Em um instante, a avó de Pyrrha se vira e acerta Maria com uma cabeçada, a jogando contra uma parede. Maria sente o ar escapar de seus peitos e, ao não conseguir reavê-los, sente a agonia de se ver incapaz de respirar. Ela consegue ver aquela fera caminhando lentamente em sua direção, nas quatro patas. Quando procura por sua arma, percebe que seu machado foi jogado para longe quando foi arremessada. Ela se culpa, percebendo que, ao achar que poderia chegar antes da transformação acabar, se locomoveu de forma demasiadamente brusca e colocando toda sua energia naquilo. Não somente não conseguiu golpear o alvo, como ainda foi golpeada, ao errar o chute quanto a transformação. E agora está no chão, paralisada pela dor e a falta de oxigênio em seu corpo.

“Não fui cuidadosa” ela pensa, seu rosto se distorcendo em dor e angústia.

Maria queria que Johannes estivesse ali, para cobrir ela. Consertar os erros dela. Seu olhar encontra o de Pyrrha, ainda estática. Seu olhar implorando por uma resposta, por uma solução. Pyrrha move seu olhar de Maria, ainda no chão, para sua avó. Aquilo precisa parar.

— Se mova — Pyrrha murmura por entre os lábios.

Diz isso para si mesma, mais do que para Maria, que ainda está no chão. O corpo todo da caçadora dói. Precisa injetar sangue, mas está com medo de um movimento fazer a fera atacá-la. Está sem sua pistola, para abrir uma janela de tempo. Não conseguiria alcançar seu machado sem levar um golpe talvez fatal. A besta está próxima demais. Maria já consegue ouvir a respiração dela, já consegue sentir o calor do ar que expira de seu corpo e de seu hálito azedo. Consegue reaver seu fôlego, mas já é tarde demais. O que poderia fazer com a fera tão próxima?

— Vó! — Pyrrha grita, dando um passo à frente.

Os olhos da fera se arregalam. Sua cabeça se move, se virando para olhar Pyrrha.

— Py-Pyrrha — a fera responde, com dificuldade. — Pyr-Pyrrha!

Ela dá dois passos na direção da neta, dando as costas para Maria. Pyrrha olha para sua avó com medo. Quando encara seus olhos, vê os olhos escuros de um animal.

— Vó, você sabe quem sou? Sabe que sou sua neta, né? — ela pergunta, incerta, segurando seu capuz vermelho com força.

— Py… Pyr… Pyrrha… — a fera responde, movendo a cabeça em concordância.

Sua voz carrega dor. Como se cada sílaba exigisse muito. Ela move a cabeça conforme fala, como se tentasse encontrar uma posição onde as palavras saíssem com mais facilidade.

— Vamos conversar — ela implora. — Vamos conversar, por favor. Igual quando eu era criança, mas pare com tudo isso.

— Nós duas?

— Sim! — Pyrrha dá um passo à frente.

— Então… Vamos — sua avó diz. — Vamos para casa…

A besta sorri, em uma imitação assustadora do que seria um sorriso humano.

“É para isso que você veio aqui, afinal” a velha Perrault pensa, se curvando sobre Pyrrha. “Eu não quero te ver sofrer. Não quero que você se vá. Quero apenas o seu bem.”

O rosto de Pyrrha é encoberto pela sombra que o corpanzil bestial de sua avó projeta sobre ela. Ela ainda parece sorrir. Sua mão, uma garra bestial, se estende na direção da jovem. Poderia segurar todo seu torso sem nenhuma dificuldade, de tão grande que se tornou. Pyrrha fecha os olhos, nervosa e sem saber o que aconteceria.

A mão de Maria puxa Pyrrha para longe do alcance da pata da fera. A caçadora abraça a garota e a traz para trás de si. A fera, indignada, move os braços, golpeando tudo ao seu redor, e Maria consegue saltar para longe, trazendo Pyrrha consigo.

— Saía do caminho! — a avó de Pyrrha berra.

Maria coloca Pyrrha atrás de si, erguendo seu machado, pronta para lutar.

— Obrigado por ter ganhado tempo — Maria fala, sem tirar os olhos de sua presa.

