A Fúria da Tempestade- Sonhos de Verão (Livro I)
19 Sobre Este Chão
Notas iniciais

"Diga isto a ele, senhor. Diga que ele está decidido a marchar na direção errada. É para o norte que deve levar suas espadas. Para o norte, não para o sul."
— Osha, A selvagem
Fosso Cailin, Gargalo- Norte de Westeros
As torres de Fosso Cailin... ou o que restava delas. Imensos blocos de basalto negro, cada um deles tão grande como uma cabana de caseiro, jaziam espalhadas e tombados como os blocos de madeira de uma criança, meio enfiados no solo mole pantanoso. Nada mais restava de um amuralha exterior que outrora se erguera tão alta como a de Winterfell. A fortaleza de madeira tinha desaparecido por completo, apodrecida a mil anos, sem sequer deixar uma viga para marcar o local onde estivera. Tudo que tinha restado do grande castro dos Primeiros Homens eram três torres... três que antes tinham sido vinte, caso seja possível crer nos contadores de historia.
— As três torres sobreviventes dominam a talude de todos os lados, e qualquer inimigo tem de passar entre elas. Os pântanos, aqui, são impenetráveis, cheios de areia movediça e poços, e repletos de serpentes. Para assaltar qualquer uma das torres, um exercito teria de avançar através de esterco negro que chega ao peito dos homens, atravessar um fosso repleto de lagartos-leões e escalar muralhas escorregadias com musgo, e tudo isso enquanto ficam exposto ao fogo dos arqueiros nas outras torres. E quando a noite cai, dizem que há fantasmas, espíritos frios e vingativos do Norte que têm fome de sangue sulista.
As palavras de Theon quase a assustaram se Robb não tivesse rido, mas isso não polpou o nascido de ferro de ter o pé esquerdo esmagado pela bota da princesa. Desde de que partiram de Winterfell, Robb e ela pareciam ainda mais próximos, cavalgava sempre ao seu lado, com o martelo de guerra preso as costas e na cintura uma espada leve e muito fina, de aço branco e cabo de couro negro, um presente do marido para ela. Participava das reuniões de guerra e era sempre ouvida por seus vassalos e pelo marido, orgulhava-se de usar toda a sabedoria adquirida crescendo ao lado de grandes cavaleiros como Sor Barrista Selmy, seu tio Sor Jaime Lannister e seu pai, Robert Baratheon, estes a ensinaram não apenas manejar uma espada com maestria ou usar perfeitamente seu arco e martelo de guerra, haviam-na ensinado tudo que tinha de saber. Nicéia conhecia o sul, o estudara durante anos.
Ali cercada pelos senhores vassalos, escutando com atenção as palavras assim como o marido fazia. Ja havia acostumado com a visão larga de Grande-Jon e dos Senhores Glover e Galbartt, no entanto, jamais sentira-se confortável na presença de Roose Bolton, aquele homem lhe dava calafrios. Seus olhos gelados e sem vida, pareciam sempre estar pregados a ela, observando sua caminhar ate sua respiração. Nicéia não gostava dele, sentiria-se feliz se Robb o mandasse para bem longe. Talvez para Skane, uma ilha pequena situada na Baia das Focas, muito alem da muralha, sentiria-se mais segura daquela forma. Seu guarda pessoal, Royce das Terras Livres, dividia de seus pensamentos, pois em nenhum momento sequer deixava seu lado quando o homem estava por perto e por um punhado de vezes o viu agarrar a espada.
— Nicéia? — a voz do marido a tirou de seus pensamentos. — Esta distraída hoje, a chamei um punhado de vezes.
— Desculpe estava pensando — sussurrou apertando os olhos cansados. Mal havia dormido na noite passada, conseguia pensar apenas nos irmãos menores Tommem e Myrcella, teria de pedir a Robb que os polpasse, mesmo que ela soubesse que ele seria incapaz de ferir um deles, seus assuntos eram com joffrey e Nicéia não o impediria de arrancar sua cabeça caso fosse necessário. — Aquela historia sobre espíritos frios que querem o sangue sulista, ainda não deixou minha cabeça.
O gracejo fez Grande-Jon sorrir largo e marido a olhou por um longo segundo e depois voltou a falar com Grande-Jon e Roose Bolton, Nicéia não prestava a atenção que deveria, mas não podia impedir de manter sua mente longe.
