A Fúria da Tempestade- Sonhos de Verão (Livro I)
8 Mergulhando no desconhecido
Notas iniciais

" Como são sábios aqueles que se entregam às loucuras do amor."
— Joshua Cooke
Winterfell
— Robb Stark é igual aos cavaleiros das historias, Nini— Myrcella suspirou entorpecida.
Nicéia não tinha muito o que dizer sobre tal comentário, então apenas se limitou a revirar os olhos e voltar a aproveitar seu banho, Eve soltou uma risadinha sarcástica que passou despercebida por Myrcella e seus sonhos doces de um casamento feliz e prospero com um lindo e valente cavalheiro de Westeros.
— Tenho de concordar com a Princesa Myrcella, Robb Stark tem se mostrado um verdadeiro cavalheiro nos últimos dias, minha Princesa — Eve exclamou a ajudando a esfregar seus cabelos. — Perdoe-me se estiver sendo entrometida, mas creio que o herdeiro de Winterfell esteja interessada na senhorita.
— Isso seria maravilho — gritou Myrcella se ajoelhando na espaçosa cama e virando seus grandes olhos verdes na direção da irmã mais velha que terminava o banho. — Robb seria um ótimo marido, assim não teria de se casar com algum Lorde velho e nojento da campina. Afinal, Robb é um dos homens mais bonitos que ja tínhamos visto, apenas tio Renly e Loras são mais belos do que o nortenho. Nini você teria filhos de cachos negros e olhos azuis como o céu do norte.
— Não diga bobagens, Myrcella. Não me casarei com Robb Stark — resmungou a mais velha enrolando-se o mais rápido que podia em um manto quente para que pudesse se secar. — Digo, não desejo me casar por pura obrigação, Cella. Mas sim por amor, como Catelyn Tully e Lorde Eddard Stark parecem ter feito.
— Minha princesa, ainda a tempo de conhecer e se apaixonar pelo herdeiro Stark — comentou a Aia remexendo os vestidos sobre a cama, se demorando mais em um de tom cinza claro que a aqueceria durante aquele dia especialmente frio. — Ficaremos mais algum tempo no Norte, quem sabe aqui não encontra seu grande e verdadeiro amor.
— Amor verdadeiro — bufou a jovem se aproximando de Myrcella que sorria.
— Claro! Um beijo doce de amor verdadeiro — um longo suspiro sonhador deixou os lábios da jovem menina. — Nini, será que os lábios de Robb Stark tem gosto de cereja?
— Beijos não tem gosto. Não desta forma — murmurou um pouco aborrecida. — Beijos não possuem sabor, simples assim. Não fantasie muito, Mycella.
Myrcella baixou os olhos constrangida, ainda era jovem e do amor apenas conhecia o que os livros de romance diziam. Cavaleiros honrados e de uma beleza admirável. Myrcella desejava ter um belo romance com beijos doces e juras de amor, observar as estrelas e a lua, receber cortejos e depois viver em um belo casamento feliz. Nicéia só conseguia pensar em o quão tola e infantil sua irmã era, que pouco sabia sobre o destino que a aguardava. Não duvidava que casariam a menina com algum Lorde que ela só conhecesse no dia de seu casamento, alguém que ela não amaria, e jamais o faria, com a obrigação de lhe dar filhos saudáveis e obedece-lo sem pensar. Criada para ser tola e submissa. Contudo, Nicéia não deixou de sentir seu coração pesar apos tais palavras, Myrcella merecia sonhar um pouco mais, era tão nova.
— Cella, me desculpe. Não pensei antes de falar, perdoe-me — se desculpou suspirando. — Não desejo que se iluda, querida irmã. Os homens não são tão bons quanto as historias de amor que leio em sua companhia.
— Robb Stark é bom — afirmou erguendo os olhos quando sentia a presença suave de Nicéia ao seu lado.
— Sim, ele é — concordou sorrindo. — Mas nem todos são como ele.
