A Fúria dos Mares [SwanQueen]
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Capítulo 4: Just you and me, far beyond the sea
Apenas você e eu, muito além do mar
Tomar aquele navio havia sido uma tarefa relativamente fácil. É claro, sempre haveria o pequeno incômodo de uma luta armada antes que a tripulação do barco atacado se rendesse – os marinheiros, homens honestos ou piratas, nunca se rendiam sem uma boa luta. Mas, para ser sincera, Emma não se importava em lutar. Havia combatido nas linhas de frente do exército do Rei Maurice desde os treze anos e o som de espadas se chocando e das pistolas ribombando seus tiros tinha se tornado quase reconfortante – como a segurança de estar dentro de uma rotina, mesmo que esta fosse conturbada e sangrenta.
O cheiro de pólvora ainda impregnava o ar quando Emma ouviu o capitão gritando seu nome de algum lugar nos porões do navio:
— Ei, Swan! Nem imagina o que encontrei aqui. Um verdadeiro tesouro!
— Do que está falando idiota? É só um navio de açúcar.
Mesmo assim, Emma desceu as escadas até o porão. Em meio as inúmeras sacas de açúcar, havia uma mulher. Uma morena com os olhos mais ferozes que Emma já tinha visto em toda vida. Para além do vestido encardido e rasgado na bainha, da poeira em seu rosto e do cabelo mais curto, estava a garota que indubitavelmente Emma conhecia como Regina Mills.
— Senhorita Regina? — Emma perguntou quando finalmente foi capaz de sair de seu estado de paralisia e formular palavras.
Regina nada respondeu, parecia estar ainda em seu próprio estado de inércia, encarando a outra com um misto de surpresa e resquícios de uma raiva já muito antiga.
— Vejo que já se conhecem – disse o capitão com um sorriso debochado, interrompendo aquela atmosfera surreal criada pelo destino – Isso é ótimo! Swan, tenho certeza de que ficará feliz em apresentar sua Senhorita Regina para o resto da tripulação.
A ambiguidade grosseira com a qual o capitão insinuava uma partilha de Regina pela tripulação trouxe Emma definitivamente à realidade.
— Está maluco? Não sabe quem essa moça é? — reagiu Emma. Então, descalçou uma das botas e tirou de dentro dela um papel meio úmido e já rasgado nas pontas. Entregou-o ao capitão que o analisou com cuidado, ocasionalmente lançando olhares na direção de Regina.
O papel era um pequeno cartaz que Emma havia arrancado de uma parede de taverna na última vez em que estivera em terra-firme. O anúncio prometia uma vasta recompensa pelo resgate da futura rainha do reino de Leopold White, a Senhorita Regina Mills. Ao perguntar ao taverneiro se ele sabia algo sobre o assunto, o homem respondeu que algum lunático havia sequestrado a Senhorita Mills às vésperas do casamento dela com o rei. A coroa havia prometido generosa recompensa para aquele que a trouxesse de volta com vida e execução na forca para o sequestrador.
Na ocasião, Emma olhou para o retrato de Regina no cartaz e sentiu o peso da saudade. Sabendo que Regina já deveria estar muito longe – sequestrada ou em fuga – e que, provavelmente, jamais a veria novamente, decidiu guardar o cartaz como recordação. Desde então, levava-o consigo onde quer que fosse.
Emma viu um sorriso pouco a pouco ganhar o rosto de seu capitão. Killian Jones – ou Hook, como era mais conhecido – sabia reconhecer boas oportunidades quando as via e certamente sua cabeça já imaginava um milhão de maneiras de lucrar com aquela situação.
— Swan, sua maldita esperta! Eu sabia que tinha tomado a decisão certa quando permiti que se juntasse a esta tripulação – disse ele, dando tapas às costas da companheira.
Emma tomou de volta o cartaz das mãos dele, antes que o perdesse. Seguiu Hook pelas escadas até o convés, puxando Regina pela mão sem que a morena oferecesse resistência. Quando por fim pisaram no convés, Emma percebeu o corpo de sua nova prisioneira se retesar atrás de si. Não sabia se aquela reação era consequência dos homens sujos que encaravam Regina com lacívia ou se ela havia se assustado com o cenário de guerra que era o navio naquele momento. De qualquer forma, Emma praticamente teve que arrastá-la até o lugar onde Hook já falava com sua tripulação.
