A Estrangeira, o Executor e o Capuz Vermelho
14 9 - Encontre (a saída)
Pyrrha solta um suspiro, um tanto triste, enquanto envolve os braços ao redor de seus joelhos.
— Então eu vou me tornar uma fera? — ela pergunta, após ouvir a história de Lamia, a mesma que ela contou para Johannes.
Lamia baixa o olhar, triste, olhando para a fogueira. É dito que feras temem o fogo. E de fato, é um truque útil para caçadores. Fogo. Incenso. Mas Lamia gosta do fogo. É um jeito de testar sua humanidade. Acalmar seus medos.
— Eventualmente — diz a mulher, com dor em sua voz. — Eu sinto muito.
— Não, tudo bem — Pyrrha fala, forçando um sorriso. — Acho que é melhor saber disso.
— É? — Uma sobrancelha de Lamia se ergue.
— Pelo menos assim eu, bem, sei. Acho que isso ajuda a ter tempo para me preparar. Eu sei o que está por vir agora. — Pyrrha solta um triste suspiro, abraçando seus joelhos com mais força.
Lamia tenta dar um sorriso solidário.
— Acha que já comecei a me transformar? — Pyrrha indaga. Sua voz é baixa, como se temesse falar aquilo alto demais.
Lamia se levanta e caminha para perto da garota. Pyrrha não recua. Não consegue mais sentir medo dela. A mão de Lamia leva o cabelo de Pyrrha para trás, deixando sua orelha à vista.
— Sua orelha já é um pouco pontuda — pontua a mulher, sua voz fraca e rouca. — E seus caninos são pontiagudos além do usual também.
O olhar da garota é tomado de medo. Lamia ri, abanando com a mão.
— Não, não, isso, para nós, é bem normal. Fora isso não consegui ver nada. Não acho que tem com o que se preocupar, Pyrrha.
Ela não quer contar, mas no caminho para cá conseguiu reparar que sua audição e olfato às vezes parecem melhores que a de Maria, que é uma caçadora. Não quer contar com medo dessas duas características não serem tão normais e serem um indício que a transformação já começou.
— Eu tô com medo — ela sussurra.
As sobrancelhas de Lamia se juntam, em preocupação, com seu lábio tremendo sem saber o que dizer. Ela se senta ao lado de Pyrrha e respira fundo.
— Medo do que, exatamente? — ela pergunta, sua voz saindo um pouco falha.
— Deixar de ser eu mesmo.
— Ah, isso eu sinto todo dia há muito tempo — Lamia fala. — Eu tenho medo de fechar o olho muito tempo e me tornar uma fera. Sentir fome demais e ficar selvagem. Dormir Lamia e acordar uma fera sedenta por sangue.
Ela para, engolindo a saliva e descansando a voz por um momento. Pyrrha está encarando Lamia com olhos atentos, como uma criança ouvindo os ensinamentos de seu professor.
— Mas eu ainda me sinto “eu”. Talvez eu tenha mudado e não notei — Lamia para e ri, acabando tossindo ao fim. — Digo, lógico que mudei, não é?
Ela sente o toque da mão de Pyrrha em sua mão. Lamia ergue o olhar e se depara com uma jovem que a lembra de si mesmo, anos atrás. Não talvez apenas na aparência mais na bondade, na ingenuidade. No potencial. Um sorriso, frágil, lentamente surge no rosto da mulher fera.
— Apesar de tudo, apesar de mudar cada vez mais a cada dia… Eu ainda me sinto… Eu — Lamia diz isso lentamente, pensando em cada palavra que usa, escolhendo a combinação mais adequada.
Ela faz uma pausa antes de voltar a falar e Pyrrha calmamente aguarda.
— Talvez seja porque eu nunca pude notar. Talvez a cada pedaço do meu corpo que mude, algo meu de fato mude, mas por ser tão ínfimo, eu nunca consiga perceber isso antes que seja tarde de mais. — Ela se cala, sentindo um choro escalando sua garganta. — Eu não sei quando termina o ser humano e começa a fera.
A mão de Pyrrha segura mais firmemente a da mulher, querendo trazer conforto.
— Bem, e existe algo mais humano do que ser uma constante mudança? — Pyrrha fala, com um sorriso otimista de no rosto.
