A Face Oculta Da Lua
18 Renuncie À Sanidade E Faça Do Seu Jeito
Notas iniciais
_ Contratar? – Crane soltou um riso cético, condizente com sua expressão também debochada e descrente – E será que eu posso perguntar que tipo de interesse você pode ter pelos meus... serviços? – sorriu, divertido com sua própria escolha de palavras.
Alice levantou-se da cadeira endurecida, já sentindo dores de incômodo pelo desconforto proporcionado pelo tempo em que se manteve adormecida ali. Colocou Baguera delicadamente no chão, ainda sentindo a sombra de seu último sorriso perdurar nos lábios levemente repuxados.
_ Que bom que perguntou – disse ao ficar ereta – Creio que o meu interesse seja muito parecido com o de Ducard quando ele procurou por seus... serviços – imitou o mesmo tom sugestivo de Crane, rindo e provocando um meio sorriso astuto no homem à sua frente. – Eu quero uma nova versão do Gás do Medo. Mas confesso que não entendo merda nenhuma de manipulação farmacêutica, e como essa é a sua grande especialidade e a criação é sua, sei que não existe ninguém melhor para esse ofício – Houve uma pausa em que ambos se encararam. Crane fechou sua expressão.
_ Minha mercadoria já é uma obra-prima, Alice – ajeitou os óculos, parecendo quase ofendido por aquela simples sugestão – Não há por que tentar aperfeiçoá-la.
_ Ah, o ego masculino... E vocês, homens, ainda têm a pachorra de dizer que as mulheres são o sexo frágil – zombou, rindo, um som fácil e genuíno. Talvez consequência do efeito inebriante que Gotham lhe causava, mas que a ninja jamais admitiria para ninguém além dela mesma – Concordo plenamente, Doutor Crane, você é o criador de uma das mais notáveis drogas que essa cidade, e eu, inclusive, já tivemos o desprazer de conhecer. Mas eu não quero aperfeiçoar a sua incrível obra de arte – explicou, trazendo uma cadeira para o psiquiatra e voltando a se sentar na sua, quase a contragosto ao sentir os próprios glúteos duros e doloridos –, eu quero modificá-la. Uma nova versão que se encaixará melhor nos meus planos.
_ Que seriam...? – arqueou uma sobrancelha enquanto se acomodava na desconfortável cadeira, um tanto ereto e formal naquela posição. Baguera esfregou-se na perna de Crane ao passar por seu tornozelo, como se lhe desse as boas vindas, e logo se acomodou ao lado de Alice, ronronando baixo.
_ Meu interesse não está no medo, Fandangos. Na verdade, acho que o medo só me atrapalharia.
_ E o quê, exatamente, você procura, Ra’s Al Ghul? – enviesou os lábios num sorriso irônico, como se ainda tentasse se convencer de que aquele título pertencia à mulher de estranhos hábitos que agora o encarava, sorridente. Feliz demais para alguém que, em tese, estava morta.
_ Confissões... – lançou – Quero poder confiar na palavra daqueles que eu interrogar enquanto permanecer aqui.
Crane franziu a testa, parecendo, pela primeira vez desde que foi posto à presença de Alice, mais confuso do que debochado.
_ Creio que o medo seja o melhor precursor da verdade... Você já tem a arma de que precisa em mãos.
_ Até certo ponto, apenas... Pode-se chegar à verdade através do medo, mas o temor turva a visão de quem o sente. De quem o vive... Pode acreditar em mim, eu falo por experiência própria. Durante vários meses eu fui... tratada, por assim dizer, com a sua criação. E muito da verdade se perdia até que só sobrava o medo, irracional e puro. Cruel e frio... – comentou, mais como um pequeno desabafo que jamais deveria ter ousado ultrapassar a fronteira de seus pensamentos. Crane a encarou como se Alice fosse uma apetitosa presa, e ele, um faminto lobo.
_ Tratada com o Gás do Medo? – esbanjou interesse e sede pelos possíveis resultados que isso poderia gerar em alguém.
