A escuridão toma conta novamente daquele lugar, removendo a visão de todos ali, exceto da besta fera que a invocou. Um raio cai, e consigo traz luz, permitindo que Pyrrha enxergue por um breve momento, com a luz invadindo sua visão. O raio atinge o corpo de Maria Hazenflug, que grita em agonia assim que as descargas elétricas adentram seu corpo com violência. E por causa da breve luz no local, Pyrrha pode ver a silhueta da Grande Fera, logo atrás da caçadora, pronta para devorá-la. A boca erguida para cima, escancarada, preparando para descer. Uma boca que, em seu interior, parece ser o próprio cosmo. Um céu noturno, um mar de estrelas e escuridão. Sem fim. É quase sedutor. Seria uma galáxia de possibilidades ou apenas as entranhas de uma besta, como qualquer outra?

O corpo de Pyrrha luta, na indecisão entre dar um passo para trás e outro para frente. Em conflito. Um conflito que é cessado quando o barulho de um sino invade o lugar, ecoando de modo agudo, com Pyrrha não conseguindo distinguir da onde vem e a retirando de sua indecisão. E não é somente Pyrrha que sofre de ser retirada do que fazia subitamente. Nesse mesmo momento, os olhos da besta estão encarando, com horror, o que jaz acima delas, na abóbada do céu. A lua. Cheia e pálida. Mesmo naquele lugar — tão claro — aquele satélite odioso se destaca de um jeito que traz somente horror ao Eminente, percorrendo todo seu corpo em um medo indescritível. Isso a faz hesitar. Isso salva Maria.

E então um estrondo é ouvido, de trás da fera, nas ruínas da igreja. Fumaça, chamas e sangue explodem das costas da fera, que urra em dor. Ela dá alguns passos para os lados, cambaleando pela dor, mas acaba por tombar para o lado. Isso abre a visão de Pyrrha para mostrar quem fez aquilo: Johannes, com um pesado canhão.

“O que Euthymos usava” ela percebe, enquanto corre na direção de Maria.

Assim que chega até a caçadora, Pyrrha a faz beber de alguns frascos de sangue, querendo curá-la. O corpo de Maria está quente, ainda dando pequenos choques, mas isso não impede Pyrrha de a abraçá-la, puxando-a para seu colo.

— Senhor Johannes — ela choraminga, em alegria e alívio. — Lamia. Eu… eu… eu estava com tanto medo de não ver mais vocês.

Pyrrha, fisicamente, precisa se focar em empurrar o choro para longe, sua voz se embargando e os olhos teimando em se umedecer com lágrimas que a garota luta para que não rolem pelo seu rosto. Lamia anda até ela, esfregando seu rosto no dela, em um ato carinhoso.

— Vai ficar tudo bem agora — Lamia diz, baixinho.

Pyrrha percebe como os dois estão cansados, claramente tiveram longas lutas. Johannes anda até elas.

— Fico feliz que chegamos a tempo — fala o caçador.

Pyrrha enfim nota que ele está sem as vendas sob os olhos, fazendo-a abrir um largo sorriso, pela surpresa. As bochechas de Johannes se coram, com ele desviando o olhar para a fera. Seu olhar se estreita. Que tipo de fera seria aquela?

A Grande Fera está de costas para seus oponentes, com o olhar erguido para o céu. Para a lua.

— Por quê? — a Grande Fera indaga.

Johannes dá um passo para trás levando a mão até o queixo. Seria essa uma “fera primordial”? O alvo mor deles naquele lugar? Apenas olhar para aquilo gera uma certa dor na mente do caçador. A fera não presta atenção neles, naquele momento. Está estranhamente desconexa, olhando para cima. Olhando para a lua que surgiu naquela dimensão estranha.

— Ela disse que se chama a Antiga Grande Fera — Pyrrha, atrás dele, diz.

Johannes olha para a garota.

— E como isso aconteceu? — ele pergunta, abrindo os braços.

— Minha vó e uma fera estavam esperando a gente aqui — Pyrrha conta.

— Na Igreja — Maria, fracamente, pontua.

— A gente resistiu. Lutamos. Eu não queria me entregar. Eu não queria ficar aqui, eu queria ir embora. — A voz de Pyrrha vai ficando mais embargada conforme ela fala. — E então ela virou… Isso.

