A Face Oculta Da Lua

20 Brinque Com O Meu Fogo, Venha Se Queimar!


Notas iniciais
Milena Black Potts Stark, seja MUITO bem vinda, frô! Que você tenha paciência de acompanhar essa fic até o fim! Esse capítulo é pra tu ^^ Acho que esse é o último capítulo que virá rápido, queridões! Pelo menos até as férias, então não se esqueçam de me dizer o que acharam, ok? Ou eu serei obrigada a enviar o Sayid numa missão especial de caçá-los um por um... =]

_ Eles chegaram! – Sayid a alertou, com a sombra de um satisfeito sorriso perdurando em seus traços mouros.

_ Foi mais rápido do que eu pensei – Alice admitiu, encarando-o com certa cumplicidade. Seu coração bateu mais forte, mas não por medo – Coloquem as máscaras, ninjas. Temos convidados. Convidados de honra! – sorriu ainda mais largamente antes de esconder o próprio rosto com o mesmo acrílico que protagonizou o maior dos saques de Gotham City. Seus ninjas a imitaram, e no instante seguinte todos possuíam exatamente a mesma expressão.

Alice observou atentamente enquanto vários mafiosos desciam do Furgão preto com pressa, e da janela em que os via, era possível perceber cada rosto denotando uma evidente insatisfação por verem-se submetidos aos termos daqueles que haviam levado o maior dos montantes da fortuna ilícita da máfia, dos incontáveis dólares que foram fruto de décadas de trabalho sujo, e que agora não estavam mais em sua posse.

Tony os esperava na entrada da porca estalagem, encarando-os com dureza ao vislumbrar a quantidade de armas de fogo que carregavam. O único que podia realmente mostrar seu desagrado pelas feições que não se escondiam atrás daquele acrílico pálido.

_ Armas não serão necessárias aqui, senhores. Se quiserem ter com a minha líder, deverão despir-se do aporte bélico – o cadeirante avisou-os, irredutível, pouco se importando com os risos de escárnio que seu comentário provocou.

_ E quem nos impedirá de entrar com elas, aleijado? Acha que somos estúpidos de encontrar aqueles que nos atacaram sem um mínimo de precaução? – um dos mafiosos, de cabelos que caíam quase aos ombros e dono de um espesso e negro cavanhaque, retrucou, repleto de fúria.

_ São esses os termos. Garanto-lhes que o intuito deste encontro é unicamente tratar de interesses em comum, não pretendemos travar uma luta aqui, apenas negociar. Suas armas devem ficar ao lado de fora – tornou a avisar.

_ E quem disse que a sua palavra é garantia de alguma coisa? – o mesmo homem encarou-o com fúria, irritado por receber ordens daquele que o havia roubado – Suas promessas são tão inúteis quanto suas pernas! – cuspiu no chão, como se o xingasse com o gesto.

_ Mas sou eu quem tem o seu dinheiro, não é verdade? – Tony lançou um sorriso astuto, vendo o desagrado se alastrar mais amplamente pelo rosto do homem que acabara de desafiar. Uma demonstração que, para Tony, era um indício do quanto aqueles homens eram fracos e previsíveis ao escancarar seus sentimentos daquela forma.

“Amadores...” – o ninja pensou, enojado.

_ Eu poderia cortar-lhe aos pedaços e dar de comer aos meus cães, aleijado! – ameaçou, mas Tony sequer alterou sua expressão.

_ Já basta disso! – um dos mafiosos disse, enérgico, e Tony imediatamente reconheceu-o como sendo Falcone – Muito me espanta seus modos, Chechen! Estas são as regras da casa deles, e devemos acatá-las conforme os desejos de nossos anfitriões – disse com falsa cortesia, voltando-se para Tony em seguida com um olhar ameaçador e estreito, tão letal como poucas vezes o cozinheiro já vira – Embora vocês não tenham respeitado a nossa casa.

_ Se não a tivéssemos respeitado, não estaríamos dispostos a negociar. Por acaso não é dessa mesma forma que vocês conduzem seus negócios, ou será que eu estou enganado?

_ Guardem as armas – Falcone ordenou, sem desviar o olhar de Tony por um único momento enquanto os outros o obedeciam – É melhor que vocês sejam tão bons quanto pensam... Para o próprio bem de vocês! – disse, como uma sutil ameaça, potencializada por cada centelha que parecia querer escapar de seus olhos escuros. Tony apenas sorriu em resposta, virando a cadeira de rodas em direção ao interior do albergue.

“Você nem faz ideia, seu tolo!”

_ Sigam-me. Minha líder os espera! – disse polido, e, a muito contragosto, os homens o obedeceram.

Alice aguardava a chegada de seus peculiares convidados com certa impaciência, repassando mentalmente o seu discurso já pré-preparado e imaginando as possíveis reações que suas palavras e condições desencadeariam.

A porta do cômodo em que estava escancarou-se num rangido escandaloso, dando passagem a Tony e à trupe de mafiosos que o seguiam. Sobre aquelas circunstâncias, era difícil decidir qual dos rostos era mais ameaçador.

_ Sejam bem-vindos à minha estadia, senhores – a hippie cumprimentou-os, divertida com os olhares odiosos que cada um deles fazia questão de incidir sobre si – É simplória, mas tem me servido bem, espero que possam ficar à vontade enquanto escutam minha proposta – disse, apontando para algumas cadeiras dispostas desordenadamente pelo pequeno recinto.

