Maria passou pelo arco da entrada da igreja, incerta. O cheiro de bestas vindo dali é nauseante. Mordeu o próprio lábio, tamanho seu nervosismo.

“Tem algo de estranho aqui”, ela pensa.

Pyrrha está logo atrás dela, olhando para todas aquelas feras que, de fato, não fizeram nada contra elas. Apenas olharam elas caminhar do porto até a igreja. Pyrrha não sente agressividade, não sente a agressividade que sentiu em todas as feras no caminho até a Vila Edda.

— Fique perto de mim — Maria fala, em um tom baixo. — E esteja pronta para tudo.

— Claro — ela responde. — Estou logo aqui.

Dentro da igreja, Pyrrha vê, antes de tudo, uma fera esfolada e crucificada. Seu sangue escorre lentamente de seu corpo. O sangue escorre para uma espécie de banheira onde um lobisomem se banha nela. Silenciosamente, erguendo a cabeça para ver as duas, assim que elas adentram o lugar. A presença de Maria concede a Pyrrha a coragem para se manter firme diante daquela cena dantesca.

Um tapete vermelho guia o caminho da entrada até a tal banheira, que está na frente de um altar. Uma figura menor que Pyrrha, enrolada em trapos, sai de trás do altar com um cajado em uma mão. Na outra mão, a figura em trampos tem um sino, pequeno, que badala conforme ela anda.

A figura anda na direção de Pyrrha, cumprimentando-a como se a conhecesse há muito tempo, com Pyrrha dando um passo para trás. Maria entra na frente de sua protegida, com machado em mãos. A caçadora sente uma pontada em sua cabeça, presumindo que é por causa daquele maldito sino que a figura badala. Sente um certo horror estando ali, mas que não consegue por em palavras concretas. Em um amargor, sente que já viu tudo aquilo.

A figura para de andar, começando a circundar as duas.

— Saía de perto dela, caçadora nojenta, banhada pela lua e manchada pelo sangue de meus irmãos e irmãs — a figura em trapos diz. — É uma lástima ver que chegou viva até aqui. Sim! Uma lástima.

— Uma caçadora sempre deve caçar. E assim, cá estou — retruca Maria.

A figura solta um riso.

— Vocês distorceram o provérbio, certos de sua posição no mundo acima das feras — a velha fala. — Em eras pthumerianas, quando Yharnam ainda nem sonhava em existir, desde os sábios até os indigentes sabiam que “uma fera deve caçar”.

Maria bufa.

— E quem seria você, então? — Maria pergunta.

— Sou a avó de Pyrrha, ora — ela responde. — Estou aqui para receber minha querida neta.

Pyrrha agora vê, por entre os trapos, as mãos peludas que seguram o cajado e o sino. Os dedos que terminam em garras enegrecidas. Consegue ver um pouco da boca dela também. Mais para um focinho de uma fera do que uma boca humana, com dentes que são presas afiadas e amareladas.

Aquele sino ecoa dolorosamente na cabeça de Pyrrha, doendo sua cabeça.

— Como foi sua viagem, minha querida? — a fera pergunta. — Espero que tenha sido boa, mesmo que fosse na companhia desses caçadores.

Pyrrha Perrault não consegue responder. Sua avó apenas solta um riso, sem malícia.

— Ora, venha até aqui logo — a senhora Perrault pede. — Saía de perto dessa caçadora e venha dar um abraço em sua velha avó.

Pyrrha não faz isso, petrificada de medo. A velha Perrault suspira, em um riso.

— Venha, Pyrrha. Não há motivo para medo, para temor. Hoje é um dia de comemoração! — A senhora dá um passo à frente, abrindo os braços.

— Comemoração? — ela repete, desnorteada.

Sua avó faz que sim, com o capuz que esconde seu rosto se agitando. Pyrrha move o olhar, erguendo-o, e encara aquela fera dentro da banheira. Ela está olhando diretamente para Pyrrha, e ao notar isso, ela sente um desconforto. Um mau pressentimento. A fera não move o olhar, não desvia seu foco, seu corpo mal se move, tamanho é seu foco por ela.

Sua avó percebe isso e move seu olhar para a banheira e depois para Pyrrha, então soltando um risinho.

— Ah, pelo visto já estão se encarando, é? Essa juventude. — Ela ri. — Ele é seu noivo, minha querida.

— Não — ela murmura, trêmula.

O corpo de Pyrrha apenas sente repulsa, com o manto vermelho em seu corpo parecendo pesar mais. Não era um manto. Tampouco um capuz. É um véu.

