O primeiro a ver a Antiga Grande Fera espreitando é a caçadora Maria Hazenflug. Inicialmente pensa que é apenas outro vulto, mas quando concentrou sua visão, para tentar enxergar melhor — torcendo para ser só a escuridão —, conseguiu perceber que era de fato a Grande Fera.

Antes que pudesse processar um pouco melhor, ou até mesmo alertar seus companheiros que encontrou o inimigo, um raio cai. A luz ofusca a visão de Maria e o estrondo desnorteia sua audição. Um forte vento assopra e sacode os cabelos dos quatro. E o motivo da ventania então passa por cima de suas cabeças, aterrissando bem em frente de Pyrrha, com suas patas perfeitamente bem, sem sinal dos cortes que Lamia causou.

Rapidamente, Maria, Johannes e Lamia se colocam à frente de Pyrrha, desfazendo a formação prévia agora que o inimigo deu as caras.

A fera rosna.

— Minha filha, não entende o motivo de estar aqui? — proclama o Eminente, estendendo sua pata para Pyrrha. — Não para erguer a mão contra sua família, mas para ser parte dela de verdade. Nós amamos você. Somos os únicos que sempre iremos te acolher. E te amar! Você não precisa abraçar essa imagem falsa de si. Venha para cá. Solte essas armas de ferro e fogo. Venha para o meu lado.

Pyrrha hesita, seu corpo e sua boca cogitando agir. Cogitando recuar. Cogitando avançar com sua pistola ou até mesmo se esconder atrás de Johannes. Sua boca querendo dizer tudo o que tem em seu peito. Todo o amargor que acumulou, a angústia. Mas acaba por permanecer imóvel, como uma estátua. Sente que tem tanta coisa na garganta e na cabeça que queria poder falar. Só que são sentimentos puros. Não consegue por em palavras. E A Grande Fera ri ao sentir isso na garota.

Os punhos de Maria apertam o cabo do machado com mais força, sua irritação vazando pelo seu corpo. Ela corre para cima da criatura diante dela.

— Desgraçado — ela rosna.

A Grande Fera ri, em escárnio, indo para trás e desviando dos golpes consecutivos da caçadora. O corpo da besta gigantesca se move com facilidade para desviar dos golpes de Maria, como se estivesse brincando. A fera pula para trás e cai no chão com o corpo abaixado. Os músculos de sua perna se tensionam…

Johannes corre na direção delas, percebendo o que aquela criatura quer fazer. A Grande Fera avança em um bote, com Maria conseguindo usar seu machado para evitar de ser engolida ou pior. Começa a ser empurrada para trás, e seus pés se firmam no chão como raízes, enquanto seus braços lutam para manter o machado entre a boca da fera e ela. Maria vê o interior da boca da fera começar a se moldar em um lobisomem, sem pele ou pelagem, que tenta alcançar o machado e Maria, na intenção de arrastá-la para dentro.

A roda de Johannes colide contra o rosto da fera, distraída em medir forças contra a caçadora. A pancada move sua cabeça para o lado, permitindo que Maria consiga rolar pela a tangente. A pata da fera esmaga Johannes no chão, em retaliação. Maria leva seu machado contra aquela pata da Grande Fera como uma lenhadora derrubando uma árvore. Sem sucesso, ela vê a outra pata vindo para atingi-la, e ela consegue saltar para trás e desviar com facilidade. Ela rola para frente, conseguindo escapar da Grande Fera tentando abocanhá-la logo em sequência. A Grande Fera erra o ataque e sua cabeça colide contra o chão, erguendo terra e pedra para o ar. Seu corpo todo perde a postura, afetada pelo impacto seco contra o chão, fazendo a pata que antes segurava Johannes agora está vindo na direção de Maria.

“Deu certo” Maria comemora, esperando que Johanes se levante logo.

Ela usa seu machado como uma vara, e com a excelência olímpica de um atleta, consegue saltar alto o bastante para escapar das garras da Grande Fera. Ela cai agachada, com seu machado cortando a grama baixa ao seu redor. Ela ergue o olhar para o oponente, que ergue a cabeça e uiva para as nuvens. Como em um comando, raios despencam do céu na direção da caçadora, com Maria agilmente desviando deles. Uma, duas, três vezes. Consegue sentir sua pele se eriçando pela eletricidade tão perto de si. Seu olhar corre pelo lugar. Johannes está recuando, se recuperando da patada. Lamia está protegendo Pyrrha, as duas observando o embate em uma distância segura.

