Notas iniciais
Segundo capitulo do dia ♥ E claro, a primeira DR do mais novo casal de Westeros... ♥ Robb vai descobrir de uma forma bem amarga que não se deve esconder nada de sua esposa

"É possível encontrar a felicidade mesmo nas horas mais sombrias, se lembrar de acender a luz."
— Alvo Dumbledore


Winterfell-Norte de Westeros


O grande salão onde todos jantavam permanecia mergulhado no mais profundo silencio, onde apenas os sons das carnes a serem partidas soava baixo. Algo parecia errado, pois ate mesmo Verão parecia quieto de mais. Nicéia permanecia sentado ao lado do marido, mas sem ao menos olha-lo e Eve se culpava por isso. A moça remexia a comida em seu prato sem apetite o suficiente para leva-la aos lábios, seu estomago se retorcia e a garganta formava um bolo que impedia o ar de adentrar seus pulmões. Estava furiosa e em seus olhos podia-se notar isso, os mesmo cintilavam em fúria, que refletia na prataria.
Nicéia ja havia percebido que Robb a encarava diversas vezes durante a refeição, buscando alguma explicação para sua irritação. E mesmo que ela quisesse lhe questionar ali, seria inapropriado com as crianças por perto, Bran não merecia ter aquela historia remexida e Rickon era difícil de lidar. Por isso ela esperou. Estava esperando o dia todo.
—...pode me ajudar com a carne — a voz de Bran soprou ao seu lado.
A jovem Senhora lhe encarou confusa e um tanto distraida, vendo Bran lhe estender os próprios talheres enquanto seu rosto continha vergonha.
— Claro — afirmou Nicéia tomando-lhe os talheres oferecidos e se esticando para cortar o pernil.
A faca deslizou pela crosta caramelizada e adentrou seu interior macio. Nicéia então a picou em diverso pedaços os separando das batatas assadas com agrião.
— Obrigado — agradeceu Bran quando ela lhe sorriu estendendo o prato de volta. — queria que me contasse aquela historia outra vez. Estou cansado das historias chatas da Ama.
— A de Sor Barristan?
— Sim.
— Posso — disse sorrindo — quando terminar de jantar vamos ate seu quarto e lhe conto outra vez.
Bran levou um pedaço da carne ate os lábios e depois sorriu acenando, voltando a se concentrar em sua comida outra vez. Sem fome deslizou os dedos sobre a taça engolindo o liquido morno e adocicado. E foi quando os dedos de Robb tocaram os seus sobre a mesa, era quente e por breves momentos a fez se esquecer da raiva que queimava seu peito, mas ainda sim recolheu a própria mão afastando-se de seu toque, sem encara-lo em momento algum.
— Bran, o espero em seu quarto — soprou Nicéia afagando os cabelos escuros do menino assim que ergueu-se da mesa. — não tenha pressa.
Afastou-se da mesa ciente que de que era observada e seguida. Os passos pesados de Robb soavam a alguns metros dela, mas fora quando o corredor estreito que a levaria ate a as escadas que seu ombro fora agarrado pela mão forte do marido. Girou sobre os calcanhares e se encararam por longos minutos em silencio.
A confusão tomava os olhos azuis de Robb, que a fizera quase sentir pena. Mas a raiva ainda queimava e como uma verdadeira leoa, Nicéia estava pronta para rugir.
— Porque mentiu? — perguntou controlando a própria voz.
— Não sei do que esta falando, Nicéia — respondeu ainda confuso.
— Sua mãe não esta no Vale, nunca esteve — acusou. — ela esta em Porto Real, atras do homem que ela acredita ter jogado Bran da Torre e depois mandado aquele homem para terminar o serviço.
Robb fora pego de surpresa, perdendo o ar e as palavras por algum tempo.
— Não, ela...
— Não continue a mentir, Robb. Passei toda a minha vida cercada de mentirosos manipuladores — interrompeu ainda com a voz branda, mas não menos feroz. — Porque não me disse a verdade? Porque preferiu esconde-la de mim? Achei que pudessemos confiar um no outro?
— E podemos — afirmou um tanto ofendido.
