Maria passa pelo arco da entrada da igreja, ainda incerta sobre tudo isso. O cheiro de feras vindo de dentro é nauseante. Ela morde o lábio, embriagada pelo seu nervosismo. Pyrrha está logo atrás dela, olhando para trás e vendo todas aquelas feras que, de fato, não fizeram nada contra elas. Apenas olharam e ainda apenas olham. Pyrrha consegue ouvir cochichos e resmungos mas não sente agressividade, não sente a agressividade que geralmente sentia nas bestas durante toda a viagem até aqui.

— Não saía de perto de mim — Maria fala, em um tom baixo.

— Claro, perdão — ela responde, apressando o passo.

Dentro da igreja, Pyrrha vê, antes de tudo, uma enorme fera crucificada. Sua pele foi esfolada e sangue verte de seu corpo, lentamente. Pyrrha cogita dar um passo para trás mas a presença de Maria ali, ao seu lado, a ajuda a se manter firme. O sangue escorre para uma espécie de banheira onde uma fera, um lobisomem, se banha nela. Silenciosamente. O lobisomem ergue a cabeça, assim que se dá conta que as duas entraram na igreja.

A igreja parece um misto de bem cuidada e mal cuidada. As janelas? Limpíssimas. O chão? Sujo de sangue. Os móveis? Consideravelmente em bom estado. Agora os bancos? Estão cheios de marcas de garras. Um tapete vermelho guia o caminho da entrada até a tal banheira, que está na frente de um altar. De trás desse altar sai uma figura mais baixa que Pyrrha, enrolada em trapos e empunhando um cajado com velas e outras coisas, cacarecos estranhos, amarrados no topo. Pyrrha não entende o que são essas coisas amarradas, mas Maria sim. São correntes de caçadores, de diversas facções e grupos. A caçadora cerra o punho vendo aquilo.

A figura começa a andar na direção delas, com um pequeno sino em sua outra mão badalando a cada passo dado.

— Pyrrha — a figura diz, com uma voz rouca, cheia de pigarro. — Há quanto tempo não a vejo!

A garota apenas ergue as sobrancelhas, dando um passo para trás. Maria entra na frente dela e a figura para de andar

— Saía da frente dela, caçadora nojenta! Banhada pela lua e manchada pelo sangue de meus irmãos. — A voz que sai dos trapos é feminina, apesar de desgastada.

— E quem seria você? — retruca a caçadora.

A figura solta um riso, quase uma tosse.

— Sou a avó de Pyrrha, ora — ela responde, quase que achando graça. — Estou aqui para receber minha querida neta.

Pyrrha agora vê que as mãos que seguram cajado e sino são peludas, como as de uma fera. Com dedos que terminam em garras enegrecidas. Consegue ver um pouco da boca dela também. A pele igualmente enegrecida, com dentes que são presas afiadas e amareladas. Mais um focinho de uma fera do que uma boca humana. Aquele sino dolorosamente ecoa na cabeça de Pyrrha.

— Como foi sua viagem, minha querida? — sua avó pergunta. — Espero que tenha sido boa, apesar da presença desses caçadores.

A roda de Johannes se choca contra a clavícula de um pobre homem da Igreja da Cura, que pulou para proteger Victoria. O caçador sente os ossos se quebrando, mas isso não para seu golpe, derrubando o sujeito, que emite um grito de dor ao tocar o solo. Johannes leva a roda para trás de seu corpo e realiza outro arco com ele — tentando acertar Victoria Shelley.

— Que palhaçada é essa, Shelley? — Ele ergue a voz.

Ela apenas ri, saltando para trás e escapando do alcance do golpe. Ela bate seu bastão contra o chão e o agita contra o ar em seguida, segmentando-o a arma que se torna chicote com elos metálicos. Com um agitar de braço, o chicote avança contra Johannes, que ergue a roda como um escudo à sua frente para se proteger do golpe da oponente, deslizando no chão úmido.

— Vamos lá, Johannes — ela provoca, rindo. — Tire essas bandagens do rosto. Vai entender um pouco as coisas se talvez me olhar nos olhos.

Ele range os dentes, rosnando, e tirando sua arma de fogo do coldre e disparando contra a cabeça de outro dos asseclas de Victoria que se aproximava dele. O tiro acerta o peito do homem. E, para garantir, o caçador golpeia sua cabeça, com um golpe fraco de sua roda, mas forte o bastante para quebrar o pescoço do alvo. E ele não apenas derruba o homem mas também acaba por estourar seu crânio, com sangue manchando a caverna.

Cruel — Victoria sussurra, assobiando.