Lamia funga, passando o braço pelo seu rosto, limpando o rosto de um choro que ameaçou aflorar. A mão de Lamia, ainda humana, vai até o cabelo da garota e o bagunça, acariciando eles. Pyrrha solta um pequeno riso.
— Que tal comermos algo? — ela sugere.
Pyrrha pega sua cesta (dada por sua mãe) e confere o que há dentro. Pães. Queijos. Carne. Vinho. Sangue. Ela oferece isso para Lamia e as duas comem dos pães e do queijo na cesta.
— Eu também trouxe uma dessas — Lamia comenta, com a boca ainda um pouco cheia.
Ela para, mastiga, e por fim engole.
— Pelo jeito faz parte desse rito.
— É? — Pyrrha retruca, olhando para o pão desconfiada.
Lamia solta um pequeno riso.
— Não tem nada nos pães, relaxe.
— Ufa — a garota diz. — Posso tirar uma pequena dúvida?
Lamia faz que sim com a cabeça.
— Dói se transformar? — A voz dela vem baixa, com medo de ser rude.
Lamia termina, calmamente, de mastigar o que tem na boca, aproveitando para pensar em como contar isso para Pyrrha. Não quer causar mais medo, mas ao mesmo tempo também não quer mentir para ela.
— Dói. — Ela faz uma dolorosa pausa para reunir forças para continuar explicando. — É como a dor de crescer, quando se é criança, só que pior. Seu esqueleto, toda sua estrutura física, se retorce para se tornar uma forma a qual ela não foi feita para atender.
Pyrrha abre a boca, para continuar a falar mas algo atiça a audição das duas, vindo do corredor que leva para as escadarias para baixo e isso faz Pyrrha mover os lábios, formando os nomes dos dois caçadores que estão lá. A garota se levanta. Tem algo de errado lá, mas antes que Pyrrha pudesse tomar qualquer atitude em relação a isso, Maria Hazenflug entra no hall.
— Pyrrha! — As duas quase se trombam.
— O que houve? — pergunta Lamia, assustada.
— Gente da Igreja lá embaixo. Atrás da Pyrrha — Maria fala, um tanto perdida por causa da adrenalina. — Johannes pediu para eu ir abrindo caminho. Pyrrha, vamos te levar para o porto que tem na vila e fugir para um lugar seguro.
Lamia se levanta e vai até a porta que leva até a Vila Edda.
— Por aqui — ela diz.
Pyrrha e a caçadora seguem ela, com Maria constantemente olhando para trás. Com medo de inimigos aparecerem mas com a esperança de Johannes chegar também.
As três sobem pelos degraus pequenos e escuros, pela escada espiral. Elas finalmente chegam ao topo e Lamia começa a empurrar a barricada, abrindo passagem. Maria e Pyrrha prontamente vão ajudar. O silêncio daquele lugar, quebrado apenas pelo som da mobília sendo movida e pela respiração afobada delas, deixa-as nervosas. A mente de Maria fica a conduzindo a pensar no plano de última hora: iriam fugir pelo porto. E isso a faz pensar em seu irmão. No motivo de estar aqui, afinal, encontrar a cura para ele.
A troca que Gehrman sugeriu foi simples. Só que ela teria que proteger Pyrrha enquanto luta contra toda uma Vila. Sozinha? Johannes ainda não está aqui. Seria arriscado, arriscado demais, mas se for assim, como fica Maria? Os objetivos dela?
“E o que eu faço?” Maria pergunta para si mesma.
Ela bufa e uma pequena escrivaninha rola escada abaixo com um barulho altíssimo. Maria olha para Lamia, que olha para a caçadora. Elas se encaram por alguns segundos e assentem com a cabeça, voltando a mover a barricada. Pyrrha para de ajudar, ouvindo algo escada abaixo. Tem alguém lá.
—Tem alguém vindo — a garota murmura, sacando sua pistola.
Seu coração diz que é Johannes, mas seu corpo diz que não. Entre esperança e temor, ela aponta a arma para a entrada da escadaria, descendo lentamente.
— Pyrrha? — Maria chama, puxando um armário para baixo.
Ela ouve mas não desvia o olhar da porta. Os passos estão mais próximos. Quase chegando. Sua pistola, antes apontada na direção da entrada, agora é erguida para cima, por segurança. Não quer atirar em Johannes por susto. É perigoso. Ela dá um passo à frente.