— Quero todos os prisioneiros aqui, de joelhos – ordenou o capitão, ao que foi obedecido imediatamente. Hook olhou diretamente nos olhos de cada um dos tripulantes do navio cargueiro assaltado. Agora eles todos eram seus prisioneiros – Cavalheiros, somos todos bons marinheiros aqui, não? E, como bom marinheiro que sou, dou a vocês duas opções. Podem decidir seu próprio futuro. A primeira opção é a morte. Podem acompanhar seu bom capitão, que Deus o tenha. Ele morreu com honra, lutando. Infelizmente minha imediata, Emma Swan, o atravessou com sua espada e o homem se foi muito rapidamente...
A menção da morte do capitão daquele navio de carga, Emma sentiu os dedos de Regina apertarem com força sua mão – a mão que ela ainda segurava firmemente. Hook continuou seu monólogo:
— A segunda opção é muito simples: todos vocês podem se tornar nossos companheiros. É claro, a vida de um pirata não é tão tranquila quanto a de um marinheiro comum, mas... Ei, pelo menos, temos uma vida. O que acham?
Os demais piratas olharam curiosos para seu capitão. Aquela não era a maneira com a qual usualmente ele lidava com essas situações: normalmente, Hook e seus companheiros saqueariam a embarcação e deixariam os tripulantes irem embora em seu próprio navio esvaziado de tudo que uma vez possuíra.
Os prisioneiros rapidamente aceitaram os termos de seu novo capitão e foram soltos, tornando-se instantaneamente foras-da-lei em troca de suas vidas.
— Companheiros! — Hook tornou a subir o tom de voz para falar com a tripulação – Se estão se perguntando o que faremos com tantos marinheiros a bordo, eu explicarei em um momento. Acontece que encontramos nosso próprio tesouro, um baú cheio de ouro os aguarda ao fim desta viagem – ao dizer isso, puxou Regina para si, enlaçando-lhe a cintura com o braço bom e erguendo o gancho em grandes gestos para enfatizar suas palavras.
Em poucos minutos, o Capitão Hook colocou sua equipe a par de todas as informações necessárias sobre Regina. Mandou metade de seus homens de volta ao Jolly Rogers, seu próprio navio, e designou a outra metade para o navio cargueiro recém saqueado. Para completar as tripulações dos dois navios, dividiu os marinheiros prisioneiros entre as embarcações – uma estratégia que evitaria um possível motim.
Emma era imediata de Hook, mas, mesmo assim, ficou surpresa quando ele a nomeou como capitã no navio recém capturado.
— Tem certeza que é uma boa ideia, Capitão?
— É natural que minha imediata seja nomeada a capitã provisória de meu novo barco. Além disso, confio em você para executar nosso plano – respondeu ele, piscando um olho – Não se preocupe, Swan. August irá com você, acredito que os dois juntos tem força suficiente para manter esses marujos na linha.
O plano era muito simples. Hook levaria os espólios daquela pilhagem no Jolly Rogers para as Ilhas Meridionais, onde poderia negociar tudo e conseguir algum ouro. Emma, auxiliada por August – outro marinheiro de influência com a tripulação – , usaria a embarcação roubada para transportar Regina de volta ao continente sem maiores problemas. Uma vez em terra-firme, levariam a futura rainha para seu noivo, o rei Leopold White. Emma traria a recompensa de volta ao porto, onde esperaria pelo retorno de Hook. Dividiriam a recompensa e, com sorte, ficariam tão ricos que poderiam se aposentar da pirataria por algum tempo.
Emma pensou que era um bom plano. Contudo, sentia seu coração doer toda vez que pensava naquilo que estava prestes a fazer.
***
O Jolly Rogers afastava-se rapidamente pelo mar aberto, enquanto Emma gritava suas ordens, organizando sua nova tripulação. Em pouco tempo, seu navio já havia dado meia-volta e agora encaminhava-se rumo ao continente.
Quando tudo parecia estar sob controle e todos pareciam estar concentrados em seus trabalhos, Emma finalmente lembrou de sua acompanhante. Correu os olhos pelo convés e viu Regina debruçada sobre a amurada, fitando a água bater no casco do navio.
