A Fúria dos Mares [SwanQueen]
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Estou retornando com esta ideia nova, espero que gostem!
*O título é um verso da música "Ghost Love Score (Nightwish)" e a tradução está em itálico, logo abaixo.
Capítulo 1: First of their true loves
(O primeiro de seus amores verdadeiros)
Emma Swan era pouco mais que um bebê quando sua mãe faleceu. Seu pai, um conhecido capitão do mar chamado James Swan, nunca a reconheceu e apenas esporadicamente enviava à sua mãe algum provento para que pudesse alimentar a si mesma e a criança.
Aos cinco anos de idade e já sozinha em um mundo cruel demais para os que não seguiam suas regras de classe e trabalho, Emma andava sozinha pelas ruas, com fome e frio. Tentava sobreviver através dos pequenos trabalhos que lhe eram oferecidos e das poucas coisas que conseguia coletar no bosque.
Emma trabalhava incansavelmente em troca de migalhas que lhe permitiam o sustento: limpava as bancas de frutas e legumes em troca de uma refeição, fazia entregas para um comerciante qualquer e ganhava um novo par de sapatos, por alguns meses até mesmo trabalhou nas maiores lavouras do povoado e podia usufruir das casas coletivas reservadas aos trabalhadores do rei.
Quando tinha nove anos, um velho homem a levou para um lugar distante para que trabalhasse nos estábulos nas terras de uma nobre família da região. Emma mentiu sobre já ter trabalhado com cavalos anteriormente e assim conseguiu seu melhor emprego.
Durante aquele tempo, morou em uma casa nas terras de seus senhores, juntamente com a família do homem que a havia levado. Ele era casado e tinha um filho da mesma idade de Emma. Seu nome era Daniel, um garoto alegre e cativante que trabalhava junto com seu pai nos estábulos e ensinou à Emma tudo o que precisava saber para desempenhar a função. Ambos se tornaram amigos rapidamente e Emma enxergava nele o irmão que nunca tivera – sentia-se bem junto daquela família, em meio a sua vida simples e rotina de trabalho pesada e descomplicada. Podia fazer ao menos duas refeições por dia, podia correr pelo campo nas horas que antecediam o anoitecer, podia dormir em uma cama quente e quase confortável – uma cama que era só sua.
Dois meses após a sua chegada, em uma tardinha quente de verão, Emma corria atrás de Daniel em uma brincadeira que deixava ambos ofegantes e fazia com que seus risos infantis ressoassem na imensidão daquelas terras. Emma corria em zigue-zague, sentindo a grama morna debaixo de seus pés descalços, a brisa fresca contra as gotinhas de suor se formando em sua pele. Fechou os olhos e abriu os braços como se planejasse levantar voo a qualquer momento. Sentia-se livre e genuinamente feliz, nem mesmo sabia que aquele tipo de sensação era possível.
Então, de súbito, sentiu seu corpo colidindo com alguma coisa e um grito agudo de surpresa. Se desequilibrou e quando abriu os olhos viu que havia caído no chão e levado junto consigo outra menina – que havia gritado em surpresa e agora tinha lágrimas nos olhos.
— Você está bem? – Emma levantou-se rapidamente e pegou a mão da garota que ainda chorava estendida no chão. Enquanto isso, Daniel dobrava-se sobre si mesmo com as mãos pressionadas na barriga que lhe doía de tanto rir das meninas.
— Eu estou bem! Não toque em mim! – resmungou a garota, recusando a ajuda que a loira lhe oferecia e levantando-se rapidamente. Seu olhar era furioso, quase ameaçador. Emma reparou na menina que não devia ser muitos anos mais velha que ela mesma. Reparou em seu vestido sofisticado (claramente, muito mais caro que aquele que a própria Emma vestia), em seu colar dourado que podia muito bem ser feito de ouro. Viu as mãos delicadas e sem cicatrizes, o rosto limpo e o cabelo preto preso em uma trança complicada.
Foi então que Emma teve a certeza de que teria problemas. Aquela garota era alguém importante, o tipo de pessoa que espera que os outros se curvem e saiam do caminho e não lhe olhem diretamente nos olhos. Pânico se abateu sobre a menininha loira e, num instinto de autopreservação, Emma correu os poucos passos que a separavam de Daniel, que ainda ria sem parar, e o derrubou ao chão com um empurrão.
— Ei! O que você pensa que está fazendo?! – gritou Daniel, muito indignado com a reação da amiga. Tentava empurrá-la com as duas mãos, mas Emma era mais forte e usava o peso de seu corpo para imobilizá-lo no chão.
— Pare de rir dela! – Emma rosnou baixinho – Não sabe quem ela é?