A garota sorri aliviada, vendo a caçadora bem. E então seu olhar se dirige contra sua avó, que ainda golpeia o ar, as paredes e o chão.

— Por que fez isso? — Ela ergue a voz, brava.

— Faça a Pyrrha ficar — a fera pede, com sua voz guturesca.

E então o que sai de sua boca é a voz de sua avó antes dessa transformação:

— Faça ela ficar.

As duas vozes se intercalam, numa cacofonia dolorosa, conforme a fera se debate. Falando a mesma coisa, mas não em harmonia, longe disso.

Faça ela ficar! — as duas vozes imploram.

O olhar de Pyrrha se confrange. Dói ver aquilo. E dói ainda mais o que precisa fazer.

— Me desculpa, vó, mas eu não sou mais uma criança que vocês podem mandar. E eu não quero ficar — ela diz. — Você precisa respeitar o que eu escolher daqui pra frente.

— Fique — sua avó pede, com sua voz normal.

E então sua voz gutural, vindo das mais profundas entranhas daquela fera diz:

— Fique aqui conosco!

— Vó, mas eu… — O rosto de Pyrrha se enche de dor, então convicção. — Eu não quero. Eu quero ir embora.

A fera urre, uma vez mais. Um som tão alto chega a ser doloroso, fazendo Pyrrha e Maria recuarem. Já anoiteceu, Maria percebe. Ela olha para Pyrrha com um sorriso: ela conseguiu se impor. Queria que houvesse tempo para as comemorações, mas a fera diante delas deixa nítido que isso não aconteceria tão cedo.

A avó de Pyrrha então uiva, um uivo alto e que ecoa dentro das cabeças das duas. A fera junta as mãos, como se em uma prece. De início elas só ouvem o uivo, mas subitamente, dentro de suas cabeças, aquilo começa a fazer sentido. Como se somente após ouvirem, aquele uivo fosse traduzido, já dentro de suas mentes.

A voz dizia:

“Ó, Grande, Antigo e Sábio Pai, desça e interceda por mim.

Salve essas feras, salve minha neta.

Pela caçada que era sua. Pelo céu escuro.

Pelo céu que é o cosmo.

Pelas bestas que espreitam cada bosque sombrio,

venha e interceda por essa pobre jovem.”

As duas sentem um frio percorrer suas espinhas assim que ouvem isso. E elas vêem o sangue do “noivo” de Pyrrha sair dos restos de seu corpo, indo na direção da avó de Pyrrha, a envolvendo, como se em um casulo.

— Maria, o que é isso? — pergunta Pyrrha, temerosa.

— Honestamente? — a caçadora responde. — Eu já não sei mais.

Do lado de fora da igreja, a Vila Edda jaz em um silêncio sepulcral. O ser abissal acima da igreja, uma Amygdala, agarrada como uma aranha na construção, se move. Seus longos braços se movem ao redor das janelas e das portas da igreja, com uma grossa névoa surgindo ao redor dela. Após isso, aquilo opta por deixar sua cabeça (e os milhares de olhos horrendos que possui) de frente a um dos vitrais da construção. Observando. As nuvens, que dançam com os fortes ventos, uivam uma melodia cruel e em descompasso, escondendo a lua atrás delas.

O casulo de sangue parece se endurecer e começa a diminuir, tomando a forma do que jaz dentro dele apenas para essa película se rasgar e ser sugada para dentro da boca da fera, de pelos negros reluzentes. Maria vê o brilho de mais de um par de olhos. O pescoço parece ser largo, quase como uma serpente, mas é oculto por toda a longa “crina” que balança conforme a besta se move. Possui braços longos, que tocam os chãos e suas pernas digitígradas.

— Maria? — Pyrrha a chama, sem mover o olhar da fera que sua avó se tornou. — Nós podemos vencer isso?

— Eu consegui pegar a chave — a caçadora conta. — Para o porto. Podemos tentar fugir.

Pyrrha acena positivamente com a cabeça, continuando a olhar para sua avó.

— Eu vou distrair… Isso. — Maria entrega a chave para a garota. — Vá na frente.

A fera não está olhando para elas. Está de cabeça baixa, ainda imóvel. Maria estende seu machado, com o estalo metálico ecoando pelo lugar. A fera ergue o olhar para a caçadora.

