A Face Oculta Da Lua

17 Novas Alianças, Velhos Cenários...


Notas iniciais
Alôô? Tem alguém aí que ainda acompanha essa joça? :/ Antes de começar o falatório (que será longo =P), quero dar minhas mais felizes boas vindas à joker1412, que me fez muito feliz por deixar aqui o seu review! AMO a opinião de cada um de vocês, então seja muito bem-vinda à minha família do Nyah, joker1412!!! ;D E é claro, também não posso deixar de agradecer pela recomendação tão perfeita que a 1ª Temporada recebeu semana passada (o/), então, um super obrigada à Karen Lucille Hale por ter tido o trabalho de mandar a sua recomendação mesmo com o Nyah não aprovando! MUITO obrigada mesmo, foi uma surpresa e tanto, sua lindona! ;D Então o capítulo de hoje é para vocês duas, ok? =] Beeem, agora o falatório sem fim começa... se tiver alguém que ainda se interessa em ler os capítulos, eu peço milhares de desculpas por mais esse record de demora. Eu sei bem que isso acaba esfriando o interesse de vocês em ler e até mesmo o meu em escrever, mas eu estou passando por uma maratona de provas interminável e desumana que até agora não me deu uma mísera folga, por isso, acredito que as próximas postagens seguirão esse mesmo padrão de demora, até que essa maldita fase passe, ou até que as férias cheguem ¬¬' Existem mais alguns motivos além das provas, mas não vou enchê-los com isso. E como eu sei que demorou bastante, a maioria de vocês já deve ter apagado o último capítulo da memória, então aqui vai um pequeno resumo com tudo de importante que aconteceu (então se você, assim como eu, sempre dá uma conferida nas Notas Inicias da fic mesmo que esteja atrasado com o ritmo das postagens, some daqui agora, senão perderá a graça =P): Bom, no capítulo anterior a Alice tentou salvar o Ducard de um repentino infarto com seus conhecimentos médicos, mas ela chegou tarde demais e o nosso querido ninja passou dessa pra melhor (em outras palavras, tá comendo capim pela raiz...) ~novo minuto de silêncio~ Com o posto de liderança vago, a nossa atrapalhada hippie é posta em evidência graças ao seu inusitado treinamento com o Gás do Medo, e os outros ninjas decidem nomeá-la Ra's Al Ghul (vai entender, né... hehehe). Uma parcela do passado de Tony vem à tona, e é revelado que o cadeirante mais fofo de todos os tempos já ocupou o "trono" da Liga das Sombras em tempos remotos =] A Alice aceita ser a líder da Liga e, com isso, decide voltar para Gotham junto com a maioria dos ninjas para investigar melhor a morte de seu filho (o pequeno Krusty). E retomamos a partir daí!

Os passos de Alice soavam indistinguíveis pelos corredores da Liga, como se a sola de seus sapatos sequer chegassem a tocar o assoalho, silenciosos até mesmo para os padrões rígidos e impecáveis dos ninjas. Seus olhos negros perscrutavam os arredores com um brilho atento, pesando e medindo internamente cada consequência que suas ações previamente pensadas e repensadas acabariam gerando. Ações que, sabia ela, poderiam gerar-lhe infortúnios maiores do que sua capacidade de resolvê-los. Mas tinha que agir... Ao menos tentar. Devia à memória de Ducard cada ínfima providência que pudesse, de alguma forma, fazer jus aos seus esforços como Ra’s Al Ghul. E, principalmente, fazer justiça ao seu nome e sua inesperada morte.

_ Nureen, eu tenho uma tarefa para você assim que os outros ninjas e eu partirmos – avisou-lhe no momento em que se sentiu certa de estar sozinha com o ninja, sussurrando próximo ao seu ouvido como se confidenciasse algo que apenas ele devesse ouvir.

_ Estou aos seus serviços, Ra’s Al Ghul – fez uma pequena mesura em respeito e concordância, lançando um olhar interrogativo em direção à sua mais nova líder – O que devo fazer?

_ Deve investigar! – seu tom foi tão trêmulo quanto imperioso, e, quase sem querer, sua voz ficou ainda mais baixa. Suas íris tão negras e profundas quanto o mais raro ônix voltaram-se sugestivamente na direção de seu leal ninja, semicerrando-se à menção das suas mais segredadas intenções – E manter-se o mais discreto possível.

Nureen assentiu fielmente, aguardando quais seriam as instruções. A hippie prosseguiu, parecendo mais urgente em revelar quais seriam seus comandos.