_ Guarde suas falsas cortesias para quem se importa com elas – Maroni retrucou, irritadiço, e nenhum dos mafiosos sequer sentou. Mantiveram-se exatamente na mesma posição, todos fitando-a com uma intensidade perigosa.

_ Certo, como queiram – deu de ombros, indiferente, preparando-se para dar início ao seu discurso – Bom, senhores, talvez vocês tenham chegado a notar que ontem, pelo fim da tarde, seu Banco sofreu um pequeno desfalque – comentou, jocosa, arrancando mais algumas expressões furiosas com o deboche – de qualquer forma, que bom que estejam aqui para resolvermos essa pequena desventura. Eu não tenho qualquer interesse no dinheiro de vocês. Na verdade, tenho a intenção de devolvê-lo, sob uma mínima condição.

_ Você não pode nos subornar com o nosso próprio dinheiro, sua estúpida! – um dos mafiosos protestou, mas toda a atenção de Alice parecia totalmente direcionada a Falcone, que ainda não havia se manifestado em sua presença, apenas a observava de olhos cerrados e maldosos.

_ O interessante é que você vai descobrir que eu posso! – Alice disse num tom risonho que teve o poder de irritar ainda mais o mafioso – Mas, antes de nos desgastarmos com discussões preliminares tolas, permitam-me ao menos esclarecer as minhas intenções... – solicitou, com ares inocentes de quem não sugere nada de extraordinário.

_ O que você quer? – Falcone foi direto ao ponto, e seu tom seco fez Alice sorrir por baixo da máscara.

_ A pergunta mais apropriada seria Quem, e não O quê... – corrigiu-o, ainda incapaz de livrar-se do sorriso que ninguém podia ver. Falcone arqueou uma sobrancelha, parecendo mais disposto a ouvi-la. Agradava-lhe mais a perspectiva de recuperar o seu dinheiro entregando quem quer que fosse, do que se desfazer de algo que possuía. Isso, inegavelmente, sairia mais barato.

_ Pois bem... Quem você quer? – reformulou a pergunta, e de repente sua voz não despontou mais com o mesmo manifesto de ameaça que foi possível notar antes.

_ Coringa! – saboreou aquele momento em que a unanimidade dos mafiosos parecia realmente confusa em suas testas franzidas – Tragam o Palhaço até mim, e vocês terão o seu dinheiro de volta. Cada centavo – sorriu dissimuladamente, aproveitando que sua máscara lhe eximia de fingir as emoções que verdadeiramente sentia.

_ Coringa? – Falcone bufou um breve riso, incrédulo – E como espera que convençamos o Palhaço a vir aqui?

_ Basta dizer que uma indústria de cosméticos está distribuindo amostras grátis de maquiagem nessa porção da cidade – zombou, rindo. O mafioso cerrou os olhos, expressando silenciosamente a sua desaprovação – Sinceramente, isso devia ser um problema de vocês, mas, felizmente, eu tenho um meio de atrai-lo para cá. Só preciso que os senhores sejam os intermediários.

_ E como, exatamente, você planeja isso?

_ Entreguem isso ao Palhaço – Alice aproximou-se de Falcone, entregando a carta coringa que por muito tempo não saiu do próprio bolso. Foi quase com pesar que se desfez daquele pequeno objeto colorido. Falcone encarou por alguns segundos a escrita que não lhe fez o menor sentido: “Au revoir, Docinho!”, e por fim, olhou confuso para a mulher mascarada.

_ É isso? Entregar uma carta de baralho surrada ao Coringa? – questionou com descrença, achando um trabalho simples demais por sua fortuna.

_ Sim, é isso. Entregue este baralho ao Coringa. Não pode ser outro, deve ser este – ressaltou, apontando para a velha peça de carteado – E quando o fizer, diga-lhe que o seu Docinho deseja vê-lo, exatamente com essas palavras, e dê o endereço deste lugar a ele. Depois, e somente depois, que eu tiver a minha conversa com o Palhaço, vocês poderão retornar e reclamar pelo seu dinheiro.

_ E que garantias você me dá de que este não é um plano para fugir com Coringa e com o meu dinheiro? – lançou olhares desconfiados de Alice para a carta de baralho, e de volta para Alice, ainda achando tudo fácil demais. Coringa não valia toda aquela fortuna... Ainda se a mulher pedisse pela morte do Palhaço, ele entenderia, mas nem isso... Apenas solicitava sua desagradável presença... Talvez ela quisesse dar cabo de sua vida pessoalmente... Talvez!

_ Ora, sejamos sensatos... Se fosse do meu desejo fugir com a sua fortuna, nós jamais teríamos essa conversa. Eu simplesmente... fugiria! – disse o óbvio, gesticulando. Ele ainda a mirou com desconfiança e receio, parecendo relutante, mas Alice sabia que não havia outra escolha senão ceder – E então, o que me diz? Temos um acordo, Gavione?

_ É Falcone! – ele a corrigiu, descrente de que era possível existir tamanha estranheza numa única pessoa.

_ E qual a diferença? Gavião, falcão... Ambos são aves de rapina – deu de ombros uma segunda vez, rindo internamente com o ranger de dentes do mafioso, que denotava simplesmente que ele teria de aceitar aqueles curiosos termos, firmando-se assim um pacto entre mafiosos e ninjas, numa calada de noite que parecia tão comum, mas que escondia sua verdadeira peculiaridade naquela pequena estalagem.