A princesa tentou, mas não deixou de pensar em Jon Snow naquele instante e compara-lo ao meio irmão. De fato, ela possuía razão. Nem todos os homens eram bons e gentis como Robb Stark, alguns deles possuíam mais gelo em seu peito do que A Muralha.
[...]
Horas depois
Os estralos de madeira colidindo uma com a outra, era o único som que a princesa conseguia escutar enquanto caminhava preguiçosamente em direção ao patio, onde pretendia ver o treino de seus irmãos e os filhos de Lorde Eddard. Com Eve ao seu lado ela alcançou a figura larga de seu pai ao lado do melhor amigo, ambos se ocupavam em fazer o que ela pretendia.
— Com sua licença, Vossa graça e Lorde Stark — murmurou a Dama de companhia envergonhada chamando a atenção de ambos os homens, que rapidamente se viraram.
— Nicéia, onde vai minha filha? — perguntou Robert apoiando a mão grande na parede de pedra ao seu lado.
— Ver Joff treinar com espadas — contou enrolando uma mecha negra de seu cabelo ao dedo indicador. — Eve vai me acompanhar, não se preocupe mamãe permitiu que eu assistisse um pouco. Lorde Stark, papai.
Robert revirou os olhos com a falsa tranquilidade da filha, sabia bem que o sangue Baratheon em suas veias borbulhava por não poder se juntar ao homens lutando. Afinal esse era seu desejo, vestir calças e armaduras, empunhar uma espada participando de guerras e batalhas. Nicéia se afastou rapidamente fincando as botas com força na terra úmida do patio de treino, Eve parecia um tanto envergonhada por estar ali e ruboresceu um pouco mais quando viu o Greyjoy apoiado próximo a um alvo rindo de Bran que parecia ter dificuldades em ganhar a pequena luta amigável com Joffrey. Percebeu que não era a única a querer assistir, pois Sansa também estava lá sentado um pouco apreensiva ao lado de uma moça que Nicéia vagamente se lembrava de ter visto no jantar de boas-vindas. Mas seu nome ela não se recordava.
— Theon Greyjoy não é bem o tipo de homem que vai querer se envolver, Eve — murmurou erguendo uma sobrancelha fina em direção a Aia.
— Princesa, não desejo nada alem de distancia do Greyjoy — murmurou baixando os olhos verdes encarando a barra suja de seu vestido. — Conheço a fama dos homens de ferro e prefiro estar bem longe de alguém como ele, mesmo criado no norte e não no sal de Pyke.
— Aquilo — apontou desdenhosa com a voz carregada de um veneno digno da víbora vermelha, pingava de seus lábios perfeitos. — Não me parece um homem de ferro, menos ainda alguém digno de se tornar o Lorde das Ilhas de Ferro. Nem de longe se parece com o que meu pai descreveu, seus anos em Winterfell derreteram o ferro que envolvia seu coração.
Eve não disse nada, apenas acompanhou a princesa de perto enquanto substituía seus sorriso sarcástico por algo mais doce quando focalizou os olhos claros de Sansa. A dama de companhia admitia, de fato Nicéia simpatizara com a menina de cabelos beijados pelo fogo.
— Princesa — a jovem ao lado de Sansa se curvou rapidamente.
— Nicéia, venha sente-se ao meu lado — a jovem Stark se apressou em se espremer um pouco mais no banco dando lugar para que as duas garotas se sentassem, contudo fez questão de trocar de lugar com a amiga para que pudesse permanecer próxima a princesa.
A movimentação na pequena arquibancada improvisada, despertou a atenção dos rapazes. Jon e Robb que se ocupavam em apoiar o peso de seus corpos nas estruturas próximo a baia, enquanto observavam a luta entre o príncipe e o irmão, ergueram os olhos na direção das recém chegadas e deixaram seus peitos inflarem quando os verdes furiosos de Nicéia abordaram os dois de surpresa. Joffrey sorriu de canto interrompendo a luta apenas para se aproximar da irmã e lhe beijar a bochecha rosada e sorrir em sua direção voltando sua atenção a Bran Stark, que também sorria. Ao desviar seus olhos uma segunda vez aos mais velhos percebeu que tanto Robb como Jon se aproximavam rapidamente e se posicionaram ao lado de Theon que mantinha seus olhos famintos sobre Eve.