_ Aos olhos dos outros, você apenas estará aqui para cuidar dos interesses da Liga. Ninguém, absolutamente ninguém além do inevitável, deve ter conhecimento dessa nossa conversa, entendeu?

_ Certamente.

_ Ótimo. Então escute com atenção, pois essa mensagem irá se autodestruir assim que for verbalizada – brincou, mas era inegável o fundo de verdade que havia naquelas palavras. Tal conversa deveria ficar apenas entre poucos, e quanto menos falassem naquilo, melhor. Foi direto ao assunto, ainda atenta aos arredores para evitar ouvidos curiosos – Eu estou desconfiada a respeito da morte de Ducard. Estou certa de que ela não se trata de um maldito incidente – arqueou sugestivamente as sobrancelhas enquanto Nureen cerrava os olhos numa resposta duvidosa. Alice diminuiu o tom de voz, deixando-o quase inaudível até mesmo para o ninja ao seu lado – Eu quero que você desenterre o corpo dele e procure por possíveis sinais de homicídio – ordenou – Quero uma autópsia completa, com todos os procedimentos que possam existir.

_ Desenterrar? – o ninja arregalou os olhos, parecendo relutante – Violar o túmulo do antigo Ra’s Al Ghul seria um enorme desrespeito...

_ Escuta, Nureen, não é do meu agrado já começar com uma ordem que vai contra as tradições da Liga, mas é de suma importância averiguar minhas hipóteses – disse, endurecendo a voz quase imperceptivelmente – Isso é prioridade agora, bem mais prioritário do que qualquer pudor que se possa resguardar pelo corpo sem vida de Ducard! Devemos isso à sua memória. É o nosso último débito para com ele!

_ Não, claro... Claro, tem razão. Não era minha intenção contestá-la, Ra’s Al Ghul! – desculpou-se de imediato, mudando sua expressão antes chocada – Eu farei o que ordena – empertigou-se, nitidamente desconfortável com sua nova tarefa, porém com toda a disposição que Alice esperava ver.

_ Eu sei que sim – sorriu, pousando uma mão condescendente no ombro do ninja, encarando-o com toda a intensidade que sabia ser possível transmitir – Você é um dos poucos aqui dentro que eu realmente confio, e sei que não vai me decepcionar! – Alice olhou para os cantos, incomodada – Escute, você terá de ser absolutamente discreto. Não será possível esconder o seu real objetivo daqueles ninjas que permanecerem na Liga junto com você, então é de incontestável importância que você escolha apenas alguns homens que confia plenamente para partilhar o segredo dessa missão. De quantos ninjas você acha que precisa dispor?

_ Escolherei apenas dois ou três homens de minha total confiança, mais do que isso não será necessário. Estas montanhas são inexpugnáveis, não correremos risco algum aqui – comentou orgulhosamente.

_ Ótimo! Quanto menos pessoas forem envolvidas mais chance nós temos de passar despercebidos.

_ Mas existe um pequeno impedimento, Ra’s Al Ghul. A Liga das Sombras não dispõe de médicos, e eu não tenho o conhecimento e competência necessários para realizar o que me pede...

_ Contrate um médico para uma autópsia confiável. – decretou – Mas de preferência, escolha um profissional de territórios mais distantes, que não reconheça o corpo do Ducard. E, de forma alguma, permita que mais pessoas além do necessário tenham conhecimento disso. Eu estou levando a maioria dos ninjas comigo para que você possa cumprir a minha ordem com mais eficácia, então tome as precauções necessárias para impedir que essa ordem saia da Liga das Sombras, entendeu?

_ Não se preocupe. Tudo sairá nos conformes.

_ É o que eu espero. Nós não poderemos nos comunicar com muita frequência, mas se você tiver qualquer novidade relevante, entre em contato comigo. Se não, espere que eu mesma o faça.

Nureen apenas assentiu, transmitindo muito mais lealdade do que Alice seria capaz de esperar de alguém. Soube, então, que escolhera bem!

Estavam prontos para partir. À menor ordem de Alice e todos os ninjas juntaram seus próprios pertences a uma velocidade espantosa, colocando-se à sua disposição sem qualquer segundo de hesitação ou dúvida. A ninja permitiu que um sorriso adornasse seu rosto cansado, porém satisfeito com a eficiência e fidelidade daquelas espadas que, bem como Tony dissera, agora eram suas.

_ Bom... Acho que nos separamos aqui – a hippie principiou, direcionando sua atenção para Nureen e os três fortes homens ao seu lado – Aos que permanecerem na Liga, mantenham-se firmes às ordens de Nureen, pois elas serão minhas.