Algo completamente inusitado para a Liga das Sombras, que tinha o hábito de combater a máfia, mas que agora, teria de usá-la...

... Até que fosse novamente dispensável.

_ Temos um acordo – respondeu, relutante, após uma pausa que parecia não querer deixar aquelas palavras saírem-lhe pela garganta. Odiava sentir-se manipulado ou encurralado, mas teria de sufocar seu próprio orgulho ao menos por enquanto. – E eu sugiro que você não o quebre – ameaçou sem qualquer cerimônia, fazendo novamente faíscas perdurarem em seu olhar psicótico antes de dar meia volta e retirar-se dali, ainda segurando com força a carta coringa que lhe fora confiada.

Os mafiosos seguiram-no, ainda incertos quanto às reais intenções da mulher de máscara que os recepcionara. Nem ao menos conheciam seu rosto, enquanto ela parecia conhecê-los muito bem. Isso era algo que realmente os incomodava...

_ O que acha disso, Lau? – Falcone questionou-o enquanto adentravam na enorme lataria preta – Você não se manifestou ao menos uma vez...

_ Sinceramente... – o homem de feições chinesas o encarou, sério – Nada me pareceu mais absurdo do que o fato de Coringa ter uma garota... – respondeu-lhe apontando para a carta de baralho apenas com o olhar.

~*~*~*~

Ela caminhava desatenta pelas ruas de Gotham, mal prestando atenção às próprias passadas desinteressadas que a faziam vagar na sua completa absorção. Um largo capuz pendia sobre seu rosto, escondendo-o parcialmente.

Alice não sabia exatamente o que a movia a fazer aquilo, mas era como se uma força a impelisse em direção àquele caminho que a hippie compreendia que, ao final, seria doloroso. Amparou por um momento seu ombro esquerdo, tentando suprimir o repuxar incômodo naquela região de sua pele, agora já protegida por alguns pontos e curativos.

Sua cabeça rodava com todas as lembranças que pareciam lhe esfaquear a cada passo em que Alice fazia do seu destino mais próximo. Não sabia dizer a quanto tempo caminhava, apenas mantinha-se seguindo seus próprios pés sem jamais parar ou tampouco diminuir o ritmo.

Engoliu em seco ao encarar a elegante entrada da Mansão Wayne, de repente ameaçando vacilar na sua coragem... Preferia encarar milhares de máfias a testemunhar novamente aquele olhar de Bruce, que tanto foi capaz de revelar o quanto ele devia odiá-la...

...E tudo o que ela podia fazer era recuar, ciente de que o Bilionário tinha razão em não entendê-la, quando ela mesma parecia desaprovar a si mesma e aos seus métodos.

Alice sobressaltou-se ao ver que o elegante portão se abria num rugido mecânico quase inaudível, dando passagem a uma bela Lamborghini do ano, perfeitamente preta e dona de um brilho metálico reluzente. Ela deslizou o capuz para longe de seu rosto e foi em direção ao belo carro, sentindo o olhar frio de Bruce cruzar com o seu. Ele diminuiu a velocidade, fazendo o vidro de sua porta deslizar, sem realmente encarar Alice. Os dedos do Bilionário mantinham-se tensos sobre o volante, sem ousar largá-lo.

_ O que você quer, Alice? – perguntou, olhando-a de soslaio, aparentado mais cansaço do que desgosto por sua presença.

_ Queria só conversar um minuto com você... – pediu, entristecendo-se ao notar que ele não lhe destinava um único olhar, quando ela mesma não conseguia desviar a própria atenção do Bilionário, provando mais uma vez um enorme vazio, como se um buraco negro se formasse em seu peito e sugasse todo o seu interior com a frieza que lhe era destinada e, ela sabia, merecida.

_ Sinto muito, mas eu estou de saída. Reunião importante – avisou, ainda parecendo desconfortável demais.

_ Vai ser rápido, prometo. Não vou tomar muito seu tempo – insistiu. Bruce suspirou, fitando por alguns segundos os próprios pés, e por fim cedeu, desprendendo o cinto de segurança de seu corpo e batendo a porta do carro ao sair de dentro dele. Escorou-se no automóvel, voltando a encarar os sapatos e levando as mãos aos bolsos.

_ Do que se trata? – perguntou, formal demais.

_ Eu acho que te devo uma explicação sobre...

_ Não, não deve. – Bruce a interrompeu, parecendo sobrecarregado das próprias angústias – Você fez o que achou melhor, e eu realmente não tinha que me intrometer nas suas escolhas – retrucou, mas estava mais do que claro pela sua expressão que ele não acreditava no que tinha acabado de dizer. Parecia apenas querer encerrar aquele assunto mesmo antes que tivesse começado.

_ Só... Fique quieto e me escute, tá? Eu não vim aqui pra estender a nossa última discussão. Não vim tentar te convencer dos meus motivos nem nada disso – baixou os olhos, suspirando – só acho justo que você tenha a sua pergunta respondida...

_ Pergunta...? – ele finalmente a encarou, porém seus olhos eram tão distantes que Alice perguntou-se internamente se seria melhor que ele não o tivesse feito.