— Mãe? — a voz do marido era pesada de emoção.
Lady Catellyn estava la, a ponta mais distante do basalto que estavam usando como mesa. Seus olhos azuis mantiveram-se no filho e Nicéia sabia o quanto ela desejava abraça-lo.
— Deixou a barba crescer — disse ela para Robb.
O marido esfregou o queixo, de repente atrapalhado.
— Sim.
— Gostei — disse a senhora com um sorriso. — Nicéia, esta ainda mais bela do que me lembro.
A jovem aproximou-se sem timidez e agarrou a sogra em um abraço apertado e cheio de carinho. Sentiu-se abraçando a mãe, era quente, reconfortante e seguro.
— É muito bom ve-la, não sabe o quão perdida fiquei — sussurrou ainda abraçada a senhora que sorria.
Catelyn correu os dedos pelos cabelos negros da Baratheon e lhe beijou a face rosada. A moça cheirando a verão que conheceu antes de deixar Winterfell atras do marido, em nada parecia-se com a mulher que se erguia belamente a sua frente, mesmo que vestindo-se com cotas de malha, ainda que muito femininas e lhe marcando todas as curvas. Nicéia conseguia ficar bela em qualquer traje.
Sor Haleman Tallhart foi o primeiro a atravessar o salão e dobrar de joelho.
— Senhora Catelyn — disse. — está bela como sempre, uma visão bem vinda em tempos conturbados.
— Não esperava ve-la aqui senhora — disse Theon enquanto se punha sobre os joelhos.
—Não pensei em vir — disse Catelyn. —, até que desembarquei em em Porto Branco e Lorde Wyman me disse que Robb convocara os vassalos. Conheça seu filho Sor Wendel — Wendel Manderly avançou e fez uma reverencia profunda. — E meu tio Bryden Tully, que trocou o serviço de minha irmã pelo meu.
— Peixe Negro? — surpreendeu-se Nicéia, notando o homem alto e corpulento parada atras de Lady Catelyn.
— Princesa — curvou-se o homem.
— Obrigado por se juntar a nós, sor. Precisamos de homens com sua coragem. E o senhor também, Sor Wendel, estou contente por tê-los aqui. Sor Rodrik também esta com a senhora, mãe? Senti sua falta.
— Sor Rodrik saiu de Porto Branco para Winterfell. Nomeei-o castelão e ordenei-lhe que defendesse Winterfell ate nosso retorno. Meistre Luwin é um bom conselheiro, mas nada sabe das artes da guerra.
— Nada tema a esse respeito, Senhora Stark — disse Grande Jon-Umber. — Winterfell está segura. Logo vamos enfiar nossas espadas em Tywn Lannister, com a sua licença, e depois seguiremos a caminho d Fortaleza Vermelha para libertar Ned.
— Senhora, uma pergunta, se me permite — Roose Bolton, senhor de Forte do Pavor, tinha a voz fraca, mas, quando falava, os homens maiores silenciavam-se para ouvir. Seus olhos curiosamente claros, quase desprovidos de cor, e o olhar era perturbador. Nicéia não gostava da forma que ele a olhava. — Diz-se que a senhora tem o filho anão de Lorde Tywn Lannister cativo. Trouxe o Duende até nós? Juro, que faríamos bom uso de tal refém.
A jovem senhora ergueu os olhos com fúria e os direcionando ao Bolton. Aquele homem a deixava nervosa e com calafrios.
— É verdade que capturei Tyrion Lannister, mas já não o tenho em meu poder — Catelyn admitiu. Os homens praguejaram baixo. — Não fiquei mais satisfeita do que os senhores. Os deuses acharam por bem liberta-lo, com alguma ajuda da tola de minha irmã.
Lady Catelyn desprezou a irmã, fazendo Nicéia ter curiosidade em saber de onde provinha tanto rancor. Conhecia Lady Arryn, Jon a levara para Fortaleza Vermelha uma vez, quando Nicéia não passava de uma criança. Ainda estava gravida do menino Robert. Mas lembra-se de te-la achado muito feia e mau-humorada, pensando agora, ela e Lady Catelyn não tinha nada semelhante alem dos cabelos vermelhos.