— Então porque mentiu pra mim? Acha que não sei que desconfiam da família de minha mãe? — disse Nicéia pegando-o de surpresa novamente. — afinal, tirando os homens de meu pai só resta os Lannister. Pensou que eu contaria a alguém? Que enviaria uma carta a meu avô ou minha mãe informando suas desconfianças e arquitetaria uma armadilha a Lady Catelyn, quando ela chegasse a Porto Real?Eu jamais compactuaria com algo tão perverso. Possuo o sangue Lannister, mas eles deixaram de ser minha família no momento em que jurei te amar, quando escolhi permanecer no Norte ao seu lado. Você, Bran, Rickon, Lady Catelyn e as meninas são minha família, Winterfell é o meu lar. Se tivesse contado-me antes, teria ajudado sua mãe, indicado o caminho certo e as pessoas a quem deveria evitar naquela fortaleza, mas não confiou em mim, teve a oportunidade mas não o fez. E antes que diga qualquer coisa, eu sou uma Baratheon e não uma Lannister.
Robb se perdeu em meio as palavras de Nicéia e nas lagrimas que marcavam seu rosto. Os olhos verdes antes tão furiosos agora possuíam apenas magoa e tristeza. Ele havia a ferido, havia confiado nas palavras de sua mãe e se esquecido de que possuía alguém com quem deveria compartilhar tudo. Havia prometido a mãe que não contaria nada a ninguém e cumprira sua promessa, mas também quebrara o coração da mulher que jurou fazer feliz.
— Nunca pensei que pudesse fazer tal coisa, nem mesmo minha mãe — disse Robb, aproximando-se da esposa. — só queria lhe proteger. As acusações eram graves e não gostaria de aborrece-la, pensei que se fosse verdade e os Lannister realmente tenham feito algo a Bran, não queria vê-la sofrer.
— Estou sofrendo agora — murmurou sentindo-se encurralada.
— E não é apenas isso, minha mãe acredita que os Lannister tenham conspirada para a morte de Jon Arryn — desabafou Robb em um suspiro.
Nicéia ergueu os olhos e pensou em contestar, defender a família de sua mãe e depois abandonar o Norte e seu casamento, mas então a troca de olhares entre sua mãe e tio nos jardins da Rainha, fizeram com que seus olhos inundassem novamente. Então ela soluçou anulando a distancia entre ela e o corpo de Robb e o abraçando apertado, percebendo o que a tanto tempo vinha sendo esfregado em sua cara.
"— Ah, sim — admitiu Tyrion.— Espero que o garoto acorde. Estou muito interessado no que ele tem a nós dizer.
— Ah, querido irmão — disse Jaime em um tom sombrio. — , ha momentos em que dá motivos para duvidar de que lado esteja."
As lembranças inundaram sua mente angustiando-a ainda mais.
— Porque eles fariam isso, Robb? — perguntou em desespero. — porque estão fazendo isso?
— Não faço ideia — murmurou o rapaz abraçando-a com carinho.
— Porque ele matariam Jon? Ele era bom com todos, protegia a mim e ao meu pai, sempre ponto juízo, impediu muitas vezes que ele batesse em minha mãe. Pelos Deuses, Robb — soluçou Nicéia.
O choro angustiante de Nicéia, apertava o coração apaixonado de Robb, fazendo-o perceber que tudo aquilo que tentara evitar estava acontecendo. Escondeu a verdade com medo de entristece-la e no fim, a mulher que amava desde que colocara os olhos, chorava em seus braços.
— Por favor, não chore — sussurrou beijando-lhe a face molhada pelas lagrimas.
— Robb, eu também estava naquele quarto — disse Nicéia aos prantos, afastando-se do corpo do marido. — se Verão não tivesse...
— Não pense nisso — interrompeu fechando os olhos. — nem mesmo eu ouso fazer isso.
— Não intendo — sussurrou levando as mãos ao rosto, permitindo que o choro viesse com mais força. — porque eles matariam Jon? Ele era um...
Robb estranhou o subito silencio. Os soluços foram engolidos e o choro não se podia mais escutar, Nicéia então ergueu a cabeça lentamente e seus olhos verdes possuíam um tom forte de vermelho.