_ No Banco, você queria saber o que a Liga das Sombras fazia aqui – recordou-o, respirando fundo algumas vezes, na tentativa falha de despistar o nó em sua garganta. Cada olhadela desconfiada e fria de Bruce era como um golpe em algum lugar fundo em sua alma – eu só quero te garantir que não temos qualquer intenção de fazer um novo ataque a Gotham. Eu vim por algumas razões bem específicas, mas assim que meus assuntos aqui estiverem resolvidos, eu e meus ninjas partiremos o mais rápido possível, não se preocupe! Gotham não está ameaçada por nossa presença – ressaltou mais uma vez, demorando sem querer o olhar no rosto do Bilionário.

_ Que razões específicas? – perguntou, parecendo não estar muito convencido.

_ Vim investigar melhor o assassinato do meu filho! Parece que ele não está tão bem explicado quanto eu acreditei... Pretendo interrogar algumas pessoas. E também precisava tirar a maioria dos ninjas da Liga para averiguar melhor a morte de Ducard sem que eles tivessem consciência disso. Ele morreu há alguns dias, tudo indica que foram causas naturais, mas eu suspeito de homicídio – contou, surpreendendo-se com a facilidade com que compartilhou suas próprias intenções com Bruce. Ele pareceu brevemente desconcertado com a notícia da morte de Ducard, porém não se manifestou – Enfim, era só isso mesmo. Espero não tê-lo atrasado para sua reunião, senhor Wayne – deu-lhe um sorriso cabisbaixo e virou-se para ir embora.

Bruce a olhava com pesar, como se quisesse lhe dizer algo, mas sem ter a menor ideia de como, ou até mesmo do quê. Alice virou-se para ele novamente, refazendo os passos até o Bilionário com aquele mesmo sorriso triste no rosto.

_ Quase me esqueci... – ela disse, retirando de dentro do bolso um pequeno morcego de asas cortantes, entre o cinza e o negro – Acabei ficando com isso sem querer. Toma, acho que te pertence – ofereceu-o a Bruce, que parecia não querer pegá-lo.

_ Fique com ele! – disse, imediatamente – Quem sabe não sirva de lembrança quando você partir?

Alice riu por um momento, porém um riso ao qual Bruce não estava acostumado tratando-se daquela mulher. Era triste, quase melancólico, e ao mesmo tempo repleto de uma melodia sincera. Um riso curto e completo, como se palavra alguma fosse capaz de traduzi-lo, e que fez o peito de Bruce mais uma vez afundar.

_ Acha que eu quero carregar uma lembrança de uma das feridas que você me deixou? – perguntou, sem qualquer indício de acusação ou veneno em suas palavras, apenas sincera – Não, fique com ela. Quando eu for embora, minhas lembranças de você serão as boas recordações... – avisou, mais uma vez sorrindo, colocando com cuidado o pequeno morcego afiado sobre as mãos de Bruce, evitando ao máximo tocar-lhe – ... e eu realmente espero que possa fazer o mesmo por mim! – disse, virando-se novamente, sem esperar por qualquer resposta.

E, dessa vez, continuou caminhando para longe de Bruce, sem retroceder ou olhar para trás, embora quisesse mais do que tudo lhe lançar ao menos um último olhar numa despedida silenciosa.

~*~*~*~

Alice retornou à humilde estalagem que lhes servia de esconderijo, incapaz de decifrar exatamente o que sentia. Mais do que nunca, a ninja parecia perder-se nas próprias lembranças de tempos remotos e não tão distantes, quase como se sua própria memória a acusasse e reprovasse seus atos. Nunca soube definir com precisão o que sentia por Bruce, mas depois de todo esse tempo de distância que ela mesma se impôs, depois de lidar com a frieza inexpugnável de seu olhar antes tão convidativo e gentil, Alice começava a ter uma vaga ideia da real importância que o Bilionário realmente tinha em sua vida. Algo que foi descoberto tarde demais pela hippie, ainda mais agora que o ódio que Bruce parecia sentir por ela enferrujava aos poucos suas esperanças de tentar consertar o próprio erro. Um erro que foi o preço a se pagar pela segurança daqueles que ela tanto estimou...

... E ainda estimava, mais do que nunca!

“Não há o que fazer...”, constatou, repleta de tristeza “A não ser me apressar em terminar logo o que eu comecei para retornar ao meu novo lar na Liga das Sombras, e deixar novamente o passado no seu devido lugar.”

Ela esmoreceu diante daquele pensamento, imaginando que nem por um momento seria mais fácil abandonar aquela cidade uma segunda vez. Se ao menos pudesse nem ter voltado, tudo poderia ser mais simples... Antes de retornar, seus desejos pareciam ter adormecido dentro dela, mas algo no íntimo de Alice parecia exalar uma estranha certeza de que esse feito não ocorreria novamente. Pelo menos, não tão cedo... Não depois de reacendê-lo...

_ Aí está você! – Max apontou o indicador magro e acusador na direção da hippie assim que a viu, provocando um leve franzir confuso em sua testa. Seu rosto cadavérico estava estranhamente pálido, como se controlasse sucessivas ânsias – Não sei o que está tramando, dona, mas pra mim já chega! Quero você e seu pessoal longe daqui! – avisou com a voz trêmula, ainda apontando o mesmo dedo hostil e vacilante na direção da ninja.