Johannes não quer ver os horrores desse mundo. Não precisa olhar para as borboletas antes e depois de pisar nelas. Não agora. Não na caçada. Johannes ativa sua roda, girando-a, cedendo seu sangue para imbuir ela com poder. Victoria agita seu chicote, o dirigindo contra Johannes, em um golpe horizontal. O caçador permite que acerte-o no braço. Dói. Dói bastante, mas Johannes usa isso para puxar ela para perto dele, acertando o meio de seu torso e de seu braço esquerdo, com sua roda, em toda sua força.

Ela cai rolando pelo chão e se levanta aproveitando o embalo. Seu rosto se contorce em um sorriso nada natural enquanto os olhos se cerram.

— Lutemos então — ela diz, de dentes cerrados. — Vamos caçador, cace!

Johannes corre na direção de Victoria, pronto para golpear sua cabeça. Ela salta para trás, com o chicote dançando para longe de Johannes, com sua roda acertando no fim outro lacaio da Igreja da Cura, que veio pelo lado esquerdo, portando uma lança. A lança é arremessada das mãos do homem e Johannes enfia a mão na região abaixa do tórax do homem, afundando na carne, e puxando tripas dele para fora.

Antes mesmo do inimigo cair no chão, Johannes traz sua roda para cima e então a derruba no homem caído, esmagando-o. Sangue espirra. Victoria arqueia as sobrancelhas. Ele parece mais violento. Ela olha para a fera que está lutando ao lado de Johannes. Está dando um jeito nos seus lacaios, mas com claras dificuldades. Cortando-os com suas garras e seus dentes mas também usando daquela arma de caçador, um cutelo dentado.

“Euthymos usava um desse, não?” Victoria se pergunta “De todo modo, ela está usando de forma nada elegante.”

Johannes avança novamente contra Victoria, que recolhe seu chicote, batendo-o contra o chão, fazendo-o retornar a forma de bastão e o acerta contra o peito do caçador três vezes, como se fosse uma rapieira. Ela então gira o corpo ao redor do eixo de seu pé esquerdo, acertando um chute na mandíbula do caçador, que cambaleia para o lado.

— Achou que eu não sabia lutar, é? — ela pergunta, dando um risinho. — Aliás, que lugar horrível para lutar. Odeio me molhar.

— Era claro que você saberia lutar — ele resmunga, cuspindo um pouco de sangue.

Victoria solta um riso, cobrindo a boca com a mão direita. A mão, em seguida, desliza pelo tecido de sua roupa, parando em seu cinto e pegando uma adaga curva. É prateada e polida, reluzindo. Ela morde o lábio, olhando para seu reflexo na adaga e então erguendo o olhar para o caçador.

— Seu desempenho é de fato fascinante, Johannes — ela sibila. — Prossigamos.

Os dois correm na direção um do outro, com outros homens de Victoria se aproximando dele pelos flancos do caçador. Ela desvia da roda do caçador e agilmente enfia seu bastão por entre os aros da roda, prendendo-a no chão. Sua adaga tenta acertar o caçador, mas apenas consegue rasgar sua roupa. Johannes larga a roda e saca sua pistola, atirando contra a mulher, que salta para os lados, tentando desviar dos disparos. Ela sorri. Ele não vai ter tempo de reagir aos golpes de seus servos.

Johannes respira fundo, agarrando a alça de sua roda. Ele move seu tronco enquanto a ergue do chão e acerta, em sequência, quatro dos homens que o atacam. Um escapa. A roda acerta o chão com força, junto dos que foram atingidos por ela, mas que já começam a se levantar. O quinto oponente, o que Johannes não acertou, possui um lança-chamas, e a língua de chamas não o atinge, mas seu calor é o suficiente para assustar o caçador, que solta sua roda e avança de mãos vazias contra ele. Johannes segura a mão que empunha o lança-chamas, e, em um movimento ágil, dá as costas para ele e aplica uma forte cotovelada nas costelas do sujeito.

O ar escapa dos pulmões do acólito da Igreja, que solta o lança-chamas e se encurva para frente, tamanha a dor. Ele ergue o olhar apenas para ver Johannes apontando o lança-chamas contra seu prévio dono. Victoria vê seu lacaio sendo engolido por chamas, se debatendo e gritando de dor. Johannes se vira contra Victoria e lança o objeto que pegou contra ela, sacando sua pistola.

— Filha da… — a mulher diz, pega de surpresa.

Uma explosão acontece. Aqueles que lutam contra Lamia param para olhar. Lamia aproveita a distração para golpear os homens da Igreja. O cutelo acerta o ombro de um, os dentes do cutelo rasgando a carne conforme é puxado para fora. Suas garras desfiguram o rosto de um segundo, que grita de dor. Um terceiro conseguindo reagir mais rápido e usa seu lança-chamas, com Lamia recuando, subindo-as escadas e rosnando para os inimigos.