Logo, Emma sentiu a força de dedos se fechando em volta de seu braço e a puxando de cima do menino até que ficasse em pé. A menina continuou apertando seu braço de uma maneira que Emma tinha certeza de que teria as marcas dos dedos dela em sua pele na manhã seguinte.
Daniel levantou-se rapidamente e logo curvou-se em uma reverência desajeitada, enquanto murmurava suas desculpas:
— Desculpe, senhorita Regina. Minha amiga e eu estávamos meramente correndo pelo campo. Tenho certeza de que ela não teve a intenção de machucá-la.
A garota – Regina, agora Emma sabia – a olhou com desprezo, antes de soltar seu braço e começar a alisar amassados imaginários em seu vestido. Emma continuou encarando Regina abertamente, sem pedir-lhe desculpas e nem se curvar em reverência. A outra menina percebeu e retornou o olhar, surpresa pelo atrevimento da pequena loira vestida em trapos e suja da cabeça aos pés.
— Qual era a brincadeira? – Regina disse depois de um tempo de silêncio. Daniel ficou confuso e nada respondeu, nervoso pela presença da filha do dono das terras em que sua família trabalhava.
— Você tem que correr o máximo que puder para encostar a mão em Daniel. Se conseguir, é sua vez de fugir – Emma apressou-se em responder.
— Bem... O que está esperando para começar a correr, Daniel? – perguntou a morena, pronunciando o nome do garoto lentamente, em tom de deboche.
Daniel ficou ali parado, uma expressão abobalhada em seu rosto sem assimilar o significado daquelas palavras. Então, Regina empurrou levemente o braço do menino gritando “sua vez” e imediatamente saiu correndo na direção contrária. Emma demorou apenas um segundo para começar a perseguir a nova amiga, enquanto Daniel continuava parado, confuso no meio do campo.
***
Todos os dias, perto do horário do pôr-do-sol, Regina cavalgava até o campo perto das casas dos empregados que trabalhavam nas terras de seu pai. Lá havia conhecido dois amigos. Eles brincavam com ela sem se importar com suas posições sociais ou como deveriam se portar na presença uns dos outros.
Alguns dias, corriam alucinadamente descendo a colina aos gritos, fingindo fugir de algum dragão faminto. Outros dias, deitavam-se sobre a grama lado a lado de mãos dadas olhando as formas das nuvens avermelhadas no céu de sol poente. Regina gostava de respirar fundo o ar daquela colina, o cheiro das árvores e, às vezes, da terra molhada. Sentia também o odor de Emma e Daniel misturados em suas narinas: o cheiro da palha dos estábulos, de seus suores e do sabão que suas mães usavam em suas roupas velhas.
Daniel era um garoto retraído que observava cada movimento seu como se Regina estivesse sempre a ponto de repeli-lo. Era um menino sonhador e de alma simples: assim como o pai, ele queria trabalhar nos estábulos a vida inteira e Regina sonhava acordada com uma família onde o peso das ambições de sua mãe fosse inexistente e ela pudesse apenas ser uma menina qualquer que se orgulhava de ser a melhor amazona de todas.
Emma era, ao mesmo tempo, tímida e cheia de uma energia indomável que transbordava de si, mesmo que a menina não quisesse. Emma havia lhe contado que era órfã e havia vindo trabalhar nos estábulos em troca de comida e abrigo. Regina tinha plena consciência de que a menininha loira e franzina havia desenvolvido a maior parte de sua personalidade corajosa e selvagem nos abrigos e nas ruas onde havia morado – essa consciência a deixava igualmente triste e maravilhada por a amiga ainda estar ao seu lado, a deixava ansiando por abraçar Emma e não soltá-la nunca mais.
A chuva era torrencial e não dava trégua desde a manhã daquele dia. A tardinha se aproximava e a preocupação de Regina aumentava a cada momento. Sua mãe não percebia suas escapadas todas as tardes, quando ia brincar pelos campos junto de Daniel e Emma e sua criada tinha certeza absoluta de que a menina estaria apenas cavalgando sozinha antes da hora do jantar.
Havia já muitos meses que Regina tinha encontros secretos com os amigos e, por algum motivo, a ideia de não vê-los naquele dia lhe era intolerável. Então, quando sua criada distraiu-se com a costura na qual trabalhava, Regina escapuliu pelos corredores do castelo o mais rápido que pôde, desviando dos empregados e evitando os salões onde sabia que sua mãe poderia estar praticando sua tão adorada alquimia (Regina tinha sérias dúvidas sobre a verdadeira natureza da suposta alquimia, embora a existência de magia negra fosse apenas uma lenda macabra naquele tempo).
O estábulo principal do castelo já estava vazio, todos os trabalhadores já haviam dado o dia por encerrado e se retirado para suas casas. Desta forma, não foi difícil abrir a cancela e fugir galopando com Rocinante debaixo da forte chuva.
