A Estrangeira, o Executor e o Capuz Vermelho
18 12 - Retorne (emerja do caos)
Longe da Vila Edda, longe da igreja e do lugar onde Maria enfrenta a fera antiga, ainda na gruta subterrânea, Johannes se vê lutando após voltar do Sonho do Caçador. Não fez alarde a Maria. Havia prometido a ela, antes de toda essa jornada começar.
“— O que está fazendo aqui ainda? — A voz de Maria atravessou a oficina.
Johannes sorriu ao ver Maria no Sonho do Caçador. Nem precisava pensar muito a frente para entender o motivo. Trabalha ao lado dela o bastante para predizer que provavelmente Maria foi impetuosa demais.
— Eu avisei — Johannes falou, com um leve riso na voz.
— E me esperou aqui só pra ter a satisfação de poder dizer isso? — indagou Maria, revirando os olhos.
O caçador riu, fechando o livro. Ele puxa sua venda para os olhos, impedindo que Maria pudesse ter uma visão dos olhos do caçador, até hoje sem poder ter visto eles claramente.
— Sim, sim. Não farei isso novamente, relaxe — ele respondeu. — Apenas não resisti à tentação.”
Chegou ao Sonho do Caçador e, graças aos Ecos de Sangue que Maria deixou em um baú, ele pode se fortalecer com ajuda da Boneca, que canalizou eles. Talvez, e Johannes espera, que isso seja o bastante para mudar os resultados das coisas. E assim, ele parte para o “Mundo Real”. O Mundo Desperto.
Uma coisa no Sonho lhe chamou a atenção: a Boneca havia lhe dado uma pequena sineta, encravada com símbolos e uma jóia. Segundo a Boneca, quando fosse encontrar com Maria Hazenflug, deveria tocar o Sino.
“— … E assim levarão o brilho de Flora até Maria —” ela explicou.
Ele se pergunta o que estaria acontecendo com Maria para fazer a Boneca intervir quase que diretamente, dando um item para Johannes. Só pode rezar para chegar a tempo. Só pode torcer para que elas estejam bem. E só pode se perguntar, uma vez mais, quem é Flora. É a segunda vez que a Boneca traz esse nome a tona. Flora. A primeira, lhes desejando sucesso. E agora isso.
Mas, no calor de uma batalha, Johannes não tem tempo para ponderar e teorizar. Ele mata os enviados da Igreja com calma, sem pressa. Um a um, eles caem. Sua roda desce agressivamente contra o crânio de um deles, que é jogado no chão e tem sua cabeça esmagada. Johannes recua e atira contra um inimigo que corria em sua direção. O tiro acerta seu peito, interrompendo uma tentativa de golpear o caçador com uma foice. O tiro abre uma brecha para Johannes, que envia sua mão dentro do abdômen do homem, rasgando sua pele e puxando para fora suas entranhas. O corpo do acólito rola escada abaixo, já morto.
Victoria Shelley, aos pés da escada, franze o cenho. Ela já viu algo assim, não? Sente uma estranha sensação de déjà-vu. Ela ergue o olhar para o teto daquela gruta, e um sorriso surge no rosto de Victoria, junto com uma epifania.
Johannes lida com cautela com um daqueles homens com toras de madeira, temendo ser golpeado por aquele tronco amaldiçoado. Um aliado desse sujeito avança, sorrateiramente, evitando entrar no campo de visão do caçador. Ele ergue sua foice, que brilha com uma energia azul. Ao colocar sua pistola na testa do inimigo que enfrenta, disparando-a, Johannes percebe o sujeito com a foice. Sua boca se abre, notando que não haveria tempo para jogar seu corpo para longe daquele ataque. Uma outra lâmina colide contra o sujeito com a foice — um grosso cutelo dentado. Uma antiga arma de caçador. E quem o empunha e golpeou aquele homem foi Lamia. Com um salto e outro balanço daquela arma, o crânio do homem da Igreja é estourado, com Lamia caindo sobre ele.
Johannes sorri, com um certo alívio ao ver Lamia ali com ele.
— Estava me perguntando quando você ia chegar — ele diz.