_ Fez parte do meu treinamento ninja... Mas não é isso que vem ao caso agora – avisou, disposta a direcionar a conversa para o rumo certo novamente – A questão aqui, Doutor Crane, é que eu preciso saber se você é capaz de manipular os efeitos do Gás do Medo de forma que essa nova droga faça a pessoa ficar num estado inerte... dormente... quase anestesiada, enfim... Algo que me permita extrair cada gota de verdade – explicou, sem saber se o seu pedido soou muito confuso. Mas ao que pareceu, Jonathan entendeu perfeitamente. Ele desviou os olhos para longe, como se refletisse. Seus lábios se encresparam brevemente, formando um par de covinhas em seu rosto antes que retornasse o olhar para a ninja e respondesse.
_ Acho que primeiro poderíamos discutir quais serão os meus benefícios – sorriu, e até mesmo o simples gesto de sorrir parecia milimetricamente calculado, assim como cada palavra do ardiloso psiquiatra. E por mais que ele tentasse não demonstrar abertamente o interesse que sentia, seus olhos se ofuscaram pelo desafio.
_ Qual é o seu preço, Fandangos? Uma nova filial da Elma Chips?
_ A começar por essa associação ilógica – arqueou uma sobrancelha repreensora – Trate-se a mim como Doutor Crane, ou até mesmo Espantalho.
_ Dinheiro nenhum paga por isso... – suspirou.
_ E, digamos... – ele prosseguiu, pensativo – Trinta por cento de todo o lucro da Liga das Sombras enquanto eu a agraciar com meus serviços. Além de um valor basal, é claro – alargou o sorriso, convencido.
_ Salário fixo, trinta por cento dos rendimentos e nada de apelidinhos? Sem essa, Fandangos, eu tenho um bando de ninjas famintos pra alimentar, e você não vale tudo isso – riu, incapaz de conter a zombaria que saiu junto ao ato involuntário da risada – Seja sensato, Crane. A Liga das Sombras nem tem um rendimento considerável para que você tente tirar vantagem dele. Assim você me leva a acreditar que o codinome “Espantalho” é uma referência ao Mágico de Oz, e que você está em busca de um cérebro – repudiou, e o tom cortês de Alice não foi suficiente para compensar o teor de suas palavras. Contudo, Jonathan apenas sorriu em sua direção, um gesto perspicaz que deixava mais do que claro que o psiquiatra era mais inteligente do que todos os ninjas de Alice juntos. E que ele tinha plena consciência de sua vantagem mental.
_ Toma-me por um tolo. É um jogo arriscado subestimar alguém como eu, Alice – avisou com aquele seu tom de ameaça que mais parecia um conselho amigável, mas que trazia a potência de sua acuidade. Seus olhos azuis e profundos semicerraram-se atrás das grossas lentes que tinham a capacidade de tornar seus orbes ainda maiores – Você se esquece de que eu já trabalhei para a mesma instituição que agora você governa? Conheço bem as atividades lucrativas da Liga das Sombras, e eu as julgo bem... rentáveis!
_ Sei... – assentiu, sem se abalar com a tentativa de intimidá-la, retribuindo ao olhar parcialmente cerrado do psiquiatra – Não se ofenda, eu sou novata nesse ramo – sorriu, como se pedisse desculpa. Mas Jonathan sabia tratar-se de um disfarçado gesto de deboche, como tudo na hippie – Que tal isso: eu pago o mesmo que Ducard negociou com você quando te contratou, mais dois por cento dos lucros e os apelidos liberados? Ou, se você preferir, eu paro com os apelidos e te dou só um por cento de tudo o que a Liga arrecadar nesse meio tempo – negociou, lançando sua contraproposta.
_ Se esses são os termos da sua negociação, creio que não poderei ajudá-la... – salientou, arrastando a cadeira para trás ao se levantar.
_ Tudo bem, tudo bem! Cinco por cento e fazemos negócio. Vamos, Jonathan, você já vai sair no lucro de qualquer forma.
_ Vinte e cinco por cento – tornou a sentar-se, sem cerimônia alguma.
_ Dez!
_ Vinte – rebateu, esboçando um meio sorriso.
_ Quinze, e não se fala mais nisso! E eu paro com o “Fandangos”... Ou tento, pelo menos... – riu, travessa, ao lançar sua última oferta.
_ Justo... – levantou a mão direita para firmar o acordo. Alice a apertou, sorrindo.
_ Só pra você saber, eu teria fechado negócio com os trinta por cento – contou, sua voz mais audaciosa do que costumava soar.