— Ora, não seja assim. Nós escolhemos um bom rapaz. Ah sim, ele é um rapaz muito respeitado na Vila. Muito esforçado. Um excelente predador. Forte e promissor. Um excelente candidato para ser seu marido — a mulher diz. — Seja educada, sim?

— Eu não quero isso — Pyrrha choraminga.

Maria se coloca a frente de sua protegida, colocando um braço ao redor dela, em um abraço. A velha suspira, um suspiro cansado com um rosnado sutil ao fundo do suspiro.

— Isso é o correto, Pyrrha. É assim que as coisas são. São nossas tradições! — ela explica, com um pingo de irritação em sua voz. — Deixe-me explicar um pouco sobre quem somos e nossa relação com a Igreja da Cura, sim?

A velha tosse, soltando um pigarro, limpando sua garganta.

— Nosso Grande Velho Pai teve que fazer um pacto com a Igreja da Cura. Liberdade (com uma coleira) em troca do sangue de seus filhos. Para que Yharnam possa continuar a prosperar e o Clero pudesse fazer suas brincadeirinhas. Nosso Grande Velho Pai aceitou, para que pudesse ser livre uma vez mais. E cá estamos nós, presos em uma eterna caçada — ela diz, com certo amargor na voz. — Ao menos Ele está livre daquelas catacumbas.

Maria deixa a velha falar, sentindo curiosidade. Talvez isso trouxesse alguma resposta para uma das perguntas que possui. Está atrás de uma fera antiga afinal.

— As masmorras pthumerianas, você diz? — a caçadora pergunta.

A avó de Pyrrha volta o olhar para a caçadora, e mesmo sem ver o rosto da mulher, Maria sente o desgosto da velha Perrault contra a caçadora.

— Mas agora que está aqui, Pyrrha, minha neta, não há o que temer. Está tudo bem. Tudo vai ficar bem. A linhagem da fera há de continuar! — A mulher abre os braços. — A linhagem que rege as noites, que rege as verdadeiras caçadas, não aquelas ditadas por homens ou pela lua.

Maria olha para Pyrrha, que está de boca aberta, em descrença. O horror estampado em seus olhos. Ela não quer acreditar em nada daquilo, nada. Nada daquilo pode ser verdade, mesmo após já ter sido alertada por Lamia e ao ver tudo isso, uma parte de si quer se segurar que nada daquilo é possível. Que é loucura. Não pode ser… Mas é. E então ela sente a mão de Maria segurar a sua mão trêmula.

— Só queremos a chave para o porto — Pyrrha gagueja, precisando reunir forças para propulsionar sua voz para fora.

O lobisomem e sua avó parecem segurar um riso condescendente.

— Pyrrha, minha querida — sua avó fala. — Você não tem porque ir a lugar algum. Seu lugar é conosco. Sua família.

Maria se mantém na frente de Pyrrha, confortando-a. Seu machado está em uma mão enquanto com a outra abraça Pyrrha. Maria pensa na sua família. Pensa em como eles reagiram ao fato que ela, a filha mais velha, ainda solteira, iria sair em uma viagem atrás da cura da doença do irmão. Lembra dos comentários e das críticas. Dos olhares tristes e envergonhados de seus pais.

— Que tipo de família releva o que a neta quer? Se ela não quer e não gostou disso, isso deveria ser o ponto final — Maria braveja, bastante irritada. — Pyrrha não quer nada disso. Portanto, ela não terá nada disso. Ela não precisa obedecer a isso.

— Tolice! — a avó late, reverberando dentro da igreja. — Somos a família dela. Nós sabemos o que é melhor para ela.

Pyrrha baixa o olhar, mordendo o lábio. Tudo nela está trêmulo, e ainda precisa prender um choro que quer aflorar.

“É sempre assim” ela pensa.

Seu cabelo é melhor longo, mesmo ela querendo ele curto. É melhor ela usar vestidos e não calças e roupas “masculinas demais”. Ela deve agir de um determinado modo, e qualquer outro é errado! Não aja desse jeito, aja deste jeito.

E Maria entende isso. Ironicamente, vir para Yharnam às vezes parece a melhor coisa que aconteceu para ela. Pode apenas ser ela. Pode tomar decisões, sofrer com as consequências delas, mas antes de tudo foi ela quem as tomou. Sente o peso do caderno que Gehrman cedeu a ela dentro de seu casaco e sabe que conseguiu aquilo não graças a atitudes e decisões tomadas por sua família, seus pais, mas graças a força que ela, como caçadora, possui.

— Nós vamos pegar essas chaves — Maria diz, erguendo a voz. — Nós vamos sair daqui e Pyrrha vai fazer o que ela bem entender.