— Pyrrha? — A voz rouca de Lamia ecoa pela escadaria de pedra.
Ela engole em seco, não querendo responder. E se aquele no hall não fosse Johannes? Pyrrha nota que está ficando com a respiração desritmada e ofegante. Está nervosa.
“Controle sua respiração, Pyrrha” ela ordena para si mesma.
A cabeça que entra na escada não é Johannes. É um dos sujeitos da Igreja, que havia conseguido driblar o caçador. Pyrrha se vê estática por um momento. Ela abre a boca, querendo gritar por ajuda, mas sua voz trava em sua garganta, ficando presa no caminho. Ela dá um passo para trás assim que o sujeito adentra por completo na escadaria. Ela dá um tiro, mas erra. Atinge a parede, passa pelo lado da cabeça do homem.
Ele carrega consigo uma lanterna, erguendo-a na altura do rosto. A luz que sai da lanterna é azul e quando Pyrrha a olha com cuidado, percebe que dentro dela existem uma quantidade nojenta de olhos, de vários tamanhos. Alguns amarrados por cordas para fora da lanterna. O rosto da garota se contorce em horror, nojo, vendo aquilo.
E então um som. Grosseiro. Pyrrha entende de instantâneo o que é. Ela olha para trás por apenas um instante, apenas para conferir, e salta para o lado. O armário que Maria antes estava movendo, despenca na direção do homem da Igreja da Cura. Ele consegue pará-lo, segurando-o no susto, mas isso o deixa suscetível a um disparo da pistola de Pyrrha. Esse acerta o rosto dele, com sangue explodindo junto com o cheiro de pólvora. Sons de passos vindo de cima da escadaria. O homem ainda está vivo. Ele joga o armário para o lado e olha para Pyrrha com raiva. Tenso por causa da dor. O lado direito de seu rosto exposto e coberto de sangue. Lamia surge, saltando a escada e agarrando o homem pelos ombros enquanto o derruba no chão, com um estrondo. Ela morde o pescoço do homem e arranca um naco de carne, pintando a escadaria de vermelho.
— Corra, Pyrrha — Lamia sussurra, ofegante.
— Mas, Lamia… — Pyrrha dá um passo à frente. Outros estão vindo.
— Vá. Por favor. Eu vou cobrir a saída de vocês. Eu e Johannes logo chegamos em vocês.
Pyrrha morde o lábio, que tremia. Ela corre até Lamia e a abraça, apertado. A mulher se surpreende, mas sorri, devolvendo o abraço.
— Não esqueça de mim, okay? — ela sussurra e vê a garota soltando-a do abraço.
— Claro que não vou! Vamos nos encontrar logo! — Pyrrha retruca, com lágrimas nos olhos.
Sons de passos finalmente chegam no hall, mais de um. Lamia respira fundo, se colocando de quatro e respirando fundo.
— Vá — ela pede, uma última vez.
Elas correm. Lamia para a batalha, Pyrrha para Maria que finalmente abriu a passagem que dá para uma pequena escada que dá para uma portinhola. Elas atravessam correndo. A mente de Maria a avisa, uma vez mais, que deveria matar todas as feras naquela Vila. A vida de seu irmão depende disso!
E ainda assim está indo fugir para o porto. Para longe das feras, da caçada e do que veio atrás. Quando chegam na porta, trocam olhares. Maria saca seu machado e Pyrrha recarrega sua pistola. Estão prontas.
Abrindo e atravessando a porta, elas se encontram em um jardim, sereno e vazio. O sol está terminando de se pôr, banhando aquele jardim em uma luz alaranjada. A noite avança lentamente mas de modo predatório. Elas caminham pelo jardim devagar, em passos calculados. Tentando não fazer barulho. Existe uma portinhola que elas presumem levar para a Vila em si. Maria olha em volta e reconhece de onde vieram, da colina que daria para a Floresta Proibida. Sendo assim, consegue saber para onde ficaria o porto, em tese. Sua mão segura a portinhola e a puxa com cuidado. Ele range um pouco e isso é o bastante para fazer a caçadora segurar o machado com mais firmeza. Os sentidos de Maria se aguçam.