_ E eu teria aceitado os cinco por cento – rebateu, também com um sorriso astuto que invalidava a ousadia e pretensão que moveram Alice a acreditar que poderia dobrá-lo. A expressão satisfeita da ninja se desfez no mesmo instante, reprovando sua própria estupidez de achar que estava um passo à frente naquela negociação.
_ Certo então, Fand... – pigarreou – Espantalho. Toda a burocracia dos seus honorários você pode tratar com Steve, o meu contador. É o cara ruivo com físico de minhoca. – explicou – Agora, voltando ao que interessa... Me diga, é possível criar essa nova droga a partir do Gás do Medo?
_ Bem... – Crane umedeceu os lábios, talvez imaginando o melhor jeito de formular uma explicação leiga – O Gás do Medo funciona, basicamente, estimulando uma liberação cavalar de adrenalina e cortisol...
_ ...Os hormônios do estresse – Alice completou, interessada.
_ Exato! – Crane aquiesceu, parecendo satisfeito – Esses hormônios atuam em conjunto com um potente alucinógeno, proveniente da flor azul que é comum nas montanhas do Himalaia. Acredito que eu possa aproveitar o mesmo efeito alucinógeno, talvez mais atenuado, e suspender a adrenalina e o cortisol. Creio que possa trocá-los por fármacos opióides, como a codeína, talvez, que produz um leve efeito analgésico, apenas para diminuir a ação das vias de transmissão nervosa e causar um possível estado inerte... Ou talvez intercalá-la com doses de melatonina, o hormônio regulador do...
_ ...Sono e vigília – completou novamente, aprovando a linha de raciocínio traçada pelo psiquiatra.
_ Sim – concordou novamente – a melatonina por si só já criaria naturalmente uma sonolência. Agora, em conjunto com um analgésico e um alucinógeno depressor de que já dispomos, esse efeito, acredito eu, lhe daria o tal estado inerte ou dormente que você citou. Mas serão necessários algumas avaliações para me permitir averiguar a eficácia desse novo projeto. Preciso verificar as dosagens, e isso pode levar um tempo... Creio que testes mais específicos e esporádicos possam catalisar o efeito correto dessa nova droga – comentou, parecendo um tanto empolgado.
_ Por ‘testes mais específicos’ você quer dizer ‘cobaias humanas’? – perguntou, coçando distraidamente a orelha de Baguera, que novamente adormecera sem a menor dificuldade, tão imóvel quanto as raízes fincadas de uma árvore.
_ Precisamente – moldou um novo sorriso em seu rosto, deixando que a satisfação transparecesse diante daquele simples pensamento – Para chegar mais rápido aos resultados reais, preciso comprovar os efeitos da droga em humanos. – sorriu mais largamente ainda – Imagino que você tenha pressa por esses resultados!
_ Acertou – respondeu, divertindo-se com a feição desejosa do psiquiatra, e descobrindo que ela mesma não se chocara com a sugestão – Crie essa nova droga, Doutor Crane, e eu lhe arrumo os voluntários...
_ Falou como uma verdadeira Ra’s Al Ghul – elogiou, dessa vez sem os traços de ironia. Lançou-lhe um sorriso cúmplice e apinhado de apetite, como se Alice fosse um prato cheio para suas análises. Como um bálsamo para a sua necessidade aparentemente intangível de desvendar a mente humana e seus mais particulares nuances. A hippie tola que foi internada em Arkham com ele há alguns anos parecia não mais habitar aquele corpo, e essa mudança tão complexa realmente intrigava o psiquiatra.
Alice retribuiu à pequena consideração com um leve sorriso tristonho. Por mais que soubesse que deveria alegrar-se pelo elogio, a ninja sabia que o preço por seu novo posto era tão alto e amargo, que ela não se permitia usufruir totalmente dele. Simplesmente porque a sua liderança era o lembrete diário de que Ducard não estava mais ali para ocupar aquele lugar que lhe caía tão bem, para guiá-los com a sabedoria que ainda faltava à hippie.
Crane começou a trabalhar imediatamente em seu próprio laboratório, já estimulado pela perspectiva do novo desafio que lhe fora imposto. Alice permaneceu naquele mesmo aposento que ela mesma estipulou ser o cômodo comum entre os ninjas. Aquele em que ela revelaria suas ordens e quais seriam seus próximos passos. Logo eles chegariam para receber novos rumos, e Alice não tinha a menor ideia de como prosseguir, ou o que dizer...