— Minha Senhora — chamou Robb tocando-a nos braços.
— Foram eles Robb, os Lannister — sussurrou com a voz fria. — A morte de Jon Arryn só poderia ter um único proposito, meu avô Twyn Lannister assumir novamente a posição de Mão do Rei.
— Meu pai...
— Ele não estava seguro desde que deixou Winterfell, mas enquanto meu pai estiver lá não devemos nos preocupar — afirmou Nicéia. — eles conhecem a fúria de meu pai, jamais fariam qualquer mal a Lorde Eddard e suas irmãs, mas sua mãe precisa voltar para Winterfell seja qual foi o motivo para tentarem matar Bran, sua mãe corre risco.
Em um rompante Nicéia se afastou de Robb iniciando a longa subida pelas escadas com o marido a suas costas.
— Nicéia...
— Eu só confio em uma única pessoa naquela fortaleza — disse enquanto erguia o vestido e subia os degraus o mais rápido que podia. — tio Renly não deve ter retornado ainda para Ponta Tempestade, não agora que seu pai é a nova Mão. Mandarei-lhe uma corvo e que os que deuses nos ajudem para que a carta chegue antes de sua mãe.


Ainda com a carta entre seus dedos ela pensou se era o certo a se fazer. Lady Catellyn ja devia ter chegado a Fortaleza Vermelha, ou estava muito próxima. Mesmo com tão poucos homens os passarinhos de Varys ja deveriam ter lhe informado sobre a comitiva. E a essa altura, muitos ja sabiam de sua chegada, enviar uma carta a Renly seria um desperdício de tempo e por esse motivo ela jogou o papel no fogo crepitante da lareira de seu quarto.
— Tem certeza disso? — perguntou-lhe Eve com cautela.
— Conhece aquela fortaleza, um palavra mal interpretada e uma guerra ocorre — disse Nicéia observando o fogo vermelho lamber a carta. — Lady Catellyn estará segura, Lorde Stark não permitiria que alguém lhe fizesse mal.
— Entendo — murmurou — quase me esqueci, os guardas do portão avisaram que Patrulheiros estão chegando a Winterfell.
Os olhos de Nicéia tornaram-se incertos e Eve não sabia o porque.
— Robb os recebera no grande salão? — perguntou desinteressada, deslizando os dedos sobre os cachos de seus cabelos.
— Acredito que sim, milady. Lorde Eddard Stark sempre os recebeu muito bem, foi o que escutei as cozinheiras dizerem.
Nicéia por sua vez virou-se rapidamente na direção da Aia, assuntando-a com o movimento brusco.
— Esteve ajudando Meistre Luwin desde que descobri sobre minha gravidez — comentou a Baratheon com seus olhos verdes sobre os de Eve. — soube se Robb enviou algum corvo a Castelo Negro?
— Sim, dois dias apos Lorde Stark enviou um Corvo em nome de seu irmão, Jon Snow — contou-lhe Eve confusa pela pergunta. — Meistre disse-me que ele parecia radiante e disse que Jon e Benjen adorariam saber. Se me permite a ousadia, milady. Porque não peguntou a seu marido?
— Por nada, recordei-me apenas agora — esclareceu de forma vaga enquanto abandonava o quarto.
Os olhos de Nicéia desfocaram com o incomodo que transcorreu seus membros. Aquela altura, Jon ja possuía conhecimento de sua gravidez e Nicéia não sabia exatamente o que sentir, menos ainda o que Jon poderia estar sentindo. Contudo não fora ela quem decidiu se afastar, ele a abandonou em Winterfell quando partiu para a muralha, deixou-a sozinha e a entregou para Robb sem ao menos lutar. E mesmo que Nicéia estivesse com seu coração aberto e pronta para amar o marido, ainda sim não esqueceria as noites nos braços do Bastardo do Norte. Jon sempre estaria em seus pensamentos e o gosto de seu beijo jamais deixaria seus lábios, e isso a entristecia.
