Através dos panos e do capuz vermelho rubro, bastante gasto e envelhecido, Maria vê as pernas de uma fera. Anatomia e ossos distorcidos, com uma pelagem negra cobrindo-as. Dedos deformados em garras. A caçadora não consegue ver o torso ou a cintura da mulher, mas consegue ver os braços. São humanos. Maria até tenta argumentar, em sua mente, que aqueles braços são magros, pálidos ou que possuem um pouco de pelo demais no antebraço, mas ainda eram humanos. Assim como o rosto, magro e pálido, com lábios secos, mas sem um traço de transformação. Ela nunca havia visto uma transformação gradual desse jeito. E também haviam as bandagens que deveriam cobrir seus olhos, mas não estão bem atadas. Permitindo a visão das cavidades oculares, vazias. Maria encara aquele ser e segura a tocha com mais força.

Pyrrha repara em outro aspecto da fera à frente deles, que rosna, ainda com as mãos sobre o peito de Johannes. Ela repara nos dentes: afiados. E depois nas orelhas. Estão pontudas, muito mais próximas da de um lobo do que de uma orelha humana. O pescoço parecia um pouco maior do que o de um ser humano deveria ser. E o capuz. O maldito capuz vermelho. Johannes, no chão, tenta se mover e, de alguma forma, se libertar. Se move devagar, receoso, mas aquela mão, aquela pata, aplica mais pressão contra ele. Quando sua captora sente que ele está tentando se libertar, o peso no peito do Executor se intensifica. A fera volta seu rosto para o homem debaixo dela, e rosna. Maria, vendo isso, cogita avançar e atacar. Ela moveu o rosto. Porém, Maria está com medo. Medo de errar no tempo de ataque, na força do golpe. Medo de ser impulsiva.

“Temos o Sonho” sua mente diz. “Não precisa ter medo. Mas e se… E se desta vez fosse a vez definitiva?”

“Não, isso é besteira” Maria afirma.

O coração da caçadora pesa ao pensar que Johannes poderia morrer mais uma vez por causa dela.

“Não, Johannes quem iria para o Sonho, nesse caso” sua mente pontua.

As mãos de Maria apertam o cabo do machado com mais força. Seus pés se tensionam. Deveria atacar? A fera, se curva um pouco mais sobre Johannes abrindo a boca ainda rosnando. Ela parece tossir, quase como se tentasse puxar algo do fundo de sua garganta. Ela arranha o chão ao lado de Johannes com uma das mãos, enquanto a outra se fecha, arranhando de leve o peito do caçador. Maria ia avançar quando sente a mão de Pyrrha segurando seu braço. A caçadora olha para a garota, confusa. Os olhos de Pyrrha estão arregalados. Maria não sabe dizer se em pavor ou outra coisa.

— Quem… — A voz ecoa pelo cômodo. Rouca, arranhada, seca. Fraca. Ofegante.

Maria ergue a sobrancelha, se lembrando de Euthymos, que também tinha um resquício de humanidade. Ela realmente disse aquilo? Ou foi só Maria confundindo os ruídos de uma fera com fala? É comum que pessoas atingidas pelo flagelo da fera ainda consigam falar durante os estágios iniciais da transformação, quando ainda retém sua forma humana. E faz sentido aquela mulher-fera conseguir falar, na verdade

— Quem são vocês? — As palavras saem com dificuldade da boca da mulher.

Ela não olha diretamente para eles, mas sua cabeça se move como se estivesse na influência de uma melodia, de um lado e para outro. Seu nariz constantemente farejando o ar e suas orelhas tendo tiques com os barulhos que elas captam.

— Tem… Cheiro de sangue.

Ela tosse novamente. Maria não sabe bem o que dizer. Geralmente as feras que falam costumam apenas gritar maldições e xingamentos. Raramente diálogos como aquele.

— Somos viajantes — Pyrrha responde.

— Onde… — A fera tosse. — Onde está Euthymos?

Pyrrha morde o lábio, receosa em responder. Maria baixa o olhar, pensativa.

“Que situação” ela pensa.

Como iria contar isso? Mentir certamente não seria uma boa opção, pois caso ela percebesse, poderia ficar hostil.

— No caminho para cá acabamos encontrando com ele — Maria conta. — Ele nos atacou e não conseguimos conversar com ele. Ele infelizmente está morto.

O rosto da mulher, que antes era de receio e confusão, agora é tomado por surpresa. E então dor. Não física, apesar de haver uma grande dor em seu peito ao saber daquilo. A fera sai de cima de Johannes, em passos tristes, e sobe na cama. Ela se senta, ainda bastante desnorteada. Quando se move, ela acaba parecendo bastante bestiais — mais um lobo do que humano. É nas ações mais simples e que exigem mais de seus braços, que seu lado humano se mostra ainda presente. O modo como ela tapa sua própria boca, tentando tapar um soluço, ou como ela morde o lábio, tentando conter um choro.

— Ó Deus. — Ela soluça. — Euthymos, ó Deus.

