Eu realmente adoraria ficar e ouvir sua infeliz história – interrompeu-a, ironizando –, mas como vê, tenho assuntos a tratar com o Comissário. Com sua licença, policial! – despediu-se com fingida cortesia, desaparecendo silenciosa e habilidosamente pela janela na qual provavelmente entrara para se esconder.
Ramirez viu-se novamente sozinha na sala de seu chefe, fitando com tristeza o dinheiro que segurava, como um troféu não merecido ou afanado.
_ Sinto muito, Jim! – lamentou, sincera – Mas preciso pagar as contas do hospital... – guardou os dólares em um dos largos bolsos do próprio uniforme, retirando-se dali sem ousar olhar para trás ou pensar uma segunda vez no que fizera. Sem querer cogitar se tornaria a vê-lo, ou se acabara de condená-lo de alguma forma...
~*~*~*~
Conforme Gordon caminhava, sua ansiedade dava lugar à preocupação. Sabia até que ponto Bárbara era orgulhosa, e que se ela tomou a iniciativa de procurá-lo daquela forma, às pressas, algo de ruim deveria ter acontecido...
Um arrepio temeroso o dominou ao imaginar a mulher que ainda amava ou um de seus filhos passando por dificuldades... ou por algo mais sério.
E a culpa era exclusivamente dele. Sua solidão era apenas uma consequência, um reflexo de suas ações. De suas deploráveis atitudes... Mas como ser o mesmo depois do que fizera? Como ser capaz de continuar sendo o marido e pai que sempre fora com aquela culpa que parecia apenas pesar, crescer em seu peito e consumi-lo, tão irracional, tão dolorosa. Como ser o Jim Gordon que todos conheciam se ele mesmo parecia não reconhecer-se?
Ele chegou ao local em que Bárbara deveria estar à sua espera, porém havia apenas ele ali. O Comissário colocou as mãos nos bolsos, lançando olhares impacientes ao longe, à procura do rosto que tanto lhe fazia falta, um dos poucos capazes de acalentá-lo e reconfortá-lo quando ele mais precisava. Gordon virou-se com rapidez, já desconfiado, sobressaltando-se ao quase esbarrar na figura de alguém realmente alto, com o rosto escondido atrás de uma máscara que lhe sorria.
_ Boa noite, Comissário! – um sotaque diferente saudou-o, e antes que Gordon pudesse esboçar qualquer reação diante da aparição repentina daquele inusitado mascarado, sentiu-se imobilizado e com um pano úmido sobre o nariz e a boca. O odor característico de éter invadiu seu olfato, roubando-lhe rápido a consciência junto com todos os seus sentidos confundidos.
Aquele sorriso tornou-se negro, assim como tudo à sua volta. Assim como o desmaio e a incoerência marcada pela ausência do sentir. E seu corpo tombou sem controle, sucumbindo à inconsciência que o engolfou com força e o expulsou da posse de seus membros.
Sayid aplacou a queda antes que ela se completasse, carregando o corpo mole de Gordon para a Van que os esperava. As pernas do Comissário arrastaram-se pelo chão, até que o árabe o posicionou deitado sobre o banco do automóvel, tomando cuidado para certificar-se a todo momento de que ninguém testemunhou tal cena. Somente quando, por fim, se convenceu de que seria seguro, Sayid entrou no veículo e se permitiu tirar a máscara do rosto.
Sentou-se sobre o banco do motorista e ligou o motor, dando a partida até o Narrows. Levando Gordon de encontro ao próprio destino incerto.

Quando Alice chegou ao albergue, podia sentir cada porção de sua pele aflita e trêmula de ansiedade. Sayid ainda não retornara com Gordon, e cada minuto de espera parecia corresponder ao passar lento de uma década. A cada momento a ninja ouvia-se suspirar ou praguejar baixo, engolindo em seco a própria angústia.
_ Espantalho! – a hippie chamou-o assim que o avistou, satisfeita pela chance de distrair-se – Como estão os preparativos pro uso do Gás Fodeu? Logo o Comissário terá chegado, assim eu espero...
_ Já está tudo nos conformes – tranquilizou-a com sua típica voz serena – Basta aguardar a chegada daquele que será interrogado, afora isso, não há nada além a ser feito.
_ Odeio pessoas competentes demais! – reclamou, quase bufando – Você já arranjou tudo e agora só me resta a agonia de esperar...