Yal, Soborean e Finch, os três ninjas escolhidos por Nureen para permanecer sob os seus comandos provisórios na Liga das Sombras, assentiram respeitosamente em concordância, mas apenas Soborean, o homem negro de olhos levemente amarelados e uma cabeça mais alto que Nureen, falou, fazendo sua voz grossa ecoar com propriedade.

_ Seremos sua espada na defesa deste império, Ra’s Al Ghul!

_ Isso soa meio pornográfico... – brincou, permitindo-se sorrir – É bom saber que disponho dos guerreiros mais fiéis e talentosos. Obrigada. – retribuiu ao sutil meneio de cabeça, sentindo as responsabilidades imensas daquele dever de comandá-los gradualmente tomando forma em seu entendimento. Olhou para os outros ninjas que a seguiriam, notando o seu estômago revirar-se violentamente ao se dar conta de que Gotham estava cada vez mais próxima e atingível. Antes que pudesse prever as palpitações em seu peito, elas fizeram-se presentes.

A imagem do sorriso vil de Coringa projetou-se em sua mente ao mesmo tempo em que os olhos gentis de Bruce lhe saudavam em segredo, íntimos e sinceros. Sabia que apenas a primeira imagem estaria certa caso acabasse cruzando novamente com o caminho de ambos, e a angústia que se seguiu foi inevitável...

Embarcou no jato de posse da Liga das Sombras, ainda sem conseguir ignorar aquela imagem reconfortante e ao mesmo tempo perturbadora de seu passado, do viés secreto de seus mais dúbios desejos...

...De retornar ao princípio.

Gotham City era cinza.

Até mesmo o céu parecia quase negro ante as nuvens escurecidas e carregadas que o cobriam completamente, sem permitir que nenhum resquício do azul se sobrepusesse ao infinito daquela barreira cor de grafite. Uma porção gasosa que se erguia acima deles e que mais parecia sólida e impenetrável fazia o trabalho de acinzentar ainda mais a mal-afamada urbe, como o cimento que se levanta em puro concreto.

Depois de hospedar-se por vários meses nas instalações coloridas e tão vívidas da Liga das Sombras, Alice apenas podia julgar aquela cidade cinza, sem quaisquer atrativos que lhe explicassem o motivo de ter morado lá por tanto tempo. E, para a sua verdadeira surpresa, a arquitetura quase medieval da Liga se recriava em sua mente, trazendo-lhe uma pequena porção da falsa paz que se erguia junto às antigas paredes, uma pequena parte sua ansiando por retornar.

Mas, ao mesmo tempo, querendo reencontrar as sombras do seu tumultuado passado. Aquela porção doentia de sua existência que tanto a fascinava e assustava em igual medida... Que tanto a fazia sentir a pulsação viva de suas artérias.

Uma onda nauseante e ininterrupta dos mais diversos sentimentos comandavam seus menores e mais insignificantes pensamentos ao pousar novamente os olhos naquela cidade que, estranhamente, foi o seu inferno, sua terra, seu purgatório e paraíso.

Baguera espreguiçou-se ao lado da hippie, roçando carinhosamente seus fartos pelos à altura do tornozelo da dona, trazendo seus olhos negros de volta à sintonia de seu presente. Até mesmo o ar mais aconchegante e quente de outono parecia aborrecê-la com a perspectiva próxima do inverno. Porque nada poderia equiparar-se à majestade do inverno nas montanhas altivas do Himalaia.

_ O que faremos agora, Ra’s Al Ghul? – Lauren, o ninja mais novo da Liga, questionou-a, despejando uma empolgação atípica em seu tom de voz, excitado com a viagem. Certamente uma de suas primeiras missões.

_ Temos que nos abrigar – respondeu de forma vaga, ainda incapaz de tirar os olhos de cada canto da hostil e famigerada Gotham City, o antro das mais aclamadas perdições. Da sua perdição, sobretudo – Devemos nos manter silenciosos e invisíveis para o povo daqui – comentou, quase como se divagasse acerca de um assunto relativamente estimulante –, e não existe lugar melhor para isso do que a porção esquecida da cidade. Aquela em que o sol é tapado com a peneira diariamente – sorriu, quase entristecida pela constatação irrefragável das diferenças e injustiças daquela cidade tão enraizada pelas suas próprias corrupções. Gotham parecia uma cidade em decomposição, aonde os vermes eram os próprios habitantes, que corroíam e se alimentavam da urbe, até o momento em que sobrariam apenas as carcaças intragáveis do cenário urbano, como uma cruel lembrança de sua própria devastação.

Sayid se aproximou, colocando-se ao lado de Alice fielmente, dotado de um respeito que ela nunca esperou encontrar naquelas feições antes tão insuportáveis à sua mera presença.

