A Face Oculta Da Lua
21 Abra A Ferida E Deixe Sangrar
Notas iniciais
Ela não soube com exatidão o que a fez se perder novamente naquele olhar faiscante, apenas tinha a consciência de que doía. Era como sentir-se arder nas chamas acesas e vívidas da própria pira, como notar a própria matéria se desfazendo de dentro pra fora... Um incendiar invisível, impenetrável, implacável, capaz de reduzir o mais inútil dos inflamáveis a um mero punhado de cinzas com apenas uma única fagulha.
Mas Alice suspeitava de que a recusa aumentaria ainda mais a dor em seu íntimo já dilacerado, consumido por razões que ela não ousava admitir, mas que estavam lá, gritantes.
Coringa ainda prensava seu corpo contra o dela, com os lábios inquietos sobre os da hippie, buscando-os com a mesma sede com que ela também era movida. Cada um tentando fazer os próprios desejos e vontades prevalecerem, mal dando-se conta de que se tratavam dos mesmos.
Suas unhas ainda permaneciam afiadas sobre o pescoço do Palhaço, fincando-se a ele como se pudesse se livrar das próprias angústias ao lhe infligir a mesma dor, mas sem ousar largá-lo. Enquanto ainda se sentia levar pelos lábios do Palhaço, flashes proporcionados pelas suas falsas memórias causadas pelo Gás do Medo vieram à tona, tragando-a para a porção mais cruel de suas lembranças nocivas, que nem ao menos existiram, mas ainda assim eram capazes de ferir, talvez até com mais intensidade do que o próprio plano físico.
Um riso zombeteiro e uma voz ainda mais jocosa se materializaram apenas atrás de suas pálpebras fechadas:
E por que não aproveitar o inferno que eu posso fazer na sua vida?
Alice gemeu sem qualquer motivo aparente. Interrompeu o contato entre seus lábios pela primeira vez em eras, ao que parecia, e buscou pelo pescoço do Psicopata, sentindo-se arder numa febre que sequer existia. Ele apertou as coxas da mulher em resposta, prensando-a ainda mais fortemente contra o cimento velho que os amparava, e um novo arfar escapou pelos lábios trêmulos da hippie.
Sua outra mão deslizou de forma nada sutil até a cintura de sua Alice, reclamando-a em silêncio, repleto de posse ao puxá-la para mais perto com brusquidão.
Seus lábios novamente se encontraram, quase como se reivindicassem a presença do outro, como se soubessem que aquele era o seu lugar de direito. Como se, de fato, estivessem fadados a se completar, a se misturarem até que restasse apenas a dúvida sobre o limite que os separava. Uma segunda vez, suas línguas se sobrepuseram com sede, famintas e irreprimíveis.
Estar com ele era como caminhar sobre um campo minado, como se hipnotizar diante de uma explosão que acaba te atingido, como jogar-se de um avião sem paraquedas. Era como ser livre.
Os dedos de Alice buscaram espaço por entre o paletó roxo de Coringa, expulsando o pano que lhe era tão familiar, fazendo-o cair ao chão no mesmo instante. Segurou os cachos do Psicopata com força, fazendo tanta pressão quanto era capaz, ainda movida pela mesma necessidade vigente de feri-lo. Da mesma forma que o queria seu, queria também ser capaz de destruí-lo, de esmagá-lo com a mesma facilidade com que ele a abatia; sem a necessidade de mover um único músculo para isso. Apenas pelo simples fato de existir e fazer nascer a total desordem em seu peito.
Mas Coringa apenas parecia tremer de leve com cada investida da hippie. Como se sentisse o mais derradeiro prazer na dor que ela tentava provocar. Como se cada tentativa o tornasse vulnerável não pela dor, mas pelo deleite.
E, de certa forma, aquela condição em que o via e sentia em si mesma era tudo o que ela precisava. Causar-lhe dor e prazer ao mesmo tempo, com a mesma intensidade. Só assim seria capaz de satisfazer tanto o seu ódio quanto a sua paixão por aquela figura que sempre a reduzia à mais patética das criaturas. Ao mais repugnante dos seres...
O beijo tomou um ritmo mais acelerado, mais dependente, cada vez mais desenfreado, como se a completa saciedade jamais pudesse realmente ser alcançada.
E após ficar tanto tempo longe do vício, pareceu impossível opor-se a ele depois de novamente experimentado.
Alice dedicou-se a desabotoar às cegas o colete verde do Palhaço, tentando de todas as maneiras se desfazer da compressão tão doentia em seu peito, como se dedos invisíveis tentassem esmagá-lo. O movimento de seus lábios confundiu-se com a tentativa mesquinha de puxar esmolas de oxigênio, que pareciam apenas fazer a falta de ar se agravar em seus pulmões incomodamente vazios.