_ Imagino que isso tenha sido um elogio? – perguntou, abafando um riso irônico – De qualquer modo, sua espera não se estenderá muito mais – arqueou as sobrancelhas para além do aro superior de seus óculos, como se apontasse para a mesma direção em que olhava.
Alice virou-se, entendendo que finalmente poderia colher as respostas que tanto aguardou. Sayid caminhava em sua direção carregando um Gordon inconsciente, como se este não pesasse mais do que um boneco de pelúcia. Ela sorriu em direção ao árabe, sentindo novas palpitações desregularem o ritmo incerto em seu peito, que apenas se acelerava.
_ Aonde eu o levo, Ra’s Al Ghul? – perguntou ao alcançá-la.
_ Vem, eu te mostro! – chamou, empolgada e elétrica com o fato de nenhum imprevisto ter atrapalhado seus planos quase improvisados para trazer Gordon à sua presença. Conduziu o árabe até o aposento preparado por Crane especificamente para aquelas sessões, mal aguentando-se na própria ansiedade. – Coloca ele aí! – apontou para a mesma cadeira que Max havia ocupado quando fora drogado. Sayid obedeceu, fazendo menção de retirar-se ao cumprir a ordem – Não, não, Aladim, você fica! Quero você e o Crane aqui comigo! – avisou.
_ E eu! – a voz rouca de Batman alastrou-se pelo pequeno quarto, chamando a atenção de todos. Jonathan ergueu as sobrancelhas, parecendo levemente interessado.
_ Ora... Certamente isso nos trará um inconveniente imprevisto! – o psiquiatra comentou, parecendo esbanjar um humor azedo à presença do Cavaleiro das Trevas.
_ Não, Crane, ele tá comigo. E vai se comportar, certo? – encarou os olhos negros e frios que se mantinham sobre o Espantalho, visivelmente contrariado em ter que lidar passivamente com aquela presença.
_ Isso vai depender de vocês – rosnou, ainda fitando o psiquiatra.
_ Devo dizer que você sempre me surpreende, Alice – Crane admitiu, esboçando um sorriso desdenhoso – As suas parcerias são bem... ecléticas! – comentou, divertido.
_ Não quero saber de ninguém se matando aqui, deu pra entender? Nada reações turbinadas à testosterona ou lutas pra definir quem é o macho alfa. Esqueçam suas rixas de Morcego e Espantalho por hoje, senão me livro dos dois. Batman, você está aqui apenas como observador, o que é meio ridículo já que morcegos quase não enxergam, mas enfim... voa pro cantinho e deixa o Jonathan trabalhar, nós temos um acordo! – lembrou-o, não gostando dos olhares hostis que um lançava contra o outro.
_ Eu não serei um problema se vocês não forem – ele respondeu simplesmente, voltando sua atenção a Gordon, que parecia querer despertar.
_ Espantalho, mete bronca! Antes que o Flanders aí acorde!
Jonathan, de imediato, prendeu um inalador em Gordon, fazendo-o aspirar todo o gás contido ali. Alice lançava olhares de esguelha ao Homem Morcego, ainda vivendo exatamente as mesmas dificuldades em sua presença, mesmo com a empolgação de ter seu plano finalmente colocado em prática. Era impressionante como ele a atingia, tanto nos trajes de Batman quanto nos de Bruce...
Em alguns momentos seus olhares se cruzavam, mas logo se desviavam para outra direção.
Gordon ainda respirava no inalador, mas já mantinha o mesmo olhar desfocado que Alice viu em Max. Exatamente a mesma desatenção e desinteresse pelo mundo ao seu redor tingiam as íris quase opacas e sem vida do Comissário. Cerca de meio minuto depois, Crane o despiu do inalador.
_ Você já sabe como proceder, Alice – Jonathan ilustrou, parecendo igualmente faminto a cada vez que sua droga era usada. Cada caso tinha suas diferenças quando se tratava de humanos, e explorá-las, pesquisá-las, era um tanto estimulante para o psiquiatra.
_ Sim, sim, eu assumo daqui! – consentiu, vidrada na imagem apática do Comissário, repetindo o mesmo procedimento do contato visual intenso. Quando o olhou nos olhos, não soube discernir o que sentiu – James Gordon? – chamou-o, notando o homem quase empertigar-se de reconhecimento ao som do próprio nome – É esse o seu nome?