Elas saem do jardim e se veem em uma vila bastante organizada, com ruas, casas e demais construções. Nada opulento igual Yharnam, sendo bem mais humildade. No misto de praticidade e simplicidade. Só que tomado por todo tipo de fera. Predominam as mais afloradas, aquelas que a forma humana é apenas uma silhueta perdida nas formas bestiais. Elas encaram Maria, que sente o sangue descendo de seu corpo. Pyrrha se aproxima mais da caçadora, quase abraçando Maria. São muitas feras.
As feras encaram as duas em silêncio. Quase como em surpresa. Pequenas feras, que Pyrrha presume serem filhotes, puxam outras feras, adultas, apontando para a caçadora e a garota. É como se o tempo tivesse virtualmente parado. Ninguém ousando se mover. E então um uivo, que é acompanhado de outro. E de outro. E de outro. Se unindo em um único uivo, harmonizado.
Pyrrha ergue o olhar para o céu. A lua, cheia, já é visível.
No Sonho do Caçador, Gehrman chora, do lado de fora da oficina.
— Sua criatura maldita, seu demônio — ele choraminga.
O velho caçador ergue seu olhar para o céu.
— Flora… O que você me fez fazer?
A noite continua a avançar, cada vez mais, enquanto o sol afunda no horizonte. Maria e Pyrrha cruzam as ruas da vila, em passos apressados e, estranhamente, ninguém faz nada. Nenhuma das feras avança de imediato. Nenhuma delas grita ou rosna. Apenas olham elas andando, em passos cheios de medo e urgência. Elas andam olhando ao redor, Maria com o machado e Pyrrha com sua pistola. E os habitantes da vila as olham como se estivessem curiosos com o que elas fossem fazer.
Algumas feras, quando as duas se aproximam, abrem o caminho para elas passarem. As feras se entreolham e algumas falam entre si, em grunhidos e uivos com eventuais palavras soltas (ou talvez o que pareçam palavras). Algumas feras começam dar alguns passos na direção das duas mulheres fugindo, esticando pescoços para enxergá-las conforme se afastam. Gradualmente, elas começam a ser seguidas.
Pyrrha olha para trás, ouvindo a movimentação e barulhos feitos pelas feras e vê a marcha que lentamente começa atrás delas.
— Saiam! — Maria ordena, conforme avança, sacudindo seu machado.
Elas continuam indo na direção do porto, vendo a luz sumir mais e mais, conforme a noite chega. Escutam sinos e mais sinos. Uivos. Grunhidos. Pyrrha se sente observada, mas não pelas feras, e sim como se tivesse algo além daquelas bestas olhando-a. E isso a atormenta. Maria, ao notar que Pyrrha está constantemente olhando para trás, faz a mesma coisa. E quando olha para trás, seus olhos são guiados para a catedral na Vila Edda. Não por causa da arquitetura do lugar e sim por algo empoleirado na construção. Não sabe descrever o que é. Não sabe o que é. Apenas vê aquele amontoado de membros, que agarram a torre da igreja, para se segurar. Como uma aranha maldita. Sua cabeça sendo aberta e permitindo que um cérebro cheio de olhos observe a situação.
— Maria? — Pyrrha a chama.
Maria é tirada de torpor, retirando os olhos daquilo. Pyrrha está na sua frente, ela havia parado de correr ao olhar para a igreja.
— Desculpe — Maria fala por entre os dentes, ainda atormentada.
Pyrrha, antes de voltar a correr, olha para a igreja, mas não vê nada. Apenas uma sensação estranha. Uma coceira dentro da cabeça, um desconforto por todo seu corpo. Ela pensa, enquanto corre de mãos dadas com Maria, o que teria acontecido se eles tivessem usado a estrada principal. O que teria acontecido ao cruzarem os portões. Talvez Maria e Johannes tivessem morrido enquanto ela teria sido levado para… O rosto da garota é tomado por amargor ao pensar nas possibilidades. No que teria acontecido. Precisa eternamente agradecer Maria e Johannes por se livrado desse destino cruel.
“Ainda precisamos chegar ao porto” ela pensa. “E Johannes precisa chegar com a senhorita Lamia.”
Ela morde o lábio, temerosa. E ainda tem sua avó. Será que ela estaria na multidão que a segue? Multidão ou matilha? Qual é o coletivo correto de humanos que se tornaram feras?
— Estamos quase chegando — Maria fala.