Victoria está suspirando, irritada, contemplando sua roupa chamuscada. Conseguiu pular no último instante e ainda assim, sua roupa não saiu impune. Pelo menos agora ela está menos úmida.

— Que perigo, que perigo — a mulher murmura.

Johannes termina de esmagar os homens que derrubou anteriormente.

— Sabe, Victoria — ele diz. — Dizem que a Roda dos Executores é uma arma que representa um “destino justo”. Que é o fechamento de um ciclo.

Victoria Shelley ergue uma sobrancelha, curiosa com o ponto dele.

— E eu vejo isso nela, eu ajudava, digo, os Executores, eles permitem que humanos atormentados pelo flagelo da fera tenham uma morte “rápida”. E que isso é bom. — Johannes dá “corda” em sua roda, que brilha com a aura vermelha de seu sangue. — Mas a verdade é que… Rodas são muito usadas para instrumentos de tortura. É isso que os Executores se tornaram. Torturadores. Extremistas até, várias vezes.

— E seu ponto seria? — Victoria suspira, dando um passo à frente.

— Nenhum, na verdade. Eu só queria um tempo para respirar um pouco. — Ele ri.

Victoria também ri.

— Aliás. — Johannes faz uma pausa, engolindo saliva. — Que adaga é essa?

Ela olha para sua mão direita e sorri, erguendo-a à altura do rosto.

— Essa aqui é uma adaga que vem diretamente de Byrgenwerth, acredita? — Ela move a adaga, mostrando-a para o caçador, exibindo-a. — Dizem que ela foi criada com o propósito de comunhão com as estrelas e o além delas. Os Eminentes. Já outros, a Igreja, diria que foi um presente dado pelo Cosmos aos estudiosos lá, e que essa adaga os aproximou de uma verdade. De transcender.

Johannes franze o cenho. Por que ela tem algo tão valioso? Nunca viu Victoria como alguém de alto posto dentro da Igreja. Alguém acima dos demais, mas nada grande o bastante para fazer ela ter casualmente o acesso de um item tão potencialmente valioso.

— Dizem que foi cuidadosamente polida após sua finalização com fantasmas, os pequeninos seres invertebrados que os mancebos de Yharnam chamariam casualmente de “lesmas”, para que o Arcano fluísse com harmonia através da lâmina — ela conta, olhando seu reflexo na lâmina. — Gostaria de saber o que acontece quando você é atingido pela lâmina desta adaga, Johannes?

Ele responde dando, uma vez mais, corda em sua roda. Duas vezes. A aura vermelha surgindo ao redor da arma com ferocidade. Victoria suspira e rapidamente guarda sua adaga e pega algo do bolso — uma espécie de papel —, e esfrega-o contra seu bastão, imbuindo ele com chamas. Johannes não demonstra ser amedrontado por isso, começando a caminhar na direção da oponente. Victoria Shelley agita seu bastão, transformando no chicote, agora em chamas. Enquanto dá um largo passo, ela gira o chicote ao redor de si e então dirigindo-o contra Johannes. Ele pula para longe do chicote, usando a roda como um escudo. O caçador sente a proximidade do chicote através do calor das chamas.

Victoria começa a avançar enquanto mantém o chicote em chamas rodando entre ela e o caçador, mantendo-o ocupado desviando dos elos do chicote. Ela tira de seu cinto pequenas facas e começa a jogá-las contra o caçador, colocando ainda mais coisas para Johannes se manter atento. Ele nota o que ela quer fazer, e começa a tentar ir para trás, fugindo do chicote e das pequenas facas. Uma delas acerta e gruda em seu braço direito. O caçador rosna e arranca a lâmina, sentindo seu sangue escorrer.

Precisa tomar cuidado. Precisa ser cauteloso. Não pode avançar subitamente. Victoria deve estar pensando em algo, ela deve ter algum plano. É uma armadilha, mas Johannes não sabe se é para mantê-lo longe ou para atraí-lo para dentro do alcance da inimiga.

“Ela quer usar a adaga” ele presume, visto que ela teve o cuidado de explicar as origens da arma cuidadosamente. “Ou isso foi para me causar medo quanto a ela?”

Johannes sente o tranco do chicote atingindo continuamente sua roda, enquanto serpenteia para cima. As chamas não machucam o caçador, mas o incomodam, conforme cada elo do chicote passando pela roda. Tuk tuk tuk tuk. O barulho irrita Johannes. Ele firma o pé contra o chão, não recuando e se preparando para avançar, assim que o chicote terminar de percorrer a roda. Quando Victoria ainda estiver preparando o próximo movimento.