_ E quais serão as novas ordens, Ra’s Al Ghul? – perguntou com seu sotaque marcante e endurecido, como se ansiasse pelos comandos de sua líder.

Alice sorriu antes de responder.

_ Assim que encontrarmos um lugar para ficar, eu tenho uma missão especial pra você, Sayid. Mas até lá... Acho que podemos nos abrigar no Narrows. É relativamente isolado de Gotham e é um cenário já conhecido para muitos de vocês, não estou certa? – encrespou os lábios num meio sorriso, referindo-se ao atentado sem sucesso que a Liga das Sombras promoveu há vários anos contra Gotham.

Alice analisou mais uma vez a cidade, tolerando se perder em suas mais diversas lembranças protagonizadas naquele cenário. Eram memórias tão distantes que pareciam pertencer à outra vida, mas ainda assim eram as mais intensas que a ninja possuía.

Começaram a caminhar, indo de encontro aos seus destinos.

O Narrows estava ainda mais despedaçado e esquecido do que a imagem memorizada por Alice. Como se aquela porção da cidade pertencesse a um universo paralelo de Gotham, presa nas teias e enredamentos de suas próprias armadilhas... Esquecida por todos e considerada por ninguém; o submundo de Gotham, atroz como a mais cruel selva de pedras e concretos.

Alice percebia os olhares enojados dos ninjas à presença daquele lugar degradado pela corrupção e falta de ideais. Um dia, Gotham já esteve prestes a ser destruída por muitos desses mesmos ninjas que agora caminhavam mais uma vez sobre aquelas ruas, e Alice perguntou-se o que cada um deles deveria sentir ao ver-se novamente naquela cidade, que certamente representava um inconveniente lembrete do fracasso da Liga das Sombras... E, talvez, o único fracasso em todos aqueles séculos de atentados silenciosos e mascarados.

No entanto, pela primeira vez Alice estava grata pelo discrepante abismo social que dividia a cidade. Apenas aquele outro mundo, imundo e feio, poderia ser capaz de oferecer-lhe a segurança de seu anonimato. E apenas essa barreira era uma garantia favorável de que seu retorno passaria despercebido.

Alice avistou uma pequena estalagem do outro lado da rua, tão nojenta e degradada como tudo no Narrows. Analisou-a por um instante, reprimindo uma careta de nojo ao imaginar se o seu interior era tão mal cuidado quanto a sua fachada.

_ Aguardem aqui. Não acho uma boa ideia entrarmos todos juntos! – constatou, se adiantando em entrar no precário albergue.

_ Espere, Ra’s! – o ninja árabe a chamou – Não deve ir sozinha! Permita que pelo menos um de nós a acompanhe!

_ Hnm... Tudo bem, pode vir você, Sayid. O resto de vocês fica aqui, não vai demorar nada – avisou, e, sem qualquer cerimônia, a hippie atravessou a rua com pressa, adentrando a porta largamente comida pelas traças e acompanhada unicamente de Sayid.

Um homem de cabelos negros que lhe caíam ao ombro, extremamente magro, de rosto cadavérico e órbitas afundadas, estava em pé atrás de uma pequena escrivaninha, tragando profundamente um cigarro já pela metade e com o queixo levemente levantado em direção ao teto, de olhos fechados. Uma loira estava ajoelhada à altura de sua pélvis, explorando o membro viril por dentro do zíper aberto sem qualquer discrição. Houve mais uma profunda tragada no cigarro e o homem soltou a fumaça aos poucos, finalmente abrindo os olhos ao perceber que não estava mais sozinho com a mulher que ainda se mantinha na mesma posição.

_ Estamos lotados! – avisou com frieza, sem ao menos se importar de ser flagrado naquela constrangedora situação. Os dedos do homem, que mais pareciam ossos desprovidos de carne, puxaram a cabeça da loira para mais próximo de seu quadril, pressionando-a com força enquanto tornava a fechar os olhos e se concentrar no seu cigarro.

_ Você vai abrir uma exceção pra mim! – afirmou calmamente, aproximando-se da pequena bancada para encarar o homem de feições irritadas agora – Vai dispensar todos os seus hóspedes e vai deixar todos os quartos à minha disposição.

O homem soltou uma sonora gargalhada ao comentário, deixando à mostra cada dente podre que, por algum milagre, ainda não haviam se desprendido de sua gengiva um tanto pálida.