— Realmente acreditaram que teriam alguma vantagem sobre meu avô, Lorde Tywn Lannister se possuissem meu tio Tyrion? — debochou Nicéia com os braços cruzados sobre os seios. A mulher ganhou olhares de todos os presentes na tenda, inclusive os de Robb. — Pois não teriam. Tywin despreza tanto Tyrion quanto vocês, assim como minha mãe. Nenhum deles moveria um exercito em seu resgate, Talvez Sor Jaime Lannister viesse a sua procura, mas nada alem dele. Acredito que Tywin Lannister mandaria uma espada para que arrancassem a cabeça do anão.
Os senhores a observaram por um longo momento, analisando o que acabara de ser dito.
— De fato, Lorde Tywin não enviou tropas Lannister em minha procura — refletiu Catelyn com um finco entre as sobrancelhas.
— Querem cutucar o leão? — perguntou afastando-se da pilastra onde se apoiava e caminhou ate a direita do marido. —Apanhem seu filhote mais velho.
— Sei que teremos muito a conversar ainda, mas gostaria de falar um momento a sós com meu filho e nora. Seu que me perdoarão senhores — a senhora não lhes deixou escolha e um a um curvaram-se e se retiraram. Theon fora o ultimo a ir, lançando-lhes um sorriso.
Havia cerveja e queijo sobre a mesa. Catelyn encheu um corno, sentou-se, bebeu um gole e depois deixou que seus olhos azuis estudassem ambos.
— Edmure tinha dezesseis anos quando deixou crescer suas primeiras suíças.
— Farei vinte e um em breve — Robb respondeu.
— Um pouco mais velho, verdade — observou a mulher. — Mas agora tem vinte e ja leva uma tropa para batalha. Compreende o por que tenho motivos para temer?
Nicéia percebeu o marido tenso ao seu lado.
— Não havia mais ninguém — disse obstinado.
— Ninguem? — ela disse. — Diga-me quem eram aqueles homens que vi aqui há um momento? Roose Bolton, Rickard Krastak, Galbart e Robett Glover, Grande Jon-Umber, Helman Tallhart... poderia ter dado o comando a qualquer um deles. Que os deuses sejam bondosos, podia até ter enviado Theon, embora ele não tivesse sido a minha escolha.
— Eles não são Stark.
— São homens, Robb, experientes em batalha. Você lutava com espadas de madeira há um pouco mais de um ano.
A esposa vira a fúria crescer nos olhos do marido, que tornavam-se fendas enquanto observava a mãe. No entanto, antes que ele pudesse proferir palavras ferinas para com a mãe, Nicéia lhe acariciou o ombro e um gesto muito sutil e leve. Seus olhos se encontraram por breves momentos, como quando o céu azul toca-se ao um lago de águas verdes. A fúria se esvaio, tão rápido quanto chegou e um suspiro deixou os lábios do marido.
— Entenda o que Lady Catelyn tenta dizer, meu senhor — sussurrou Nicéia com doçura. — Não deve ser fácil ver um filho ir para guerra.
Ela o controla e ele a ama, pensou Catelyn observando o casal a sua frente.
— É meu primogênito, Robb. Basta que o olhe para você para me lembrar do dia em que chegou ao mundo, de rosto vermelho e gritando — disse Lady Catelyn que estendeu a mão e acariciou os cabelos do filho.
Robb se levantou, claramente constrangido com o toque, e caminhou até a lareira com o lobo ao seu lado.
— Sabe... do pai?
— Sim, Lorde Manderly contou-me quando desembarquei em Porto Branco. Teve alguma noticia de suas irmãs?
— Tem uma carta — disse Nicéia vasculhando os papeis espalhados nela. — E uma também para senhora, mas foi entregue em Winterfell com a de Robb — apanhou um pergaminho enrolado e o estendeu a Catelyn. — Este veio em nome de Robb, não pensamos em trazer a sua.
Robb olhou sobre os ombros e procurou os olhos da mãe que ja se pregavam a carta escrita por Sansa. Em um caminhar suave aproximou-se do marido, apoiando o rosto em seus ombros. Suspirando ao sentir o cheiro de sua pele.
— Isso é uma carta de Cersei, não de sua irmã — disso Nicéia ja sabia, conhecia as palavras da mãe. — A verdadeira mensagem esta naquilo que Sansa não diz. Tudo isso sobre como os Lannister a estão tratando delicadamente e gentilmente... conheço uma ameaça, mesmo sussurrada. Têm Sansa refém e pretendem mante-la.