_ Sim... – respondeu sem muito sentimento, apenas prático. Alice reconheceu os mesmos exatos efeitos da droga que viu em Max há pouco tempo. Batman e Sayid pareciam extremamente curiosos com aquela intrigante cena, como se tentassem decifrá-la em sua estranheza. A hippie conhecia bem esse sentimento.
_ Gordon, em que você trabalha? – começou a direcioná-lo, cada vez mais ansiosa pelas respostas que ainda teria de colher.
_ Sou o Comissário da delegacia de Gotham...
_ Como Comissário, você deve conhecer um psicopata que chama a si mesmo de Coringa. Me conte, Gordon, quais foram as últimas tentativas da polícia para capturá-lo?
_ Há alguns meses, tentamos nos infiltrar na sua gangue... – contou, e Alice sentiu-se tremer. Ao menos aquela parcela da história que Coringa lhe contara era verdade – Parecia estar dando certo, mas o policial que foi mandado nessa missão nunca mais retornou... Coringa o matou assim que se divertir às nossas custas deixou de ser divertido, eu acho... – disse, e Alice quase pôde ouvir pesar em sua voz domada – Era um bom garoto...
_ Qual era o nome desse policial?
_ Oficial Turker... Um bom garoto... – repetiu.
_ E quando o oficial Turker tentou se misturar aos homens do Coringa, ele chegou a passar a informação de que Coringa visitaria uma procurada da polícia chamada Alice?
_ Sim... Essa foi a última informação que ele nos passou...
_ E o que vocês fizeram a respeito dessa Alice? – questionou, agora finalmente aproximando-se de seus reais objetivos naquele interrogatório.
_ Ordenei que um policial seguisse o Coringa para descobrir o paradeiro da fugitiva...
_ Que policial você mandou?
_ Smith... O policial Smith... Ele fez questão de ser o escolhido, e eu acatei ao seu pedido...
_ Gordon, nessa época você sabia que a Alice tinha um filho? Um menino de três, quase quatro anos?
_ Sabia... Sim, eu sabia... Desde o começo...
Alice umedeceu os lábios, incomodada. Aquela era uma resposta que ela não esperava.
_ Como você soube?
_ Também através das informações que o oficial Turker trazia... Ele era um bom menino...
“...as informações que eu queria que chegassem até a polícia!” – a voz de Coringa ocupou a mente de Alice, revoltando-a. Daquele momento em diante, era como se ninguém mais ocupasse aquele quarto, apenas Alice e o Comissário.
_ Gordon... o que você sabe sobre o sequestro do menino? Do filho da Alice? – foi direto ao ponto, incapaz de prorrogar ainda mais aquela questão.
_ Fui eu quem ordenou o sequestro... – disse, e Alice sentiu-se congelar e ao mesmo tempo ferver – Eu mandei o policial Smith trazer o menino de volta à Gotham...
_ Você...? Você mandou matar o meu filho? – a hippie cerrou os punhos em fúria, completamente cega ao seu redor. Permitindo que o ódio a dominasse.
_ Não... Matar não... Eu apenas queria que o policial Smith trouxesse o menino de volta a Gotham... Estava desesperado... Estava sendo cobrado de todos os lados... O controle que Coringa exercia na cidade, a fuga da Alice de Arkham... As pessoas estavam em desespero com a impotência da polícia, e eu também... Eu ordenei que o policial Smith trouxesse de volta o menino para atrair Alice a Gotham... Para prendê-la... E principalmente para tentar salvar o oficial Turker... Eu já sabia que ele corria perigo, que nossa farsa nunca convenceu o Palhaço, e pensei que se eu tivesse o filho de Coringa nas mãos, ele poderia devolver-me Turker... Uma troca...
Alice sentiu os olhos arderem, já prenunciando lágrimas que ela não fazia ideia se foram formadas pela tristeza ou pela ira que sentia. Seu Krusty jamais teria qualquer chance de defesa contra aquele amontoado podre de pessoas que o perseguiu... seu menino, apenas uma criança, contra toda a corrupção que o reclamava... a hippie manteve-se calada, obrigando-se a ouvir aquele relato até o fim, obrigando que o seu pouco autocontrole aquietasse sua verdadeira e cruel vontade.
_ Eu sabia que o menino era filho do Coringa... – continuou – Bastou somar dois mais dois para chegar a quatro... E aquela era a minha última esperança de conseguir agir... Mas tudo fugiu do meu controle... Eu desconsiderei antigas feridas do policial Smith... Confiei que ele obedeceria minhas ordens de apenas trazer o menino... Mas ele resolveu agir por conta própria depois disso...