As palavras de Maria resgatam Pyrrha de pensamentos que a afogavam em amargor. Ela ergue o olhar para Maria, com esperanças renovadas. Talvez, no fim, ter alguém ao seu lado durante tempestades torna as coisas mais toleráveis. Possíveis.

— Maria? — ela pergunta, sua voz ainda baixa e tímida. — E o senhor Johannes?

Maria sorri, olhando de leve para Pyrrha, por cima do ombro.

— Ele está a caminho. Um caçador deve caçar. E este lugar implora por uma caçada — ela fala, em um tom bem humorado, tentando tranquilizar as coisas para Pyrrha.

Não há descanso para caçadores que sonham. Apenas uma longa e eterna caçada, mas talvez ajudando Pyrrha, libertar ela de um destino de sangue tão cruel, traga alguma verdade para seus corações. Alguma resposta ao dilema das caçadas. Levar a cura para o irmão de Maria. Seja qual for o destino que aguarda o trio, ele existe no amanhecer desta caçada.

A velha rosna, baixinho, apertando com cada vez mais força o cajado que segura. Aquela caçadora está entre ela e sua neta. Fazendo a mente dela! Atrapalhando tudo! Ela salta para cima da caçadora, erguendo seu cajado acima da cabeça. O barulho do sino alerta Maria e Pyrrha. A caçadora desvia sutilmente, apenas movendo o corpo e trazendo Pyrrha consigo, puxando-a. E com o cabo de seu machado, Maria acerta a nuca da fera anciã.

O ar escapa da boca de Pyrrha, que se assustou. Queria tanto que pudesse resolver isso sem a necessidade de uma luta. E Maria reconhece isso se passando dentro da mente da garota.

— Olha, Pyrrha, eu acho que não posso matar ela sem você deixar — a caçadora informa. — É a sua avó.

Contudo, na igreja não está apenas a avó de Pyrrha. Não, também está o noivo, arranjado pela Vila Edda, para a garota. O lobisomem, que Pyrrha sequer sabe o nome, rosna e salta para fora da banheira que estava até então. Seu pelo, escuro, sujo de sangue que respingado e deixa uma trilha conforme ele avança, ferozmente, até a caçadora.

— Maria! — Pyrrha grita, vendo o lobisomem avançar.

A jovem rapidamente puxa sua pistola do coldre e atira, visto que está Maria ocupada demais com a outra oponente. Pyrrha atinge a mandíbula inferior da fera, fazendo ela perder todo seu senso de equilíbrio enquanto corria. Isso dá tempo o bastante para que Maria possa abrir seu machado e traçar um arco horizontal com ele. A lâmina acerta o peito da fera e a joga contra as paredes da igreja.

— Boa, Pyrrha! — Maria agradece.

A garota sorri em resposta. Elas se colocam uma de costas para a outra, protegendo uma à outra. Pyrrha fica de frente para sua avó, que ergue o olhar. E por debaixo do capuz que ela usa, ela vê um pingo de bondade em seus olhos. Seria errado chamar de “humanidade”? Pyrrha sente seus pés querendo se mover. Talvez para recuar, talvez para tentar ir até a velha fera, pedir por trégua. Seus lábios tremendo para chamar pela vó. Só que todo esse breve brilho no olhar dela — talvez da avó que existia nas memórias enevoadas da infância de Pyrrha — rapidamente some, tomado por um brilho vermelho. Os olhos de uma fera, a besta que a mãe de sua mãe atualmente é. A besta que até talvez sua própria mãe já seja.

A fera pula, e Pyrrha está atordoada demais para reagir. Um salto alto o bastante para permitir que ela passasse por cima de sua neta, afastando com um chute, empurrando-a para longe. A fera se gruda nas costas da caçadora, arranhando e tentando mordê-la. Maria busca socar e acertar a avó de Pyrrha com seu machado, com dificuldade. A pistola nas mãos de Pyrrha nunca pareceu tão pesada. Tão horrenda. O ato de apertar o gatilho, tão difícil. E ainda assim, Pyrrha o faz. Para proteger Maria, sua amiga. O tiro acerta as costas de sua avó, que, com um grito, cai no chão.

Maria se assusta com o disparo vindo de trás, e acaba se virando, tendo o cuidado de traçar um arco com o machado para garantir que o lobisomem não se aproxime. Seus olhos rapidamente veem a avó de Pyrrha no chão, se estribuchando de dor. O lobisomem avança, mas não contra Maria ou até mesmo Pyrrha. Ele se coloca sobre a velha fera, como se a protegesse, rosnando contra as duas agressoras. Pyrrha recua, assustada. Atirou contra sua própria avó. O lobisomem ajuda a velha senhora a se levantar, ajudando-a a recuar, latindo para manter os inimigos longe.