E então elas ouvem o badalar de um sino, um diferente do comum. É um som fino, agudo, que parece alcançar as duas moças e ressonar pelos ossos delas. Parece até um uivo. Maria dá de cara com um portão, que impede a chegada para o porto. Ela o sacode, o som de metal e de correntes competindo com o sino que ainda toca. E o som da multidão, se aproximando.
— Não, não, não — Maria pragueja, procurando uma fechadura, algum jeito de abrir o portão.
Ela pensa em tentar derrubá-lo com o machado mas, nessa hora, ela olha para trás, juntamente de Pyrrha. As feras estão paradas, olhando-as. Seus olhos brilhando na escuridão. O sol dando seus últimos raios de sol contra as garotas enquanto se parte e dá lugar a noite. E com a noite, vem a lua, que por sua vez ilumina o caminho que as feras abriram: para a igreja da Vila Edda. Uma das feras se aproxima, com as mãos erguidas, as palmas voltadas para cima, e a cabeça baixa.
— Pyrrha Perrault, Nosso Grande Pai a chama — a fera diz. — Não dê as costas para nós assim. Sua família.
Pyrrha sente suas costas tocarem no portão que as impede de avançar. Maria sente sua mão sendo apertada com mais força.
— Ao menos vá ver sua avó e Nosso Grande Pai. Peça sua benção — a fera pede. — Não trouxe uma cesta para ela? Entregue-a. Não aja desse jeito.
Algumas outras feras na multidão gritam em resposta a isso.
— Sim — uma fera diz.
— Vá ver sua pobre vó — outra fala.
— Entregue-nos a caçadora! — uma fera demanda.
Maria rosna para as feras, segurando com mais firmeza seu machado. A fera à frente delas se vira para as demais.
— Silêncio! — ela late para as demais. A fera se vira para as duas. — Por favor, vá lá. Faça apenas isso por nós. Não faremos mal a vocês. Tenha uma audiência com o Grande Pai. Talvez, se for uma boa garota, consiga a chave para esse portão.
Pyrrha olha para Maria, em súplica. Não quer ir, fato, mesmo que dentro de seu peito sinta uma ânsia em fazê-lo. Sua mão aperta a pistola, não sabendo o que fazer. Já Maria sente receio que tudo isso seja uma armadilha, sente que é. As palavras de Gehrman, o que lhe foi pedido, vem em sua mente. Matar as feras. Matar alguma fera antiga. Talvez seja esse tal “Grande Pai”. E seu irmão precisa dessa cura.
A caçadora olha para sua protegida com decisão pura em seu olhar e em sua voz.
— Vamos — ela diz. — É o caminho diante de nós.
— Você vai me proteger? — Pyrrha pergunta, sua voz baixa.
— Sempre — Maria fala, colocando uma mão no ombro da garota.
Johannes está em uma situação difícil. Não sabe se aguenta todos aqueles inimigos, mas ao mesmo tempo não quer dar as costas para tantos oponentes. Não por orgulho, mas por medo de ser pego pelas costas. Alguns deles já passaram por ele e, pelos barulhos, ele presume que Lamia está lidando com os membros da Igreja da Cura. Ele espera que ela esteja bem. Espera que Pyrrha e Maria estejam bem.
Outro inimigo tenta correr por ele, tentando subir as escadas. O caçador rosna e acerta sua roda nas costas do homem da Igreja, que cai com tudo. Isso abre sua guarda, permitindo que um homem com uma foice faça um talho em seu peito. Johannes range os dentes, a dor é horrorosa. Ele coloca força em seu pé direito e toda a musculatura de seu corpo trabalha em puxar a roda em um arco até o homem que o atacou. Ele o joga para fora da escada e Johannes quase perde o equilíbrio do corpo. Saca sua arma de fogo, sua blunderbluss, e atira contra o oponente que havia derrubado primeiro, antes que possa levantar. Os miolos dele se espalham pela escadaria.
Outro inimigo se aproxima, com um lança-chamas em mão. Johannes pula para trás, sentindo o calor da língua. Ele atira contra o lança-chamas, que explode nas mãos do usuário, e Johannes avança impiedosamente, trazendo sua roda para cima com ambas as mãos. O corpo do acólito da Igreja da Cura se amassa com a pressão do golpe do caçador. Johannes vê o corpo do seu oponente tombar já inconsciente no chão. O ar vaza da boca do ex-Executor com pressão, apenas para ele inspirar novamente. Ele recua, subindo alguns degraus. Pega um frasco de sangue dentro de seu casaco e injeta em si. O golpe da foice o feriu bastante.