_ É mesmo? – gargalhou novamente, despejando todo o escárnio que sentia naquele som irritante – E quem é você, afinal? A puta-chefe do Narrows? – riu ainda mais alto, em completo deboche – Escute aqui, sua vadiazinha, pega o seu cafetão de merda e some daqui, se não quiser que eu te ensine bons modos – Deu um tapa curto porém sonoro no rosto da loira agachada, como que para ilustrar o significado de seu comentário.

Sayid cerrou os punhos, fazendo menção de se aproximar do homem e fazê-lo engolir cada palavra desrespeitosa destinada a sua Ra’s Al Ghul, porém Alice barrou o seu caminho ao colocar uma mão tranquila sobre o seu ombro.

_ Calma, Sherazade! – lançou um sorriso para o árabe, quase divertindo-se ao notar o quanto cada relacionamento daqueles ninjas para com ela havia evoluído. O quanto eles se provavam verdadeiramente dignos de sua confiança antes duvidosa pelo receio – Eu resolvo isso! – A hippie aproximou-se ainda mais do balcão, tentando ignorar a loira que nem ao menos havia se manifestado uma única vez, totalmente submissa àquele homem asqueroso de cabelo banhado em óleo. – Creio que você mude de ideia com a minha oferta... – avisou, batendo com força vários dólares em maço sobre a madeira podre do balcão – Eu pago bem! – sorriu em triunfo aos ver os olhos afundados do homem se arregalarem em desejo.

“A verdadeira e única fraqueza da humanidade, aquela que sempre fala mais alto, que sempre induz qualquer patife como esse a se sujeitar aos modos mais previsíveis e manipuláveis. Um miserável que tira vantagem da miséria... Como uma ovelha que permite que a raposa entre em seu território por algum benefício individualista...” – Alice pensou, sentindo asco da figura à sua frente, que ainda parecia hipnotizado pelo monte de dinheiro ao seu alcance.

_ Some daqui, vadia! – ele empurrou a loira para o lado com força e urgência, fechando o zíper de seu jeans surrado com pressa – Sai! – repetiu, ameaçador e impaciente com a lerdeza indiferente da mulher. A falsa loira se adiantou até a saída, parecendo alheia ao mundo com aqueles olhos vidrados e extremamente vermelhos. – Quanto tem aqui? – perguntou, interessado, assim que a mulher os livrou de sua presença.

_ Muito mais do que o suficiente para pagar por todos os quartos e pelo tempo que eu bem entender. Negócio fechado?

_ Vai com calma, princesa – sorriu largamente, deixando seus dentes podres e enegrecidos à vista, sem nunca afrouxar o aperto sobre os dólares que já segurava possessivamente – Com todo esse dinheiro você podia se hospedar num lugar bem melhor. Por que aqui? – questionou ainda com aquele sorrisinho desprezível e traiçoeiro nos lábios, analisando Alice dos pés à cabeça.

_ Perguntas não fazem parte do pacote! – lançou, seca – É pegar ou largar.

_ Entenda a minha posição, madame. Eu já tenho clientes ocupando todos os quartos. Não posso me desfazer deles. Mas, por outro lado, não posso ignorar alguém que chega aqui com tanta boa vontade e grana... – alargou ainda mais os lábios em um sorriso que expunha claramente suas intenções capciosas – As opções se resumem a uma só! – afirmou, apalpando o cano de um revólver preso entre o cinto e a calça num alforje improvisado. Um brilho metálico se agitou com o repentino movimento, mas Alice já esperava por isso. De certa forma, chegava até a ansiar por isso.

Até mesmo antes que Sayid reagisse, a hippie se adiantou em empurrar com força a escrivaninha na direção do dono da estalagem, sem sequer vacilar em seu contato visual. O tampo da madeira o acertou com força à altura de seu quadril, pressionando e esmagando dolorosamente a mão que visava empunhar o revólver agora intocável. Alice pulou sobre a pequena mesa e aproveitou para acertar um chute na mandíbula do homem. Colocou-se por trás dele e imobilizou seus punhos rentes à base de seu sacro, bem junto às costas. Os pulsos extremamente magros se encaixaram perfeitamente em apenas uma das mãos da hippie, e com a outra ela buscou a arma, encostando o cano metálico na cabeça do homem sem qualquer sombra de dúvida.

Sentiu seus próprios olhos em brasa ao destravar o revólver sobre o cabelo oleoso do homem, deixando um meio sorriso inevitável apossar-se de seu rosto ao sentir o tremor e surpresa no corpo do miserável que, por pouco, não tentara matá-la.

_ Qual o seu nome? – a pergunta parecia inofensiva, porém o modo como foi feita a tornava ameaçadora. Alice chegou a estremecer de prazer e satisfação com a sensação inebriante que era ter uma vida nas mãos. – Qual é o seu nome, imbecil? – repetiu a pergunta ao ver-se sem resposta.