_ Espere, agora estou confusa... – sorriu, erguendo as mãos em rendição – O que houve, Snape? O dinheiro que eu te dei não foi suficiente? – arqueou uma sobrancelha ameaçadora.

_ Tô pouco me fodendo pro dinheiro! – lançou, odiando ouvir a própria voz sair temerosa – Leve de volta se quiser, mas eu quero todos os meus quartos liberados até o anoitecer – repetiu palavras que pareciam ter sido várias vezes ensaiadas.

_ Posso saber por quê? – perguntou, entediada, mal se importando com o tom lamuriento do homem.

_ Por quê? – ele riu de nervosismo – Num dia você e sua gangue chegam aqui cheios de grana, no outro, a máfia aparece, e agora o Coringa. Não sei que tipo de gente vocês são e nem o que querem, mas...

_ Quê? – Alice o interrompeu, parecendo finalmente desperta – Coringa esteve aqui?

_ Ele aqui – corrigiu num lamento impotente, e de repente suas feições pareceram ainda mais enfermas e pálidas – Não ligo pras coisas que meus clientes fazem fora do meu estabelecimento – reproduziu novas palavras ensaiadas –, mas eles passam a ser assuntos meus quando são trazidos pra cá! Quero vocês fora daqui – repetiu, como uma ordem repleta de dúvida.

_ Ah, sinto muito, você tem toda razão, Max Steel! Talvez eu possa tentar consertar esse meu crasso descuido deixando-o a par da situação... – ponderou, pousando uma mão firme no ombro ossudo do homem, que a encarou desconfiado – Vamos, mostre-me onde o Palhaço está e eu lhe explico o motivo de tudo isso! Afinal, como você mesmo disse, agora isso também é um assunto seu... – esboçou um sorriso frio, quase cruel, ao homem de olhos arregalados, que a fitava sem saber o que esperar enquanto a mulher pressionava sutilmente seu ombro para que ele lhe mostrasse o caminho que finalmente a levaria até o Palhaço.

Alice podia senti-lo engolir em seco enquanto caminhava, aflito por pensar que talvez sua ousadia para com aqueles forasteiros tivesse ultrapassado alguns limites. Continuou andando, praguejando o dia que aqueles homens, e principalmente a mulher ao seu lado, haviam chegado justamente ao seu albergue.

Ele entreabriu com cautela uma das portas do estabelecimento, como uma criança assustada verificando o próprio armário em busca de monstros e assombrações. Alice rolou os olhos, ansiosa demais para lidar com a hesitação do homem. Escancarou a porta, encontrando de imediato o rosto que tanto queria.

Coringa estava sentado sobre uma cadeira, parecendo ter os pulsos amarrados às próprias costas. Ele lhe ofereceu um sorriso doentio e largo assim que vislumbrou o rosto duro de Alice, encarando-a com toda a intensidade que seus olhos amendoados, quase verdes, eram capazes de transbordar. Seu sorriso amarelado exalava mais do que satisfação. Havia ali um tipo de certeza que exasperou a hippie, e por um mísero segundo, ela sentiu-se a mesma garota fraca de quando o conhecera...

_ Ai... – Max praguejou baixo ao sentir os dedos de Alice pressionarem com força seu ombro lesionado pelo tiro que ela mesma desferiu. Aquele som a despertou, trazendo-a de volta a si.

A hippie desviou, a muito custo, o seu olhar do de Coringa, procurando por um novo rosto que ela esperava encontrar. Mesmo evitando encará-lo, ela pôde sentir o olhar do Palhaço completamente compenetrado em si, ainda com aquele mesmo sorriso mal intencionado repuxando suas típicas cicatrizes.

_ Espantalho! – chamou-o assim que conseguiu colocar ordem em seus pensamentos – Como anda o nosso projeto? – foi até ele, carregando Max consigo.

_ Incomodamente estagnado – ele respondeu, ajeitando os óculos para mais perto dos brilhantes olhos azuis – Receio que aqueles testes de que lhe falei sejam necessários!

_ E como eu prometi, aqui está sua cobaia! – Alice empurrou um Max assustado na direção de Crane, que esboçou um largo sorriso astuto – Leve-o logo daqui, não suporto mais ouvir suas queixas – a hippie disse, revirando mais uma vez os olhos.

_ Com prazer! – Crane assentiu, sem desviar a atenção do rosto assustado de Max, que parecia estagnado no próprio medo à presença daqueles famigerados vilões.

Alice ficou encarando Espantalho sair do cômodo levando Max pelo braço, que o mirava aterrorizado, sem ao menos conseguir defender-se daquilo que parecia um desfecho incerto para o seu atrevimento de ter desafiado a mulher que os liderava.

A hippie obrigou-se a fitar por alguns segundos extras o lugar por onde Jonathan Crane já havia desaparecido com Max, ainda totalmente ciente da atenção que Coringa depositava sobre a ninja. Ela virou o rosto devagar em sua direção, sentindo seus olhos estreitarem-se na mesma proporção em que o sorriso do Palhaço se ampliava.

_ Deixem-nos a sós! – ela ordenou aos demais ninjas, sem ao menos desviar os olhos de Coringa por um milímetro sequer. Um forte arrepio fez levantar cada pelo de seu corpo diante daquela visão. Ele parecia o único capaz de preencher o vazio que Bruce fizera nascer em seu íntimo, e isso a irritava profundamente.

