A Fúria dos Mares [SwanQueen]
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Capítulo 2: No coward soul is mine
Nenhuma alma covarde a mim pertence
Emma tinha treze anos quando se alistou no exército do rei Maurice. Naquela época, a interminável guerra contra os ogros era motivo de orgulho e pano de fundo para as grandes histórias épicas de soldados valorosos em batalha. Ninguém imaginava que o poderoso rei Maurice iria à falência em uma guerra que se arrastaria por anos a fio e que destruiria tantas famílias e vidas ainda jovens demais.
Emma conhecera um dos soldados do rei quando este viajava em busca de mantimentos para as trincheiras. Ele gabava-se dos grandes feitos realizados na guerra para seus amigos em uma taverna qualquer naquele povoado imundo. Emma ali trabalhava – limpando pratos e servindo viajantes que chegavam na taverna em busca de uma refeição, bebida e uma boa cama para dormir – e desconfiava que os olhares que aquele soldado lançava em sua direção não eram totalmente platônicos.
Ela era pouco mais do que uma criança naquele tempo e ainda sonhava dia e noite com a menina Regina em sua cama, sorrindo com condescendência ao lhe dizer que bruxas não existiam. Emma não tinha tanta certeza – não depois de ver todo o ódio no olhar da Senhora Cora e suas ameaças disfarçadas de breves sugestões agressivas, não depois de perceber o medo de Regina ao falar da própria mãe.
Mas aquilo acontecera há muito tempo e Emma não era tola em acreditar que seus velhos amigos ainda se lembravam de que um dia compartilharam partes importantes de suas vidas com ela.
Emma suspirou com pesar, perdida em suas memórias, quando o dono da taverna lhe chamou a atenção, gritando para que fosse logo recolher os pratos das mesas vazias. Robin de Locksley era um bom homem e administrava muito bem sua taverna, embora Emma tivesse certeza de que ele secretamente a detestasse e desejasse vê-la bem longe dali. Ela havia arrumado aquele emprego graças a bondade interminável da senhora Marian, esposa de Robin. A mulher parecia sentir tanta compaixão por aqueles necessitados, que deixava Emma um tanto quanto desconfortável (Emma que não estava acostumada a sentir-se importante, a sentir-se querida ou sentir-se abraçada por ninguém além da menina Regina).
Então, quando aquele soldado partiu de volta às trincheiras no dia seguinte, Emma partiu no seu rastro, seguindo-o sorrateiramente sem olhar para trás.
Quatro dias de uma cavalgada quase contínua os levou ao reino distante onde o Rei Maurice enfrentava seu grande inimigo fantástico. Emma não teve dificuldades para esconder seu cabelo debaixo de um chapéu e vestir o uniforme masculino que roubou de uma tenda cheia de soldados. Quando se alistou, disse que se chamava Emery Swan e disse ser um garoto sem lar disposto a lutar pelo povo daquela terra.
Os militares da repartição não se impressionaram com o garoto magrela de treze anos que viram em Emma. Contudo, precisavam de força nas trincheiras e qualquer um seria bem-vindo. Assim, deram-lhe uma espada de segunda mão – bem afiada e pesada demais para uma menina de treze anos – e Emery-Emma-Swan seguiu para ganhar seu dinheiro e sua vida na guerra contra os ogros.
***
Três anos se passaram.
Ela agora esforçava-se para manter seu disfarce de menino-soldado. Emma Swan seria uma garota forte com apenas dezesseis anos, alguém que vencia brigas e lutava com todas as forças para não afogar-se nos martírios de uma guerra perdida. Mas Emery Swan não era nenhum brutamontes – sua barba nunca crescia, seus ombros não ficavam largos nem com todo o exercício do mundo, seu cabelo era ainda comprido demais para um soldado, já que Emma recusava-se a cortar os fios loiros em um penteado convincentemente masculino. Embora ela se utilizasse de todos os artifícios à sua disposição (o uniforme militar extremamente largo para esconder suas curvas femininas, o lenço que jamais deixava seu pescoço e, frequentemente, escondia parte do seu rosto como se fosse uma espécie de bandido dentro do campo de guerra, o chapéu de abas largas ou capuz de sua túnica sempre colocados convenientemente sobre sua cabeça, desviando a atenção de seus cabelos compridos), a garota ainda achava que seus companheiros escolhiam não perguntar o motivo de Emery Swan ser tão diferente. Naqueles dias, a guerra estava em um perigoso declínio e a derrota parecia apenas uma questão de tempo, ninguém poderia se dar ao luxo de perder soldados por nenhuma outra razão que não fosse a morte.