Outro raio cai, e esse quase acerta Maria. Ela se impulsiona para longe, e comete o erro de não notar a cauda da fera, que vinha pelas suas costas A caçadora é jogada pelo chão, rolando. Quando ia se erguer, sente seu corpo ser jogado para cima. Maria vê a lua, a monitorando, e sente seu corpo reagir naturalmente, se virando para encarar a queda. A Fera está pronta para devorá-la. E em sua arrogância, não vê Lamia avançando ferozmente, trocando de lugar com Johannes para proteger Pyrrha.

Maria percebe aquilo, e um sorriso ilumina seu rosto. E assim, enquanto a fera se estica para abocanhar Maria, Lamia corta os tendões dos calcanhares do monstro, com Maria conseguindo rolar para através do rosto da Grande Fera e seu machado talhar um extenso corte na coluna da criatura. Com isso, ela consegue perder parte da velocidade da queda, mas ainda se choca contra o chão e sente dores através de seu corpo. Lamia puxa a caçadora para longe da Grande Fera, brandindo sua arma.

Elas se afastam, e o inimigo apenas as observa, andando em círculos ao redor delas. Johannes e Pyrrha se juntam às duas, correndo até elas.

— Estão bem? — Johannes pergunta.

— Sim, sim — Maria responde, injetando um frasco de sangue em sua coxa.

O Eminente ri, quase como um ronronar.

— É tão triste ver vocês se aliando a isso, Lamia e Pyrrha. A humanidade.

A fera se coloca sobre as duas patas e estende as garras para o céu. As nuvens se juntam, rodopiando com fortes e gélidos ventos. Os céus trovejam e se iluminam. E quando se iluminam, cenas são exibidas ali.

— É ao lado disso que vocês estão se colocando, minhas filhas! — a Grande Fera proclama.

Os céus trovejam e mostram a ganância: mostram pessoas matando por bolsas com moedas. Violência. Mostrando desde os mais brutais assassinatos até as cenas mais mundanas e corriqueiras de violência, como empurrar um mendigo que implorou por comida. Pobreza extrema, pobreza que só existe porque a humanidade quer. Pessoas sem ter onde comer. Sem ter onde morar. Mas podendo ver, claramente, aqueles que têm. Podendo sentir o cheiro de suas comidas flutuando por suas janelas. Doenças, propagadas pela pobreza e pela ignorância espalhada para as massas. Eles veem guerras criadas pelos ricos, mas lutadas pelos pobres. Paisagens manchadas de sangue e de corpos, corpos de pessoas que sequer ganhariam algo com aquilo. Alguns, até sem saber por e pelo que morreram. A nobreza, presa em luxuosas festas e fartas refeições, enquanto outros se matam pelo lixo deles. Por restos, migalhas e o pior.

Isso é a humanidade — a Antiga Grande Fera proclama, em um rosnado de asco.

Suas patas retornam ao chão, com os ventos e trovões amenizando um bom tanto.

— E, veja, nada disso é feito meu. Tampouco da Lua. E nem de nenhum de meus irmãos e irmãs — a Grande Fera os olha de cima, seus lábios tremendo em desgosto. — Isso tudo são criações suas. A humanidade. Pura e asquerosa. Um abismo escuro e lamacento onde pequenas luzes ecoam, tentando trazer bondade. Tal qual o céu, o cosmo.

O corpo da Grande Fera se inclina para o lado e ela volta a circular o quarteto.

— Muitos da sua espécie cientes de nós, Eminentes, nos interpretam como seres distantes e incompreensíveis. Seres tão grandes que não ligam para o que vocês fazem. Deuses. Desde aquela Byrgenwerth até o Coro da Igreja da Cura, todos fascinados conosco. E a verdade é que vários de nós querem interagir com vocês. De verdade. Só que… Vocês não aprendem. E acabamos agindo como seres humanos ao se deparar com a dor alheia: nós desviamos o olhar. Por vergonha — ela conta. — E ainda assim querem ficar do lado disso? Pyrrha, meu bem, quer mesmo se aliar a isso? A essa sujeira?

Pyrrha está de cabeça baixa, tentando evitar que seu corpo trema. Tentando conter lágrimas, ficando com os olhos bem fechados para que elas não escapem. Seus punhos se cerram com força. Pyrrha respira fundo e ergue o olhar.