No inicio admitia que pensou que jamais poderia ama-lo, que morreria aos poucos depois de seu casamento, que sufocaria em lagrimas e sentiria frio quando ele lhe tomasse seu corpo. Mas estava enganada, a cada pequeno dia sentisse ainda mais feliz, a cada beijo os lábios de Robb ficavam ainda mais doces, ter as mãos e os lábios do marido descobrindo e acariciando seu corpo, a incendiava com o simples pensamento. Nicéia estava tentando, vivendo um dia apos o outro. Todavia quando sentia o pequeno inchaço em seu abdômen, seu mundo ganhava tons mais claros e colorisse como na primavera. Winterfell não era mais tão cinza e o frio tornou-se aconchegante quando aquecia-se nos braços de Robb.
Dispersou seus pensamentos quando avistou a porta do quarto de Bran. Ainda não havia visto o menino e pensou em vaze-lo antes de receber os patrulheiros junto ao marido. Tocou a madeira e a empurrou lentamente, vendo a velha Ama sentada em uma cadeira antes ocupada por Lady Catelyn, ela bordava algo, mas Bran permanecia acordado com o lobo sobre as patas observando-o atentamente.
—...que sabe sobre o medo? O medo pertence ao inverno, meu pequeno senhor, quando as neves se acumulam ate três metros de profundidade e o vento gelado uiva do norte. O medo pertence á longa noite, quando o sol esconde o rosto durante anos e as crianças nascem, vivem e morrem sempre na escuridão, enquanto os lobos gigantes se tornam magros e famintos, e os caminhantes brancos se movem pelos bosques.
— Você esta falando dos Outros — Bran falou, e Nicéia sentiu-se interessada.
Adentrou o quarto com os olhos do Lobo sobre si, assim como o sorriso de Bran. Caminhou ate a beirada da cama e sentou-se sobre as peles quentes afagando os cabelos do menino e sendo cheirada pelo Lobo.
— Os outros — concordou a Velha Ama. — Há milhares de anos, caiu um inverno que era mais frio, duro e infinito que qualquer outro na memoria do homem. Chegou uma noite que durou uma geração, e tanto tremeram e morreram os reis em seus castelos com os criadores de porcos em suas cabanas. As mulheres preferiram asfixiar os filhos a vê-los passarem fome, e chorarem, se sentirem suas lagrimas congelarem em seu rosto — a voz calara-se e Nicéia sentiu um arrepio subir-lhe a garganta pousando uma das mãos sobre o ventre. — Então criança? Esse é o tipo de historia de que gosta?
— Bem... — disse Bran com relutância. — sim, só que...
Nicéia observou o menino por longos segundos enquanto o mesmo gaguejava e possuía os olhos recheados de um medo contido, o mesmo que brilhava em seu olhos.
— Nessa escuridão, os Outros vieram pela primeira vez— a velha começou fazendo com que os olhos de Nicéia a observasse— Eram coisas frias, mortas, que odiavam o ferro, o fogo, o toque do sol e todas as criaturas com sangue quente nas veias. Arrasaram fortificações, cidades e reinos, derrubaram heróis e exércitos às centenas, montando seus pálidos cavalos mortos e liderando hostes de assassinados. Nem todas as espadas dos homens juntas logravam deter seu avanço, e até donzelas e bebês de peito neles não encontravam piedade. Perseguiam as donzelas através de florestas congeladas e alimentavam seus servos mortos com a carne de crianças.
A voz da Ama não passava de um sussurro, e Nicéia deu por si inclinando-se para ouvir melhor.
— Esses foram os tempos antes da chegada dos ândalos, e muito antes de as mulheres terem fugido das cidades do Roine através do mar estreito, e os cem reinos desses tempos eram os reinos dos Primeiros Homens, que tinham tomado essas terras dos filhos da floresta. Mas aqui e ali, nos bosques mais densos, os filhos ainda viviam em suas cidades de madeira e colinas ocas, e os rostos das árvores mantinham-se vigilantes. E assim, enquanto o frio e a morte enchiam a terra, o último herói decidiu procurar os filhos da floresta, na esperança de que sua antiga magia pudesse reconquistar aquilo que os exércitos dos homens tinham perdido. Partiu para as terras mortas com uma espada, um cavalo, um cão e uma dúzia de companheiros. Procurou durante anos, até perder a esperança de chegar algum dia a encontrar os filhos da floresta em suas cidades secretas. Um por um os amigos morreram, e também o cavalo, e por fim até o cão, e sua espada congelou tanto que a lâmina se quebrou quando tentou usá-la. E os Outros cheiraram nele o sangue quente e seguiram-lhe o rastro em silêncio, perseguindo-o com matilhas de aranhas brancas, grandes como cães de caça…
De repente a porta se abriu em um baque surdo, e o coração de Nicéia saltou em seu peito ate a boca num medo súbito, que a fez gritar, mas era apenas Meistre Luwin, com Hodor parado atras dele.