_ Ra’s Al Ghul... – Sayid iniciou um protesto, mas sua líder calou-o com um simples levantar de mão.

_ Façam o que eu disse – ordenou com mais firmeza, encerrando o assunto – Vão ver se Crane precisa de ajuda com a nova droga, vão vigiar o dinheiro da máfia, vão fazer qualquer coisa, mas saiam daqui!

Coringa lambeu o canto dos lábios, ainda sem dizer palavra, mas ao mesmo tempo com tudo dito dentro daqueles olhos e sorriso complexos. Os ninjas abandonaram o cômodo no mesmo instante, e Alice respirou mais profundamente do que gostaria ao ver-se acompanhada unicamente do psicopata. Pensou mais uma vez em Bruce e em quanto lhe doía aquele mísero gesto.

_ Parece que terei de interrogá-lo sem a vantagem do meu artifício – referiu-se à droga ainda inacabada de Jonathan Crane, tentando aparentar indiferença à perturbadora presença do criminoso.

Coringa permaneceu calado, apenas sorrindo, e essa ausência de resposta inquietava Alice.

_ Não tem nada a me dizer? – perguntou, quase de maneira estúpida. Ele umedeceu demoradamente os lábios antes de responder, como se salivasse diante de uma apetitosa caça.

_ Pensei que era você quem queria me interrogar, Docinho – comentou com escárnio, visivelmente deliciado com a situação.

_ Não me chame assim – rosnou, enraivecendo-se ainda mais ao sentir-se tremer de leve – E você nem ao menos se surpreende em me ver. – constatou, intrigada com sua falta de reação. Coringa gargalhou, aquele mesmo som irritante de que ela se recordava tão bem.

_ Se refere à sua suposta morte? – soltou uma nova risada exagerada – Ora, Docinho... Eu sempre soube! – disse, mas pareceu reconsiderar seu comentário – Não, de fato, devo lhe dar o crédito pelas poucas horas em que a sua farsa realmente me convenceu, mas nada além disso – sorriu novamente, como se o repuxar de seus lábios fosse incontrolável mesmo naquela posição desfavorável em que seus braços se prendiam nas amarras atrás de seu corpo.

_ Como você poderia saber? – desafiou-o, tentando não transparecer a dúvida que de imediato a invadiu após aquela declaração tão despreocupada e aparentemente sincera.

_ Como eu poderia não saber... – caçoou – Embora eu aprecie seus esforços, bastava enxergar um palmo à minha frente para concluir que a sua morte cheirava à farsa... – riu, divertindo-se com a expressão dura e descrente de Alice, como se ela julgasse suas palavras um blefe – Veja bem, Docinho... A começar, você foi dada como morta por um médico não muito confiável no código de ética, qual era mesmo o nome dele? House? – questionou-se, parecendo pensativo – Foi uma das minhas melhores vítimas, eu sou obrigado a admitir! – alfinetou-a, vendo o negrume de seus olhos faiscarem – Mas mesmo mentindo bem e dando uma bela explicação pela sua morte... – ele fez uma pausa, arqueando as sobrancelhas como se a saudasse pela mentira – ... ainda assim, foi um tanto... oportuno ele ter tomado a iniciativa de cremá-la. Realmente uma jogada de mestre! Nada de restos mortais, nada de arcada dentária, absolutamente nada que pudesse identificar o seu corpo... – ressaltou, portando nos lábios um sorriso dúbio – Apenas a palavra de um médico de que você realmente havia morrido! – concluiu, fitando-a ainda mais intensamente – E eu tenho o péssimo hábito de não confiar naquilo que meus olhos não podem ver...

_ Mas sua teoria não passava de suspeita. Você não seria capaz de prová-la.

_ Olhe bem pra mim, Alice! Você acha mesmo que eu pareço alguém que se importa em provar algo? – desdenhou – Não, eu não tinha como provar, mas nós dois sabemos que eu estive certo por todo esse tempo. – riu, parecendo degustar o momento internamente – Mas não pense que eu estou desmerecendo a sua ousadia, meu Docinho. Não... Você realmente não me decepcionou! Eu te joguei aos lobos, e você retornou liderando a alcateia! – disse, satisfeito, aparentando algo semelhante ao orgulho à medida que reconhecia e aprovava a mudança que vislumbrava em sua Alice.

_ Não estamos aqui pra discutir se você se decepcionou ou não – rebateu, sentindo-se quase sufocar ante o fardo que era suportar tal presença. Ainda mais quando o seu próprio corpo parecia indisposto a colaborar para mantê-la no controle, como se quisesse lhe trair com os arrepios incontroláveis que protagonizavam cada desvairo em sua frequência cardíaca – Eu estou aqui atrás de respostas – avisou, disposta a parar de desviar-se de seu intuito por questões tolas e levar aquele interrogatório ao rumo certo.

_ Mesmo que eu quisesse, não poderia ir a lugar nenhum – zombou-a com mais um de seus sorrisos indisciplinados – Por que não tenta me fazer essas perguntas? Talvez eu realmente as responda!

_ Garanto que vai responder – sua voz saiu gélida, arrancando uma risada de aprovação ou de deboche do psicopata. Alice ignorou-o, concentrando-se apenas nos próprios objetivos – Me conte o que você sabe sobre o sequestro do meu filho!