As sobrancelhas de Johannes se erguem.

— Ela virou aquilo? Sua avó?

— É — responde Pyrrha.

A mente de Johannes trabalha para tentar processar aquilo, pensativo. Lamia dá um passo à frente, seguido de outros, ficando a frente do grupo. Ela passa a encarar aquela fera. Um rosnado inconsciente começa a ser emitido por ela, que se contorce em ira. Esse é o motivo de tudo, ela pode sentir. Pode sentir que aquilo é a raiz de tudo. E isso a deixa irritada, enchendo-a de raiva. Esses sentimentos chamam a atenção da Grande Fera, que lentamente baixa seu olhar para Lamia, voltando todo seu corpo na direção dela. Reconhecendo-a.

As unhas de Lamia se enterraram na terra. Uma âncora raivosa para o temor que sentiu ao se ver de frente para aquele monstro.

— Lamia? — a Grande Fera chama, dando um pequeno passo para frente.

A voz da criatura invade como um rosnado as mentes de Lamia e Johannes, somente para então, em ecos, se tornar entendível.

— Lamia, por onde esteve? Por que se escondeu por tanto tempo? — a Grande Fera questiona.

Lamia leva as mãos para sua cabeça, aterrorizada com aquela sensação, com aquela voz em sua cabeça. A besta anciã rosna, inquieta, fazendo Johannes entrar na frente de Lamia, mas a Grande Fera apenas ergue o olhar novamente para os céus. Ela ruge para os céus, um rugido de indignação, raiva e protesto.

Quando o rugido adentra na mente daqueles quatro, invés de ser traduzido para algo entendível logo de cara, tudo que eles ouvem é uma cacofonia de sons fora de harmonia, pois ela não está tentando se comunicar com eles. Johannes cai de joelhos, tapando suas orelhas. Para ele, aquele barulho é doloroso demais. Maria também sente dor, mas não tanto quanto seu colega. Já Pyrrha e Lamia sentem a mesma dor e susto com esse estrondo mental de repente, mas elas conseguem discernir certas coisas. Conseguem ouvir os ecos ainda mais distantes do que aquilo era.

A Grande Fera está revoltada por ter que ver seu sangue se voltar contra si mesmo. Se voltar um contra o outro e, ainda pior, se voltar contra ela, um Eminente. Parece ser algum tipo de vingança. A Grande Fera pergunta se isso é uma vingança. Exclama que não foi sua culpa. Se todos esses anos não bastaram. A Antiga Grande Fera, um ancião Eminente — um ser tão grandioso que é como um deus para humanos, vindo dos becos escuros do universo—, grita zombarias e xingamentos.

“Ela não vai voltar” a Grande Fera berra, fazendo Pyrrha se questionar sobre o que ela está falando.

E com quem.

Lamia, que já não aguenta mais apenas assistir isso, ruma na direção do inimigo. Ela avança, finalmente podendo se vingar pelo o que vivenciou, trazendo o poderoso cutelo de Euthymos consigo. Johannes demora alguns segundos, despertando de sua dor para, em tropeços, ir ajudá-la.

Maria se senta, devagar e com dor. Tudo em seu corpo ou dói ou está formigando, ainda dormente. Sua cabeça se move para cima, lentamente. Ela ainda não havia reparado na lua, visível por entre algumas nuvens, com sua luz prateada banhando aquela dimensão estranha. A luz toca gentilmente o corpo da caçadora, que fecha os olhos, cansados, e ergue a mão na direção da Lua. Sente seu corpo se enchendo de força, gradualmente, como se após um longo período de sede tivesse finalmente conseguido tomar um longo gole de água. Maria Hazenflug sente o Sonho do Caçador. Novamente está ligado a ele. O punho da caçadora se fecha e ela começa a se levantar, vagarosamente.

— Maria! — Pyrrha protesta, entrando na frente da caçadora. — Você precisa descansar, nem que seja por um momento.

— Não posso — Maria resmunga, com a voz fraca. — Johannes e Lamia…

— Eles conseguem lutar por um tempo sozinhos, você está muito fraca — Pyrrha retruca. — Você precisa…

Pyrrha sente um vento sacudir seus cabelos e sua capa vermelha. Maria passou como um vulto por ela. Ela se vira na direção da batalha, tentando impedí-la, mas Maria já está avançando, levando seu machado consigo. Longe do alcance de Pyrrha, que cerra seu punho.