— Assim eu fico sem jeito, senhor Johannes — Lamia resmunga, com um sorriso.
— Pyrrha e Maria saíram daqui em segurança? — o caçador pergunta já certo da resposta.
Ela acena a cabeça positivamente, poupando a voz. Ela limpa a garganta, tossindo.
— Iria aceitar lutar ao lado de uma fera como eu, bom caçador? — ela pergunta.
Johannes abre um largo sorriso, ajeitando a roda em seu ombro.
— Seria a maior honra que já recebi, senhorita Lamia — responde.
Os dois sorriem, e os membros da Igreja, em suas roupas outrora brancas, olham com nojo um caçador beijar os lábios de uma fera. Eles vociferam xingamentos e maldições conforme avançam, com suas armas em mãos. Johannes responde a isso quebrando-os com sua roda, que ao sugar o sangue do caçador, se ilumina na aura vermelha, potencializando a força e dano que aquela arma causa. Os ossos se quebram com o peso dos golpes da roda, mas também existem roupas, pele e carne sendo retalhadas pelo cutelo e pelas garras de Lamia, que salta para cima dos seus inimigos.
Ao fundo, Victoria sorri. É verdadeiramente impressionante.
Johannes percebe algo que antes não havia notado: o canhão de Euthymos ainda está ali. Com toda a munição também, as balas de mercúrio. Um sorriso não característico preenche o rosto do caçador que agarra um dos inimigos pelo colarinho e o joga escada abaixo. Ele tira sua arma do coldre e atira contra dois outros inimigos, escada acima.
Johannes move o rosto na direção da onde Victoria está.
— Vai ficar se escondendo da luta até quando? — ele pergunta, erguendo a voz para que ecoasse pelo lugar. — Hein, Victoria?
Victoria solta um risinho, batendo seu cano contra o chão, fazendo-o se fragmentar e se tornar o chicote metálico. Com a adaga na outra mão, ela avança de modo tempestuoso contra Johannes. Ela avança tão rápido, que os sentidos de Johannes quase não conseguem reagir a tempo. Sua roda se coloca entre ele e a adaga no último instante. Ela está atacando com tudo de si, e não poder ver se tornou um problema. Os sons que ela faz e seu cheiro acaba não sendo o bastante agora. Ele precisa ver.
A ideia de usar as vendas, as bandagens, veio de outros caçadores, que também as usam. Como meio de evitar ver demais. O que causou isso foi uma das primeiras vezes em que saiu para a caçada, ainda sob o manto da Igreja da Cura. Ainda sendo apenas não muito diferente das pessoas que, agora, ele está lutando. Ele foi em um trio. E quando ele precisou atacar, quando chegou a hora… Ele viu demais. Seu corpo travou de medo. Ele viu os outros dois caçadores da Igreja com ele sendo retalhados por uma fera que… No começo do embate era um ser humano. Johannes não conseguiu se mover, tamanho o pavor que sentiu. Conseguiram salvar ele, por sorte, mas por tão pouco. Ele tinha medo. Medo de ver outros se machucarem. Medo do sangue. Medo das feras.
“Alguém assim poderia pisar numa pobre borboleta caída?”
Johannes afasta Victoria, forçando a roda para frente, lançando a mulher para trás. Sua mão direita vai, gentilmente, até as bandagens. Ele as puxa, trazendo-as para baixo e então as arrancando. Lentamente abre os olhos, sentindo a explosão de cores e profundidade. Um sorriso suave surge em seus lábios. Um sorriso sereno.
O cutelo que Lamia empunha se crava e desce através da carne de um dos homens. Ela puxa a arma e o sangue explode para fora. Ao fundo, ela vê Johannes avançar, ferozmente. Lamia volta sua atenção para os inimigos a cercando e ela leva sua mão até um mecanismo no cabo do cutelo, que faz as partes do cutelo se segmentarem (parecido, em uma versão mais agressiva e pesada, com a arma que Victoria usa). Lamia salta para trás enquanto o cutelo descreve um violento arco, acertando e cortando de modo agressivo a carne de seus alvos.