_ E você não fez nada? Ainda permitiu que o policial Smith fosse lembrado com todas as honrarias militares, mesmo sabendo que ele matou uma criança antes de se suicidar? – cuspiu, tendo que fazer um esforço descomunal para não berrar e permitir que seus instintos feridos falassem mais alto.
_ Eu tive que pintá-lo como herói... Pelo bem da cidade... Gotham já estava muito desacreditada de sua polícia... Se eu permitisse que essa história vazasse, toda a minha carreira e a esperança de Gotham se desfariam num instante... E o caos reinaria... Coringa venceria... E isso eu não podia permitir...
_ Não podia permitir? – Alice gritou, finalmente fora de si. Levantou-o pela gola e jogou-o contra a parede, mas em momento algum a expressão do Comissário denotou dor ou medo. Ele caiu no chão, com o mesmo olhar distante – Você usou uma criança pra chegar até um psicopata, e permitiu que essa mesma criança morresse e que seu assassino fosse aplaudido e admirado! Isso você podia permitir? – rangeu os dentes em fúria, mal percebendo as lágrimas que escapavam de seus olhos em chamas.
Se Gordon respondeu ou não, Alice não ouviu. Ela tateava cegamente a própria cintura, como se procurasse por algo, que acabou encontrando sem querer em Sayid. A hippie caminhou até o árabe, arrancando dele um revólver preso num alforje que se destacava sobre o pano escuro de sua túnica. A mesma arma que levaram ao assalto do Banco da máfia. Alice a segurou com ódio, colocando-se novamente na frente de Gordon e apontando o cano metálico na direção do Comissário.
Destravou o revólver, e naquele breve segundo, Bruce reconheceu a si mesmo na revolta e dor que percebia emanar de Alice. Foi como rever a própria história, as próprias dores e angústias. Foi como ver-se apontando uma arma para o homem que matou seus pais. Apenas aquele instante o fez compreender o quão próximas suas feridas eram, e frente àquele momento, Bruce foi capaz de enxergar Alice. A sua Alice, aquela que ele conheceu e que o cativou tão rápido, porém agora repleta de chagas ainda abertas, ainda doloridas.
Batman saltou na direção da ninja ao ser despertado daquele infinitesimal milésimo de segundo, colocando-se entre ela e Gordon e conseguindo desviar a arma para longe. Um tiro foi disparado, mas cravou-se na parede.
_ Não, Alice! – ele ainda segurava o braço da hippie, que agora o encarava com ódio por ele ter desviado a bala que pertencia a Gordon.
_ Sai da minha frente, Morcego! Sai, ou eu atiro em você também – posicionou o revólver na altura do abdômen de Batman, encostando o cano metálico no titânio – Essa regra estúpida que você se deu de nunca matar não me representa, eu quero prestar minhas contas!
_ Alice... – Batman segurou o rosto da ninja com ambas as mãos, tão cuidadoso como se tivesse entre os dedos um raro e frágil cristal, prestes a se partir com o mais leve aumento de pressão. Ele aproximou os seus rostos até que eles ficassem a míseros centímetros de distância, e quando falou, sua voz não soou com a frieza e rouquidão características do Batman, mas sim com a suavidade acalentadora de Bruce. Sua voz saiu num sussurro baixo, tão baixo para que Alice, e apenas Alice, fosse capaz de ouvi-lo – Não faça nada que você se arrependa depois. Essa não é você, eu sei que não.
_ Você acha mesmo? – replicou, num tom tão murmurado quanto o do homem, sentindo os olhos marejarem com força e intensidade, mas disposta a não deixar nenhuma lágrima cair. Podia sentir o rosto enrubescer com o esforço. Pressionou ainda mais fortemente o revólver contra a armadura de Batman, como se o desafiasse a duvidar – Acha que eu ainda sou aquela hippie estúpida que você conheceu? Tenho uma novidade pra você então, Morcego! Meu espírito dorme em algum lugar frio, perdido e esquecido...