Johannes está se levantando lentamente, com precaução, mas parando ao ver aquilo. Uma fera lamentando a morte de outra. Ele sente empatia, assim como Maria e Pyrrha sentem, apesar de cada um sentir um certo nível de confusão e conflito por isso.

— Vocês não são da Vila Edda, eu presumo — a fera diz, tristemente. — Se fossem, já teriam me matado também.

— Não, não somos — Johannes resmunga. — Mas estamos indo para lá.

O rosto da mulher-fera se molda em confusão. E então em medo. Ela estala a língua duas vezes e suas mãos agilmente encontram o copo, pegando um olho e colocando-o em uma das órbitas vazias. E depois fazendo o mesmo com o outro olho no copo. Ela pisca duas vezes e sacode de leve a cabeça. Seu olhar se foca em Pyrrha Perrault, que tenta disfarçar o horror de ver alguém colocar globos oculares que estavam imersos em sangue, como se fosse um chapéu.

— Você… Você está sendo enviada para a Vila, não é? — a fera pergunta, se inclinando na direção de Pyrrha.

A garota olha para os caçadores, com medo de responder. Maria dá os ombros, achando que não tem porque mentir. Johannes assente com a cabeça, em um movimento sutil.

— Sim — Pyrrha diz, apesar de hesitante.

A fera rosna, suas mãos se fechando contra os lençóis.

— Malditos — ela resmunga, rosnando.

Johannes olha para Maria. Podem conseguir respostas. As respostas e informações que Victoria Shelley quer e que talvez que viabilize uma cura para o irmão de Maria.

— Me perdoe por perguntar, mas qual seria seu nome? — Maria indaga, dando um sutil passo a frente.

— Lamia. Meu nome é Lamia — ela responde. — E vocês devem ser os caçadores que estão escoltando a garota, certo?

Os dois assentem e o rosto de Lamia percorre diversas emoções.

— Não muito diferentes de Euthymos — Lamia resmunga. — Querem um conselho? Voltem. Voltem agora. Para Yharnam ou qualquer outro lugar.

— Infelizmente, presumo que não podemos. Não agora — Johannes fala.

— Vocês não entendem! — Lamia ergue a voz, latindo.

Pyrrha dá um passo à frente.

— Então nos explique! — pede. — Por favor, viemos às cegas até aqui, e o que mais nos faria bem é saber o que se passa por aqui. Na Vila Edda, com as pessoas daqui… E comigo.

Lamia fica mais séria, com os olhos encarando Pyrrha com pena. Ela se vê naquela garota. O capuz vermelho. As orelhas pontudas. Os caninos dela já estão ficando mais protuberantes do que o "normal".

— Eu já fui que nem você, garota. — Lamia começa a falar.

— Pyrrha — a garota pontua, interrompendo Lamia.

— Ah, Pyrrha — Lamia resmunga, desconcertada. — Perdão.

— Tudo bem — ela responde, sorrindo docemente.

Maria respira fundo. É uma situação tão absurda: ver Pyrrha corrigindo aquela mulher, tomada pela praga da fera de um jeito tão peculiar, interrompendo-a para se apresentar. Johannes se sente estranho. Enquanto ouve as explicações daquela fera, sente um ímpeto em atacar ela. O cheiro de fera embriaga seu nariz, enjoando-o. Sente que deveria atacar, como se seu corpo estivesse coçando para isso, querendo obedecer a esse instinto.

— Já fui parecida contigo, Pyrrha — Lamia volta a falar. — Quando fiz dezoito anos eu fui mandada para a Vila Edda. Euthymos veio comigo. Um caçador para me proteger no caminho. E então nós chegamos na Vila Edda…

Pyrrha sente medo do que vem a seguir. Tem medo da verdade, pois ao mesmo tempo que a deseja, a teme. Johannes, do contrário, está ávido por ela, tal qual um filho esperando para receber um doce dos pais.

— A Vila Edda é um lar para as feras. Os vínculos dela com Yharnam, com a Igreja da Cura, são fortes. Antigas, e confesso não ter total compreendimento — Lamia conta. — Aquele lugar, com suas casas, igrejas e outras coisas tão… Humanas, é habitado por feras. Feras que pacificamente coexistem ali, quase que travestidas de gente. Que caçam pelos bosques que existem por aqui e, às vezes, os caçadores que a Igreja manda para cá. Como Euthymos. Como vocês.

— Mas como assim? Por que a Igreja teria relações com uma vila de feras? — Maria pergunta, confusa. Ela cruza os braços, erguendo a sobrancelha.

Lamia suspira, tocando seu cabelo.

— Eu não fiquei lá muito tempo — ela explica. — E estava muito assustada para procurar por respostas. O que eu sei é: a Vila Edda é o berço da praga da fera, e ela é perpetuada porque a Igreja quer. Fornecendo o sangue tirado de lá, o sangue antigo, como algo medicinal.

Lamia ergue o olhar para Pyrrha.

— Nós somos o sangue da cura.

— Nós? — Pyrrha leva a mão até seu peito, confusa.

— Nós, o povo de Edda e todas as pessoas e feras que tem suas raízes lá. Minha família. A sua. Todos fadados a virar feras.