— Eu só quero ir pra porcaria do porto! — ela responde, revolta e impaciência recheando sua voz, que se ergue para se fazer ouvida.

As palavras de Pyrrha ecoam, enchendo aquela dimensão distorcida com a determinação da garota.

Em resposta a isso, ao urro de rebeldia de sua descendente, as garras da Grande Fera se afundam no chão, em frustração. Seu corpo se tensiona e ela então avança para cima do quarteto, com Johannes usando o canhão de Euthymos para disparar contra a fera. Fumaça e sangue eclodem do impacto entre o projétil e a besta anciã. Johannes agilmente leva Pyrrha para longe, pegando-a no colo, enquanto Maria e Lamia flanqueiam o gigantesco corpo do inimigo, engolfo em chamas, que se propagam por seus pelos. A Grande Fera salta para trás e escuridão atua como uma manta que a envolve, ocultando onde ela está. O lugar, que já está um breu, se torna ainda mais escuro ao redor da Antiga Grande Fera.

Quando essa escuridão mágica se dissipa, a Grande Fera se revela sem sua pelagem de antes. Sua pele é um misto de escamas verdes e de fibras musculares, uma carne rosada. Se antes os olhos no rosto daquela criatura já brilhavam em vermelho, agora é possível ver que eles acompanham a lateral de seu corpo, seguindo a coluna vertebral da criatura. Todos eles vermelhos, brilhando como rubis. Os olhos continuam por sua cauda, culminando em uma má formada e horrenda boca na ponta dela. A boca na cauda fica na direção de Maria e Lamia, se abrindo em um grito odioso, e então vomitando uma torrente de energia elétrica.

O raio percorre vários metros, cobrindo uma boa área, queimando o solo que toca. É um ataque súbito e veloz, e tanto Maria quanto Lamia sentem que escaparam de serem atingidas e eletrocutadas por mera sorte. Lamia cai rolando pela terra e pela grama, apavorada. Carregar o cutelo consigo é complicado e difícil pelo fato dela ter que andar de forma quadrúpede. Já Maria conseguiu não somente desviar do ataque, como já está avançando, rumando na direção do adversário. Sem tempo para se assustar. Seu corpo e sua mente sincronizam e ela corre com uma potência assustadora, cruzando o espaço entre ela e a fera em um tempo que nem mesmo a besta anciã diria que a mulher seria capaz. Mas Maria ainda é apenas uma caçadora. Apenas uma humana.

A Grande Fera estende sua garra e aceita ser atingida pelo machado da caçadora, em troca de perfurar o abdômen dela com suas garras. A grandiosa besta arremessa o corpo sem vida de Maria para longe.

E então, ela vê o caçador que carrega uma roda avançando na sua direção. A Grande Fera sente vontade de rir, vendo alguém empunhar algo tão ridículo. Ao tentar acertá-lo com sua pata, tal qual fez com Maria, Johannes consegue desviar com perfeição e acertar o membro da Grande Fera, que percebe algo: o talho em seu braço sumiu, o que a caçadora fez com seu machado. E a Grande Fera também não se lembra quando o caçador atravessou toda aquela distância. Ele não estava protegendo Pyrrha?

O caçador se inclina um pouco para baixo, com Maria correndo e subindo na roda, com Johannes arremessando-a contra a presa diante deles. A Grande Fera olha aquilo e confusão percorre todo seu ser. Não havia matado ela? E esse pequeno período de perplexidade permite que Maria crie um talho em seu focinho. A besta tem certeza que havia matado Maria, sentiu sua garra atravessar o corpo da caçadora de modo que nenhuma criatura viva mundana deveria ser capaz de resistir!

A Grande Fera recua para trás, mostrando seus dentes em um rosnado feroz. A besta uiva e raios caem das nuvens. Ao ser atingido pelo primeiro raio, Johannes se vê paralizado pela dor que queima seu corpo. E isso permite que vários outros raios caiam sobre ele. Maria consegue desviar dos raios com facilidade, mas ao ver seu amigo caído, o corpo escurecido e fumegando pelo calor, acaba se distraindo, e é dilacerada pelos raios, que a atingem como uma saraivada de flechas.