— Hodor! — anunciou o cavalariço, como era de costume, com um enorme sorriso.
Mas Meistre Luwin não sorria.
— Temos visitantes — anunciou revezando seus olhos entre ela e Bran. —, e sua presença é solicitada, Bran, a da Senhora também.
— Mas agora estou escutando uma historia — o menino reclamou.
— As historias esperam, Bran, e quando voltarmos Ama ainda estará aqui — disse Nicéia erguendo-se da cama um tanto tremula, ajeitando o vestido e forçando um sorriso.
— Quem é? — Bran perguntou a Meistre Luwin.
— Tyrion Lannister e alguns homens da patrulha da noite, com noticias de seu irmão Jon. Robb os esta recebendo. Hodor ajude Bran a descer para o salão?
— Hodor! — respondeu o cavalariço alegremente.
Enquanto o meio gigante esgueirava-se no aposento, Nicéia sentiu o coração apertar. Jon tinha de estar bem, mal chegara em Castelo Negro e ja teria se ferido? Ou pior morto por um selvagem? Pois se fosse isso, ela mesmo colocaria todo o exercito Lannister para marchar em direção a Muralha e matar todo selvagem que ousasse caminhar sobre o gelo. Mataria-os em suas camas, em suas casas...
— Minha Senhora — chamou-lhe a Velha Ama. — Não os acompanhará?
Apenas ali, Nicéia se viu parada encarando a porta com os olhos de Bran e Meistre sobre ela, estranhando seu comportamento vago.
— Claro, estava apenas pensando — resmungou tomando a dianteira.
Deixaram a Velha Ama para trás no quarto da torre com suas agulhas. Hodor cantarolava desafinadamente enquanto carregava Bran pelos degraus e através da galeria. Meistre Luwin vinha ao seu lado, com a mesma dificuldade que el para acompanhar as passadas longas de Hodor.
Robb estava sentando na cadeira antes ocupada pelo pai, o rosto severo, de uma forma que Nicéia jamais havia visto. Theon Greyjoy e Hallis Mollen ao seu lado. Uma duzia de guardas espalhados pelo paredão cinza, com janelas altas e estreitas. E quando próxima o suficiente viu o tio ao centro do grande salão com mais quatro homens vestindo negro ao seu lado.
— Qualquer homem da Patrulha da Noite é bem vindo em Winterfell pelo tempo que desejar ficar — disse Robb com a voz gelada, como a de um verdadeiro Senhor.
Percebeu então que a espada reluzente estava sobre seus joelhos, mostrando o aço para que todos vissem.
— Qualquer homem da Patrulha da Noite —repetiu o anão sem vê-la. —mas eu, não, percebo meu rapaz.
Robb continuou a encara-lo com frieza e raiva, deslizou os dedos entre os fios de seu cabelo.
— Eu sou o Senhor aqui, Lannister. Não sou seu rapaz.
— Se é um Senhor, bem que poderia aprender as cortesias de um — retrucou Tyrion, provocando-o. — Seu irmão bastardo ficou com toda a elegância de seu pai ao que parece.
Nicéia viu Robb erguer-se da cadeira e apertar os dedos contra a espada. Seu corpo moveu-se rapidamente, batendo os pés contra a pedra provocando um eco fino de seus sapatos. Tal ato fez com que Tyrion a olhasse e finalmente percebesse sua presença, assim como a de Bran.
— Então é verdade, o garoto esta vivo. Quase não acreditei. Vocês, os Stark, são mesmos difíceis de matar.
— São tão duros quanto o aço — cortou-lhe Nicéia encarando o gume da espada e depois os olhos do marido, calando-o rapidamente. — Hodor, traga Bran ate aqui.