Coringa avançou mais uma vez, tão incapaz de manter a distância quanto a própria Alice, ambos sufocando-se com a boca do outro, perdendo-se com os arfares abafados que às vezes lhe escapavam, irrequietos, insatisfeitos, vorazes.
Os flashes continuaram, impassíveis, torturando-a. Uma versão do homem que a tocava formou-se clara no fundo de suas retinas, dedicando-lhe um sorriso zombeteiro e fazendo propagar uma voz soberba em sua consciência. Apenas em seu íntimo conturbado…
… eu posso ver a sua mente, tão clara e transparente quanto o mar em um dia ensolarado!
A hippie conseguiu desprender o último botão do colete, e o próprio Coringa desfez-se da peça ao senti-la frouxa em seu peitoral. Os dois afastaram os rostos por um momento, incapazes de continuar ignorando a falta de ar que protagonizava os ruídos audíveis de ambas as respirações desreguladas.
Encararam-se nesse meio tempo, sentindo os próprios olhos indecifráveis. Ou, para o temor de Alice, decifráveis até demais.
Coringa sorriu o mais malicioso dos seus sorrisos.
Senti todo o meu controle se esvair conforme me via cada vez mais presa a ele, conforme sentia a potência da minha vontade nublar completamente a razão
Ela puxou com fúria o nó de sua gravata, trazendo-o novamente para si, odiando o homem à sua frente quase na mesma potência com que odiava e repudiava a si mesma. Beijou-o com ainda mais afã, à beira do desespero ao notar que o vazio dentro dela não era preenchido, mas, ao contrário, se alastrava, irredutivelmente, inexorável, como se visasse engolfá-la em sua própria podridão. E fazê-la pagar por tal sentimento desconexo…
O Psicopata arrancou a túnica salmão que cobria o corpo de sua Alice, vislumbrando quase com raiva o top de ginástica e a calça legging pretos que ainda a vestia. A resposta da hippie àquele protesto silencioso foi livrar-se da gravata verde que jazia, torta e desajeitada, sobre o pescoço de Coringa. As mãos frias do Palhaço passearam sem qualquer gentileza pela pele exposta da barriga de Alice, causando-lhe os mais indesejáveis arrepios.
… um toque que ardia e ao mesmo tempo refrescava
Ela abriu sua camisa sem a mesma paciência de desabotoar botão por botão, apenas expondo a pele do psicopata após alguns puxões irritados no tecido parcialmente azulado. Coringa nem por um momento desviou os olhos da confusão estampada no rosto de Alice, parecendo querer entender cada pequena mudança em sua expressão atormentada. Analisando-a como a verdadeira caça que ele sabia tratar-se dela. Como um território a se reconquistar após ser perdido.
… seus olhos penetrando a alma que estava prestes a se corromper.
Seus braços estenderam-se até as costas de Coringa, esmagando o próprio corpo ao dele numa tentativa furtiva de fazê-lo unicamente seu. Sentiu algumas cicatrizes como várias projeções em alto relevo no caminho que suas mãos desbravavam, e mais uma vez o apertou, sem sequer compreender o motivo. Ele novamente procurou por sua boca, explorando-a com mais sede do que nunca num beijo longo e intenso que fez a atmosfera parecer terrivelmente rarefeita sob aquelas circunstâncias. Os dedos de Coringa deslizaram com força da cintura da hippie até a calça legging, empurrando-a para baixo junto com a roupa íntima que se escondia por baixo do fino pano.
Ele era a revolta que eu buscava dentro de mim, o caos que eu queria encontrar na irrelevância do meu dia-a-dia, a dor que apaziguava a insignificância que eu vivia.
Alice, mais uma vez, experimentou a incontrolável e díspare sensação que a fazia sentir uma indomável necessidade de infligir dor ao homem entrelaçado a si. Sensação essa que se intensificou ainda mais com a vigente falta de ar pelo beijo que ainda travavam em forma de disputa.
Suas unhas fincaram-se nas costas macias do Palhaço, e com mais força do que ela sabia possuir naqueles termos em que seu cérebro clamava por ar, arranhou-o por uma longa extensão de sua pele, que ia do ombro até a base de suas costas, rasgando-a, sentindo o epitélio sobre seus dedos se romper superficialmente, sentindo-a sangrar de leve.