_ Mentira! – elevou de leve a voz, mas logo retornou com os murmúrios, ainda usando o timbre aconchegante de Bruce, soando como uma brisa que chega para abrandar um verão rígido – Você só precisa se reencontrar. Voltar a acreditar em si mesma, e eu sei, esse é um processo demorado e árduo. Mas matar não é a solução, Alice. Hoje você pode achar que é o certo, mas amanhã se arrependerá, e não terá volta. – Batman passou suavemente os polegares pelos olhos molhados de Alice, tirando deles as lágrimas que ela tanto se esforçava para conter – Eu conheço exatamente o tipo de revolta que você está sentindo. Eu passei por ela durante boa parte da minha vida, e se existe alguma lição que eu absorvi dessa dolorosa jornada, é que não vale a pena sucumbir às falsas tentações, minha menina.
_ O sequestro do meu filho foi uma ordem vinda da própria polícia! Krusty está morto por causa da obsessão e do despreparo destes malditos fardados que dizem nos proteger. – sentiu sua voz falhar – Você realmente acha que fazer um buraco no meio da testa desse Comissário de merda não passa de uma tentação momentânea pra mim? Acha que isso não é o justo?
_ Dói, não dói? – ele afagou o rosto de Alice carinhosamente, encarando-a a fundo com os olhos mais pacientes e compreensivos que ela já viu. Conforme falava, seu hálito batia no rosto da ninja, de certa forma consolando-a – Dói saber que aqueles que você ama foram vítimas do sistema. Que o buraco é mais fundo... É sempre mais difícil lidar com conspirações do que com a mente deturpada de quem segura a arma. É sempre desolador conhecer aqueles que tornaram possível que o gatilho fosse apertado. Os meus pais mesmo, Alice... eles foram vítimas não de Joe Chill, mas da degradação pela qual Gotham passava naquela época, pelo abismo social que marcava a cidade. Pelo sistema que só falhava com os habitantes menos favorecidos. Seu filho foi vítima dos mesmos termos, dos mesmos autores. Das mesmas falcatruas e desespero. – ele limpou uma nova lágrima do rosto atormentado de Alice, querendo naquele instante ser capaz de arrancar de dentro dela aquela aflição que ele conhecia tão bem – Gordon agiu muito mal, não estou tentando defendê-lo. Mas me diga, Alice, matá-lo realmente lhe traria algum consolo? Por menor que fosse? Gordon também tem sua família, Alice... Seria justo arrancá-lo de seus filhos ainda pequenos? Talvez, matando-o, você realmente faça o Comissário pagar pelo que fez, mas será que é justo fazer com que seus filhos também arquem com esta conta? Matá-lo te transformaria exatamente no que você deseja destruir, te transformaria naqueles que arrancaram o seu filho de você... – disse docemente, ainda segurando o rosto de Alice com exagerado zelo.
Alice deixou a arma que segurava cair no chão, encarando com falta de ar a afabilidade nos olhos de Bruce, já desacostumada a ela.
_ Vai passar? – perguntou-o ainda mais baixo como uma criança chorosa, referindo-se à dor da perda, sabendo que ele, melhor do que ninguém, entenderia sua pergunta e saberia a resposta.
_ Eu poderia dizer que sim apenas para acalmá-la. Poderia dizer que sim só pra te dar um falso consolo, como todos fazem. Poderia dizer que sim na esperança de que com você fosse diferente... Mas seria mentira. Não... Não vai passar. O que muda não é o que sentimos, Alice, mas a forma com que lidamos com esse sentimento. E isso eu posso garantir: você vai aprender a suportar o vazio que ficou. Vai aprender a esquecê-lo. Vai tornar-se mais forte. A dor fica e é permanente, mas você aprende a conviver com ela. E com o tempo, você se permite preencher essas lacunas com novas alegrias. Com novos amores... Com novas vidas... – acariciou o rosto que ainda segurava, perguntando-se porque demorou tanto para entendê-la.
Alice fitou-o com mais gratidão do que seria capaz de verbalizar, apertando-o num forte abraço em meio aos próprios soluços. Afundou o rosto na armadura negra que cobria seu peitoral, experimentando uma sensação já esquecida de proteção e lar quando ele a envolveu com seus braços gentis, afagando carinhosamente suas mexas castanhas como costumava fazer.
Permaneceram abraçados por mais tempo do que eram capazes de contar, pouco se importando com os olhares confusos de Sayid e Jonathan, que nada haviam escutado de sua sussurrada e breve conversa.
Batman a apertou um pouco mais, sendo invadido pela desconcertante suspeita de que talvez ele precisasse mais dela do que o contrário. Mal podia imaginar que Alice sentia o mesmo, e ambos compartilhavam, em silêncio e com a mesma intensidade, o temor que vinha junto com a ideia de uma nova separação.
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