Ela mantinha-se sentada, encurvada para frente e apoiando os cotovelos nos próprios joelhos, fitando pensativamente a mesma carta que tanto vislumbrou ao longo dos meses. Os dizeres “Au revoir, Docinho” já estavam relativamente desbotados, consumidos pelo manuseio constante que Alice infligia àquela peça única de baralho.
_ Como eu posso te achar, seu palhaço cretino? – perguntou a si mesma, suspirando com a falta de resposta. Em todo o seu relacionamento doentio com Coringa, Alice nunca conseguiu encontrá-lo quando bem entendia. Ela sempre era encontrada por ele. – É isso – resmungou o óbvio, mesmo que já o conhecesse –, ele precisa chegar até mim, e não o contrário... Mas como eu posso atrai-lo sem permitir que a mentira da minha morte seja descoberta? – questionou-se novamente, quase praguejando pelo dilema que atrasava seus planos.
Na essência, atrair Coringa para aquele covil de ninjas seria muito fácil. Bastava permitir que ele soubesse que Alice ainda estava viva, e ele mesmo se encarregaria de encontrá-la, disso a ninja tinha certeza. Mas, como deixar essa notícia vazar apenas para o Palhaço, sem que a mídia tomasse conhecimento da falsa morte?
Talvez Alice até pudesse mobilizar alguns de seus ninjas para procurar pelo psicopata... Contudo, mesmo que conseguissem encontrá-lo, Alice sabia que isso tomaria um tempo terrivelmente precioso. Conhecer a localização de Coringa não seria tão fácil quanto foi com Jonathan Crane, e tempo era um luxo pouco concedido à Alice naquela situação. Cada dia a mais em Gotham colocaria a sua farsa em perigo, e não podia permitir que aquela cidade sequer suspeitasse de que ela estava muito bem viva.
Alice coçou a curva de sua mandíbula, incomodada. Ao que tudo indicava, para satisfazer uma opção, ela teria que sacrificar outra. Suas alternativas pareciam reduzidas a zero...
Em meio àquelas dúvidas e dilemas, de apenas uma coisa Alice tinha certeza: de forma alguma poderia parecer indecisa perante seus ninjas. Teria de pensar em algo, e rápido!
_ Se me permite dizer, Ra’s Al Ghul – Steve chamou a sua atenção ao adentrar no quarto que fedia a mofo, torcendo o nariz de nojo ao ver uma enorme e cascuda barata se enfiar num pequeno buraco formado entre o vão de duas madeiras quase podres que formavam o piso –, não sei se podemos arcar com esse valor estipulado pelo Doutor Crane... Quinze por cento da renda da Liga é um preço muito alto! – avisou, preocupado, encarando alguns papéis escritos no idioma dos contadores.
_ Não se preocupe, Steve! A Liga das Sombras tem boas reservas. E, se o Fandangos realmente conseguir fabricar essa nova droga – “E é bom que consiga!”, pensou – nosso lucro será ainda maior. É até um valor baixo pela grandiosidade do produto.
_ Espero que esteja certa... – comentou, ainda analisando vários números com a testa franzida, como se tentasse traduzir esse otimismo com os dados pouco favoráveis.
_ Claro que sim, deixe de ser medroso, Steve! – riu – E deixe o Doutor Crane brincar em seu laboratório. O preço dos seus honorários é justo. Ele é o único que pode me dar o que eu procuro, e tem plena consciência disso... O seu valor nada mais é do que uma demonstração prática da teoria da oferta e da procura.
_ Não sei não, Ra’s... A meu ver, todos esses vilões são uma espécie de máfia com essas negociações agiotas de seu próprio preço.
_ Confie em mim, Steve, foi um ótimo negóc... – Alice estancou, ficando exageradamente ereta sobre a cadeira – Você disse máfia? – fitou o contador com os olhos arregalados, mais brilhantes do que o habitual – Steve, você é um gênio! Me lembre de te dar um gordo aumento quando voltarmos pra Liga! – levantou-se de um pulo, sorrindo largamente para o contador, que parecia embasbacado com a repentina mudança de humor de sua líder, que antes parecia tão preocupada e agora sorria-lhe bestamente...