— Hodor — repetiu o meio gigante pousando Bran na cadeira antes ocupada por Robb.
— Você tinha assuntos a tratar com Bran, pois aqui esta ele, Lannister.
Bran estava desconfortável, sendo tão exposto daquela forma e Nicéia, bom, ela sentia o sangue esquentar em suas veias e os olhos estreitarem gradativamente, com as atitudes do marido. Robb estava tenso, os ombros duros assim como os olhos e a voz.
— Disseram-me que era um grande escalador, Bran — disse Tyrion. — Diga-me como caiu naquele dia?
— Eu não cai!
— Ele não se lembra da queda, nem mesmo de ter escalado aquela tarde — disse Nicéia com gentileza atraindo os olhos do tio para si.
— Curioso — refletiu.
— Meu irmão não esta aqui para responder suas perguntas, Lannister — rosnou Robb, assim como vento cinzento faria.
Nicéia o encarou rapidamente, os olhos ardendo em fúria.
— Tenho um presente para você —disse o anão á Bran. — Gosta de montar a cavalo garoto?
Mestre Luwin adiantou-se.
— Senhor, o garoto perdeu o uso das pernas. Não pode montar.
— Besteira — Lannister respondeu. — Com o cavalo e a sela certos, ate um aleijado pode montar.
Os olhos de Bran encheram-se de lagrimas rapidamente, as palavras de Tyrion haviam o ferido.
— Não sou um aleijado!
— Então eu não sou um anão — retrucou Tyrion em deboche.
— Que tipo de cavalo e sela, esta sugerindo? — perguntou Meistre Luwin.
Tyrion não o respondeu de imediato, apenas encarou a sobrinha com um doce sorriso nos lábios.
— Porque não o responde, minha sobrinha — Nicéia conhecia aquele tom, Tyrion sempre o usava quando desejava cutucar sua mãe. — possuía uma boa noção sobre equinos. Afinal, era sobre isso que passava as tardes conversando com o jovem Willas Tyrell, quando as rosas visitavam Porto Real.
— O aleijado? — soprou Theon venenoso, engolindo o riso.
Nicéia girou os olhos e respondeu.
— Um inteligente, que aprenda os comandos do cavaleiro pelas rédeas e a voz, ja que Bran não pode usar as pernas. Um potro bem jovem, que ainda não tenha nenhum ensinamento prévio.
Tyrion sorriu largamente e Nicéia teve medo do que viria a seguir.
— Obviamente, vejo que o educado Willas lhe fez muito bem — provocou Tyrion. — Entregue isso ao seu fabricante de selas. Ele tratará do resto.
Nicéia apanhou o papel. Desenrolou-o e o estudo junto ao Meistre. A Princesa ja havia os vistos antes, não eram os mesmo, mas muito parecidos com as selas que seu tio usava.
— Me lembro de alguns desenho como esse em Rochedo — sussurrou Nicéia.
— Sim, isso deve funcionar. Como não pensei antes? — resmungou o Meistre consigo mesmo.
— Para mim é mais fácil, não é tão diferente de minhas selas — disse Tyrion.
— Serei mesmo capaz de montar? — perguntou Bran com uma alegria contida em sua voz, ele realmente desejava aquilo.
— Será — afirmou. — Sobre o dorso de um cavalo será tão bom como qualquer outro cavaleiro.
Nicéia então sorriu deixando o papel nas mãos de Meistre Luwin e aproximando-se do tio a passos curtos.
— É alguma brincadeira, Lannister? — questionou Robb furioso pelas provocações. — Porque esta fazendo isso?
— Seu irmão Jon me pediu. E tenho um ponto fraco no coração para aleijados, bastardos e coisas quebradas — Tyrion Lannister colocou a mão sobre o coração e sorriu zombeiro.
A porta que dava para o patio foi escancarada. A luz do dia adentrou o grande salão no momento em que Rickon entrou de repente, sem folego. Os lobos gigantes vinham com ele. Rickon parou na porta, os olhos muito abertos e o rosto vermelho, mas os lobos entraram. Seus olhos encontraram-se com o homenzinho. Verão foi o primeiro a começar a rosnar. Vento Cinzento juntou-se a ele. Aproximaram-se de Tyrion, um pela direita outro pela esquerda.