Pyrrha começa a ir lentamente para a saída. Maria dá um passo na direção da besta, que olha diretamente para a caçadora. Os olhos da fera se cerram, talvez em raiva, talvez em algum tipo de deleite. Maria leva sua arma para trás de seu corpo, avançando e pronta para atacar, mas antes que pudesse perceber a fera já havia se movido.

“Está no meu lado esquerdo” a caçadora pensa, tentando mover seu corpo a tempo.

Apenas girando seus braços, o monstro atinge Maria de modo tão forte que a faz colidir contra uma das paredes da igreja com um estrondo. A construção treme. O barulho chama a atenção de Pyrrha, que se vira assustada. Em meio a penumbra, ela somente vê Maria, ainda ferida e caída. Um vento agita os cabelos e a capa vermelha de Pyrrha. Está atrás dela. Ela sente sua cabeça ser agarrada, sendo tirada do chão. Pyrrha grita de dor. A fera a leva para trás, pegando embalo, e então a arremessa. O corpo de Pyrrha se choca contra o altar de madeira, e de sua boca sai um grito mudo — mais o ar saindo de seu corpo com o choque do que um grito de dor consciente.

A visão de Pyrrha fica embaçada, e apesar do breu noturno, ela ainda conseguia ver. Agora, sua vista está turva e mal consegue apenas distinguir a silhueta daquela besta em meio a penumbra. E então o som de passos. Alguém se ergueu. Maria Hazenflug, que, tomada por fúria, avança contra a fera, com o cabo do machado apoiado em seu ombro. Ela tira pequenas facas de arremesso de dentro de seu casaco e joga contra a fera, que salta para trás, se mesclando na escuridão da igreja, em seus cantos e becos. Toda vez que Maria consegue identificar a fera e jogar a faca contra ela, a lâmina atinge tarde demais.

Maria a perde de vista, e começa a procurar por ela, olhando desesperadamente ao redor, tentando se apoiar em seus outros sentidos: sua audição e seu olfato. A besta corre pelas paredes e pelo teto, caindo logo atrás de Maria. Se apoiando em seus braços, ela chuta a caçadora contra as portas da igreja, em um coice. O corpo da caçadora se choca agressivamente contra as portas, em um estrondo.

“Estou ficando cansada disso: ser arremessada” Maria pensa, imersa em dor. “Perdeu a graça na primeira cabeçada.”

Ela olha para a porta, a saída, e vê algo familiar. Por entre as portas, entreabertas, vê uma névoa, que dança pelo arco da entrada do lugar. Branca e densa, que perfeitamente delimita a saída. Maria tenta passar a mão por ela, sem sucesso: não consegue atravessá-la. Estão presas ali dentro.

— Não pode ser — ela resmunga, horrorizada.

O som de disparo chama a caçadora de volta para a luta. Pyrrha havia disparado contra as costas de sua avó, que estava caminhando calmamente na direção da caçadora. O monstro, em dor, salta para o teto, percorrendo-o como uma aranha e cai, majestosamente, há poucos metros da neta, de pé, sobre a banheira com sangue. Quase como se a gravidade não tivesse poder sobre aquele corpo. A fera apenas encara Pyrrha, em silêncio. Sem rosnar, sem tensionar os músculos, ameaçando avançar. Apenas ali, de frente para Pyrrha, observando-a. Ela, por sua vez, ergue novamente a pistola, apontando para a avó.

— Não me obrigue a fazer isso — ela avisa, com dor na voz.

Maria pesadamente se levanta, pegando seu machado do chão. Atraída pelo som, a besta vira sua cabeça para a entrada da igreja, as garras se tensionando.

— Nem pense nisso, vovó — Pyrrha ameaça, erguendo a voz.

Maria dá outros dois passos. A fera não faz nada, apenas a encara. Pyrrha não abaixa a pistola, mas não possui coragem para disparar. O momento de silêncio apenas se mantém, sem ninguém fazer de fato algo. Cada passo que Maria dá exige tanto cuidado para não ser brusco demais, não atrair uma reação negativa da fera. Que se mantém estática, imóvel. Apenas encarando as duas.