Johannes salta para o lado e acerta a boca da fera, que tentou abocanhá-lo, com sua roda. A criatura cambaleia, afetada pela força do ataque desferido contra sua mandíbula. Ela vai um pouco para trás e abre sua boca. Uma luz começa a vir por suas entranhas, subindo, se tornando cada vez mais próxima.

E então, o som de passos se tornam mais rápidos e mais próximos. Maria salta, levando seu machado acima de sua cabeça. Ao chegar no ápice de sua parábola, tudo lhe soa tão devagar. Tudo parece tão em paz. A gravidade a arrasta para baixo e a lâmina do machado se choca contra o focinho da fera, que, de modo abafado, urra em dor. A luz explode por entre seus dentes, uma energia fumegante azulada vazando por entre as presas da Fera. Energia arcana fagulha a pele de Maria. Ela é jogada para trás, caindo e então rolando pela grama. Ela consegue, apesar de tudo, jogar três facas envenenadas contra a gengiva da fera. Johannes a segura, interrompendo a queda de Maria, puxando-a e a deixando de pé.

— Isso foi imprudente — ele pontua.

Maria bufa, revirando os olhos.

— Mas eu gostei — ele diz, sorrindo.

A Grande Fera, tomada por indignação e raiva, misturada com dor pelo golpe de Maria, avança impiedosamente. Como um vulto, como se aquele corpo gigantesco não tivesse massa e a gravidade não tivesse efeito sobre aquele corpanzil bestial. Maria e Lamia vão cada um para um lado, desviando da pata que é estendida na intenção de esmagá-los. Johannes, mais lento, ainda está no processo de colocar força em seus pés para desviar para trás.

Lamia percebe isso e ativa seu cutelo, com sua lâmina se segmentando — dando espaço para o pesado chicote de metal. Ela traz os elos para cima com um balanço da arma, e com um segundo, os traz abaixo, na direção da pata da Grande Fera. Os segmentos correm e cortam facilmente através da carne da fera, como uma serpente. E assim como uma faca quente na manteiga, o chicote atravessa o membro do Eminente, decepando-o.

Johannes quase é pego pelo membro decepado. A força do golpe de Lamia fez ele se chocar mais rápido contra o solo, evitando que o atingisse. O caçador tropeça, caindo e se erguendo de modo atrapalhado, sua mão segurando a alça de sua roda como se aquilo que estivesse mantendo-o vivo.

Invés de sangue, o que vaza do braço cortado da Grande Fera é uma escuridão, tão escura quanto a noite em sua hora mais escura. A escuridão, como piche, tenta se reconectar com a pata caída. Johannes aproveita a distração do oponente, e avança. Ele muda a roda de uma mão para a outra e todo seu corpo trabalha para manter o equilíbrio do corpo, que acumula velocidade. O pé do caçador se torna uma âncora, parando seu corpo e transformando toda a velocidade em força, com sua roda sendo trazida para cima.

A arma acerta a parte de baixo do queixo da fera, que engasga por causa daquilo. Seu corpo todo reage ao ataque, indo para cima e então para trás, tombando e ficando de pé, zonza. Isso abre outra brecha, com Lamia avançando mais uma vez. Seu chicote corta a escuridão que buscava reconectar a pata ao corpo, contudo, seu alvo não é aquilo e sim a pata que ainda se mantém intacta e mantém aquela criatura de pé. Lamia coloca toda sua força no seu braço, erguendo a arma para cima e então colocando todo seu peso e força para descer o cutelo. Os elos da arma criam um belo e harmonioso arco conforme sobem e então descem ferozmente, atingindo e atravessando a carne da Grande Fera. Os elos se conectam no cutelo novamente, firmes, e Lamia termina de cortar aquela pata com um pesado golpe vindo na horizontal.