E uma vez mais, a fera se vê confusa. Pois assim que tira seus olhos dos cadáveres fumegantes dos caçadores, sente suas patas dianteiras serem quebradas pelos golpes da roda daquele caçador. Seu corpo, sem equilíbrio, cai para frente, e encara com espanto Johannes, ali, de pé. Sua cauda chicoteia e lança o caçador para longe, apenas para ser cortada por Maria, que sai correndo até seu colega, ainda caído no chão.

Ela dá as costas para o Eminente, que lentamente cura as patas quebradas. Os dois caçadores estão conversando entre si. Distraídos. Como se a presença de um ser tão grandioso como a Grande Fera não fosse perigosa o bastante. Com eletricidade vazando pelo corte que Maria fez, a cauda dispara mais uma vez eletricidade, carbonizando Johannes, que ainda estava caído.

A reação de Maria Hazenflug ao ver o colega mais uma vez morto causa apenas horror a besta que está enfrentando aquela caçadora. Sem hesitar, ela leva o machado contra o próprio rosto, cravando-o fundo em seu crânio. Ela cai de joelhos suja pelo próprio sangue, que vaza da ferida que ela mesma causou.

Antes que pudesse terminar o serviço, a Grande Fera a esmaga com suas patas. Sentir o sangue quente se espalhar por sua pata, ao esmagar os dois caçadores, é uma sensação reconfortante para a Grande Fera. Acabou. São só dois caçadores. Não há porque temer. E então ela sente algo estranho. Uma sensação estranha. Como se tivesse ouvido algo, mas sem ideia do que teria sido. Como um frio, mãos gélidas, percorrendo sua espinha. Água morna vertente através de seu crânio. Um aroma nauseante de flores.

“Flora…” a besta Eminente ergue o rosto para a Lua.

E então, sente um machado rasgando a parte debaixo de seu corpo. A fera grita, se debatendo e então tombando sob seu próprio sangue. Quando ela começa a se levantar novamente, rosnando em puro ódio e dor, Johannes atinge a cabeça da Grande Fera com sua roda, derrubando-a novamente.

— O que é isso? — a Grande Fera berra. — Eu exijo que expliquem!

Maria e Johannes se juntam, novamente, se colocando no caminho entre a Grande Fera e Pyrrha. Sem queimaduras ou marcas dos demais golpes que sofreram.

— Um caçador deve caçar, oras — Maria responde, em zombaria.

A luz prateada da lua parece banhar aquele lugar com mais força, em escárnio. A Grande Fera rosna mais e mais, sentindo-se fraca. Sentindo-se imponente diante de dois humanos. Um Eminente! Sendo predado por humanos, meros vermes em uma poça de lama indigna até mesmo de sua indiferença.

— Ei, descansem um pouco — Lamia pede, correndo até os dois caçadores. — Vocês lutaram de modo impressionante. Agora troquem de lugar.

— Acho que talvez tenhamos um plano — Maria avisa.

— Ótimo. — Lamia tosse. — Vou ganhar tempo.

Ela avança, correndo em um ritmo manco. Johannes puxa o canhão de Euthymos, que trouxe consigo, e junto a Maria, começam a juntar as balas que possuem para recarregar a arma.

— Lamia! — A Grande Fera ergue a voz. — Já é hora de cessar com essa imbecilidade. Seja uma boa filha! Tudo isso já perdeu qualquer significado!

Lamia salta, seu cutelo se segmentando e tentando atingir a Grande Fera em um arco agressivo. A arma atinge o chão, com a besta colossal tendo apenas ido para trás.

— Eu odeio tudo isso! — grita Lamia, sua voz se ferindo ainda mais para conseguir gritar aquelas palavras.

A Grande Fera se coloca de lado, contornado a pequena mulher-fera diante de si, e todos aqueles olhos fitam Lamia, brilhando. Ela sente dor, vomitando sangue e sentindo como se lanças estivessem saindo de dentro de seu corpo. A pata da Grande Fera arremessa Lamia para longe, sem dificuldade.

— Lamia! — Pyrrha, horrorizada, grita.

Banhada em seu próprio sangue, Lamia atinge o gramado escuro. O ar entra e sai de sua boca pesadamente, toda a dor em seu corpo transparecendo no barulho que o ar faz ao entrar e deixar seu corpo. Pyrrha corre em sua direção, e antes que a Grande Fera pudesse aproveitar para pegar as duas para si, Johannes e Maria avançam também. Seus passos embargados em ódio, mas também em cansaço. Em convicção, mas também incerteza.