_ Ainda esse mesmo assunto? – Coringa afastou os olhos da hippie pela primeira vez ao rolá-los para cima numa encenação perfeita de tédio e deboche. Mas logo a sua expressão retomou a tradicional malícia que lhe era habitual, demonstrando que ele apenas se divertia às custas de sua hippie – Se esse garoto foi tão importante assim pra você, poderíamos nos ocupar em fazer outro. O que me diz? – propôs com os olhos em faíscas, como se ardessem sozinhos em suas próprias brasas incandescentes.

A ninja cortou a pouca distância que os separava, e quando o alcançou, segurou a gola do paletó roxo com a mão esquerda, e com a direita desferiu um soco em sua face, sem qualquer aviso para anteceder o golpe. Ele limitou-se a gargalhar.

_ Você vai me responder, Palhaço! E sem gracinhas!

_ A minha verdade tem um preço, Docinho! – lambeu sugestivamente os lábios, analisando a hippie de cima a baixo.

_ Você participou do sequestro de Krusty, não foi? – irritou-se, apertando a gola roxa com ainda mais força, a voz perdendo o controle à medida que ele alcançava o intuito de verdadeiramente irritá-la.

_ Participei? – deu um sorriso sacana, erguendo uma única sobrancelha diante da acusação – E como você chegou a essa incrível conclusão? – caçoou novamente, lembrando-se de como era delicioso jogar esse jogo com ela. E ainda mais delicioso era notá-la tão transformada em sua própria fúria, parecendo custar-lhe um notório esforço para não deixá-la transbordar. – O meu interesse sempre residiu em você, Docinho. Em momento algum me importei com o moleque.

_ Ah, claro! Agora só falta você me dizer que realmente comeu a tia do Batman!* – sua voz se elevou quase sem que ela percebesse – Na noite em que você foi até a minha casa para me intimar a retornar a Gotham, Krusty foi sequestrado! Exatamente na mesma noite em que você sumiu por aquela janela o meu filho foi levado de mim! – exclamou, fazendo mais esforço para controlar o seu ódio do que sabia conseguir. Extravasou-o no aperto que destinava ao pano tingido que vestia Coringa, mal notando que se aproximava perigosamente de seu rosto – Não estou disposta a acreditar nesse tipo de coincidência!

_ Bravo! – Coringa riu, destinando a Alice olhares cada vez mais sedentos – Bravo! Se meus pulsos não estivessem amarrados, eu a aplaudiria! Finalmente você está vendo a situação pelo ângulo certo, Docinho, sem aquele monte de sentimentalismo barato que te impedia de enxergar a verdade...

_ Então você admite? Você mandou sequestrar meu filho? – seus dedos tremeram sobre o pano que ainda segurava firmemente.

_ Não... – ele uniu as sobrancelhas, parecendo exageradamente ofendido – Eu fui totalmente honesto quando disse que meus interesses não envolviam o garoto! – ressaltou, fazendo aquele mesmo sorriso desdenhoso brotar junto às cicatrizes que o alargavam – Mas garanto que você está certa em não acreditar em... como disse? Ah, sim... Coincidências!

_ O que você quer dizer? – arfou, sem saber se estaria preparada para o que estava prestes a ouvir do Palhaço.

_ Eu não participei do sequestro do seu filho, e tampouco mandei que o fizessem. Mas... digamos que eu sabia que estava sendo seguido quando fui à sua casa. – piscou, como se lhe desse uma dica valiosa para aquele enigma.

_ Você sabia... você sabia que Smith estava atrás de você, e não fez nada? Fingiu que não viu?

_ Basicamente, ainda que essa não seja a visão mais certeira. Na verdade, eu sabia que a polícia me seguia – contou, saboreando a expressão atordoada de Alice com mais um de seus sorrisos. Ela soltou o aperto em seu paletó, afastando-se alguns passos, sentindo-se tonta, e ela mal poderia sonhar no quanto estava tornando tudo cada vez mais instigante para o psicótico desejo do Palhaço – Logo que você fugiu de Arkham, eu contratei novos capangas. Um deles era um jovem e tolo espião da polícia que tentou se infiltrar em meus negócios para passar informações ao Comissário. Eu achei realmente divertida essa patética e desesperada tentativa de me capturar, e permiti que o oficial fizesse parte do meu proletariado – gargalhou audivelmente, talvez recordando aquela lembrança com seu humor distorcido – Foram meses realmente incomparáveis! Desde o começo eu sabia que se tratava de um tira, mas eu arranquei proveito disso e fiz com que ele acreditasse que eu havia caído em sua farsa tão mal bolada e cheia de falhas... – contou, parecendo empolgar-se a cada palavra – Em momento algum eu dei a entender que sabia haver um espião entre os meus, e deixei que o oficial passasse informações à polícia. Informações que eu queria que chegasse ao conhecimento da polícia – explicou, degustando a dureza que perdurava nos olhos de sua hippie, como se ela estivesse indiferente a todas aquelas revelações.

_ E uma dessas informações que você deixou vazar foi a de que me faria uma visita... – concluiu, encarando-o com repulsa.

_ Mais uma vez: bravo! – Coringa salientou, satisfeito – Eu sabia que essa informação chegaria imediatamente aos tolos ouvidos de Gordon, que parece ter mais apreço pelo bigode do que pelo cérebro. Foi fácil prever que ele ordenaria a sua busca através de mim, já que você também era procurada por ser minha cúmplice e por abandonar o manicômio antes que recebesse alta. A sua captura acabou se tornando quase tão desejada quanto a minha... – disse, fazendo transparecer pelo seu tom que aquele comentário era um estimado elogio.