Infelizmente, nem todos pensavam da mesma forma.
— O que você acha que vai acontecer quando isso tudo acabar? – disse Rumpelstiltskin, seu companheiro naquela vigília noturna. Ambos vigiavam o acampamento aquela noite, sabendo que a possibilidade de serem atacados no dia seguinte era grande demais para que ficassem tranquilos.
— Quando a guerra acabar? – respondeu ela, sem desviar os olhos do horizonte – Estaremos todos mortos há muito tempo. Se não morrermos pelas mãos dos ogros, teremos a indigna morte pela fome. Parece que o Rei Maurice tem esquecido de enviar suprimentos para seus soldados.
— Ele está falido. Não vai desperdiçar comida com soldados sem rosto que permanecem lutando aconteça o que acontecer – disse Rumpel, o desprezo evidente em sua voz.
Rumpel era um conhecido covarde. Estava nas trincheiras há menos tempo do que Emma e não fazia mais do que vigiar acampamentos e apanhar dos outros soldados por ter tanto medo da guerra na qual havia se metido. Emery Swan, por outro lado, nunca lhe espancava e havia achado em Rumpel um bom amigo.
— O que o trouxe para cá? — disse a garota, após um longo silêncio – Quero dizer... todos sabemos que você não foi feito para esta vida – Rumpel fez uma careta demonstrando toda sua impaciência com o rumo da conversa – Não me entenda mal, acredito que nenhum de nós deveria estar aqui, não há futuro diferente da morte prematura para nenhum destes guerreiros. É só que...
— É só que você não entende como alguém tão covarde pode se sujeitar à uma guerra – completou ele, tentando ao máximo esconder sua irritação.
— Não foi o que eu quis dizer... — remendou ela, sem jeito.
— Todos aqui temos motivos únicos e convincentes para estarmos aqui, senhorita Swan – respondeu com firmeza, fazendo com que os olhos de Emma se arregalassem à menção de seu nome.
Ele havia dito “senhorita Swan” com certa presunção e escárnio, como se constatasse algo óbvio: era óbvio que ele conhecia a verdadeira identidade do soldado Emery Swan, era óbvio que Emma não havia tomado cuidado suficiente, era óbvio que ela pisava em terreno perigoso desde que colocara os pés naquele acampamento de guerra três anos antes.
Emma o encarou de rosto franzido, fingindo não entender ou não notar o que Rumpelstiltskin acabara de dizer, mas o homem não desviou o olhar nem por um segundo – apenas uma sombra do covarde que vivia dentro de si.
— Eu tenho família. Uma mulher que me espera em minha casa, um filho que merece algo melhor do que um pai covarde. Não posso falhar novamente, tenho de ser digno deles e dar-lhes uma vida da qual possam se orgulhar – disse ele e, finalmente, desviou seu olhar ameaçador para o fogo crepitando à sua frente – Como eu disse, tenho certeza que, assim como todos aqui, seus motivos para viver e lutar são perfeitamente convincentes, do contrário já estaria morta na ponta de uma lança.
Permaneceram em um silêncio carregado de tensão. Por longos minutos, Emma tentou lembrar-se do momento de descuido que teria revelado sua identidade ao companheiro de guerra. Olhou para suas próprias roupas masculinas e largas, tocou o chapéu que escondia-lhe o cabelo e não saía de sua cabeça em nenhum momento do dia, deslizou os dedos sobre o próprio rosto: sem barba, fino, feminino. As coisas iam de mal a pior: aos dezesseis anos, ela podia muito bem dizer que era apenas um menino franzino e magrela – era verdade que o rei Maurice não enviava comida suficiente para os acampamentos –, mas o que aconteceria quando os anos se passassem e Emery Swan não se tornasse um guerreiro robusto como os outros? Ela era uma fraude entre os cavaleiros do reino. Havia se alimentado e recebido soldos às custas do rei em um lugar onde mulheres não podiam lutar em batalha, não eram guerreiras. Diriam que ela nunca lutara, que se escondera das batalhas e fora salva por seus companheiros o tempo todo. Seria enforcada por isso.