— Não — disse Nicéia. — Conheço minha mãe, ela vai desfará o contrato de casamento de Sansa e Joffrey, tenho certeza. Ela jamais deixaria que seu precioso Joffrey se casa-se com a filha de um traidor. Enquanto Sansa estiver na Fortaleza Vermelha, não temos de nos preocupar tanto, mas sim quando eles resolverem livrar-se dela.
Catelyn ficou em silencio, pois sabia que a nora possuía razão. No entanto, Nicéia não pensava como uma mãe, não ainda.
— Tenho de concordar em partes. Cersei tem minhas filhas em seu poder e nós temos a dela — disse em um tom sombrio. — E não a nada no mundo que Cersei ame mais que suas crias...
Nicéia deu um passo para trás, algo nos olhos de Catelyn não lhe agradaram, mas Robb avançou pondo-se afrente da esposa, protegendo-a com sua corpo grande e forte.
— Não complete essas palavras mãe — rosnou ele, sendo seguido por Vento Cinzento. — Nicéia é minha esposa, e eu a amo, jamais lhe faria qualquer mal para me beneficiar.
— Robb, tem de pensar um pouco...
— Não! — ele ergueu a voz, algo que Nicéia jamais tinha visto. Sua voz era grave e muito alta, seus olhos esconderam-se em fendas e seus dentes pareciam travados. — Não ameaçarei a vida de minha esposa para amedrontar Cersei Lannister. Jamais tocaria em um inicio fio de cabelo de Nicéia se fosse para lhe causar dor. Meu pai não ensinou desta forma.
— Meu filho, não entende onde quero chegar, deixe-me falar — Catelyn fez menção de avançar, mas o olhar de Robb a parou. — Jamai iria sugerir algo como esse, amo Nicéia como uma filha, jamais a faria mal, nenhum de nós faria. Mas Cersei não sabe disso, pode chegar a pensar que possamos fazer algum mal a Nicéia se Sansa for ferida ou morta em Porto Real. Eles tem um lobo cercado por leões e nós temos um leão cercado por lobo.
Robb tinha medo, ela pode ver, assim como Lady Catelyn. Se o inimigo descobrisse que Nicéia Baratheon era sua maior fraqueza, atingiriam ali uma flecha.
— De que tem tanto medo, Robb — perguntou Catelyn, gentilmente.
— Eu... — ele virou a cabeça para a saída, impedindo de verem seus olhos. — Se marcharmos... mesmo se ganharmos... os Lannister têm Sansa e meu pai. Vão mata-los, não vão?
— Querem que pensamos que sim.
— Quer dizer que estão mentindo?
— Não temos como saber, meu marido. O que sei é que não temos escolha. Se for ate Porto Real e jurar fidelidade, nunca será autorizado a partir, minha mãe me tomara de você e os deuses sabem o que fara. Se meter o rabo entre as pernas e se retirar para Winterfell, seus senhores perderão todo o respeito por você. Então minha mãe poderá fazer o que quiser com os prisioneiros. Nossa única esperança, é consiga derrotar o inimigo no campo de batalha. Se conseguir capturar Sor Jaime ou Lorde Tywn, então uma troca poderá ser feita. Enquanto tiver poder o suficiente para que o temam, Lorde Eddard e Sansa deveram estar seguros. Minha mãe é bastante sensata para saber que se as batalhas forem perdidas, precisara de Lorde Stark e Sansa como moeda de troca, pela paz — disse tudo aquilo em um único folego agarrando-se as costas do marido ignorando a presença de Senhora Catelyn.
— Robb, escute sua esposa, não diria melhor. No entanto não vou suavizar a verdade para você. Se perder, não há esperança para nenhum de nós. Dizem que não ha nada alem de pedra no coração de Rochedo Casterly. Lembra-se do destino dos filhos de Rhaegar?
Robb tremeu em seus braços. Nicéia sabia do que ele se recordava, pois ela pensava o mesmo, a tarde em que gritara de dor no grande salão, por onde saiu carregada enquanto perdia sua criança.
— Nesse caso não perderei — prometeu, tocando seus dedos gelados.
— Contem-me o que sabem na luta das terras do rio — pediu Catelyn voltando a se sentar.