Alice segurou o rosto de Steve com ambas as mãos e deu um estalado beijo em sua bochecha direita, deixando-o tão vermelho quanto seus cabelos cor de fogo.
_ Q-Que bom que p-pude aj-judá-la, Ra’s... – disse, desajeitado, fazendo sua gagueira vir novamente à tona. Alice soltou uma gargalhada gostosa, divertida com o constrangimento do contador.
_ Vá chamar os outros, Steve! – ordenou, ainda sorridente com seu próprio plano, finalmente bolado – Já passou da hora de agir.
O contador anuiu breve e respeitosamente, retirando-se do cômodo ainda parecendo em brasas. Alice riu uma última vez, achando graça de nada específico, apenas aliviada por saber como proceder dali por diante. Por finalmente dar o primeiro movimento às peças do tabuleiro!
_ E não é que eu também tenho meus truques?! – pensou alto demais, apertando ainda mais forte a carta coringa enquanto dava alguns passos ansiosos, que faziam a madeira velha ranger sob seus pés inquietos.
Steve trouxe todos rapidamente, e logo o precário quarto estava amontoado dos mais hábeis guerreiros, cada um encarando sua líder com uma expectativa diferente. Exceto Talia, que mantinha-se desinteressada por qualquer assunto da Liga desde que Alice ocupou seu antigo lugar. A hippie sorriu internamente, sabendo o quanto devia ser atormentador para a filha de Ducard seguir as ordens de uma ninja recém-formada.
Assim que Steve fechou a porta atrás de si, Alice deu um pequeno pigarro introdutório de seu discurso, fazendo reinar o mais profundo silêncio.
_ Meus bons ninjas, espero que todos já estejam devidamente alojados em seus próprios quartos... – principiou, e vários olhares transmitiram concordância – Ótimo... Agora, escutem-me com atenção. É sabido por todos o quanto Gotham foi prejudicial à Liga das Sombras em tempos passados. Nossa casa foi destruída pelos interesses dessa cidade vil, muitos de vocês perderam companheiros no atentado mal sucedido que aqui realizaram. Infelizmente, eu não posso trazer as vidas perdidas de volta... Contudo, nosso prejuízo deve ser ressarcido, ao menos em parte. – Alice fez uma rápida pausa, vislumbrando cada olhar interessado – Todos sabem os motivos que me fizeram trazê-los de volta a essa cidade, e eles envolvem questões pessoais, porém, nem por isso, eu poderia desconsiderar os interesses da Liga das Sombras nessa viagem.
_ Pretende arriscar um novo atentado, Ra’s Al Ghul? – Talia perguntou com um sorrisinho prepotente e desafiador demais para o gosto de Alice, como se adorasse testemunhar um novo fracasso pelas mãos daquela que usurpou o seu trono. A hippie respirou fundo antes de responder, mas o gesto nem de longe foi calmante.
_ Não, PuTalia. Não acho que persistir no erro seja a opção mais inteligente, embora você provavelmente não compreenda isso, já que continua desafiando sua líder com palavras venenosas. Qual é mesmo a punição para insubordinação? – perguntou a ninguém específico, mesmo já conhecendo a resposta.
_ Exílio... – alguns ninjas ecoaram, fazendo um sorriso brotar no rosto de Alice.
_ É este o seu desejo, Talia? Ser permanentemente afastada da Liga pelo preço de sua própria vida? Pois suas provocações estão colocando em prova o limiar da minha paciência – apenas comentou, sem qualquer indício de ameaça em seu tom perfeitamente contido, domado apenas pelos ensinamentos que recebeu tão eficientemente de Ducard. A expressão da mulher imediatamente se fechou, e de repente seu olhar perdeu a zombaria.
_ Sinto muito, Ra’s Al Ghul. Não foi minha intenção ofendê-la – seu timbre esbanjava inocência, mas Alice sabia bem o quanto aquele arrependimento era falso.