— Maria? — Pyrrha chama.

A caçadora vira a cabeça para olhar a garota.

— Você cuida do lobisomem, combinado? — ela pede, a voz lutando bravamente para repelir o choro em sua garganta. — Por favor. Eu só quero ir embora daqui.

A boca de Maria se abre, querendo confortar Pyrrha. O olhar da caçadora se enche de determinação. Haverá tempo para isso depois.

— Deixe comigo — ela diz, começando a andar na direção do lobisomem. — Seja forte, okay? E pegue isso!

Maria joga, por cima do ombro, um coquetel molotov. Pyrrha se assusta ao ver aquilo e pega aquilo, se assustando.

— Maria!

A caçadora solta um baixo risinho, mordendo seu lábio e avançando. As duas feras recuaram até a banheira, onde a velha consome o sangue, para se curar. Vendo assim é tão grotesco, mas não é muito diferente de toda a cultura de Yharnam, que se aplica em Maria também. Aqueles que ficam doentes por beber demais álcool são poucos, mas aqueles que passam por isso com sangue? Maria luta e se cura das batalhas injetando sangue em si e sabe muito bem que existem pessoas que se embriagam no consumo constante de sangue.

O lobisomem se põe à frente da velha, protegendo-a da caçadora. Sobre duas patas e erguendo as mãos, fechadas em punhos. Ele rosna e late, tentando amedrontar Maria. Ela apenas sorri, segurando o machado ao lado do corpo e então o levando até as costas, erguendo-o e se impulsionando para frente. A lâmina da arma traça um arco de cima para baixo. O ar chega a assobiar. O lobisomem salta para o lado, desviando do golpe e move seu pé, em um chute contra a caçadora, que consegue desviar, também saltando para trás enquanto puxa o cabo de sua arma, afundada no chão da igreja, danificando o piso de madeira da igreja.

“Olha só… Uma fera pugilista então?” Maria pensa, achando graça.

O embate com Euthymos a preparou um pouco para isso, visto que ele também era um lobisomem que lutava especialmente bem. Só que Euthymos era um peso pesado. Seus golpes eram como marretadas, e ele até mesmo poderia aparar golpes da roda do Johannes. Aquele lobisomem é esguio, leve. Eles continuam a trocar golpes, dançando através do lugar, destruindo do piso e dos bancos. O lobisomem desfere socos, cruzados e diretos, mas também usa de suas garras e tenta abocanhar a caçadora, toda vez que ela fica perto demais dele. Eventualmente usa até mesmo de fortes chutes.

Já Maria, a caçadora, traça arco após arco com seu machado, encurtando e alongando o cabo do machado, conforme a distância entre ela e o oponente exigia. Garras acertam suas roupas. O machado lambe a carne da besta. Socos acertam seu corpo e Maria revida com socos e chutes. Talvez no começo de sua jornada uma fera como essa fosse um desafio árduo mas, após toda essa aventura, uma fera que sabe dar alguns socos não é mais tão assustador.

E a cada golpe trocado, conforme os dois dançam pelo piso da igreja, Maria entra cada vez mais e mais na Zona. Seu corpo passando a responder sozinho a cada movimento que o lobisomem faz. Sua mente entrando em um estado de paz absurdo. As tentativas de arranhar, cortá-la e agarrar o corpo da caçadora vão sendo frustadas por ela casualmente saindo do alcance dos ataques ou desviando as mãos do lobisomem com o cabo de seu machado, com Maria chegando a desferir um soco no focinho do lobisomem, que cambaleia para trás.

E o choque e dor do golpe o impedem de reagir a tempo da caçadora, que rindo, avança para cima do inimigo e o chuta bem no meio das pernas. A dor faz ele ganir e se encolher apenas para receber um soco cruzado no rosto, que o faz cair em meio aos bancos da Igreja.

O lobisomem percebe que a oponente está se movendo com mais leveza. Seus golpes mais fortes, mais precisos. Maria parece um adulto brincando de lutar com uma criança. A criatura recua, rodeando a caçadora. Os dois lentamente indo para perto do altar, que fica após a banheira com sangue. Maria sempre permanece a uma determinada distância da presa, não deixando que vá para longe demais. E ele percebe que, no momento, se tornou a presa. De uma caçadora. Maldita seja a sina que as feras precisam sofrer por causa dos caçadores. Maldita seja a lua, Yharnam e os homens que anseiam sempre por mais.