Um arrepio percorreu seu corpo com o pensamento de seu segredo revelado. Emma levantou-se de súbito, seu instinto lhe incitando a fugir para o lugar mais distante possível. Envergonhou-se do medo que sentiu e num instante descobriu o que estava acontecendo, o jogo sombrio daquele homem. Rumpelstiltskin lançava-lhe um meio sorriso – um pouco divertido, um pouco orgulhoso de si mesmo. Havia feito Emma experienciar aquilo que ele mesmo estava habituado a sentir: o medo de perder tudo, o medo de morrer, o medo de dizer uma única palavra errada e colocar sua própria vida em risco.
— Faça isso mais uma vez e considere-se um homem morto – ameaçou ela de maneira sombria. Depois agarrou-lhe pelas lapelas da camisa, obrigando-o a levantar-se do lugar onde estava sentado – Conte meu segredo a qualquer um e considere-se um homem morto – Empurrou-o com força suficiente para fazer com que o homem caísse deitado no chão – Me chame de senhorita Swan mais uma vez e considere-se um homem morto.
Emma deu as costas e lentamente caminhou de volta à sua tenda no acampamento, torcendo para que Rumpel fosse covarde o bastante para acreditar e temer suas ameaças.
***
Semanas depois, Emma percebeu seu erro. Deveria ter engolido seu orgulho, aceitado seu medo e fugido dali o mais depressa possível. Não seria a primeira vez que sumiria, deixando para trás tudo o que havia construído.
Contudo, permaneceu ali. Agarrada à promessa de que o rei mandaria suprimentos, à promessa de que Rumpel permaneceria calado, à promessa de que poderia continuar em seu lar. Esqueceu de que sua vida nunca haveria de ser simples e deixou sua guarda baixa.Talvez apenas estivesse tão afeiçoada ao personagem que criara em Emery Swan que se acostumara a viver cercada de meias verdades. Achava que precisava continuar ali e fazer daquele acampamento de guerra seu lar, quando, na verdade, sabia muito bem que nunca possuiria um lar legítimo.
Foi quando ouviu passos firmes aproximando-se de sua tenda que levantou-se rapidamente, pressentindo de alguma forma os problemas que chegavam. O comandante, valoroso cavaleiro da confiança do rei Maurice, agarrou-lhe pelo braço e jogou-a com violência no chão do lado de fora da tenda onde muitos soldados já se aglomeravam.
Emma cravou as mãos na lama onde havia caído de bruços, fuzilando com um só olhar o soldado de pé a sua frente. Rumpel tinha uma expressão de arrependimento em seu rosto, enquanto lamentava e tentava justificar-se:
— Eu não tive outra escolha! Sinto muito – ele aproximou-se e fez menção a tentar levantar a garota do chão, mas foi contido pelo soldado que o acompanhava – Eles iriam me enviar para uma missão de reconhecimento! Era suicídio, ninguém retorna destas missões. Eu precisava barganhar, precisava que eles me deixassem aqui, Swan! Preciso voltar para meu filho!
Ela deveria ter imaginado, afinal. Deveria saber que ao menor sinal de perigo, Rumpel usaria seu segredo para benefício próprio. Emma quase podia visualizar o amigo tomado pelo medo, oferecendo seu segredo ao comandante em troca de ser poupado de sua missão suicida.
Com um fúria cega tomando conta de si, Emma levantou-se do chão lamacento e investiu contra deu delator, acertando-lhe um soco tão forte que o desequilibrou. Rumpel caiu, enquanto Emma era contida por outro cavaleiro. A garota debateu-se até conseguir se soltar dos braços que lhe seguravam firmemente. Acertou alguns socos em seu oponente, pegando-o de surpresa, e, quando seu executor finalmente reagiu, acertou a menina com força suficiente para fazer sangrar seu nariz e criar mais alguns machucados pelo seu corpo.
Felizmente, todos aqueles anos de guerra lhe fizeram mais resistente e ágil. Além disso, nenhum daqueles homens esperava que uma garota soubesse lutar, não haviam se preocupado em revistá-la, assim como não planejavam lhe dar um julgamento justo. Valendo-se de todas as vantagens que podia acumular, Emma lutou com o cavaleiro que tentava levar-lhe para a forca até o momento em que aproximou-se o suficiente de seu comandante. Sacou a faca que trazia escondida na bota e tomou seu próprio comandante como refém diante dos olhos horrorizados de seus companheiros soldados e cavaleiros.