Johannes não sabe se deveria subir mais e ir ajudar Lamia ou pelo menos ganhar mais distância. Ainda tem muitos ali embaixo. E ainda tem Victoria Shelley, que se mantém intocada. Não avançou. Não se aproximou. Apenas assiste a tudo no começo da gruta. Como se esperasse o desfecho daquilo. Um dos homens com um tronco avança. Viu sujeitos parecidos algumas vezes, ajudando aqui e ali nas caçadas. E já viu o que aqueles troncos, afiados, fazem. Não sabe o que colocam naquele pedaço de madeira, mas já viu caçadores e feras vomitando sangue e convulsionando depois de serem atingidos por aquilo. É o que chamam de “frenesi”.
Johannes firma seus pés no chão e bate na lateral do tronco com sua roda, que tira o equilíbrio do inimigo. Johannes mais uma vez saca sua pistola e dispara contra o rosto de um inimigo.
“Menos um” o caçador pensa, soltando o ar de seu peito.
Em uma surpresa, ele ainda não havia morrido. Seja milagre ou maldição, o homem grita, em dor, e agarra o rosto de Johannes, que tenta se soltar do agarrão. Ouve outros passos, querem aproveitar o momento para passar pela escada. O caçador atira contra o cotovelo do homem que o segura, sentindo o aperto em seu rosto afrouxar o bastante para poder chutar o homem no peito. Ele cai escada abaixo e Johannes consegue socar e derrubar um dos sujeitos que tenta subir as escadas. Um segundo consegue passar, enquanto um terceiro aproveita a distração do caçador para acertar a barriga dele com uma faca. Johannes solta um grasno de dor.
— Desgraçado — ele diz por entre os dentes.
O tronco de Johannes gira na direção do homem que o esfaqueou, com seu punho esquerdo se chocando com violência contra o rosto do acólito. Johannes agarrou ele pelo colarinho e o puxou contra seu rosto, dando uma cabeçada forte o bastante para quebrar o nariz do sujeito, que cai no chão, desmaiado. Ele chuta o corpo do homem escada abaixo e pega sua roda, subindo correndo para ver se Lamia está bem.
Escuta os gritos atrás dele, seus inimigos correndo atrás dele. Não se importa. Sente o cansaço de seu corpo em cada passo que dá, a cada degrau que ele sobe.
— Lamia! — ele chama, sua voz falhando pelo cansaço.
Um tiro passa assobiando próximo de sua cabeça. Não deve olhar para trás. A presa que olha para trás morre. Johannes sequer poderia ver, e ainda assim sente o instinto de fazê-lo.
Algo está vindo em sua direção, a frente. Ele desvia de um corpo, que voa pela escada abaixo. Johannes olha para a entrada e vê Lamia passando por ela. E talvez não devesse sentir isso por uma fera, mas ele sente alívio ao vê-la ali, viva. Ela traz alguma arma consigo, em uma de suas mãos. Uma arma de truque, uma arma de caçador. Uma última lembrança de Euthymos, uma arma usada por antigos caçadores: um cortador-de-fera. Um grosso e pesado cutelo de metal escuro. Dentado, como uma serra. Aquilo quebraria ossos com a mesma facilidade que cortaria a carne.
— Algum foi atrás da Maria e da Pyrrha? — Johannes, ofegante, pergunta. Ele então repara na arma que ela possui e abre a boca. — Ah. Uau.
Lamia apenas balança a cabeça, negativamente. Ele suspira aliviado. Ela anda na direção de Johannes, descendo a escadaria.
— Cuide da mulher lá no fundo — ela diz, com um rosnado no fundo de sua garganta. — Deixe essa gentalha comigo.
Johannes ergue sutilmente sua mão, querendo dizer algo, mas sente receio. Sente vergonha. Sua mão se fecha e ele junta forças novamente em seu corpo, se voltando para os inimigos, escada abaixo.
Victoria vê o caçador e a fera e solta um pequeno riso.
— Caçador e fera, lutando juntos? Isso eu não vejo todo dia.
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