A escuridão vaza da ferida, igual como foi com o outro braço, agora não só buscando trazer as partes cortadas de volta para si, mas também partindo para cima dos seus inimigos, como água vazando de uma represa. A escuridão avança como serpentes, e Johannes golpeia e desfaz elas com golpe atrás de golpe de sua Roda de Executor. Quando achou que elas haviam acabado, uma nova onda de escuridão serpentuosas avança contra ele, quase criando uma redoma que oculta sua visão. Johannes sente o brilho da lua, acima deles, se intensificar e consegue ver a tempo o que se aproxima dele: uma das patas decepadas da Grande Fera sendo jogada contra ele.

O caçador vai para trás em sobressalto, em passos largos e trazendo sua roda à frente de seu corpo como um escudo. Uma forte lufada de ar sacode o cabelo de Johannes quando a pata passa por ele, sem acertá-lo. E então ele avança, em uma disparada. Ele saca sua pistola, sua Blunderbuss, e dispara contra o peito da Grande Fera, aquela massa de tripas intestinais. O tiro acerta, com sucesso, fazendo sangue voar pela ferida, junto com o forte cheiro de pólvora e carne queimada que inunda o ar.

A pele da criatura começa a se desfazer então, como papel sendo queimado. O olhar de Johannes se cerra vendo aquilo. Era pra ser tão fácil?

A Grande Fera ergue seu torso para cima e uiva. Um uivo que faz os corpos de todos ali presentes reverberar. Sentem cada molécula de seus corpos tremendo por aquele barulho que parece ser potencializado pelos ventos fortes que começam a sacudir suas roupas e cabelos. A visão deles passa a ficar cada vez mais embaçada e o interior de suas cabeças tremem, causando imensa dor. Seus joelhos fraquejam, lutando para mantê-los de pé. Pyrrha e Johannes acabam cedendo e caindo de joelhos no chão, lutando para se erguer e também lutando para não caírem no chão por completo.

O corpo daquele Eminente em forma de fera então começa a não apenas se desfazer, mas com escuridão gotejando no solo daquele lugar. Escuridão, que por sua vez, se transforma em serpentes tão escuras como aquele piche grotesco, que então avançam contra os caçadores e Lamia. Eles se defendem como podem, recuando. Aquele uivo parece estar drenando a força deles, deixando-os incapaz de usar toda sua força para reagir. As serpentes que morrem, se desfazem no chão, tingindo o solo de preto. Lentamente, todo o chão daquele lugar começa a se tornar puramente preto, conforme mais e mais das serpentes são mortas.

A Antiga Grande Fera, ou no caso a silhueta que ainda resta dela, solta um último uivo antes de se desfazer por completo. O uivo se cessa, gradualmente sumindo. Os corpos do quarteto lentamente voltam ao normal, a dor e o estresse derivados do uivo se extinguindo. E então eles se dão conta do quão escuro, como em uma penumbra sepulcral, se tornou aquela dimensão. É como se fosse uma profunda e densa noite, não muito diferente da Floresta Negra. Só que muito pior. Parece que existem ruínas de algum tipo de construção, longe dali, próximo da linha do horizonte. Existe um lago, escuro e lamacento. E também existem raízes, várias delas. Gigantescas. Só que elas não saem do solo, não, não. São raízes que vêm do céu, atravessando as tempestuosas nuvens.

As rajadas de vento uivam por ali, com as nuvens se movendo como vultos amedrontadores tentando ocultar e apagar a lua do céu. Alguns raios dançam por entre as nuvens, com o trovejar distante ecoando até os ouvidos de Pyrrha.

— Ainda não acabou — ela resmunga, baixinho.

Ela ergue o olhar e fala agora mais alto:

— Sinto que ainda não acabou.

Eles dão as costas uns ao outro, cobrindo a retaguarda de cada um. Todos eles atentos. O vento continua a uivar e assobiar, em uma melodia bestial naquelas fortes correntes de ventos. Ventos gélidos como a noite mais fria de um inverno rigoroso. Os caçadores presumem ver vultos, gigantescos, e sem saber se é a Grande Fera ou algum truque do Eminente para deixá-los em guarda na direção errada. Trovões desafiam a atenção deles, assim como relâmpagos buscam ofuscar suas visões.

A Antiga Grande Fera espreita, já sabendo por onde atacar. Um sorriso animalesco abre caminho por sua face lupina, com as duas fileiras de dentes ficando à mostra, já podendo saborear a carne daqueles serviçais lunares cegos a verdade maior.