Pyrrha se pergunta o quanto de sua vó ainda está ali, naquele ser. Aquilo ainda é ela? Ou aquilo é “a fera”? Ela não sabe. Manter o braço erguido e sem tremer é difícil. Ainda mais encarando aquilo, tão próximo dela. Ela sente a saliva se acumular em sua boca e a engole, respirando fundo e sentindo o quanto sua caixa toráxica treme pelo nervosismo. E sua avó se mantém ali, sob a banheira, perfeitamente equilibrada, estática.

Maria dá outro passo e suas mãos se ajeitam no cabo do machado, tentando segurá-lo com mais firmeza.

A fera ergue a cabeça, como se tivesse escutado algo. Seus pés escorregam para dentro da banheira e ela cai para dentro dela com leveza. A besta então lentamente começa a afundar para dentro da humilde e pequena banheira de cerâmica. Lentamente adentrando, erguendo os braços para cima para que seu torso consiga passar. Maria não consegue se mover, sem saber se deveria interromper aquilo. Quando a cabeça e enfim os braços daquela fera submergem e somem dentro da banheira, Maria consegue mover seus pés para frente, seu corpo ainda tenso e sentindo que há qualquer momento algo aconteceria. Pyrrha não consegue acreditar no que acabou de ver, suas sobrancelhas arqueadas em descrenças.

— Não pode ser — ela fala, recuando assustada. — O que foi isso?

Ela dá um passo à frente, como se tentasse espiar dentro da banheira. E então o barulho de água fervendo, vindo de dentro da banheira. O som de líquido se agitando e criando bolhas, que surgem, estouram e dão origem a outras bolhas. Maria sente da onde está o ar ficando… Estranho. Não possui vento mas ele sente ele ficando diferente. Mais quente e, ao mesmo tempo, mais gelado. A sensação do ar na pele causando uma estranheza que ela não consegue por em palavras exatas, seu corpo não conseguindo traduzir em palavras para seu cérebro.

As bolhas se agitam e algumas gotas de sangue escapam para fora da banheira. Pyrrha as vê e sente que o agitar do sangue dentro dela pareceu um som: o de um choro. E algo, que certamente aquela banheira não comportaria, salta dela. O som da banheira se quebrando, junto dos fragmentos caindo no chão são o suficiente para inundar os ouvidos de Pyrrha e Maria com horror. Pyrrha somente viu um vulto. E quando ergue o olhar, aquilo já não está mais lá também.

Maria, por sua vez, crê ter visto algo sair da banheira, mas não tem certeza. Suas mãos apertam o cabo do machado. Se preparando. Com medo. Ela sente uma lufada de ar passar pelo seu rosto e então um som, como o de folhas secas sendo agitadas. Maria vê algo — algo imenso — tocando o solo com uma leveza que não deveria ser possível para um corpo daquele tamanho.

E de repente, tão de repente quanto aquilo saiu da banheira, a visão de Pyrrha e de Maria é ofuscada, como se todas as cores no ambiente fossem invertidas, fazendo com que a escuridão se tornasse um tom fortíssimo de branco com azuis. A sensação é nauseante, e as duas fecham os olhos, sentindo uma ventania forte passar pelas duas. Quando elas abrem novamente os olhos, os tons azuis agora se tornaram tons quentes: vermelhos, laranjas e amarelos. O branco ainda se mantém, mas agora já não fere a visão das duas. A igreja agora jaz em ruínas.

Aquilo não é a Vila Edda.

— Maria? — Pyrrha chama pela caçadora, assustada.

Ela vê a caçadora, ainda à sua frente e corre até ela. Maria olha com certo alívio para Pyrrha, dando um passo na direção dela, erguendo a mão em sua direção. E então o escuro invade as duas. Se vêem em um total breu, privadas da visão, de ouvir e apenas conseguem sentir um imenso frio. Maria apenas sente uma força imensa sendo imposta sobre ela, primeiro a puxando e depois a repelindo. Ela é jogada, uma vez mais, sentindo seu corpo ser tomado por eletricidade.

O breu se desfaz e os olhos de Maria se arregalam ao se deparar com o que havia jogado ela contra as ruínas do que era antes a igreja. Era disso que Gehrman se referia? Isso é o que Maria deve caçar?