Coringa sucumbiu a leves tremores e arfou, extasiado, apertando com força uma de suas coxas agora desnudas, tão forte que seria capaz de deixar aquela porção de sua pele exatamente na mesma tonalidade que o paletó do Psicopata.
Alice também sentiu-se soltar um gemido antes que fosse capaz de evitá-lo.
Um monstro, assim como eu!
Ela afrouxou a pressão de suas unhas, preocupando-se agora em livrar-se da calça também arroxeada que o vestia. Enquanto Alice se ocupava dessa última tarefa, Coringa tratou de fazer o mesmo com o top preto sobre o busto da hippie, rasgando-o sem qualquer paciência. Alice fez o tecido arroxeado deslizar por suas pernas, sentindo-o cair sobre seus pés, finalmente capaz de testemunhar a temperatura da pele pressionada à sua. Alice mordeu o lóbulo desprendido da orelha do homem, requisitando-o num turbulento silêncio em que reinava o mais típico caos.
Sorriu, repuxando as cicatrizes para cima.
O Palhaço a ergueu, apenas o suficiente para que a diferença de altura entre eles fosse compensada, e Alice o segurou pelo ombro, deixando que suas pernas se firmassem no quadril de Coringa, rodeando-o. Mais uma vez, ele a pressionou com destreza e posse contra o cimento da parede, semicerrando as íris amendoadas.
O olhar dele parecia estranhamente focado e quase animalesco em meio à intensidade febril que o estruturava…
… O dela, no entanto, jazia mais complexo. Dentro das negras circunferências residia doses altas de dor e desamparo, como se Alice estivesse, aos poucos, sucumbindo a um afogar lento, profundo, letal e sem volta…
Lambeu as cicatrizes e esboçou um sorriso quando reconheceu a tristeza em meu rosto.
… Como se aos poucos os seus pulmões fossem preenchidos com algum líquido gélido ao invés do ar que ela tanto buscava, inutilmente, aspirar.
… talvez eu quisesse me afogar.
Seus olhos se fecharam quando Coringa mordeu a curva entre seu ombro e pescoço, com tanta brusquidão que a hippie sentiu-a queimar assim como cada porção atormentada e ao mesmo tempo apaziguada de sua pele. Mas não eram as dores físicas que realmente a afligiam…
Ela tremeu algumas vezes ao recordar-se, com uma nitidez cruel, sua própria imagem com os trajes que complementariam a figura de Coringa. Os trajes da Arlequina.
Você não tem escolha, é nisso que você vai acabar se transformando, você querendo ou não, fugindo ou não, se escondendo ou não.
Colocou novamente os pés descalços no piso frio, numa inútil esperança de sentir-se novamente sobre um chão firme. Mas, ao final, nada parecia realmente ser capaz de reconfortá-la. Nada, exceto os amendoados olhos de águia que a devoravam em silêncio. Orbes capazes de aquietar e perturbar com ainda mais intensidade.
Havia uma faca… Seu reflexo mostrava um cruel repuxar de lábios emoldurado por cicatrizes ainda mais atrozes. E, ao lado, olhos negros que desejavam um eterno sorriso.
Alice escorou a cabeça no cimento, fechando os olhos com força, de modo a deixar sua testa franzida… Sentindo-se a mais frágil das criaturas… A mais vulnerável e estúpida.
Basta dar o primeiro passo e se livrar das regras que servem como grilhões para os seus instintos. Liberte-se, e se permita provar o gosto de ser sua própria lei.
O Palhaço avançou novamente até os lábios de Alice, cobrindo-os com avidez ao segurar o queixo da hippie com uma das mãos. Ela sentiu o próprio coração ameaçar a vacilar, correspondendo-o sem entender por que sentia tanta necessidade em fazê-lo. Mas fazia, evitando questionar a si mesma por medo das respostas.
Coringa sorriu em cima da minha boca, como se me dissesse em segredo “Eu te avisei”
Ela aumentou o ritmo do beijo, afetada pelas imagens projetadas em sua mente. Inconformada por ser obrigada a enfrentar Coringa tanto na sua atual realidade quanto nas próprias visões e falsas lembranças que não se calavam dentro dela. As mãos da ninja novamente desceram rudes pelas costas de Coringa, sentindo-as levemente úmidas pelo suor superficial que cobria sua pele mesmo no frio.
Em resposta, o Psicopata apenas a apertou, ciente apenas de que a queria.
Você é que nem eu, Alice, só que ainda não descobriu isso!