Alice respirou fundo, fitando um ponto qualquer do cômodo, sem saber o que pensar a respeito do que ouvira. O buraco parecia ser muito mais em baixo do que ela sequer sonharia em acreditar. Ao que tudo indicava, a polícia de Gotham estava envolvida no sequestro de seu filho, mesmo que indiretamente...

Uma nova onda explosiva de raiva a fez fitar novamente o psicopata que nem por um momento deixou de sorrir. Alice, dominada por algo que não lhe fez o menor sentido, avançou até Coringa, erguendo-o da cadeira e prensando-o na parede ao som insano de sua irritante gargalhada.

_ Então, tudo o que você queria era me entregar de bandeja à polícia? – questionou-o, sem ver necessidade alguma de receber uma resposta àquela pergunta retórica. A mão direita de Alice fechou-se sobre a garganta de Coringa, pressionando-a da mesma forma que ele havia feito tantas vezes antes com a hippie. Mas ele apenas sorria, parecendo cada vez mais instigado por ela.

_ Entregá-la à polícia acabou sendo um preço a pagar pela minha verdadeira intenção – avisou-a, sem se importar com a pressão em seu pescoço. Nem ao menos parecendo afetado por ela – O que eu queria mesmo era trazê-la de volta à Gotham, e esse foi o meio mais... caótico de chegar aos resultados que eu esperava!

Alice semicerrou os olhos, aumentando o aperto sobre a garganta do psicopata. Seus rostos estavam próximos a ponto de suas respirações se cruzarem, e fazer nascer o caos dentro de Alice. À sombra daqueles olhos, ela sentia sua fascinação por ele aumentar quase tanto quanto o seu ódio...

Os dedos da hippie estreitaram-se mais um pouco, inconformados com a incidência daquela expressão ainda zombeteira sobre si.

_ Por que você não revida? – perguntou-o, irritada, destinando mais força ainda àquele aperto, desejando por um momento que ele apenas tentasse feri-la.

_ Estou amarrado, esqueceu, Docinho? – lembrou, e sua voz saiu ligeiramente mais rouca, mas sem perder em momento algum o descaramento.

_ Você já se livrou dessas amarras há um bom tempo! E está apenas esperando para ver até aonde eu vou! – disse num tom desafiador, que apenas fez Coringa rir.

_ Opa... Você me pegou! – ele mostrou os pulsos livres, e suas mãos seguravam a corda que não mais o imobilizava. O Palhaço levou uma das mãos até a nuca de Alice, emaranhando algumas mechas de seu castanho cabelo nos próprios dedos, e virando-a com agilidade de forma a prensá-la contra a parede. Nem ao menos tentou livrar-se da pressão na própria garganta, apenas encarou a hippie com olhos desejosos, reconhecendo exatamente o mesmo sentimento no negro que o fitava. Ela afrouxou o aperto que lhe infligia, quase sem perceber que o fizera. – Estaremos fadados a isso eternamente, Alice? – perguntou, com a voz sedutoramente perigosa, não mais sorrindo – Você sempre tentando escapar por entre meus dedos, e eu, reclamando-a de volta a cada vez que você foge?

_ Só até um de nós se cansar! – afirmou, experimentando a mais estranha de todas as sensações que já havia sentido naquela doentia presença. Dois impulsos que a dominavam com a mesma intensidade e potência; o de feri-lo, machucá-lo até que conseguisse transformá-lo no mesmo nada que sentia existir dentro de si, e, ao mesmo tempo, o de mantê-lo seu, o de possui-lo, na tentativa de abrandar aquele nada que a aterrorizava e parecia querer consumir qualquer porção de si.

Coringa e Alice cortaram juntos a ínfima distância que os separava, ambos parecendo ávidos pelo gosto que viria a seguir. Seus lábios encontraram-se famintos, sincronizando com rapidez e voracidade os mesmos movimentos de desejo. Ambos os corpos se acomodaram perfeitamente um contra o outro enquanto o ar parecia faltar a ambos com a intensidade do beijo. Alice levou as duas mãos até a nuca do Palhaço, cravando com vontade as próprias unhas na pele de seu oponente, ainda movida pela mesma necessidade de fazê-lo sangrar.

Coringa gemeu, mas não por dor.

_ É isso o que acontece quando uma força que não se pode parar encontra um objeto imóvel – ele citou baixo, ainda sobre os lábios úmidos de Alice. Ela enterrou ainda mais as unhas na nuca do psicopata, aproveitando para trazê-lo novamente aos domínios de sua boca...

... Satisfazendo ao mesmo tempo duas impulsões contraditórias.

Notas finais
*Referência ao vídeo "Bátima Feira da Fruta"! =] Ela foi colocada nesse capítulo especialmente para a leitora Menta, que me sugeriu que eu fizesse alguma menção ao vídeo! hehe ;D Então é isso... Poucos se manifestaram no reencontro Alice x Batman/Bruce, espero que nesse capítulo tenha mais gente, só pra eu sentir que não estou falando sozinha! o.O Vamos lá, povo, esse foi o reencontro mais esperado da fic, me deem um feedback, per favore! ;*