_ Claro que não... – riu consigo mesma, extravasando mais escárnio do que pretendia – Agora, voltando ao que interessa... Ah, sim! – lembrou – Irei direto ao ponto para evitar novas interrupções estúpidas... – pigarreou, referindo-se abertamente à Talia – Eu preciso atrair aquele palhaço do Coringa até aqui – contou, enraivecendo-se com o arrepio irrefreável que aquelas palavras lhe proporcionaram ao imaginar-se novamente frente a frente com o psicopata. Com o seu detestável e delicioso vício... Tentou recompor seus pensamentos antes de tomar novamente a palavra – E, por alguns minutos, essa me pareceu uma tarefa quase impossível. E eu ressalvo o quase, ninjas! – ela sorriu antes de prosseguir, deleitando-se com a própria ideia – Coringa, como todos bem sabem, tem relações fortemente ativas com a máfia de Gotham. E a máfia, em sua infinita arrogância e desrespeito pela incompetência das autoridades, possui seu próprio Banco, à leste da cidade, o que também não é segredo para ninguém. Então, o plano é simples: amanhã assaltaremos o Banco da máfia de Gotham e permitiremos que eles nos encontrem aqui. Oferecerei seu dinheiro de volta pela presença de Coringa, mas não o devolverei. Esse é um dinheiro que nos pertence por direito, e assim será! – concluiu, satisfeita ao notar a aprovação silenciosa no semblante de cada ninja. Até mesmo Talia parecia levemente impressionada com o modo como Alice planejava mover as peças em prol de seus interesses conjuntos com os da Liga.
E aquele seria apenas o primeiro movimento...

O dia seguinte não tardou a chegar, e tudo já parecia encaminhado para o tão esperado momento do roubo que, Alice sabia, seria nada menos do que épico. Magistral, se bem conhecia a competência sobre-humana de seus fiéis ninjas.
_ Máscaras? – a hippie segurava uma prancheta com uma lista de tudo o que deveria ser providenciado, conferindo todos os itens uma última vez antes de chegar às vias de fato.
_ Todas aqui – Tony segurou um dos materiais de acrílico, mostrando-o à Alice. Todas as máscaras eram pálidas e esboçavam um amplo sorriso fechado, sem dentes. Expressivos demais para um rosto sem olhos.
_ Interessante... V de Vingança! Gostei da escolha, bem condizente com o nosso próprio intuito! – aprovou, riscando o item da lista e correndo os olhos para o próximo – Vans?
_ Já estão estacionadas lá fora, Ra’s – avisou, eficiente.
_ Ótimo, ótimo... E as armas, Tony? – franziu as sobrancelhas ao não avistar nenhuma nova caixa com o conteúdo bélico.
_ Já foram carregadas para as Vans.
_ E quais são elas? – perguntou enquanto riscava mais esse item em sua lista.
_ Bom, elas serão apenas uma alternativa... Como creio que as armas nem precisarão ser usadas, optei por um modelo leve e de fácil manipulação – contou, empolgado, sinceramente contente por poder participar mesmo que indiretamente dos planos da Liga – O que acha, Ra’s? É uma autêntica M-1911, uma pistola prática, sem gerar grandes estardalhaços – comentou, mostrando um exemplar que descansava em seu colo sobre a cadeira de rodas.
Alice segurou a arma, sentindo seu peso e mobilidade. Analisou o acabamento simplório e leve, passando os dedos pelo metal frio com um interesse minucioso.
_ E as munições? – perguntou, ainda analisando o objeto cinza escuro que brilhava sobre seus dedos, refletindo a luz fraca do cômodo.
_ Já foram inseridas às pistolas. Eu arranjei algumas caixas extras para ter alguma munição como reserva, caso seja realmente necessário usá-las, embora eu duvide. De qualquer forma, as balas que não foram carregadas às pistolas já estão na Van.
_ Perfeito... Quantos tiros?
_ Sete no compartimento da padrão-capacidade e um na câmara do acendimento.
A ninja segurou o cabo da arma com as duas mãos, levantando-a até a altura de seus olhos ao suspender ambos os braços retos e firmes. Mirou numa discrepante rachadura que se destacava na parede porca e manchada, abaixando a trava no dorso da pistola e apertando com firmeza o gatilho. A bala cuspida pelo revólver fez nascer um novo buraco na argamassa a apenas alguns milímetros da rachadura que Alice tentara acertar.
_ Boa. Gostei. O tiro é preciso e não é uma arma chamativa... Leve e fácil, exatamente o que eu queria. Ótimo trabalho, Ratatouille! – elogiou, realmente satisfeita com sua competência. Tony parecia ansioso por provar o seu valor, e havia conseguido. O cozinheiro superou as expectativas de Alice ao mostrar-se capaz de providenciar todos os recursos que seriam necessários para o assalto e mais um pouco, realizando tal feito em menos de um dia de prazo.