— Há menos de uma quinzena, travou-se uma batalha nos campos de Dente Dourado. Tio Edmure enviou Lorde Vance e Lorde Piper para defender o desfiladeiro, mas o Regicida caiu sobre eles e os pões em fuga. Lorde Vance foi morto. A última noticia de que tivemos, dizia que Lorde Piper recuava para junto de seu irmão e seus outros vassalos em Correrrio, com Jaime Lannister em seu encalço. Mas isso não é o pior. Enquanto lutavam no desfiladeiro, Lorde Tywn Lannister trazia um segundo exercito do sul. Dizem que é ainda maior que a tropa de Jaime. Meu pai deve ter sabido disso, porque enviou alguns de seus homens para se opor a eles, sob a bandeira do rei. Deu comando a um fidalgo qualquer do sul, um Lorde Erik, ou Derik, ou algo assim, mas Sor Raymun Darry ia com ele, e a carta dizia que havia também outros cavaleiros e uma força de guardas do pai — disse Robb com um único folego, despejando todas as informações sobre a mãe enquanto caminhava de um lado para o outro.
— Mas era uma armadilha. Assim que Lorde Derik atravessou o Ramo Vermelho, os Lannister caíram sobre ele, com bandeiras de meu pai e tudo, e Gregor Clagane os apanhou pela retaguarda quando tentaram se retirar pelo Vau de Saltimbanco. Esse tal de Lorde Derik e alguns outros podem ter escapado, ninguém sabe ao certo, mas Sor Raymand foi morto, tal como a maior parte dos homens de Winterfell — continuou Nicéia recebendo a atenção da sogra. — Dizem que meu avô bloqueou a Estrada do Rei e agora marcha para o norte, na direção de Harrenhal, queimando tudo á sua passagem.
Catelyn parecia assombrada com o relato, ainda sim manteve-se quieta.
— Pretendem esperar por ele aqui? —ela perguntou.
— Se ele vier tão longe, sim, mas Nicéia pensa que ele não vira. Enviei uma mensagem para Howland Reed, de Atalaia de Água Cinzenta, um velho amigo do pai. Se os Lannister subirem o Gargalo, os cranogmanos os sangrarão ao longo de todo o caminho, mas acredito que Tywin seja inteligente de mais para isso, Nicéia concorda comigo.
— Acredito que vai permanecer perto do Tridente, tomando castelos dos senhores do rio um por um, até Correrrio focar sozinho — explicou a jovem senhora deslizando o dedo indicado sobre o mapa, traçando uma provável rota usada pelo avô.
— Precisamos marchar para o sul — concluiu Robb.
A simples ideia fazia os ossos de Nicéia congelarem. Quais chances eles teriam contra toda a tropa Lannister e seus comandantes experientes?
— Marchar esta muito bem — suspirou perturbada. — Mas para onde e com que propósito? Que pensam em fazer?
Lady Catelyn pareciam sempre frisar o plural das palavras que usava, referindo-se aos dois e não apenas a Robb. Assim como os Senhores vassalos, que pareciam aprender que Robb e ela trabalhavam juntos naquilo.
Robb juntou-se a ela próximo ao mapa, um pedaço de couro muito antigo, diferente do que Nicéia estava habituada a ver na sala de seu pai ou em Pedra do Dragão, onde Westeros era entalhada a uma grande mesa de madeira.
— Olhe, se tentarmos cercar a tropa de Tywin Lannister, correremos o risco de ficar presos entre ele e o Regicida, e se o atacarmos... segundo todos os relatos, eles tem mais homens do que eu, e muito mais cavalaria armada. Grande Jon diz que isso não importa se o apanharmos de calças curtas, mas alguém tão inteligente quanto Tywin, que ja travou tantas batalhas não se ja pego de surpresa tão facilmente.
— Muito bem — disse Catelyn esticando o pescoço para acompanhar o filho. — Diga-me mais.
— Pensamos em deixar um pequena força defendendo Fosso Cailin, principalmente arqueiros, e marchar com o resto da talude. Mas assim que chegarmos ao Gargalo, dividiria a tropa em duas. A infantaria continuaria pela Estrada do Rei, ao passo que nossos cavaleiros atravessam o Ramo Verde nas Gêmeas — apontou Nicéia recebendo um aceno do marido para que prosseguisse. — Quando meu avô receber a noticia de que seguimos para o sul, marchará para o norte a fim de dar batalha á nossa divisão principal, deixando nossos cavaleiros livres para avançar rapidamente pela margem ocidental até Correrrio — Nicéia recostou-se no marido com um sorriso orgulho do plano que traçaram juntos. Satisfeita consigo mesma.