Os segmentos do cutelo se religam após o arco, e Lamia ruge, e sente algo dentro de si queimar. Um dos homens escada a baixo grita e avança, erguendo sua foice para golpeá-la. Sua visão é então bloqueada por trapos jogados contra ele. Ele sente algo atingir e se segurar em seu rosto — Lamia. Ela salta, dando um giro no ar, com o cutelo voltando a ser um pesado chicote e criando um doloroso talho nas costas do homem com a foice. Ela aterrissa logo atrás dos demais membros da Igreja, ainda atônitos, seus corpos não conseguindo reagir a tempo. Ela se vira para eles, agora sem os trapos que antes ocultavam seu corpo. Ela ataca com o cutelo e alguns conseguiram escapar de sofrer cortes no calcanhar.
O corpo de Lamia é um misto de humano e fera, mas não numa progressão gradual e igualitária por todo seu corpo. Enquanto da cintura para baixo ela já é uma fera, o resto do corpo não. Contudo, seu pescoço de fato está alongado, assim como orelhas mais animalescas. Seu cabelo é quase uma crina, ocultando o pescoço. A divisória entre humano e fera é marcada por escamas. Ela se mantém rosnando, mostrando os dentes para os homens da Igreja, que estão bastante assustados. Alguns, se curando, com frascos de sangue. Lamia aperta com mais força o cabo de seu cutelo.
— Venham.
Victoria desvia de outro pesado golpe da roda de Johannes, flagelando sua arma na direção do caçador, que pula para fora do alcance do ataque, usando a roda como um escudo contra o chicote metálico.
“Realmente” ele pensa, em alívio. “Tem bastante mercúrio aqui.”
Victoria está avançando quando percebe que Johannes não estava se movendo de forma errática, apenas fugindo de seus ataques. Ele estava indo atrás de um objeto, largado naquela gruta. As sobrancelhas de Victoria se arregalam, quando percebe o que Johannes está fazendo. O que está na mão dele.
O som do disparo do canhão preenche a gruta, com Victoria sendo jogada até uma de suas paredes. Cai no chão com seu rosto retorcido em dor.
“Maldito caçador” ela pensa, com dificuldade, tamanha é a dor.
Suas mãos conseguem encontrar frascos de sangue consigo e injetá-los em si. A dor começa se aliviar, conforme a cura adentra, de maneira veloz, seu corpo.
— Estragou minha roupa, Johannes — ela resmunga, em um riso. — E ainda me fez cair nessa porcaria de água. Ah, Jojo, por quê?
Ela se levanta, batendo em sua roupa, tentando remover a água e o sangue.
— Que inconveniente — ela pragueja, olhando para si mesma.
Ele mandou bem. Conseguiu criar uma estratégia e aplicá-la de maneira sagaz e sem ela notar. Victoria queria poder elogiá-lo, mas a raiva de ter sido o alvo da estratégia lhe impede.
“É o esperado de um desses malditos caçadores do Sonho” ela pensa. “Que dor de cabeça.”
Victoria se pergunta se Gehrman lhe deu alguma dica. Aquele maldito. No fim, apenas um caçador, preso eternamente naquela maldita caça. Ela ergue o olhar para Johannes e suspira.
— Ah, esses caçadores! — ela diz, de um jeito brincalhão.
A mulher da Igreja se espreguiça e se alonga. Victoria dá um passo à frente. Cajado em uma mão, facas simples presas ao cinto, e a adaga de Byrgenwerth em sua outra mão. Ela pode lidar com um caçador, mesmo que seja um vindo do Sonho. Ele tem uma roda, um ex-Executor. Também tem um canhão agora, mas aquela arma exige munição demais, se tornando inútil rapidamente. Ela então olha os olhos do caçador, tão convictos e tão selvagens. Duros. Desejando sangue após tanto tempo sem poder ver a matança acontecer de verdade. Victoria sente um desconforto com isso.
“Não, eu consigo matar um caçador”, ela reafirma para si mesma. “Mas aquele olhar… Realmente, não é muito diferente de Gehrman, e que os Eminentes me perdoem, mas lembram até mesmo Laurence.”