— Meu irmão, Robb — Sansa comentou sutilmente desviando os olhos e os direcionando a figura simpática do garoto. — Disse a mamãe que vem sendo muito agradável te-la por perto. Acho que ele gosta de você, minha princesa.
— Lhe disse o mesmo esta manhã, mas vossa princesa não acreditou quando o disse — Eve completou sorrindo simpática curvando levemente o tronco para encarar os olhos azuis de Sansa. — Pensa ser besteira, que Robb Stark jamais a veria de uma forma diferente.
Nicéia ergueu uma sobrancelha detectando a mentira dos lábios de Eve. Tal mentira fez com que os lábios de Sansa se esticassem em um sorriso caloroso e alegre, como se apreciasse a confirmação. A princesa evitou o olhar torto na direção da Aia, pois assim que pudesse Sansa não perderia a oportunidade em informar o irmão sobre isso, mas ela não a culpava menos ainda agradecia.
— Bobagem, Robb esta fascinado — informou Sansa sorrindo em sua direção. — É provável que peça sua mão.
Não evitou o desconfortou com tais palavras, torceu o lábio e maneou a cabeça ponderando a possibilidade. Casamento era algo que a atormentava nos últimos dois anos, aos quais se resumirão em recusar qualquer pedido formal, odiaria ter de se casar por pura obrigação e politica, odiaria se casar por qualquer motivo que não fosse amor. Algo que a muito não via e ao menos sabia se poderia sentir. Quem sabe não ficasse velha de mais para casar-se e seu pai a deixasse morar em Ponta Tempestade, um sonho muito distante mas ainda sim possível ao seu ver. Entretanto, a todo momento seus pesamentos eram invadidos pelos olhos escuros de Jon Snow e a forma como seus lábios eram macios e precisos, causando sensações jamais sentidas, seus corpo firme e as mãos pesadas acariciando todas as partes de seus corpo. Repassava em sua mente cada detalhe da noite de prazer ao lado do bastardo e se perguntou uma única vez se aquilo não poderia ser amor, mas logo desistiu da ideia, não sabia o que significava e aparentemente jamais descobriria, pois jamais tal informação deixaria seus lábios. Não pela vergonha em expor tal envolvimento com alguém de nascimentos tão baixo, mas sim pelas perigos que poderia expor o jovem bastardo. A fúria de Cersei Lannister era implacável e esmagaria o norte se fosse preciso.
— Realmente os nortenhos são muito habilidosos com a espada — murmurou Eve bem próximo ao sua orelha a despertando de seus pensamentos.
Piscou rapidamente e percebeu que encarava o nada a poucos segundos. Focou seus olhos uma outra vez a tempo de observar Joffrey se erguer do chão enlameado e furiosos marchar para fora do pequeno patio com Cão de caça em seu encalço.
— Bom, Joffrey nunca lidou muito bem com a derrota — comentou auto o bastante para que todos escutassem. — Nenhum Baratheon lida.
Sansa sorriu e voltou seus olhos ao patio que agora era preenchido por Robb e Jon que diferente dos dois menores empunhavam espadas de aço e não de madeira. Nicéia ergueu uma sobrancelha imaginando que tal ato era para impressiona-la, obviamente partindo de Robb pois Jon ja o fazia apenas em olha-la. Com o canto dos olhos observou Royce se aproximar e manter uma distancia segura dela. Bufou impaciente pela falta de confiança de seu pai ao colocar um guarda real para que ficasse pendurado em seus calcanhares.
— Não á nada melhor para fazer no norte, Royce — rosnou sem encara-lo, mesmo sabendo que seus olhos continham certo brilho maroto.