Várias milhas depois, Regina chegava aos campos onde moravam os criados de sua família. Só então, uma breve decepção tomou conta de si: não havia sido rápida o suficiente e seus amigos já não estavam ali.
Contudo, algo chamou sua atenção à distância e ela viu mais do que ouviu, uma menininha loira gritando seu nome à plenos pulmões na janela de uma das casas do pequeno vilarejo de empregados.
Regina cavalgou ao encontro dela o mais rápido que pôde e quando Emma abriu a porta para recebê-la, a menina caiu na gargalhada.
— O que é tão engraçado? – perguntou Regina, tentando impor alguma rispidez na voz trêmula de frio.
— Existe alguma parte de você que não está molhada? – rebateu Emma, quando retomou seu fôlego.
— Senhorita Regina! – exclamou Daniel, surgindo atrás de Emma com os olhos muito abertos em surpresa. Regina sorriu-lhe timidamente, antes de sentir seu braço sendo puxado pela outra menina que a conduzia forçosamente pelo pequeno cômodo onde funcionava o que parecia ser uma cozinha e uma sala de jantar.
— Entra logo! Acho que você vai literalmente morrer de frio – exclamou Emma, enquanto arrastava a amiga até a frente da lareira.
Ambas sentaram-se no chão e Regina culpou o frio que sentia pela imediata necessidade de abraçar Emma e segurar aquele calor humano firmemente entre seus braços. Ela enlaçou a menina pela cintura e deitou a cabeça em seu ombro. Emma relaxou imediatamente em seu abraço e esfregou as costas de Regina, tentando aumentar a sensação de calor sem se importar com o fato de que também começava a se molhar no processo.
— Quem é essa menina, Daniel? – indagou uma mulher de avental, contornando as crianças em frente à lareira. Regina pressupôs que aquela seria a mãe de Daniel.
— Essa é Regina... É nossa amiga... – respondeu o menino, hesitante.
— Regina? – perguntou o homem que saía de um outro cômodo da casa. Regina o conhecia bem, pois ele trabalhava nos estábulos principais do castelo. Era o pai de Daniel – Senhorita Regina Mills! Isso é péssimo! O que essa menina está fazendo aqui?
Regina sentiu Emma abraçar-lhe com mais força e, pela primeira vez, Regina percebeu que a amiga não era uma filha adotiva daquele casal – era, provavelmente, apenas mão-de-obra barata. A menina começou a tremer tanto quanto Regina, embora o medo fosse um motivo mais plausível para sua reação. Emma, claramente, tinha medo do que aquelas pessoas poderiam fazer caso a julgassem culpada dos acontecimentos.
— Eu estava cavalgando e acabei me perdendo por causa da chuva... seus filhos abriram a porta quando bati, pedindo abrigo e, por isso, lhe devo gratidão – Regina apressou-se em explicar. Levantando de onde estava e tentando ao máximo expressar a postura de realeza que sua mãe tanto exigia.
O pai de Daniel não pareceu satisfeito com a justificativa de Regina, mas, não havendo outra alternativa, deixou que ela permanecesse em sua casa durante as horas de chuva incessante – seria muito perigoso levá-la de volta ao castelo debaixo daquele mau tempo e, de qualquer maneira, o problema já estava criado.
Regina tomou uma sopa rala no jantar e sentou-se perto da lareira, observando Emma limpar os pratos quando a refeição terminou. Suas roupas estavam completamente secas quando os amigos a conduziram ao pequeno cômodo onde dormiam.
Regina passou horas deitada ao lado de Emma sobre o colchão fino da cama. Daniel sentou-se no chão do quarto, fazendo com que as duas rissem sem parar de suas histórias intermináveis.
Emma havia entrelaçados seus dedos nos de Regina e não soltava sua mão de forma alguma, ainda maravilhada pela presença da menina naquele lugar.
— Por que fugiu do castelo? – Emma sussurrou, horas depois, quando Daniel já havia adormecido.
— Eu queria ver vocês dois – Regina respondeu simplesmente.
— Os pais de Daniel ficaram furiosos – disse Emma, virando-se de lado e soltando a mão de Regina para brincar com os cabelos morenos espalhados sobre o travesseiro.
— Não tão furiosos quanto os meus.
— Você parece um pouco assustada.
E Regina estava. Ela já podia imaginar a infinidade de castigos aos quais seria submetida. Contudo, parecia que cada segundo ali naquela casa pobre e empoeirada ao lado de seus amigos valia à pena.
— Minha mãe pode ser um pouco assustadora – contou a morena.
— Quando eu morava na rua, perto do castelo do rei Leopold, conheci uma senhora muito velha e muito feia – contou Emma – todos diziam que ela era uma bruxa. Me dava calafrios.
Regina sorriu.