Os dentes de Victoria se cerram, se lembrando de antigos amigos, quando Byrgenwerth ainda era algo além de uma mera piada que zomba do que um dia aquele lugar já foi. Maldito seja Laurence, por partir daquele jeito, e todos os imbecis que o seguiram. Maldita seja sua Igreja, sua maldita caçada de mentirinha e tudo que ela teve que engolir em Yharnam. Maldito seja Gehrman, seus caçadores e sua maldita e pálida Lua. Maldito seja o Clero. Maldita seja Rom. Malditos sejam os Eminentes.
“Só sobrei eu” ela pensa amargamente, sentindo a ânsia de tremer em angústia.
Johannes, no lado oposto, ajeita sua roda em seu ombro, após recarregar o canhão. Deu sorte de Euthymos ter deixado uma boa quantidade de munição. Ergue o olhar para Victoria, em suas roupas da Igreja (agora maculadas pela água e pelo sangue). Ele já usou roupas parecidas. Já teve amigos que usaram aquelas roupas, e os deuses sabem, o quanto ele tentou permanecer fiel a tudo aquilo. Mesmo conforme ia cada vez mudando mais. Mudando até o ponto em que o Johannes que um dia quis ser fiel a Igreja da Cura já não era mais ele, buscando algum tipo de alívio nos Executores.
Teve amigos na Igreja da Cura. Amigos que vieram com ele desde uma infância, agora enevoada, até o momento que foram enviadas para ser educadas no clero, pois havia muita honra para uma família em ter um filho membro da Igreja da Cura. E ele conseguiu se adequar no clero, se espremendo nos moldes e nas formas que eram exigido que ele seguisse. Se tornou até um caçador pela Igreja! E então tudo começou a mudar. A cada caçada, amigos de outrora se tornavam mais e mais distantes. Amizades sustentadas por um passado que não ressoava mais com Johannes. Amizades que eram mantidas pela comodidade de que sempre existiram, e que só existiram por mera circunstância. E todos aqueles laços e memórias pareciam mais e mais difíceis para Johannes se apegar. Por valor e fazer a manutenção dessas relações. E ele se sentia mal por isso. E assim, ele se tornou um Executor. Se afastou, sim, mas pelo menos foi por um objetivo nobre. Afinal, ele também havia se tornado um caçador do Sonho! Ele tinha grandes coisas a cumprir, como um herói saindo em uma jornada épica.
“Apenas uma desculpa para fugir” ele relembra. “No fim, o mesmo aconteceu como Executor… Agora sou apenas um caçador, eu acho.”
De Executor, logo se sentiu mais e mais um caçador qualquer. Não um Executor ideal: sem misericórdia por bestas, um devoto fanático a causa. Ele tentou. Máscara após máscara, ele tentou. “Mudar” assusta Johannes. Ver que um eu passado não se equivale mais a ele o causa certo temor. De um dia olhar para trás e não entender mais quem ele é, ou pelo menos, quem ele foi. Se não notasse que mudou, como poderia notar caso estivesse se tornando uma fera?
Victoria joga sua adaga para cima e estende a mão para Johannes, que vê um brilho surgir, para então o escuro de um céu noturno. Ele salta para trás mas ainda é atingido por tentáculos que surgem daquele escuro, se debatendo de forma tempestuosa. Johannes cai, assustado, e precisa rapidamente se levantar, sem tempo para grandes considerações — Victoria pegou sua adaga e está novamente avançando contra ele. Sabe que não deve ser atingido pela adaga, sendo um peso extra. A adaga, as magias de Victoria e também seu chicote. Precisa levar todos em conta.
Seu olhar é puxado para Lamia, temendo por ela. Ela parece estar lidando bem com os inimigos, apesar de parecer cansada. Queria poder ter certeza e pedir desculpas para Lamia uma vez mais pelo modo como agiu ao se encontrarem. Por ter matado Euthymos.