Alice sentiu-se arrepiar de todas as formas que julgava ser capaz, sabendo o quanto tornava-se incoerente quando se tratava de Coringa. Ele tomou-a pelos braços mais rudemente, quase grunhindo sobre os lábios daquela que tentava dominar, fazendo-a novamente sucumbir aos tremores mais deliciosos e facínoras. Envolveu o pescoço do Psicopata com os braços, fazendo-o seu. O buraco no próprio peito parecia apenas alargar-se, tragando Alice ao limiar do desespero.
Tão séria, Docinho!
Coringa a penetrou, sem ao menos se dar conta do quanto o aperto que Alice infligia sobre suas costas se intensificou, indomado. Seus lábios pararam de se movimentar, mesmo ainda estando colados, puxando o mesmo ar que se escasseava com mais facilidade do que antes. O negro fitava o amêndoa, e este respondia carregado da mesma intensidade. Coringa apertava o quadril de Alice entre os próprios dedos desejosos, consumando a febre que ambos compartilhavam.
A hippie mordeu-lhe o lábio inferior para suprimir os próprios gemidos, enquanto o psicopata ainda investia quase furiosamente sobre a sua Alice, sua ousada e insolente hippie, sua médica e, por muitas vezes, sua própria perdição. Sua secreta rendição.
Por um momento, ela vislumbrou dentro de suas próprias retinas o olhar inconformado que Bruce lhe lançara quando descobriu que Alice estava viva. Seus olhos, tão encolerizados quanto o seu rosto, foram uma última punhalada em si. Porque naquele instante ela foi invadida pela certeza de que não era boa o bastante para Bruce. Nunca fora. Sabia que o amava, mas em momento algum chegou a merecê-lo…
Deixou-se novamente ser analisada a fundo por Coringa, ela mesma se perdendo na complexidade lasciva de seu olhar devorador. E soube que apenas aqueles olhos seriam capazes de conviver com o verdadeiro monstro que Alice de fato era. Porque aquilo era tudo o que ela merecia… Tudo o que poderia ter.
Fez seus lábios novamente se calarem enquanto Coringa ainda mantinha-se nela, e ambos os ritmos pareceram crescer. Sem fôlego, Alice o apertou num abraço que terminava em seus largos ombros, sentindo-se desfazer por dentro…
Uma lâmina foi oferecida, como uma prenda, um tributo ao homem de terno roxo. E palavras foram ditas junto ao curioso gesto, intensificando-o: “Talvez esteja na hora de colocar um sorriso no meu rosto!”.

Alfred adentrou com cautela o quarto do patrão, carregando cuidadosamente uma bandeja repleta das mais variadas iguarias matinais. Arqueou uma sobrancelha ao ver o aposento vazio e perfeitamente organizado, soltando um suspiro condescendente antes de depositar a bandeja sobre a impecável e bem polida madeira do criado mudo ao lado da enorme cama de Bruce.
O mordomo caminhou elegantemente até um largo e majestoso piano de cauda, tocando algumas poucas notas com pressa. Assim que aquele simples conjunto de sons e acordes formou-se, uma passagem se revelou aos seus olhos azuis e preocupados.
Desceu o caminho conhecido até o subterrâneo que levava à Bat-Caverna, já sendo capaz de ver Bruce em frente ao computador com uma postura rígida.
_ Seria realmente interessante se, um dia, o senhor resolvesse habitar a porção superior da Mansão, mestre Wayne! – contemplou-o com receio, constatando que Bruce passara mais aquela noite em claro a julgar pelas olheiras roxas que adornavam o negro de seus olhos.
_ Quem sabe um dia, Alfred... – respondeu num tom vago, sem realmente parecer ouvi-lo.
_ Algum problema, patrão? – franziu o cenho ao notar o pequeno morcego cortante entre os dedos do Bilionário. Notou que o monitor ligado do computador mostrava a ficha de Alice, e naquele instante, compreendeu-o.
_ Não realmente... – avisou sem muita certeza, ainda parecendo hipnotizado pelo morcego afiado que segurava – Eu só queria... entender. Tentar ver o que eu deixei passar. Como eu nunca desconfiei, Alfred? – perguntou baixo, sabendo que o mordomo entenderia perfeitamente o teor de sua dúvida mesmo que Bruce não o tenha explicitado.
_ Como o senhor não desconfiou de que a senhorita Alice estava viva? – o inglês completou num tom paternalista, fitando-o com aqueles olhos sábios que lhe eram tão peculiares.
_ Eu devia saber... Tudo na morte dela foi muito mal explicado. Eu podia ter evitado tudo isso... – lamentou-se, incapaz de traduzir ao certo o que sentia por Alice naquele momento, sem saber se o súbito retorno daquela mulher o reconfortava ou o atormentava.