— Bruxas não existem, Emma.
— Oh, mas elas existem! E elas arrancam o coração do seu peito e fazem ele virar poeira – argumentou a menina, deslizando os dedos sobre o peito de Regina para dar ênfase, bem onde estava seu coração.
— Você acha que sua mãe é uma bruxa? – perguntou Emma, depois de um tempo.
— Você já ouviu esse boato?
— Ouvi alguns empregados conversando sobre isso – Emma deu de ombros – Você tem medo dela?
Regina não respondeu, apenas continuou ali, muito quieta, sentindo os dedos de Emma enrolando e desenrolando no seu cabelo.
— Devíamos fugir juntas – continuou Emma – Se você estiver com muito medo dela, é claro.
— Vamos fugir – respondeu Regina com um sorriso cansado – Quando eu voltar aqui. Vamos fugir.
Emma adormeceu pouco antes de a chuva cessar completamente do lado de fora da casa e, quando o pai de Daniel prostrou-se na porta do quarto, Regina levantou-se da cama devagar – relutante em deixar os amigos para trás, pois sabia que sua atitude infantil e inconsequente seria premiada com os castigos severos de Cora.
Já era madrugada quando Regina chegou no castelo, trazida pelo pai de Daniel. O cavalariço soltou sua mão quando Cora a tomou em um abraço sufocante:
— Regina! Regina! Por que faz isso, filha? Por que se comporta desta maneira? Não tem consideração por sua pobre mãe?
***
Emma acordou desorientada. Percebeu tarde demais que havia caído no sono e que Regina não se encontrava mais ao seu lado. A chuva havia parado perto do amanhecer e Daniel estava espiando pelas frestas da parede de madeira do quarto enquanto alguma discussão unilateral tomava lugar na cozinha.
— Ei! O que está acontecendo? – Emma sussurrou.
— Lady Cora Mills está aqui – respondeu Daniel, baixinho – Ela não parece muito contente. Papai está tentando explicar a história que Regina contou... sobre ter se perdido.
Emma levantou-se num pulo e colou o ouvido à parede, também tentando bisbilhotar a conversa.
— Não quer que eu acredite que minha filha... – Cora fez uma pausa – Não quer que eu acredite que Lady Regina bateu em uma porta qualquer nesse vilarejo imundo em busca de abrigo!
— A Senhorita Mills me conhece há muito tempo, já que sou o cavalariço de seu pai e cuido pessoalmente de Rocinante – o homem tentou argumentar, mas Cora o interrompeu, elevando sua voz:
— Eu sei que Regina tem amigos aqui! Imagino que ela apenas tenha escolhido a casa mais conhecida e, embora eu esteja grata que minha filha está segura, não admito que Regina desenvolva esses laços aqui. Vocês deveriam saber o seu lugar! – Cora fez outra pausa e Emma a viu olhando ao redor com desprezo e nojo, antes de continuar – Agora... Eu sei que vocês tem um filho...
— Oh, não, não! A senhora não acha que Daniel estaria-
— Tenho certeza de que Daniel estaria sendo uma má influência para minha filha – interrompeu-o novamente.
O pai de Daniel tomou apenas um momento para pensar, antes de formular a defesa do filho contra aquela mulher terrível que lhe colocava tanto medo:
— Daniel não faria isso... Emma, por outro lado...
— Quem é Emma? – indagou Cora.
Então, segundos depois, a porta do quarto abriu violentamente e o cavalariço agarrou a menina por um dos braços, trazendo-a a presença da mãe de Regina.
— Emma é apenas uma órfã – disse ele em tom de desculpas – Eu a trouxe para que trabalhasse conosco... é claro que não pensei que ela fosse ser um grande problema.
— Oh, mas ela é apenas um pequeno incômodo – disse Cora, em tom debochado, abaixando-se para olhar a garotinha diretamente nos olhos. Emma sentiu-se aterrorizada instantaneamente e entendeu cada palavra de Regina em um segundo – Um pequeno incômodo que eu espero que desapareça muito em breve.
Emma soube, assim que Cora deu-lhe as costas e saiu pela porta, que seria mandada embora mais uma vez e, assim, voltaria às ruas. Sem escolha, deixaria para trás sua pequena casa, seu trabalho e suas refeições.
Deixaria para trás Daniel.
Deixaria para trás Regina.
Notas finais
*Com relação aos nomes de algumas personagens: Eu não costumo assistir OUaT dublado/legendado, então não sei de que forma fica mais confortável pra que vocês leiam os nomes: traduzidos ou não? Me digam nos comentários o que vocês preferem: Hook ou Gancho? Snow ou Branca (ou Branca de Neve)? Granny ou... Enfim, me contem nos comentários! (Ah, e já aproveita e me diz o que você achou do capítulo!)
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