Ele mudou, uma vez mais. Talvez no começo dessa jornada para a Vila Edda diria sem pestanejar que odeia feras, mas agora sente pena por elas. Sente culpa por ter que matá-las. Parando para pensar, se sente desprovido de ódio nesse momento. Nem mesmo contra Victoria, que agita o chicote contra ele. Johannes defende com sua roda, sem problemas, mas Victoria agita as correntes para que elas subam, logo após acertar o caçador — e então as traz para baixo. Um corte é feito na testa de Johannes e por sorte não atinge nenhum de seus olhos. Victoria Shelley vê o modo como os olhos do caçador se reviram por causa da dor do golpe e então retornam para baixo, se fixando nela. E isso revira as entranhas da mulher junto de uma sensação gélida.
Johannes se pergunta se isso que está sentido é a tal “Zona” que Maria fala. Luta embriagado por uma sensação de leveza indescritível. Como se tudo que pudesse sentir vindo de si e do mundo fosse simpatia.
Victoria salta para trás, receosa, batendo seu chicote contra o chão, fazendo-o voltar a forma original — um cano metálico. Johannes endireita sua postura e olha para cima, sorrindo.
— Pois, na terra e no céu, eu, sozinho, sou o honrado — declama, com uma voz calma, respirando fundo o ar.
Sua roda absorve de seu sangue, com formas que parecem caveiras surgindo e sumindo pela névoa rubra. Victoria revira os olhos se inclinando para frente sua boca se abrindo. Sobre a lâmina de sua adaga, Victoria vomita um líquido prateado, que brilha no mesmo aspecto arcano, azulado, de suas magias. Ela junta suas duas mãos, com o cano e a adaga, como se em uma prece e as ergue acima da cabeça. Johannes dá um passo pesado à frente, apoiando todo seu corpo naquela perna. Se preparando para correr na direção de Victoria.
O ambiente escuro da gruta se torna escuro, mergulhando o lugar em um breu profundo. E então, um pouco de clareza é trazido ao lugar e Johannes e todos os demais percebem que estão envoltos não por apenas escuridão, mas por todo um cosmo. Lamia vê estrelas, nebulosas e todo tipo de astro ao seu redor.
Johannes, então, começa a ser alvejado por meteoros, que explodem ao tocar o solo da gruta, em um brilho azul. O caçador se impulsiona para escapar dos ataques, correndo em zigue-zague. Victoria parece excepcionalmente focada naquilo. O caçador percebe que precisa tirá-la daquela concentração para acabar com aquilo. Ele aponta o canhão, pronto para disparar. Teria sido um tiro certeiro se um dos meteoros não tivesse caído perto dele, a explosão o derrubando.
Tanto Johannes quanto Victoria atingem o chão, alvos dos danos colaterais de ambos os ataques. Ambos usam um frasco de sangue para repor o vigor e aplacar a dor. Olham um para o outro, friamente, se levantando vagarosamente. O Cano se torna chicote, uma vez mais. O canhão é deixado no chão, pois só seria uma âncora para o caçador. O ar adentra furiosamente o corpo de cada um dos dois. E então eles avançam. O chicote traça um arco violento contra o ar, rasgando-o, apenas para o caçador girar o corpo no próprio eixo, defletindo o chicote com a roda.
A adaga de Victoria avança por baixo, sendo ela muito mais esguia que o caçador. Johannes, ainda no embalo de defender-se do chicote, atira contra Victoria, e o impacto da bala de mercúrio abre uma brecha, pequena, mas o bastante para Johannes. Aproveitando o embalo, sua velocidade e seu peso, ele realiza um golpe com a roda. E a roda atinge o torso de Victoria, que é jogada para longe, tamanha a força do ataque.
Acerta o chão com tamanha força que acaba quicando no chão, caindo uma segunda vez contra o solo apenas para rolar pelo chão úmido que tanto odeia. A água, se agitando e então começando lentamente a se acalmar, conforme se tinge de vermelho ao redor do corpo de Victoria Shelley, a última estudiosa de Byrgenwerth.
— Johannes! — Lamia grita, chamando-o. — Aproveite e saia daqui! Vá ajudar elas!