_ Max... – respondeu vacilante.

_ Então escute bem, Max, porque essa vai ser sua única chance de ouvir o que eu tenho a dizer. Você vai desocupar todos os quartos dessa espelunca imediatamente, entendeu? Vai pegar parte desse dinheiro e vai distribui-lo aos seus antigos hóspedes como uma compensação pelo inconveniente, fui clara? – o homem permaneceu em silêncio, paralisado. Alice acertou uma coronhada bem acima de sua orelha, deixando evidente que ela esperava por uma resposta.

_ Sim! – sua voz tremeu, revelando o verdadeiro covarde que ele era.

_ Ótimo, finalmente estamos progredindo. Eu quero esses quartos agora, Max, e por Deus, qualquer nova gracinha e eu juro que acabo com você antes que consiga ser capaz de ver o que o atingiu! – grunhiu, apertando ainda mais o metal contra a pele – E só por garantia de que você entendeu mesmo o recado, isso fica de brinde! – Alice deslocou o cano frio do metal da cabeça do homem para seu ombro ossudo, apertando o gatilho da arma e deixando a bala ser expulsa contra a pele ressecada do dono da estalagem, que caiu no mesmo instante entre os próprios urros de dor e espanto.

Sayid a encarou como se não a reconhecesse, e Alice jogou a arma no chão, chutando-a para longe do alcance de qualquer um. Max pressionou o ferimento, gemendo com vontade ao notar seus dedos vermelhos e viscosos ao contato com o buraco que atravessava seu ombro.

_ Sem drama, Snape! Não é nada grave, só um pequeno lembrete que vai deixar uma cicatriz. Talvez assim você entenda que não é do meu feitio blefar, e quem sabe não aprenda a ser menos desprezível! Essa foi pelo Dumbledore, cretino! – passou por cima de seu corpo caído, voltando-se para o lado de Sayid e o encarando com diversão ante sua expressão chocada – Ainda acha que eu preciso de proteção, Aladdin?

_ Parece-me que não, Ra’s Al Ghul... – admitiu, e pela primeira vez Alice o viu sorrir discretamente, e foi impossível não acompanhá-lo.

Não demorou mais do que alguns minutos para que Max providenciasse e desocupasse cada um dos aposentos para o uso exclusivo de Alice e seus ninjas, que não perderam tempo em se alojar nos quartos que intercalava os mais fétidos odores de mofo e cigarro. Cada canto parecia consumido por ácaros e traças, mas teria de servir. Era uma estadia provisória.

Alice sentou-se cuidadosamente sobre uma cadeira bamba, dando espaço para que Baguera se aconchegasse em seu colo num pulo preciso. Os dedos da hippie passearam no pelo da enorme e bela gata, sentindo imediatamente o estremecimento que a fazia ronronar, satisfeita e cheia de preguiça.

_ Preciso de uma última providência, antes que eu o libere, Sayid... – anunciou, permitindo-se relaxar cada músculo sobre a cadeira dura. Mesmo com o desconforto indiscutível daquele móvel de origens suspeitas, era relaxante sentar e aliviar o peso do corpo sobre algo que não fossem os próprios pés, já exauridos.

_ Basta ordenar, Ra’s Al Ghul.

_ Eu preciso que você traga Jonathan Crane à minha presença. Traga-me Espantalho, o criador do Gás do Medo o mais rápido que puder! Acha que pode fazer isso sozinho?

O ninja empertigou-se, quase como se a pergunta fosse ofensiva. Em resposta, apenas inclinou a cabeça em concordância e retirou-se, já aceitando sua nova missão e sumindo com a rapidez de um estalar de dedos.

_ E se der tempo, traz uma barra de chocolate também! – gritou em direção à porta, sem saber se o árabe foi capaz de ouvir.

Alice recostou-se um pouco mais na cadeira, que rangeu perigosamente, como um aviso de que seria fácil quebrá-la caso a hippie ultrapassasse aquele limite. Tony entrou na improvisada sala de reuniões, fazendo as rodas de sua cadeira deslizarem sobre o piso até a sua líder.

_ Tony! – ela o saudou, alegre – É bom vê-lo!

_ Ra’s Al Ghul! – retribuiu ao sorriso aberto e sincero da ninja com um dos seus, cativantes e cheios de sabedoria – Espero não ter chegado em má hora... – observou, notando a hippie completamente largada pelo cansaço na simples cadeira que a sustentava precariamente.