— Os lobos não gostaram do seu cheiro, Lannister — zombou Theon.
Mesmo não o vendo, Nicéia sabia que em seus lábios um sorriso cruel crescia. Seus olhos de leão moviam-se junto a Vento Cinzento, que aproximava-se.
— Talvez, seja a hora de me retirar — disse Tyrion dando um passo para trás... e Cão Felpudo surgiu das sombras atras dele, rosnando.
Tyrion recuou, e Verão avançou. Cambaleou para longe, com as pernas bambas. Nicéia tentou ajuda-lo mas fora impedida pelo corpo do Lobo de seu marido que se colocou a sua frente, impedindo sua passagem. Vento Cinzento atacou-lhe o braço, rasgando o tecido com os dentes, arrancando a manga.
— Não! — Bran gritou junto a Nicéia. — Verão, aqui. Verão, venha.
O Lobo gigante afastou-se revezando olhares entre Tyrion e Bran, mas por fim voltou-se para o dono correndo em sua direção.
— Vento Cinzento — chamou Nicéia angustiada, levando uma de suas mãos ao ventre.
O Lobo Gigante a encarou com seus olhos dourados e prontamente moveu-se em sua direção silencioso, colocando-se a sua frente sentando sobre as patas, não sem antes tocar o focinho em sua barriga e fareja-la.
Agora restava apenas Cão Felpudo que rosnava em direção a Tyrion, com os olhos ardendo como Fogo vivo.
— Rickon chame-o — gritou Bran para o irmão.
— Para casa, Felpudo, anda, pra casa — o lobo negro rosnou uma ultima vez e depois saltou ate Rickon que o abraçou pelo pescoço.
Tyrion Lannister se firmou sobre as pernas e secou o suor em sua testa. Ainda tremula Nicéia contornou o Lobo Gigante e avançou ate o tio colocando-se de joelhos a sua frente e observando o braço em que Vento Cinzento atacara.
— Curioso — sussurrou.
— Esta tudo bem, meu tio? — perguntou Nicéia com a voz angustiada, puxando a manga rasgada e apalpando seu ante braço.
Os homens espalhados pelo salão mantinham-se nervosamente sobre as pernas enquanto encaravam os lobos que mantinham-se ali.
— Nada foi ferido alem de minha dignidade — respondeu ele abalado.
— Eles nunca agiram dessa forma — soprou Nicéia com os olhos vermelhos de lagrimas.
— Certamente que não, antes eu ate ousaria perguntar como conseguia viver com esse lobo, mas a forma como o Cinza lhe protegeu, tirou todas as minha duvidas — brincou ele tentando um sorriso. — vejo que não sou bem vindo, nem mesmo pelos lobos.
— Tio...
— Estou bem — afirmou novamente tocando-lhe os cabelos, mas afastou-se quando Vento Cinzento rosnou baixo. — então... Mal se casou e ja esta gravida de seu primeiro filho. Rápidos não, mas ainda sim desejo-lhe saúde e que mais filhos você de ao norte.
— Obrigado— respondeu Robb que se recobrava do susto, mas ainda sim era sincero. — Por tudo, e desculpe-me pelos lobos, ele nunca agiram dessa forma.
— Aceito suas desculpas, mas cuidado com seus sentimentos, eles refletem em seu lobo — disse Tyrion tomando a mão da sobrinha enquanto ela se erguia. — Vou estar em um estalagem na vila de inverno, Yoren seguiremos para o Sul ao amanhecer. Lhe espero na estrada.
Antes de virar-se para ir tocou a barriga de Nicéia com a ponta dos dedos, acariciando-a com contemplação. Vento Cinzento rosnou ao seu lado, mantendo-se em posição, sobre as patas e sem tirar seus olhos do anão. Era como um aviso, ele sabia, o lobo não protegia apenas sua sobrinha mas o filho que ela carregava em seu ventre. E Tyrion teve pena daquele que tentasse fazer-lhe algum mal.
Rickon ainda segurava Cão Felpudo quando Tyrion cruzou a porta a passos curtos.