Diante de Maria, existe a cura para seu irmão, a resposta e a conclusão de toda sua jornada, assim como existe o ser que ameaça Pyrrha, quem jurou defender. O vento frio e furioso daquele lugar parece querer empurrar ela para longe, mas a cada passo que dá, sente a certeza que não vão ser ventos fortes ou forças sobrenaturais que vão tirá-la do caminho que traçou. Johannes a cada passo sente medo de esmagar borboletas. Sente medo de precisar reviver isso. Medo do momento em que os golpes se encontraram, contudo, o caçador sabe que ele falhar significa algo horroroso para Lamia e para Pyrrha.

A Grande Fera avança contra os caçadores, tentando empurrá-los para longe e abrir caminho para suas descendentes. Johannes firma seu pé direito no chão, sua âncora. Sua mão esquerda agilmente saca sua pistola e dispara contra o crânio da fera. As garras da fera passam próximas o bastante para causar uma brisa, mas não tocam os caçadores. Johannes pega um coquetel molotov e o joga — colocando todo o peso de seu corpo naquele arremesso — contra a cabeça da fera novamente. Mais uma vez o rosto da Grande Fera é encoberto por chamas.

Maria ergue o canhão de Euthymos e, antes que a Grande Fera pudesse se recuperar, ela dispara com aquela poderosa arma. A Grande Fera cambaleia, afetada pelos golpes consecutivos e golpeando as cegas, buscando manter os caçadores afastados.

— Não é o bastante — Johannes resmunga, observando o oponente.

E então escuro. Eles são encobertos pela escuridão que a Grande Fera dispersa contra eles. Tudo se torna um breu impossível de se enxergar. Não conseguem ver um ao outro, tampouco Pyrrha, e muito menos a Grande Fera. Os dois caçadores ficam um de costas para o outro. Eles golpeiam as cegas, cada um com sua arma. Tentando ouvir algo. Farejar algo. Algum sinal de onde o inimigo está.

Maria sorri, rindo em uma epifania.

— Eu tive uma ideia imprudente. — Ela segura o pulso de Johannes.



Pyrrha ouve o estrondo das explosões, ajoelhada ao lado de Lamia. Ela ergue o olhar apenas para ver Maria e Johannes sendo abocanhados pela fera, que emerge da escuridão. A cabeça queimada e fraturada, vertendo escuridão e sangue das feridas criadas pelos esforços de Johannes e de Maria. Os dois caçadores somem, sendo tragados para dentro da bocarra da Grande Fera. O machado de Maria cai no sombrio gramado do lugar, junto com um braço, que foi decepado pelos dentes da Grande Fera. Uma cruel prova de que o que os olhos de Pyrrha viram não foi uma mentira.

Primeiro, ela abre a boca em descrença, sem conseguir gritar, e só então um grito, de puro horror, sai da boca da garota, ecoando por todo aquele lugar inóspito.

Os dois caçadores se sentem afundando. Como se tivessem caído em um lago ou dentro de algum vasto oceano. Eles enxergam o escuro, com pequenas luzes piscando através dela, como se estivessem fitando um céu noturno, um cosmo sem fim. Sentem mãos tentando puxá-los, mas que não conseguem impedir a constante descida deles. Não que estejam em altas velocidades, é uma travessia gentil, devagar. Sentem que constantemente a consciência quase escapa de seus corpos, como se tivessem com sono e lutando para não dormir. As mãos, sem força para intervir, apenas se desprendem dos caçadores. Eles não conseguem lutar contra isso, se sentem entorpecidos. Precisam lutar para manter suas mentes ativas, como despertar cedo em uma manhã fria.

“Não consigo ver”, Johannes percebe. “Eu quero ver…”

Maria abre a boca, com bolhas saindo dela. Ela se sente totalmente alheia ao mundo externo a sua volta. Não consegue sentir nada. Nem a falta de seu braço esquerdo parece lhe causar dor ou espanto.

— Pyrrha. — Escapa da boca de Maria.

Pyrrha. Precisam proteger ela. Precisam protegê-la. Maria precisa levar a cura. Conseguir a cura. Precisar levar a cura para… Alguém? Precisa levar algo para alguém?

— Para quem? — Os olhos de Maria lentamente se fecham, pesados. A sonolência tenta engolir ela cada vez mais.