O lobisomem rosna, tomado por ira, e abruptamente avança em um salto, esticando uma de suas garras para tentar desfigurar o rosto da caçadora, apenas para ver sua mão sendo cortada, com o machado girando em um arco horizontal diante dele. O machado habilmente atinge o chão. Ainda com o lobisomem no ar, talvez ainda processando que perdeu um braço, Maria puxa o machado para trás de si, arrastando-o contra o chão, com seus músculos reunindo cada átomo de força em seu corpo.

Ela puxa o machado do chão, esticando seu cabo e o erguendo. Erguendo-o com a lâmina de frente para o lobisomem. Maria sente o tranco da arma, assim que o focinho do lobisomem toca o fio do machado. E coloca toda sua força em terminar o que começou. Seu pé direito se firma com ainda mais força no chão, como uma âncora. Seus braços agora colocando força para mover o machado para frente, atravessando a pele, os ossos, cada fibra de carne e cada órgão dentro daquele corpo. O olhar da caçadora é um misto de frieza e plenitude. Calmaria extrema. O braço decepado enfim cai no chão, seguido do corpo do lobisomem, dividido em dois. As tripas, ossos quebrados e órgãos se espalhando pelo chão, conforme uma poça de sangue se cria ao redor do cadáver da besta abatida.

O ar sai do peito de Maria pesadamente, seus ombros caindo conforme os músculos de seu corpo se aliviam. Ela olha para a fera com olhos atentos, quase que com medo que ainda estivesse viva, guardando uma última surpresa, porém nada acontece. Seus olhos rumam para o altar próximo dela. Alguns livros estão ali, provavelmente religiosos, juntos de outros instrumentos de mesmo cunho, mas o que chama a atenção dela é uma chave ali.

“Seria a que abre o porto?” ela se pergunta, pegando a chave para si.

Ela ergue o olhar, olhando Pyrrha, que ainda enfrenta sua avó. A garota parece estar penando para isso. Pyrrha se vê estática, sem conseguir se mover, mas mantendo a pistola apontada na direção de sua avó.

— Pyrrha, me escute — a velha suplica. — Ainda é possível para você voltar atrás. Desista de ir embora, desista de toda essa rebeldia sem causa.

A garota balbuceia, sem conseguir formular uma frase concreta. A senhora suspira, dando um passo à frente. Pyrrha dá outro para trás.

— Você sabe que já está se transformando, não sabe? — A voz de sua avó fica mais dura, com um rosnado de irritação no fundo de sua garganta. — Quanto tempo até seus amiguinhos caçadores olharem para você com desgosto? Seus caninos já estão ficando protuberantes, não estão? Suas orelhas pontudas, imagino. E provavelmente seus sentidos estão ficando aguçados, estou correta?

Pyrrha gagueja, sem conseguir responder a enxurrada de perguntas.

— Vê? Seu lugar é aqui. Com seus iguais. Ou irá acordar morta quando seus amados protetores te tomarem como inimiga. Como presa, como caça.

— Pois errada está você, ô vovó. — Maria ergue a voz, ainda no altar. — Eu fui designada como protetora de Pyrrha. E é isso que vou fazer. Eu conheci Lamia e… E eu vi ela. Eu vi uma fera que não tinha cedido. E mais que isso! Eu tô vendo vocês! E vocês podem ser um bando de nojentos, mas ainda possuem uma mente, não? Pyrrha ainda vai ser a Pyrrha, aconteça o que acontecer.

— Calada! — a fera late para a caçadora.

Pyrrha vê sua avó dirigir uma última vez o olhar para ela. E ela acha que viu remorso nos olhos dela. E então o corpo de sua avó se tensiona, se curvando para frente. Ela larga o que trazia consigo, o cajado e o sino. Ela ruge e seu corpo se alonga. Seus pés e mãos crescem, os panos e trapos se tornando pequenos demais para escondê-los. Seu pescoço se alonga e Pyrrha escuta os ossos se quebrando e se ajustando. Os gritos de dor conforme os músculos se moldam a essa nova forma. Sangue respinga no chão. A fera diante de Pyrrha, sua avó, está ofegante. Muito mais fera do que humana, agora.

Maria havia começado a correr assim que entendeu o que estava acontecendo, forçando seu corpo, já cansado, a se mover. Tarde demais, tarde demais. Pyrrha ainda está estática, presa em um transe de horror e descrença com o que está diante dela. Aquilo é o que aguarda ela? Maria e Johannes aceitariam ela daquele jeito? Ela conseguiria se aceitar daquele jeito?