_ É bom ser um pouco útil em artes que não envolvam o uso dos condimentos! – sorriu, satisfeito consigo mesmo e grato pela confiança de Alice. Desde que perdeu o controle das pernas, não havia se sentido tão vivo como nesses últimos dias. Como se a sua deficiência não parecesse mais um abismo tão largo entre ele e os outros ninjas... afinal, ainda era um filho da Liga das Sombras, e sua sabedoria poderia avançar para além de panelas e temperos! – Tudo já está nos conformes para a investida, Ra’s Al Ghul. Assim que partirem, darei início a algumas pequenas providências para facilitar o descarregamento do dinheiro.
_ Ah, isso seria mesmo fabuloso, Tony, mas creio que você, mesmo sendo um ninja, não consiga o feito de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Se conseguir, me ensine, pois Ducard me escondeu essa lição! – sorriu, divertida com a expressão entre confusa e descrente do cozinheiro.
_ Como? – perguntou meio vacilante, quase permitindo que sua voz soasse falha.
_ Você vai conosco, Tony! – salientou, de forma mais clara – Eu tenho uma tarefa especial para você... A não ser, é claro, que prefira ficar e preparar nosso jantar! – zombou – Até porque, assaltos costumam me deixar faminta...
Alice sorriu, talvez um dos sorrisos mais sinceros que já deu em sua vida, ao testemunhar os olhos de Tony marejarem-se de imediato à notícia, juntamente com a sua expressão de total incredulidade por novamente sentir-se um integrante da Liga das Sombras...
... Por sentir-se um ninja na sua realidade, e não apenas em seus sonhos nostálgicos!
A trajetória até o banco da máfia se deu no mais profundo silêncio. A Van que Alice guiava mostrava o caminho à frente, sendo seguida por mais uma remessa de ninjas que se alojou noutra Van, bem atrás da carroceria branca que a hippie dirigia. O caminho pareceu-lhe bem mais longo do que era capaz de recordar.
“Controle-se!” – ordenou à própria ansiedade – “Um ninja deve ser calmo como a brisa primaveril. O medo e a expectativa apenas turvam a visão e induzem ao erro. E falhar não é uma opção!”
A voz calma e melodiosa de Ducard segredou-lhe algumas das recomendações que o ninja sempre fazia, transmitindo mais serenidade à hippie, que aos poucos foi se tranquilizando, até quase ser capaz de relaxar sobre o banco do motorista.
Mas conforme o seu destino se tornava visível, suas palpitações pareciam querer presenteá-la com novas taquicardias. A hippie freou com brusquidão, manobrando o robusto automóvel com agilidade, de forma que a traseira da Van ficasse voltada para a enorme porta do Banco. A outra Van sob o comando da ninja imitou o movimento.
_ Prontos? – Alice perguntou com novas ânsias de aflição, mal vendo a hora de colocar seu plano em prática. Todos os rostos já cobertos pelas máscaras ao estilo V de Vingança anuíram, e a própria Alice escondeu seu rosto com a máscara que ainda estava em suas mãos geladas pelo próprio suor frio – Tony, eu preciso que você fique aqui na Van e me avise assim que a máfia chegar. Eles virão armados, fortemente armados, então eu não posso ser pega de surpresa, tudo bem? Me desculpe por não levá-lo ao assalto, mas você é essencial aqui, do lado de fora...
_ Você já fez muito mais por mim do que eu poderia pedir, Ra’s Al Ghul – abriu um sorriso grato, pousando uma mão firme em seu ombro – Agora vá, e deixe que eu cuido dos problemas aqui de fora. Vá fazer história, menina! – fitou sua líder com admiração, e Alice retribuiu-lhe o sorriso que ainda persistia no rosto convidativo de Tony.
_ Isso não vai demorar... Espero... Fique com esse Nextel, e me comunique a respeito de cada passo da máfia quando ela chegar aqui – despediu-se, finalmente saindo do carro com os outros ninjas, todos mascarados e vestidos com as tradicionais túnicas largas que eram o traje próprio da Liga das Sombras. Encarou o Banco, arrepiando-se involuntariamente pelo que estava prestes a fazer.
Sorriu por baixo da máscara pálida. O momento finalmente chegara!
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