Andaram os dois até o estábulo, a faca pressionada ao pescoço do soldado, ameaçando cortar a garganta do refém diante de qualquer movimento suspeito. Então, Emma nocauteou-o, montou em um dos cavalos e cavalgou o mais rápido que conseguiu para longe dali.
***
Emma já havia andado muito, seu cavalo mostrava claros sinais do cansaço de uma noite inteira correndo pela floresta na tentativa de despistar os soldados que certamente tinham a missão de perseguir e matar o falso Emery Swan.
Era perto do alvorecer quando a garota finalmente avistou a estrada do rei entre as árvores da densa floresta. Congratulou a si mesma e respirou aliviada por ter conseguido chegar tão longe. A estrada do rei a levaria para terras conhecidas e mais pacíficas: o reino de Leopold. Emma havia andado por ali quando ainda era apenas uma orfã vagando de casa em casa, passando fome e frio, à procura de coisas que nem mesmo ela se atrevia a nomear.
Mas, agora, os tempos eram outros. Tempos em que ela tinha o estômago cheio e as mãos ensanguentadas, tinha o corpo dolorido pelos ematomas e a cabeça transbordando de sonhos e esperanças. Riu de si mesma. Como era possível que ainda fosse capaz de sonhar? Talvez fosse esse o efeito das mortes que carregava na consciência, todas aquelas imagens de seus companheiros agonizando talhadas profundamente em sua memória. Por vezes, pensou se a decisão certa não seria simplesmente desistir. Mas, por fim, conclui que pertencia àquele lugar, àquela guerra que agora era sua e lhe fazia valorizar cada dia de sobrevivência – mas não era exatamente isso que vinha fazendo desde que nasceu? Talvez sobreviver fosse seu real talento – e foi a essa ideia que se apegou quando, em meio a sua fuga desenfreada, percebeu que mais uma fase de sua vida havia se acabado e que mais uma vez havia perdido tudo aquilo que reconhecia como seu.
Ouviu o barulho de cascos vindo da estrada e pôde ver o que parecia ser uma carruagem surgindo entre as árvores.
— Bem... Finalmente minha carona chegou – murmurou para si mesma, torcendo para que aqueles viajantes não estivessem armados ou fossem mais perigosos que ela mesma.
Desceu do cavalo com certa dificuldade, praguejando ao sentir cada fisgada de dor assolar seu corpo. Incitou o animal para que fugisse e continuasse a despistar seus perseguidores por algum tempo até que descobrissem estar andando em círculos, perseguindo um animal solitário e não sua companheira desertora.
Mancou até a estrada, baixou a aba do chapéu e parou bem no meio do caminho quando a carruagem se aproximou. Estendeu os braços ao alto e esperou que o cocheiro parasse o veículo ao vê-la.
— Por favor – gritou em tom queixoso – Por favor, parem! Eu preciso de ajuda, senhor! Teria a bondade de chamar seu senhorio?
Não foi preciso que o chamassem. Antes que o cocheiro fizesse menção a convocar seu patrão, a porta da carruagem se abriu.
Primeiro, Emma ouviu o farfalhar das saias de um vestido arrastando no chão lamacento. Em seguida, seu olhar pousou sobre aqueles cabelos negros descendo em ondas pelo torso da garota que saia da carruagem. Viu seus trajes régios e impecáveis, sua pele levemente bronzeada e, por fim, aqueles olhos castanhos tão familiares que lhe encaravam com arrogância e só um pouco de tristeza.
— Em que podemos ajudá-lo, soldado? — inquiriu a garota, fazendo Emma paralisar por completo ao som da voz de veludo inesquecível que, aparentemente, havia ficado mais grave com o passar dos anos.
— Senhorita Regina, por favor, volte para a carruagem – interferiu o cocheiro – prometi a Lord Henry que chegaríamos em breve ao seu destino.
— Senhorita Regina? — Emma murmurou baixinho, paralisada como se tivesse acabado de ver um fantasma.