— Minha boa senhora, queira me acompanhar – disse Emma, impondo um tom de deboche às suas palavras – Vou apresentar-lhe seus aposentos reais.
Regina desviou o olhar do sorriso zombeteiro da loira, ignorando-a ostensivamente. Emma, por outro lado, não desistiu:
— Bem... Se despreza tanto assim minha companhia, terei que chamar meu amigo, Leroy, para acompanhá-la a seu quarto... Embora eu tenha certeza de que ele não será tão gentil com a senhorita.
Regina olhou para o homenzinho ali perto: tão sujo quanto Emma, mas no lugar do sorriso debochado, nele havia uma expressão muito irritada. Emma assistiu divertida, enquanto Regina revirava os olhos e rapidamente decidia ignorar suas opções. Andou sozinha na direção das cabines, a capitã lhe seguindo de perto.
***
O quarto do capitão era menor do que Emma esperava. Havia uma cama estreita encostada na parede, uma mesa cheia de mapas na outra extremidade e algumas velas parcialmente derretidas sobre um criado-mudo ao lado da cama. Como era de se esperar, tudo cheirava a maresia e umidade.
Emma observou Regina abrir as portas do pequeno armário ao lado da porta e retirar alguns lençóis e cobertores limpos. Trocou as roupas de cama, acendeu mais algumas velas e empilhou os papéis que estavam sobre a mesa. Então, como se só agora lembrasse de que tinha companhia, virou-se para Emma:
— Não tem nada que deva fazer, Capitã? Nenhuma obrigação a cumprir fora do meu quarto?
— Do seu quarto? — perguntou Emma, erguendo uma sobrancelha – Essa é a cabine do capitão. São os meus aposentos, majestade...
— Será que pode não me chamar disso? — interrompeu Regina, fechando os olhos e respirando profundamente.
Emma estudou suas feições: em um instante, era como se uma lembrança dolorosa cruzasse o rosto da morena e rapidamente fosse suprimida. Guardou aquela informação para mais tarde, não tinha certeza se aquele era o momento certo de revelar sua identidade – por tudo que sabia, Regina não aparentava lembrar de Emma. Era verdade que por vezes a fitava com olhares ao mesmo tempo esperançosos e cheios de dúvida, mas Emma não podia afirmar com certeza se Regina se recordava de um dia ter deitado ao lado de uma menininha loira, fazendo planos de fuga e ouvindo a chuva tilintar no telhado.
Contudo, Emma tinha quase certeza de que Regina lembrava-se de beijar uma menina disfarçada de soldado em sua carruagem. A familiaridade com a qual Regina implicava consigo indicavam que ela sabia que a “Capitã Emma” e a “Soldado Emma” eram a mesma pessoa. Assim, a capitã ficava feliz por ter deixado uma impressão duradoura.
— Você é uma rainha, não é? — prosseguiu Emma.
— Não me casei com o rei.
— Acho que isso vai mudar em breve – disse Emma, fazendo Regina estremecer – Não se preocupe, nós a levaremos em segurança de volta para seu rei. Seja lá qual for o motivo de sua fuga... ou sequestro, como a realeza quer nos fazer acreditar... Dentro de poucas semanas a senhorita estará em seu castelo, provando vestidos para seu casamento.
— Você vai pagar caro por isso.
— Tenho certeza de que vou – respondeu Emma com uma piscadela – Já até pensei em bons nomes para meu novo navio... Poderia chamá-lo “A Fuga da Rainha Regina”, o que acha? Ou melhor, o chamarei de “Vingança da Rainha Regina”. Acredito que a senhorita buscará se vingar de nossa tripulação assim que ascender ao trono...
— Fora do meu quarto!
A esta altura, Regina já estava furiosa. Emma não se abalou, jamais perdendo o tom de deboche:
— Tem que admitir que é um ótimo nome: “Vingança da Rainha” é ameaçador e imponente. Além disso, nos distinguirá dos demais... Vai facilitar seu trabalho para nos encontrar quando finalmente tentar se vingar.
— Fora do meu quarto!— repetiu com veemência.
— Bem... — prosseguiu Emma – Fico feliz que tenha gostado tanto assim de minha cabine, porque vai passar um longo tempo aqui.