Em passos mancos, devido ao cansaço, ele sobe as escadas. Lamia ainda precisa terminar de derrotar os últimos membros da Igreja, mas seu foco é enviar Johannes ao auxílio de Pyrrha e Maria. Ela pode ser deixada para trás. Lamia vê Johannes passando por eles e sente um aperto no peito. Não queria ser deixado para trás. Queria ter tido a chance de conhecer Johannes antes. E antes que ela pudesse finalizar seus pensamentos, Johannes, com sua roda, atinge os crânios dos homens contra quem ela digladiava. Alguns deles caem para fora da escada, morrendo com a queda. A roda de Johannes chega ao chão e ele respira de maneira ofegante, pesadamente.
— Não vou te deixar para trás — ele fala, olhando para Lamia.
Maria se debate, ainda capturada na cauda daquela fera, que se declarou sendo o ser que os moradores da Vila Edda cultuam. Ela tenta se debater mas não consegue medir forças contra aquilo. E, mesmo sem saber que está desconectada do Sonho do Caçador, consegue sentir que algo dentro de si está estranho. Tal pensamento vem à tona quando ela cogita se atingir com a própria arma, forçar um recomeço. Sente que não haveria retorno caso ela escolhesse usar seu machado contra si.
O Eminente em forma de fera sente a caçadora se debatendo repetidamente e a arremessa para longe. Pyrrha vê sua guardiã sendo jogada para longe, além das ruínas do que era antes a igreja.
— Maria! — Pyrrha grita, tentando sair correndo até ela.
A mão da fera se põe na frente dela, impedindo-a de ir. A criatura puxa Pyrrha, lentamente, para um gentil abraço. Pyrrha não consegue se ver reagindo a aquilo, apesar do horror de sentir a textura daquele ser. Vê-lo tão perto de si. Ela queria que Maria voltasse e, magicamente, matasse aquela fera, como sempre faz.
— E por ser seu Grande Pai, eu quero que você, sangue do meu sangue, leve a frente nosso legado — a besta primordial profere. — Que mais crianças, belas sim, nasçam e levem a frente essa cruzada. Contra a humanidade sem freio. Contra os caçadores vis, com suas armas de ferro e balas de mercúrio. Faça a própria lua se remoer em ódio!
A besta Eminente puxa Pyrrha ainda mais para perto de seu abraço, seus pés não conseguindo frear o ato. O peito da criatura é aberto, suas costelas parecendo uma boca, afiadas e apontadas para fora.
— Aceite seu dever — ela pede. — A bravura de ter enfrentado ordens, dilemas e até nossa hierarquia apenas mostrou como você, de fato, é uma fera, mesmo que lá dentro. Ordens, afinal, são para humanos.
O interior do tórax da fera, invés de forrado com pulmões e um coração, possui apenas o que parece ser entranhas, rosadas, como se o único órgão que ela realmente possuísse fosse o intestino. E conforme a fera lentamente a arrasta para mais perto de seu peito, as paredes do intestino começam a se moldar, como se tentasse alcançar Pyrrha. Se moldam em rostos e mãos, talvez humanos, que buscando agarrar a garota.
Pyrrha quer gritar mas o grito, sua voz, não sai de sua garganta, sua boca apenas se abrindo para emitir um ruído fraco. Seu corpo, em horror, não quer se mover, apenas ficando rígido.
Maria, que manca até a igreja, vê aquilo com o mesmo horror. Ela injeta frasco após frasco de sangue em si, para se curar dos machucados que acumulou. Sente seus ossos se curando, feridas se fechando e seu corpo se revigorando. Precisa proteger Pyrrha, isso não mudou. E precisa matar aquela fera primordial. Pelo seu irmão.
Por Flora.
Se sente empurrada contra aquela fera, compelida. Como um ímã se atrai contra o metal. Seu machado parece ter vontade própria, parecendo um cão tentando correr, lutando contra a coleira. Dane-se o maldito machado, Maria sente que, acaso fosse preciso, mataria aquela criatura odiosa com as próprias mãos. Afinal, precisa proteger Pyrrha, certo? E salvar seu irmão, o motivo dela estar aqui, para início de conversa. Precisa provar para o imbecil sua família que ela é capaz disso..
O rosto da Grande Fera explode ao ser atingida por algo, um coquetel molotov jogado por Maria, que corre na direção da igreja.