Para Pyrrha, a escuridão parece ainda não ter se desfeito, ainda vê o escuro. E então ela ergue o rosto e vê o que havia saltado para fora da banheira — e entende que aquilo não era o escuro mas apenas o ser que a circunda —, sendo maior que a casa de Pyrrha, que possui dois andares, apesar de humilde. Conforme ergue o olhar, ela nota que todo o seu peito é aberto, com as costelas expondo algo. Algo que ela não consegue ver dali visto que ela está de costas para aquela criatura. Seu olhar sobe ainda mais, até que chega ao pescoço, longo e esguio, e a partir daí vê os olhos. Do rosto ao pescoço, existe uma trilha de olhos que brilham em um vermelho rubro. A cabeça da fera se move na direção de Pyrrha e então ela vê: dentes e mais dentes. Possui claramente duas fileiras de dentes, todas afiadas.

Pyrrha tropeça na cauda do monstro, querendo ir para longe daquilo. Se arrasta pelo chão, engatinhando. A criatura permite que Pyrrha se afaste um bom tanto, e apenas quando ela consegue se levantar, que ela começa a andar na direção dela.

Alertada pelo som de passos, a fera salta calmamente para longe, desviando sem dificuldade de Maria. A fera salta para fora da igreja, se escondendo atrás de suas ruínas. Ainda está visível. Ela circunda as ruínas, observando Pyrrha e a caçadora.

Maria corre até Pyrrha e as duas se abraçam. Pyrrha não consegue tirar os olhos daquela fera, negra, que continua a rodear elas.

— Maria, o que é aquilo? — ela pergunta, assustada.

Ela ouve um rosnado vindo da criatura, não em intimidação. Quase que demonstrando certa afeição, um riso mal traduzido.

— Eu… Eu não sei, Pyrrha — a caçadora confessa. — Eu não faço ideia do que está acontecendo.

E então outro rosnado, outro riso. A fera salta, facilmente ultrapassando as ruínas. E a escuridão, uma vez mais, invade o local. Estar em um ambiente tão claro e depois ser jogado em um escuro tão profundo é desnorteante. E todos os sentidos de Maria sentem essa confusão. Sua audição enlouquecendo sem nada para ouvir, seu tato buscando sentir desesperadamente qualquer coisa, para tentar mapear a situação. Sente o chão tremer e então algo se enrolar em volta de seu corpo, como uma serpente. Seus pés param de tocar o solo e ela se debate. Foi pega.

A escuridão se desfaz, com a brancura do lugar ferindo seus olhos. Maria está sendo erguida pela cauda da fera, esmagando seus braços. Seu machado ainda está em sua mão e Maria coloca todas suas forças em mantê-lo assim. Não pode soltá-lo. Não deve soltá-lo. A fera mantém a caçadora fora do campo de visão de Pyrrha, que somente pode olhar para aquela criatura colossal diante dela.

— O que é você? — Escapa da boca da garota.

A fera sorri, mostrando as camadas de dentes que possui, suas duas mandíbulas. O rosnar vindo de sua garganta começa a fazer sentido dentro da cabeça de Pyrrha e Maria. Para o horror de Pyrrha, a voz que ecoa dentro de sua cabeça é a de sua avó.

— Eu sou sua avó. Seus tios e tias. Seus primos. E até aqueles que vieram antes deles — diz a fera, que até aproxima um pouco seu rosto. Sua voz se mantendo naquele rosnado gutural que só começa a fazer sentido após você ouvir, como um sonho sendo cuidadosamente relembrado após se acordar. — Eu sou a noite escura. O barulho que você ouve de noite e não sabe da onde vem. O vento que faz árvores cantarem. Sou até, quem sabe, o medo que uma fera te ataque na estrada. Sou A fera. Eu sou a bestialidade inerente em toda pessoa. A cada barriga que ronca. A cada ato de raiva, de violência. A cada sangue ministrado para dentro das veias yharnamitas. Sou a chuva que leva telhas, plantações e esperança. Sou o trovão, dado pelos deuses, que cai dos céus. Sou um eminente! A Antiga Grande Fera. Vosso Grande Pai.