_ Cozinheiros nunca chegam em horas erradas – brincou, arrancando mais um dos sorrisos fáceis do cadeirante. Alice voltou a acariciar o dorso de sua Baguera, que já respirava profundamente sobre o colo que se fez cama, o mesmo respirar típico de seus sonhos mais tranquilos. Invejou-a por um momento.

_ Não vou me demorar – o cozinheiro avisou, como se lesse os pensamentos de sua nova líder e traduzisse o par de olheiras que sombreavam os dois olhos negros – Vim apenas agradecer por permitir que eu a acompanhasse nessa viagem. Muitos, inclusive eu mesmo, me julgariam um estorvo, mas confesso que fiquei feliz em poder participar uma última vez dos planos de minha nova Ra’s Al Ghul... – floreou, arqueando uma sobrancelha ao usar aquele título para Alice, um gesto que poderia ser interpretado como zombaria por muitos, mas que a hippie sabia não passar de um sinal brincalhão. Ela sorriu novamente, divertida e satisfeita por testemunhar aquele brilho de excitação no olhar do antigo ninja que, um dia, já ocupou o lugar que agora era de Alice.

_ Estorvo é ter que trazer a PuTalia, Tony, não você! – riu ao ver um meio sorriso travesso no rosto do homem à sua frente, como se ele confirmasse silenciosamente aquela alegação maldosa – Na verdade, eu achei fantástico que você tenha manifestado interesse por nos acompanhar até esse caos em forma de cidade... Você era muito próximo do Ducard, não era? – perguntou, inclinando levemente o corpo na direção do antigo ninja sem ao menos se dar conta do movimento.

_ Era, de fato... – confirmou, de repente cansado e triste – Nós partilhávamos muitas opiniões semelhantes na forma de comandar a Liga das Sombras. Ele foi o meu melhor aprendiz, e mereceu o posto de meu sucessor quando... – parou, encarando a cadeira de rodas por um momento – ...quando eu tive que abandonar a liderança. – completou, com uma pontada de descontentamento proporcionada pela lembrança distante e ácida.

_ Mas, Tony... Eu tenho certeza de que você teria potencial para continuar sendo o Ra’s Al Ghul mesmo nessa cadeira de rodas. Bastava exercer sua liderança e deixar o trabalho braçal para os seus ninjas...

_ Eu mesmo decidi abandonar o comando da Liga – contou, fazendo a hippie franzir a testa e tombar a cabeça de leve para o lado, sem compreender os motivos do antigo ninja – Eu não queria ser um líder incompleto! – explicou – Não queria passar parte de minhas obrigações e responsabilidades para outros ninjas quando eu mesmo não era mais capaz de realizá-las. Não foram épocas agradáveis... Talvez eu tenha me precipitado nessa decisão, mas não me arrependo dela. Nós temos que ser capazes de perceber a hora certa de nos retirar e passar nossos encargos adiante.

_ Às vezes é necessário ter mais coragem para renunciar – ponderou, em tom reconfortante, arrancando uma nova expressão afável de Tony.

_ Sou da mesma opinião.

_ Como aconteceu? – Alice fitou sugestivamente a cadeira de rodas, esquecendo-se da discrição.

_ Um acidente dentro da própria Liga das Sombras – respondeu, meio vago e esquivo – Às vezes, a liderança nos dá uma falsa sensação de que somos imunes a certos... infortúnios. Mas acredite em mim, criança, nós somos os mais propensos a sofrer desse mal. E esse foi o ensinamento mais valioso que a vida me proporcionou – bateu na lateral metálica e emborrachada das rodas –, e que eu passo para você de graça, sem o custo adicional da perda! – sorriu, agora um sorriso despretensioso, sem tristezas nem alegrias. Apenas um repuxar de lábios.

_ Então alguém fez isso com você? Na própria Liga das Sombras?

_ Alguém, não. Os ideais de alguém. A arma mais poderosa de toda a humanidade, à prova de balas e perfuradora dos mais impenetráveis escudos e barreiras. Arma essa que pode nos levar tanto à glória quanto ao fracasso. Aquela única arma capaz de deixar uma cicatriz na História, e que acaba levando algumas pessoas junto como pagamento pelo seu uso...

_ E você acha que Ducard pode ter sido vítima dessa mesma... arma...? – perguntou, quase sem conseguir controlar o afobamento de suas palavras. Talia também parecia ter fortes ideais... Parecia lutar por algo que, talvez, fosse responsável pela morte do inatingível Henri Ducard... E essa suposição não deixou Alice em paz desde a morte mal explicada de seu Mestre... De seu talentoso espadachim. De seu prisma de luz. Que, de tão ardiloso, talvez só pudesse ser derrotado de fato por uma arma simbólica, e não material.