— Solta ela! — a caçadora grita.
Outro coquetel é jogado contra a fera, que agora se vira contra a caçadora e segura a bomba com uma de suas mãos, explodindo-a. Isso liberta Pyrrha daquele transe em que estava, permitindo a ela escapar, se esgueirando para longe daquele monstro, indo pelas ruínas da igreja. Tudo fica escuro, mas dessa vez, Maria consegue pular para longe do ataque da fera a tempo.
— Maria! — Pyrrha apressa o passo até ela.
As duas se abraçam, e a caçadora sente como a garota está tremendo. Ela ergue o olhar para a fera, que apenas as observa, não atacando por medo de acabar machucando Pyrrha.
— Eu tô com medo, Maria — ela choraminga, soluçando.
— Pyrrha, saía de perto dela! — A fera rosna.
Antes que Maria possa responder, Pyrrha, tremendo, diz:
— Não! — Ela se vira na direção da Grande Fera. — Eu não quero! E dane-se tudo isso, eu não quero! E se eu lutar e derrotar você… Eu vou poder ser livre para fazer o que eu quero!
As mãos de Pyrrha, apesar de cerradas, ainda tremem, em medo.
— Então eu vou lutar! Se ninguém vai me escutar, eu vou lutar — Ela desvia o olhar, sentindo lágrimas atrapalharem sua visão. — Eu quero lutar, mas eu não sei como…
Maria move seu olhar para Pyrrha. Tira de seu casaco um pedaço de papel-de-fogo e o esfrega contra seu machado, imbuindo em chamas temporárias. Maria anda até ficar na frente de sua protegida.
— É por isso que eu estou aqui, senhorita Pyrrha — a caçadora fala, ajeitando seu chapéu. — Como sua guardiã, serei sua força.
— Maria — Pyrrha fala com a voz embargada.
A Grande Fera rosna, cheia de ira. Maria corre, sua arma criando um rastro de chamas conforme gira. A fera salta, tentando esmagar Maria, que apenas rola para o lado e então faz seu machado atingir do corpo da besta. A fera urra e fica na frente de Pyrrha, separando-a da caçadora. Ela mostra suas duas mandíbulas, rosnando e eriçando seu pelo, se colocando na ponta das patas.
— Sai de perto dela! — Maria ordena, avançando novamente.
— Separando-a de sua família e deixando-a ir contigo? — a fera vocifera. — Nunca!
Um trovão ecoa pelo lugar, fazendo o corpo de Maria hesitar, permitindo que a fera corresse para longe, puxando Pyrrha consigo, enroscada na sua cauda.
— Quem deve cair morta aqui é você, caçadora! — declara a Grande Fera. — Para os abismos do cosmo com vocês, caçadores! Para os abismos lamacentos do vazio com sua caçada de mentira!
Maria tira outro coquetel molotov, o último, e o faz rolar até onde uma das patas da criatura iria tocar. Ela explode e a fera perde o equilíbrio. O monstro urra em dor e completa indignação. Maria consegue correr e dar uma poderosa machadada contra outra pata. A fera grita e sente outra explosão, agora na parte de trás de sua cabeça — Pyrrha usou o coquetel dado por Maria e jogou na nuca do monstro. A Grande Fera acaba soltando Pyrrha, que cai no chão.
A caçadora salta para trás, vendo a fera tombar lentamente, sem o apoio das duas pernas. Sua cabeça envolta por fumaças. Um suspiro de alívio sai da boca de Maria.
Cedo demais.
Uma vez mais, tudo fica envolto por aquela escuridão. Como se fossem subitamente jogadas na hora mais escura da noite mais longa. Pyrrha vê um raio cair, sua luz atravessando e rasgando de forma agressiva a escuridão. O raio atinge Maria, que grita em profunda dor. Por causa da luz do raio, Pyrrha vê a Grande Fera logo atrás de Maria, pronta para abocanhá-la. A Grande Fera ergue sua boca para cima, abrindo-a e se preparando para dar o bote.
E então o barulho de um sino invade o lugar, trazendo a graça de Flora consigo.
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