_ Sabe, patrão Bruce, se me permite dizer, o senhor não poderia ter evitado nada do que aconteceu. O senhor está tão acostumado a perder aqueles que se aproximam, que, perdoe a ousadia, já começa um relacionamento preparando-se para o momento da perda.
_ Teoria interessante... – encarou-o com um meio sorriso abatido, em nada alegre.
_ Nem tudo está sob o nosso controle, mestre Wayne, e ainda lhe falta esse discernimento. Mesmo que o senhor conhecesse a verdade por trás da morte da senhorita Alice, não poderia fazer nada para ajudá-la. Ao menos não naquele momento.
_ Como não, Alfred? Eu poderia impedi-la dessa loucura. Poderia fazê-la entender que ela não precisava lidar com tudo sozinha...
Alfred soltou um riso bem-humorado, olhando-o com o mesmo carinho que Bruce reconhecia em seus pais quando ainda eram vivos.
_ Durante mais de dez anos eu tentei fazer com que o senhor entendesse que não precisava lidar com a dor sozinho, mestre Wayne. Durante mais de dez anos eu fiz o que podia para que o senhor enxergasse que a culpa não foi sua, e fui ainda mais além das minhas capacidades para convencê-lo a levar a vida adiante. Mas nada do que eu dizia ou fazia eram suficientes! O senhor precisou se afastar de tudo o que conhecia, o senhor foi consumido pela necessidade de encarar sozinho a própria dor da perda, para só então ser capaz de se reencontrar e se permitir um recomeço.
_ Aonde você pretende chegar, Alfred?
_ A senhorita Alice passou exatamente pelo mesmo processo, patrão. Eu vejo muito do senhor nela, e reconheço os mesmos motivos que o impulsionaram naquela longa viagem em que o Batman surgiu. Suponho que perder um filho não deva ser menos doloroso do que perder os pais quando criança. Talvez, a senhorita Alice tenha se sentido tão perdida quanto o senhor aos oito anos.
Bruce desviou o olhar, sentindo o cansaço pesar em seus ombros com uma avidez bárbara.
_ Ela me fez acreditar que estava morta, Alfred. Como espera que eu lide com isso?
_ Da mesma forma que, por sete anos, eu tive que lidar com a ausência de notícias suas, senhor. Eu não estou defendendo a mentira da senhorita Alice! Sei bem o quanto ela o afetou, e eu esperava jamais vê-lo com esse olhar novamente. – Alfred pressionou o ombro do patrão, agora parecendo quase tão triste quanto o próprio Bruce – Mas entenda, mestre Wayne, o senhor já viveu isso. O senhor sabe que os motivos dela têm fundamento, por mais que seus meios pareçam cruéis. Ela precisava se reencontrar, assim como um dia o senhor também necessitou.
_ A minha ajuda já foi dispensada sem que eu ao menos tivesse a oportunidade de oferecê-la – Bruce respondeu, exausto –, o que te faz pensar que algo mudou?
_ O que mudou, mestre Wayne, é o fato de a senhorita Alice ter retornado. Isso prova que ela já está apta a enfrentar o passado que viveu aqui, e que talvez realmente precise de ajuda ao novamente encará-lo, uma ajuda que não teria valia antes, mas que agora pode fazer a diferença.
_ Não sei se eu sou capaz disso, Alfred... – encarou pela milionésima vez a foto na tela do computador da mulher que ele não mais reconhecia, dada falsamente como morta.
_ Talvez não, patrão. Mas ao menos tente reconhecer nas atitudes da senhorita Alice as próprias atitudes que o moveram a se afastar de todos que o estimavam. O senhor não tem obrigação de perdoá-la, longe disso, mas lhe deve ao menos sua compreensão.
“We never talked about it but I hear the blame was mine
I'd call you up to say I'm sorry,
But I wouldn't want to waste your time
'Cause I love you, but I can't take anymore
There's a look I can't describe in your eyes
If we could try like we tried before
Would you keep on telling me those lies?
Do you remember?
There seemed no way to make up,
'Cause it seemed your mind was set
And the way you looked it told me,
It's a look I know I'll never forget
You could've come over to my side,
You could've let me know
You could've tried to see the distance between us
But it seemed too far for you to go
Do you remember?
Through all of my life,
In spite of all the pain
You know that people are funny sometimes,
'Cause they just can't wait to get hurt again,
Tell me do you remember?
There are things we won't recall,
And feelings we'll never find
It's taken so long to see it,
'Cause we never seemed to have the time
There was always something more important to do,
More important to say
But "I love you" wasn't one of those things,
And now it's too late
Do you remember?”
Do You Remember? – Phil Collins
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