O cozinheiro apenas sorriu pesaroso em resposta, não havendo qualquer necessidade de verbalizar sua opinião acerca daquele delicado assunto.

_ Vou deixá-la descansar agora, Ra’s Al Ghul – despediu-se, retirando-se dali silenciosamente, apenas com ruído baixo do deslizar emborrachado das rodas que substituíam suas pernas.

Alice aprofundou-se em seus pensamentos, imaginando que tipo de circunstâncias levou Tony a passar por todos esses pesares que o fizeram desistir do próprio reinado numa das instituições secretas mais importantes e ativas de todos os tempos.

Sua mente permaneceu vagueando a milhas de seu corpo, ruminando as pequenas miragens de seu tempo de treinamento com Ducard. E o vazio em seu peito só se alargou, até que o sono a levou sem o seu consentimento, destituindo-a por breves momentos de suas preocupações.

Um leve estalido a fez sobressaltar-se sobre a cadeira dura que ainda a mantinha naquela posição desconfortável e incômoda. Baguera nem ao menos se mexeu em seu sono profundo, parecendo bem mais confortável sobre as coxas de Alice do que em qualquer outro lugar. A hippie ajeitou-se com exagerada delicadeza, esforçando-se ao máximo para não atrapalhar o descanso de sua bela gata de pelos negros e brilhantes. Mas todo o cuidado e zelo pareciam dispensáveis... Nem mesmo o mais temível terremoto parecia capaz de tirá-la do mundo dos sonhos. Alice sorriu na direção do animal, grata por tê-la ao seu lado em todos aqueles momentos em que a solidão parecia avassaladora.

Sayid entrou no cômodo, e Alice sentiu novas palpitações no peito. Quase tinha se esquecido da importantíssima tarefa que incumbira ao ninja: trazer-lhe uma barra de chocolate!

_ Aqui está ele, Ra’s Al Ghul! – avisou, todo orgulhoso de si, embora sua expressão fosse a mais séria possível.

_ Ra’s Al Ghul? – Jonathan Crane estreitou os olhos, visivelmente divertido ao reconhecer a mulher à sua frente – A Liga das Sombras já soube ser mais seletiva quanto aos seus líderes... – comentou, com ares brincalhões por baixo daqueles olhos brilhantes e incrivelmente sagazes.

_ Fandangos! – Alice sorriu de volta – Também é bom vê-lo...

_ Eu jamais disse isso – provocou, aproximando-se da cadeira enquanto ajeitava os óculos para mais perto dos olhos, parecendo um tanto curioso e interessado pelo que Alice havia se tornado.

_ Mas eu prefiro acreditar que é assim que você se sente – rebateu, entrando em seu jogo de provocações – Aliás... Agora você está falando com a versão ninja do Poderoso Chefão, então, beije o anel! – Alice ordenou, caçoando do Psiquiatra.

Crane bufou, reproduzindo uma careta cética.

_ Ainda continua a mesma.

_ Vou levar isso como um elogio! E fala sério, eu tenho até a gata, é impossível não me sentir o próprio don Corleone! – riu ao vislumbrar Crane balançar a cabeça, talvez desacreditando que aquela estranha figura tivesse alcançado tal posto de honra entre aquele grupo seleto dos mais brilhantes mestres ninjas.

Sayid pigarreou uma ou duas vezes.

_ Eu devo me retirar, Ra’s Al Ghul? – o árabe perguntou, hesitante.

_ Sim, Sayid, por favor. Eu tenho que ter uma conversa a sós com o Doutor Crane. De Ninja pra Espantalho! – arqueou uma única sobrancelha, sorrindo. Sayid acatou a ordem, levemente contrariado em deixá-la a sós com ninguém menos do que o traiçoeiro Espantalho. Sem mais qualquer palavra, o árabe retirou-se, deixando-os sozinhos, ambos encarando-se com mútuo interesse.

_ Acho que me é válido perguntar o motivo deste gentil rapto... – o moreno principiou bem-humorado, escondendo as mãos nos bolsos de seu castanho sobretudo e analisando o precário quarto com um nojo evidente no olhar.

_ Simples, Fandangos! Eu quero contratá-lo – Alice sentiu-se sorrir um sorriso sádico, enquanto Crane semicerrou os olhos, tirando os óculos do rosto e permitindo-se fitá-la com um interesse cada vez maior.

Notas finais
Se quiserem deixar reviews, isso alegraria muito esse meu dia de bosta! =[ (Sim, estou apelando para o lado emocional de vocês, e não, eu não me envergonho disso!)