***
Mas fantasmagóricos eram apenas os ventos gelados daquele amanhecer e a meia-luz que o sol nascente lançava sobre o soldado de vestes esfarrapadas. O chapéu estava baixo sobre seu rosto e Regina tinha dificuldades em identificar-lhe as feições – embora pudesse ver que era um homem loiro, os cabelos embaraçados na altura dos ombros. O rapaz era apenas alguns centímetros mais alto que ela e sua compleição não se parecia nem um pouco com a de um soldado: parecia um tanto fraco e desprovido de músculos. A falta de barba lhe dava-lhe um aspecto quase infantil, motivo pelo qual Regina ignorou os avisos insistentes do cocheiro que conduzia sua carruagem e deu alguns passos em direção à figura suja e arfante do soldado.
— Está perdido, senhor?
— Estou – respondeu o soldado em sua voz rouca, dando dois passos em direção à sua interlocutora, as mãos ainda erguidas em sinal de rendição – Talvez a senhorita possa me indicar em que direção posso encontrar a Taverna Três Ferraduras? O senhor Robin de Lockesley é muito meu amigo, espero que ele e sua boa esposa Marian possam me oferecer uma refeição e um pouco de descanso em minha viagem.
— Não conheço nenhuma taverna chamada Três Ferraduras – respondeu, erguendo uma sobrancelha, em tom desdenhoso.
O soldado ergueu levemente o rosto, exibindo seu melhor sorriso desafiador que lhe acentuava umas poucas curvas no rosto anguloso. Quando ele olhou para o cocheiro por uma fração de segundo, um calafrio percorreu o corpo de Regina, pois percebia, ali, a armadilha em que havia caído e o desnecessário perigo ao qual havia exposto a si mesma e a seus pertences que estavam dentro da carruagem.
Em um movimento rápido, o soldado sacou a faca que estava escondida em algum lugar de sua roupa, agarrou o braço da garota e a empurrou com força em direção à parede da carruagem. Regina resvalou no chão escorregadio e, por muito pouco, a faca não lhe cortou quando o soldado a pressionou contra sua garganta.
— Não conhece? — respondeu o desconhecido com aquela voz vagamente familiar e provocativa em seu ouvido – Faz sentido. Aquele não me parece o tipo de lugar que uma garota como você frequentaria. Sabe como é... é uma taverna cheia de ladrões e o canalha do Robin de Lockesley deve ser o pior deles.
Regina, ainda paralisada pela surpresa do ataque e pela força com a qual aquele estranho lhe pressionava contra a lateral de sua própria carruagem, percebeu em sua visão periférica os movimentos do velho senhor que dirigia o veículo – preparava-se, certamente, para um descuidado ato heróico em favor da honra da filha de seus patrões.
— Não se atreva a atacá-lo, Brent! — exclamou Regina ao cocheiro, sentindo a faca roçar sua garganta com cada movimento de sua fala.
— A senhorita aprende rápido como essas coisas funcionam – disse o soldado em sua voz rouca e debochada. Retirou, finalmente, a faca que pressionava a garganta de Regina, agarrou-a pelo braço e, abrindo a porta da carruagem, murmurou um zombeteiro “Primeiro as damas” antes de empurrar a garota para dentro do veículo. Virou-se para o cocheiro, ordenando-lhe que seguisse em frente e, de modo algum, pensasse em gracinhas ou tramasse atacá-la novamente, do contrário a senhorita Regina Mills sofreria as consequências.
Quando a carruagem começou a se mover novamente, Regina encarou a figura sombria do soldado sentado ao seu lado na carruagem e constatou que, em momento algum, havia lhe dito que seu sobrenome era Mills.
***
Um longo tempo se passou antes que Regina reunisse a coragem necessária para voltar a falar:
— Por que usa roupas de soldado, quando claramente é um criminoso?
A figura taciturna sentada no banco a sua frente continuou em silêncio, entretido a brincar com sua adaga suja daquilo que parecia ser o sangue seco de suas vítimas anteriores.
— Talvez não seja criminoso – Regina tornou a falar, quando percebeu que seu acompanhante não tinha intenção de responder – Talvez seja apenas um desertor... Nesse caso, eu diria que, provavelmente, trata-se de um covarde inofensivo, sem honra o suficiente para cumprir seus deveres de soldado e cavaleiro juramentado ao seu rei.