— O que está insinuando, Capitã? — perguntou Regina, estreitando os olhos.
Entretanto, Emma não respondeu. Deu meia volta e saiu do quarto, trancando a porta atrás de si.
***
Aquela breve discussão com Regina deixara Emma de coração leve. Era estranho pensar nisso: havia lutado em uma batalha sangrenta naquele dia, pela primeira vez havia assumido um importante posto de liderança em um navio, havia matado um homem. Sobretudo, havia tentado salvar Regina de um destino terrível – embora soubesse que o fim daquela viagem poderia trazer uma nova gama de pesadelos.
Contudo, discutir com sua nova prisioneira fizera-lhe esquecer de tudo aquilo: era um novo tipo de adrenalina, talvez até fosse uma certa paz de espírito. Sabia que não duraria, que o peso da realidade se abateria sobre ela eventualmente, mas se perguntava se o poder de Regina seria assim tão eficaz: aqueles olhos brilhantes e furiosos sempre seriam capazes de fazer com que Emma esquecesse qualquer horror?
Emma tentou não pensar em nada disso. Regina será Rainha. Esta viagem termina com um grande baú de ouro e uma coroa de diamantes sobre cabelos morenos. Era uma imagem difícil de imaginar: a menina Regina, que fugia de casa para correr pelos campos ou cavalgar pelo bosque, confinada em um castelo imenso ao lado do velho rei. Emma se perguntou o quanto a garota poderia ter mudado ao longo dos anos.
— O que quer que eu faça agora, Capitã? — perguntou um rapaz que havia surgido ao lado de Emma, fazendo com que ela quase pulasse em um susto mal disfarçado.
— Não assustar alguém armado já seria um bom começo, além de proteger sua vida.
O garoto encolheu os ombros em um pedido de desculpas silencioso e já ia se afastando quando Emma colocou uma mão em seu ombro:
— Não, espere... O que faz aqui? Não é muito novo para estar em um navio?
— Tenho quatorze anos, Capitã! — respondeu ele, claramente ofendido por ser confundido com uma mera criança.
— Oh, mas então me perdoe! Pensei que fosse apenas uma criança – disse Emma em um tom sarcástico, rindo enquanto o menino a observava com irritação – Diga logo, o que faz em um navio pirata?
— Não sou pirata. Me juntei a sua tripulação depois que você e seus companheiros saquearam este cargueiro...
Emma sentiu-se culpada por um momento, mas, como sempre, esforçou-se para esquecer seus próprios demônios – este era apenas mais um que deveria ser guardado em algum local obscuro de sua mente para ser visitado muito, muito tempo depois.
— Bem, ainda não me disse o que fazia por aqui antes de tudo isso acontecer... Como posso lhe dar uma atribuição se não sei o que sabe fazer? A verdade é que nem mesmo sei seu nome, marujo.
— Perdão, Capitã! Meu nome é Baelfire.
Baelfire. Aquele nome lhe parecia muito familiar. Emma esforçou-se para lembrar de onde conhecia este nome. Certamente não reconhecia o rapaz a sua frente, mas o nome... Então, como em um estalo, a memória veio a sua mente.
— Como era o nome de seu pai?
— Rumplestiltiskin – respondeu o garoto, ainda sem entender a relevância daquela informação – Não o vejo há algum tempo.
Rumplestilskin, seu companheiro nos tempos de guerra. O homem com quem lutara lado a lado em trincheiras lamacentas e esquecidas – o mesmo homem que a havia traído. Emma fugira do exército por causa dele e agora, bem ali, dentro de seu navio, estava seu filho – o menino de quem Rumple tanto falava, seu menino de ouro, o filho adorado.
— Não o vê porque fugiu de casa para trabalhar em navios de carga, como este? — Emma adivinhou.
Baelfire permaneceu em silêncio, a expressão muito séria a encarar sua capitã. Então ela continuou, dando-lhe tapinhas camaradas nas costas, o rosto partindo-se em uma gargalhada:
— Quem diria! O filho de Rumple em meu navio! Aquele desgraçado é o maior covarde que já existiu! Quase me matou quando se sentiu ameaçado – Emma continuava rindo, sem acreditar na própria sorte – Baelfire, filho de Rumplestiltiskin, sinto que seremos grandes amigos!
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