E quando a hora chega, Johannes dá um passo à frente, movendo o escudo para trás e abrindo sua visão. Apenas para ver Victoria há poucos passos de distância dele. Ela usou a informação da adaga e a atitude precavida do caçador para deixá-lo na defensiva. O susto faz a reação de Johannes ser lenta, perdido em pensamentos desesperados de como deveria reagir. O chicote ainda gira, precisa logo prever onde iria bater para colocar o escudo na frente. Contudo, Victoria está a cada segundo mais próxima. A adaga especial, de Byrgenwerth, na mão livre. Pronta para esfaqueá-lo. Por um instante, até analisa a situação de Lamia, ainda lutando e atraindo os lacaios de Victoria Shelley. Está ficando cansada e com oponentes demais em cima dela.

Johannes pisca e uma lâmina entra, como uma garra, em sua barriga, arranhando suas entranhas como a garra de uma fera. O caçador abre a boca, querendo gritar. Ele recua para trás, seu corpo luta para fazer algo mas o choque da dor o paralisa. Uma dor gélida, que se alastra pelo seu corpo, de modo doloroso. Sente seu corpo lentamente ficar mais pesado, travado. Entorpecido. A adaga possui veneno?

Johannes tenta golpear Victoria com a roda. Ela apenas pula para trás, desviando com facilidade. O caçador está lento, atordoado. Ele pensa em gritar, mas o chicote finalmente chega e atinge sua garganta. Johannes quer gritar, mas o som não sai de sua boca. Apenas o som do gargarejo de sangue. A dor é horrorosa, ao ponto de sentir sua consciência se desprendendo de seu corpo. O golpe atravessou sua roupa, queimando e rasgando os tecidos, e retalhou e queimou sua garganta. Sangue verte por sua boca e pela ferida, junto com o cheiro de tecido e carne queimada.

Ele anda para trás, cambaleando. Sua roda, caí no chão, enquanto suas mãos tentam tapar a ferida na garganta, buscando de alguma forma vedar a ferida. Precisa usar os frascos de sangue antes que morra. Precisa se curar! Ouve algo e, ao erguer o rosto, consegue ver algo brilhando nas mãos de Victoria, erguidas acima de sua cabeça. E o ar se rasga, dando espaço para a visão de um céu estrelado, com bolas de luz flamejante saindo de dentro daquele cosmo e indo na direção de Johannes.

Sua cabeça gira ao ver isso, querendo saber o que é aquilo, mas seu corpo o força a saltar para trás, como um animal assustado, fugindo daquelas esferas fumegantes, como estrelas, vindas de algum tipo de magia disparada pela mulher da Igreja da Cura. Johannes se pergunta se é alguma magia ou conhecimento retirado também de Byrgenwerth, que tanto se dedicava ao estudo do cosmo.

“Victoria parece ter um grande interesse nessas coisas” ele pensa.

Uma daquelas estrelas atinge de raspão sua coxa, e a ferida começa quente, mas logo ela parece reverberar com a dor gélida deixada pela adaga, e sente todo seu corpo dolorosamente queimar, como se fosse explodir. Sente a dor se espalhar e se enraizar dentro de seu corpo enquanto sua coxa, atingida por aquela magia odiosa, queima e arde. Uma das mãos de Johannes se desgruda de seu pescoço, trêmula. Precisa se curar. Precisa de um frasco de sangue. Sua mão caminha tremendo até seu cinto, pegando um frasco apenas para ser atingida por uma das pequenas facas de Victoria que corre em sua direção. Johannes tenta ir para trás, em passos largos, tentando pegar sua arma. Ele se atrapalha, pelo nervosismo. Dor. Ele sente dor! E mesmo a sentindo, não consegue gritar.

Victoria atinge ele com aquela adaga duas vezes: uma em cada coxa. A mesma dor e sensação se espalham pelo corpo de Johannes uma vez mais. Sente tudo girando, sente seu corpo precisando do dobro de força para fazer tudo, quando Johannes sente ter duas vezes menos forças dentro de si. Ele tropeça para trás, a água espirrando e o abraçando ao atingir o chão da gruta. Vê Victoria, sorrindo, erguendo seu bastão. A última coisa que vê é essa arma vindo contra seu rosto, com tudo então ficando escuro.

Victoria Shelley olha para o corpo do caçador, morto, e sorri. Ela retira, lentamente, o Bastão Enroscado, de dentro do crânio do caçador.

— Tenha bons sonhos, caçador.