Observou Robb pelo canto dos olhos e percebeu que ele dividia a mesma expressão, tiveram noites sozinhos naquela sala, traçando rotas de fuga e campos que pudessem dar-lhes vantagem sobre o Lannister. Niceia usou todo seu conhecimentos sobre o modo de batalha do avô para ajudar o marido.
— Colocaria um rio entre as duas partes do exercito — disse Catelyn franzido o cenho para o mapa.
— E entre Jaime e Lorde Tywin — disse o marido ardentemente. O sorriso em seu rosto.
— Quando tinha dez anos e meu pai contou-me sobre a batalha do Tridente, a primeira coisa que me ensinou foi que não há travessia do Ramo Verde a norte de Vau Rubi, onde ele conquistou sua coroa e matou Rhaegar. Só nas Gêmeas, bem aqui em cima, e Lorde Walder Frey controla essa ponte — contou Nicéia orgulhosa de se lembrar desse fato.
— Ele é vassalo de seu pai, não é verdade? — perguntou Robb.
— Sim — respondeu Catelyn. —, mas meu pai nunca confiou nele. E você também não devia fazê-lo.
— Não confiarei — prometeu Robb. — Que acha?
— Que força comandaria?
— A cavalaria — respondeu de imediato.
— Me disse que não iriamos junto aos cavaleiros — Nicéia o confrontou, franzindo o cenho encarando o marido com seus olhos cor de folha. — Robb, disse-me ontem que não iriamos com os cavaleiros.
—Sei o que disse, e assim manteremos — suspirou o marido. — Eu irei com os cavaleiros e você ajudara...
— Não! — rosnou aborrecida, Catelyn que mantinha-se quieta contentou-se em observar-los. — Iremos juntos então. Disse quando saímos de Winterfell que o acompanharia onde fosse, isso inclui as batalhas. Não deixarei de segui-lo.
— Porque tem de ser tão teimosa? — resmungou para si apertando as têmporas em desagrado. No entanto, o suspiro que dera logo depois, era derrotado, como se antes mesmo de trava-las, todas as batalhas com Nicéia ja fossem vencidos por ela. — Tera de me prometer que não deixara o meu lado. Que não se afastara de mim.
— Prometo!
— Grande Jon esta constantemente dizendo que deveríamos esmagar Lorde Tywin — riu Robb virando-se para mãe, apos satisfazer as vontades da esposa.
— Seu pai uma vez me disse que Grande Jon-Umber era o homem mais destemido que ja conhecera — disse-lhe Catelyn, os olhos diziam a Nicéia que assim como ela não concordava com a escolha de Robb.
— Vento Cinzento comeu dois dedos dele, e ele riu. Então concorda? — disse Robb com um sorriso.
— Seu pai não é destemido — Catelyn ressaltou. — É bravo, mas isso é bem diferente.
Robb parecia pensar, um finco formou-se em sua testa e a esposa sabia exatamente onde a sogra queria chegar. Estava tentando corrigir o erro do filho antes que fosse feito, mas fazia isso sem ferir sua confiança.
— A tropa oriental será tudo que estará entre Lorde Tywin e Winterfell — disse ele, pensativo. — Bem, eles e o punhado de arqueiro que deixarmos aqui em Fosso Cailin. Portanto, não queremos alguém destemido.
— Não, quer astúcia fria, julgo eu, e não coragem — acrescentou Nicéia recebendo um olhar de agradecimento da Senhora Stark.
— Roose Bolton — disse Robb de imediato. Aquele nome fez com que a coluna de Nicéia congelasse.
— Esse homem me assusta — confessou Nicéia, abraçando o corpo como para se proteger. — Algo nele não me agrada.
— Então oremos para que também assuste Lorde Tywin Lannister.
[...]
— Irei no chão com os outros — disse Nicéia apanhando seu martelo de guerra e o girando com maestria entre os dedos cobertos pela luva negra.
— Não! Ou vira sobre um cavalo ou regressara para o acampamento — sentenciou Robb, de cima de seu castrado. Nicéia lhe lançou um olhar ferino, desaprovando as palavras do marido.