Aquilo, obviamente, causou uma reação instantânea no homenzinho calado. Levantou-se de seu banco e, com seus movimentos rápidos, voltou a pressionar a adaga contra o pescoço de Regina, enquanto sussurrava com irritação:
— Oh, mas não se esqueça que sou um covarde inofensivo e armado— disse, forçando mais a faca contra a garganta da morena para dar ênfase às suas palavras.
Regina, por algum motivo tolo, não mais se sentia aterrorizada pelo estranho que a sequestrava e, estando tão perto de seu rosto, pôde ver os pequenos cortes em sua boca e perto do nariz. Viu aqueles olhos verdes redondos e perigosos, mas também cansados e desamparados. Reparou na postura que, apesar de firme em suas intenções, era franzina e estreita. Com um gesto imprudente, Regina esticou uma mão e tocou-lhe a face – lisa e macia, a não ser pelos cortes e hematomas deixados pela guerra. Deslizou os dedos pelo rosto do soldado e sentiu a respiração dele acelerar sob o toque pretensioso.
— Quem é você? — Regina perguntou baixinho, enquanto retirava o chapéu do soldado, revelando os cabelos loiros compridos que condiziam mais com a compleição feminina do suposto cavaleiro e combinavam perfeitamente com aquele rosto que, apesar de anguloso e marcado pela guerra, era inegavelmente o rosto de uma mulher.
Os dedos de Regina pareceram criar vida própria e tornaram a acariciar aquele rosto sem o menor vestígio de barba, enquanto ela contemplava aqueles olhos que lhe pareciam tão familiares e sentia a respiração trêmula da mulher que mal se mexia à sua frente.
— Emma – disse a loira em uma voz igualmente baixa e, em mais um movimento rápido, avançou ao encontro dos lábios de Regina antes que qualquer uma delas pudesse registrar o que estava acontecendo.
Regina sentiu a faca que pressionava sua garganta ser afastada de si e cair no chão com ruído surdo, sentiu os lábios da outra mulher – Emma – contra os seus e sentiu como ela arfava ao beijá-la – como se Regina fosse um tesouro há muito perdido, finalmente encontrado. Regina mal percebia que retribuía-lhe o beijo com igual ardor e assim ficaram por longos segundos, apreciando os lábios macios que pela primeira vez se tocavam.
No entanto – e como a realidade inevitavelmente atinge aqueles que possuem consciência –, Regina abriu os olhos de súbito e empurrou Emma com toda a força que possuía. A garota, pêga de surpresa, caiu no chão da carruagem fazendo uma careta de dor, mas sem esboçar reação violenta.
— Como se atreve a me beijar? — disse Regina, em um tom profundamente ofendido.
— A senhorita não beija soldados covardes e inofensivos? — rebateu a garota, ainda no chão e com um sorriso insolente dançando em seus lábios.
— Você não é um soldado! Nem mesmo é um homem!
— Um pequeno detalhe... Por que as pessoas se apegam tanto a esse detalhe?— debochou Emma.
Regina, então, pegou a adaga que Emma havia deixado cair no chão e desajeitadamente apontou a lâmina na direção daquela que agora imaginava ser sua inimiga mortal.
— Fora da minha carruagem! Não irá nos roubar e muito menos me levar junto com você.
Emma riu descaradamente da ameaça nada perigosa que a outra garota representava ao segurar sua faca com as mãos trêmulas e esforçar-se para imprimir perigo em suas palavras.
Regina assistiu, com crescente pânico dentro de si, enquanto Emma levantava-se do chão. Viu a garota gritar para o cocheiro por uma das janelas, ordenando-lhe que parasse a carruagem imediatamente, pois sua viagem havia chegado ao fim.
Então, Emma aproximou-se de Regina, pouco se importando com a adaga em suas mãos, pousou-lhe a mão no rosto corado e disse naquele tom atrevido que Regina já estava aprendendo a detestar:
— Obrigada pela carona, senhorita Regina! É sempre um prazer reencontrá-la.
E com essa despedida, deu às costas e saiu pela porta. Regina assistiu os cabelos loiros da garota esvoaçando ao vento enquanto ela corria em direção à floresta densa que se alongava junto da estrada.
— Me reencontrar? — repetiu Regina para si mesma, ainda muito confusa, quando a carruagem começou a se mover mais uma vez.
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