— Lamento princesa — se desculpou sarcástico. — Ordens do Rei.
Revirando os olhos ela voltou sua atenção para o Bastardo e o herdeiro que estavam prestes a iniciar uma luta. Se sentiu tola ao acreditar que a fase "perseguida por uma sombra" havia passado, seu pai jamais deixaria seu pequeno tesouro sem proteção o bastante, ainda que fosse no norte. Nicéia não se lembrou de um único momento fora da Fortaleza vermelha que não tivesse Royce em seu encalço, mesmo com seus treinos com Sor Barristan ele estava presente e principalmente quando viajava a Rochedo, Royce recebia ordens expressas de seu pai de jamais deixar sua presença. Se sentia sufocada com a presença do guarda, mas ainda sim entendia.
Robb tocou sua espada a de Jon, que parecia mais concentrado e logo se posicionaram. O herdeiro foi o primeiro a atacar, girando a espada em um meio circulo e a colidindo com a de Jon que rapidamente bloqueou o ataque, ambos sérios e concentrados. Robb sempre atacava enquanto Jon estava mais preocupado em se defender ou talvez cansar seus adversário. Contudo a paz reinou por pouco tempo, Jon moveu seus pés e desferiu um golpe forte com sua espada, e Nicéia quase pode ver os músculos de seus braços se alongarem com tal movimento, que fez Robb trincar os dentes e afundar os pés na terra. Contudo ele logo revidou, sendo novamente bloqueado e empurrando para traz, Nicéia ergueu uma sobrancelha observando com mais atenção seus movimentos e não deixou de perceber a forma habilidosa que Jon conduzia o embate, sempre levando vantagem sobre o meio irmão. De fato ele era muito melhor que Robb e deixava isso evidente em cada movimento, transformando a luta crua em uma dança, seus pés mantinham um ritmo e ordem, sempre voltando a posição inicial.
Suas habilidades eram admiráveis e a princesa sorriu para o bastardo quando o mesmo derrubou Robb apos segurar seu ante-braço com uma das mãos enquanto a outra se ocupava em cruzar suas espadas, rapidamente o desarmando e o empurrando para trás. Eve bateu palmas, enquanto o sorriso de Nicéia se alargava, mas só perdeu a noção de tempo e espaço quando os olhos escuros do bastardo encontraram com os seus. Nicéia adorava quando Jon a fazia se sentir daquela forma, era único e aconchegante, suas mãos formigavam e seu peito batia descompassado, sentiu seus dentes se fecharem sobre a carne macia de seus lábios involuntariamente e viu o desejo nos olhos de Jon Snow. Seu corpo se aqueceu rapidamente, a fazendo tremer de antecipação, ela o desejava tanto quando ele parecia desejar. Ninguem pareceu notar, mas foi obrigada a desviar quando Sansa lhe tocou o braço e Jon se prontificou em ajudar Robb com a espada. O rapaz não parecia chateado com a derrota, pouco se importava.
— Robb — a voz de Eddard Stark se fez presente e só naquele momento se lembrou da presença do homem próximo a porta. — Venha preciso conversar a sós com você, meu filho.
Os olhos azuis de Ned traziam algo mais, algum tipo de angustia e antecipação. Nicéia não sabia o que era, jamais havia visto tal sentimento, mas sentiu algo ruim lhe subir a espinha. Viu Robb assentir e se afastar não sem antes lhe direcionar um sorriso branco, que lhe foi retribuído de forma tímida e encantadora. Ned acompanhou tais movimentos com certa pena, assim com havia acompanhado o desejo nos olhos de Jon que se refletiam nos de Nicéia. Com uma ultima olhada sobre os ombros observou os mesmo olhares trocados entre os dois uma segunda vez, contudo desta vez um sorriso se desenhou timidamente nos lábios de Jon, que subiram por seus olhos que tomavam para si o brilho das estrelas do sul.
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