Grande Jon-Umber, assim como muitos dos Lordes e cavaleiros observavam abertamente a conversa dos dois.
— Ora, sabe como é difícil manejar um martelo de dois metros em cima de um cavalo? — perguntou com desdem. — Pois eu cairia no primeiro giro, de costas no chão duro e me tornaria um alvo fácil. Isso na melhor das hipotiposes. Ou talvez o martelo caia sobre minha cabeça e a esmague antes dos mantos dourados.
Robb bufou contrariado e observou o céu como se pedisse ajuda a qualquer deus.
— Tome um cavalo ate a batalha, use sua espada enquanto estiver sobre ele — disse o marido, usando sua voz de senhor com ela. — Deixe o martelo, não o usara nesta batalha.
Seus olhos arderam em cólera e um rosnado deixou sua garganta. Robb nunca a contrariara, nem antes e menos ainda depois de se casarem. Nicéia não havia aprendido a lidar com isso, sempre tinha tudo aquilo que desejara, sendo usando gritos ou apenas um olhar. No entanto, ali Robb alem de ser seu marido, era seu Senhor, deveria respeita-lo e acatar suas ordens diante de seus senhores vassalos, o que diriam aqueles homens se soubesse que Robb fazia tudo aquilo que a esposa desejava.
Contrariada e irritada, Nicéia deixou o martelo forjado a aço valiriano, cair a frente de seus pés, era pesado todos ali puderam perceber, e empunhou a espada dada a ele pelo marido. Arrancou as rédeas de sua égua branca, das mãos de um cavaleiros e a montou com rapidez, sem em momentos algum deixar de encarar os olhos de Robb. Não disse uma única palavra enquanto galopavam em direção aos Lannister, preferiu tomar distancia do marido, galopando ao lado de um de seus vassalos, ainda sim mantinha perto o suficiente para ver a longa calda de Vento Cinzento balançar conforme corria.
Oh céus! Como ela odiava Robb naquele momento. Se pudesse teria lhe atirado uma pedra na testa quando ele a mandara deixar seu precioso martelo. No entanto o ódio dera lugar a surpresa e a surpresa ao medo, quando os estandartes Lannister se fizeram presentes em batalha, O leão dourado sobre um campo carmesim, nunca tinham feito tremer, mas agora faziam. Esporou sua égua branca quando a tropa liderada pelo marido ganhou velocidade, sentiu o cheiro de terra molhada, e as flechas zuniram e sua direção. Dobrou-se sobre a égua e respirou fundo, deveria por em pratica tudo aquilo que o pai lhe contara sobre as batalhas que trava ate acertar seu martelo no peito de Rhaegar Targaryen e vencer a guerra. Quando voltou os olhos para frente uma tropa se chocou a outra e Nicéia só teve tempo de desembainhar sua espada e saltar sobre o homem a pé que tentara cartas pernas de seu cavalo. Sentiu o sangue espirrar em seu rosto, e lembrou da noite em que fora atacada junto a Lady Catelyn, como chuva quente. A garganta do homem se abriu e sua cabeça pendeu enquanto o sangue ainda escorria, lhe manchando a espada e o rosto.
Nicéia se erguera em um pulo, assutada com o barulho de homem gritando e som das espadas cantando. Não era glorioso ou exitante quanto o pai lhe contara com tanto entusiasmo. Sempre que ouvi suas historias, Nicéia costumava por em seu lugar, imagina-la ao seu lado matando homens e se divertindo com isso, mas descobrira que não era assim tão bom quando o pai prometera. Assustou-se quando uma flecha passou próxima ao seu rosto e recobrou sua atenção a batalha. Um homem vinha sedento a sua esquerda, corria em sua direção feito um touro bravo, usando toda a agilidade que tinha, esquivou-se com facilidade vendo o homem cair sobre a grama verde e tentar se erguer, no entanto a sua espada cravou-se a costas do soldado antes que ele pudesse ver de onde vinha. Fora quando Nicéia correu, vendo que o calor da batalha se afastava dela, assim como seu Robb. Procurou o marido com os olhos não o encontrando em parte alguma, conseguia ver Grande Jon não muito distante, seus gritos de euforia sempre atraiam mais soldados para sua volta, sangue cobria seu rosto largo, assim como suas vestes. Por entre corpos, cabeças e tripas Nicéia correu, a espada pingando sangue e o estomago dando voltas, o cheiro do sangue era forte e parecia adentrar sua boca, pois podia sentir seu gosto. O manto da morte caia sobre aquele vale.
— Robb! — não conteve-se em gritar pelo marido. — Robb!
Sua voz parecia perder força enquanto seu coração se apertava, em mais de um ano que viveu na fortaleza e sete luas em que firmara matrimonio com Robb, ela percebeu finalmente que ja o amava.
Sim! Nicéia Baratheon estava apaixonada pelo marido, algo que ela pesou que levaria ainda mais tempo. Sentiu quando as lagrimas lhe chegaram aos olhos e a voz perdeu-se em sua garganta. Desviava-se das espadas inimiga e via os homens juramentados ao marido sempre a protegendo. Enquanto corria, deixava um rastro de morte atras de si e foi quando finalmente o viu assim como ouviu. Seu nome era gritado por uma voz conhecida. Seus olhos se abriram bruscamente quando a cabeça de Daryn Horwood fora aberta pela espada afiada de Jaime Lannister, Nicéia poderia reconhece-lo ate mesmo no escuro. Tentou se aproximar, mas tivera sua passagem bloqueada por três homens Lannister, todos eles cavaleiros. Afastou-se um passos e os viu correr em sua direção, no entanto Grande Jon enfiou-se entre ela e os homens.
— Não a minha senhora! — gritou ele brandindo a espada e acertando dois deles no rosto, um seguido do outro.
O terceiro tentou fugir, mas sentiu a espada fria de Nicéia lhe arrancar a cabeça dos ombros antes de ganhar um metro de distancia. O corpo caiu primeiro e a cabeça rolou ate os pés de Grande Jon, que a chutou para longe onde Nicéia viu a mesma se chocar com uma pedra.
— Robb — sussurrou entorpecida quando vira o tio próximo de mais do marido. — Tenho de ajuda-lo.
— Minha senhora...
Mas ela o deixou falando com os mortos, correu vertente acima, mas percebeu que jamais chegaria a tempo. Aflita olhou para o chão procurando algo que pudesse ajuda-la, ate uma pedra lhe serviria no desespero. Fora quando o viu, preso sob o corpo de um dos homens que seguia seu marido e um cavalo, um arco de madeira negra. Alcançou a arma o mais rápido que conseguia e do cranio daquele mesmo homem arrancou uma flecha, teria uma única tentativa. Armou o arco e deixou que todo o ar abandonasse seu corpo, percebeu pelo canto dos olhos de Grande Jon e mais cinco homens impediam que qualquer homem juramentado aos Lannister chegasse a menos de cinco metros dela. Voltou sua atenção para frente, onde Robb mantinha-se ocupado com os homens que o cercavam de todos os lados, virou sua mira para Jaime, que continuava sedento e gritando o nome de Robb. Ao mesmo tempo em que o Regicida perdeu sua espada no pescoço de Eddard Karastark, Nicéia soltou a flecha, tão rápido que assim que atingira Sor Jaime no ombro, o derrubara no chão como um saco de batatas. Os homens gritaram urras em nome de Robb, assim que os demais soldados renderam-se com a queda de seu comandante.
— Que bela pontaria minha senhora — urrou Grande Jon ao seu lado. — Derrubou o merdinha do Regicida com um única flecha.
O grande homem gargalhou, mas Nicéia só conseguia pensar em seu Robb e se ele estava ferido. Com o arco ainda em mão ela correu, sentindo o ar lhe queimar por dentro a medida que avançava, seus joelhos tremiam e seus olhos enchiam-se de lagrimas quentes. Quando próxima o suficiente deixou-se cair de joelhos, cansada de mais para continuar, no entanto as mãos de Robb a agarraram e colocaram de pé novamente. Seus olho se encontraram e Nicéia viu o mesmo medo que sentia refletir nos olhos do marido.
Deuses como ela o amava.
Amava seu olhos, e as nuances que o azul possuíam.
Amava seu rosto coberto pela barba avermelhada, mesmo que coberto pelo sangue de seus inimigos.
Amava seu corpo e a forma como se encaixava no seu.
Amava Robb de todas as forma que conseguia.
No fim, entregara não apenas seu corpo, mas sua alma e coração aquele homem.
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