O rosto de Pyrrha se transforma em puro horror, seus olhos se arregalando e seu lábio tremendo. Lamia suspira, triste. Falar aquilo é amargo.

— É inevitável. Todos com sangue que vem da Vila Edda, eventualmente se tornam feras. Algumas, até piores que as que vocês dois, caçadores, vêm durante suas caçadas. Talvez eu seja uma delas, não acham?

Lamia tenta forçar um sorriso, mas Pyrrha não consegue responder. Não quer acreditar que aquilo é verdade. Não quer acreditar que ela pode se tornar uma fera. Ela olha para sua própria mão, com medo de ver, agora, algo nela. Ainda parece humana, mas ainda assim, agora existe uma eterna dúvida em seu peito. Pyrrha sente a mão de Maria em seu ombro. Ela se vira para a caçadora, com olhos marejados de lágrimas, e Maria apenas sorri, abraçando-a.

— Vai ficar tudo bem — ela diz, baixinho. — Vamos encontrar uma solução.

— Lamia — Johannes chama. — Ainda tenho uma dúvida. O que exatamente fazem com as garotas enviadas para a Vila Edda?

A fera olha para ele com olhos tristes. Não por Johannes, mas por Pyrrha, por ela ter que ouvir tudo isso de uma vez só. Queria que pudesse poupá-la, de algum modo, de receber toda essa quantidade de verdades cruéis.

— As garotas enviadas para a Vila são casadas com um membro da Vila. Uma fera. Sua mente é moldada para que aceite… Aceite… Aquilo — ela explica, juntando as mãos e massageando-as. Sentindo sua pele, ainda humana. — E então damos luz a mais feras enquanto nós lentamente também nos tornamos feras.

Pyrrha se encolhe no abraço de Maria, tentando segurar um choro que teima e luta para ser solto. Aquilo não pode ser verdade. Não pode ser. Seu pai é uma fera? Ele sempre foi meio fechado e estóico mas nunca agiu como uma. Sua mãe, certamente se esconde, mas é por alguma doença.

“A bestialidade não é uma doença?” a mente da garota pontua.

— Eu fui salva por Euthymos — Lamia continua a contar. — Ele conseguiu se livrar das feras que tentavam matá-lo. Provar da carne de um caçador. E então fugimos para cá, lutando sem fim contra tudo e todos. Sem conseguir ir embora. Sem… Ter para onde ir. — Ela desvia o olhar. — E então Euthymos passou todo esse tempo nos defendendo. Me defendendo. Lentamente nos tornamos… Isso.

Lamia tenta soltar um riso triste, mas ao ver como Pyrrha está, ela murcha, triste.

— Me perdoe por você ter que ouvir isso. Mas saiba que você teve sorte de vir com esses dois caçadores. E por ter no fim parado aqui.

— Então minha mãe… — A voz de Pyrrha, já embargada, acaba falhando.

Maria acaricia as costas dela, tentando acalmá-la.

— Sua mãe? — Lamia ergue a sobrancelha, inclinando a cabeça.

Pyrrha não consegue falar, e finalmente deixa o choro sair. Finalmente aceita a dor de que as pessoas que convivia e amava escondiam algo dela. E isso dói. Maria se culpa por não saber o que dizer, ou como dizer. Sente que, não importa o que diga, vai soar superficial. Talvez até falso. Logo, tudo que pode fazer é assegurar a menina que ela está ali. A abraça e acaricia os cabelos e as costas dela. Eventualmente acaba dizendo coisas como “deixe sair” e “está tudo bem, eu estou aqui”, e até essas simples palavras a amarguram. Não sabe o quão adequadas são.

Maria se culpa. Ela tem um irmão mais novo. Deveria ser capaz de agir numa situação dessa. Se pergunta o quanto de si, como irmã mais velha, já se perdeu, na necessidade de uma Maria que é uma caçadora. Se pergunta o quanto mudou e o que seu irmão veria quando ela retornasse. Se ela retornasse. Se ele estivesse ainda vivo.

— Se vocês não vão voltar, o que vão fazer? — Lamia indaga.

Johannes volta seu olhar para Maria, que também o olha. O que fariam naquela Vila? Expurgar todas as feras? Por um lado, Gehrman disse que Maria deveria abater uma “fera antiga”, mas já conseguiram o que Victoria quer. Sequer sabem se conseguem lidar com todas as feras que devem existir na Vila Edda. Não é um local pequeno. Deveriam só voltar? Depois de voltar, o que fariam? O que a Igreja faria com eles?

Lamia se ajeita na cama.

— Bem, podem ficar aqui por um tempo. Organizar suas cabeças. Pensar sobre o que farão — ela fala. — Mas aviso: não temos mais Euthymos protegendo este local. E certamente, vão vir ver quem saiu vitorioso. Como aves agourentas atrás de carniça. Virão atrás da garota.

— E o que você fará? — Johannes pergunta.

— Eu não vou ceder a eles. Isso eu sei. Eu… Eu vou lutar, se for preciso. — E então seu olhar se move até Pyrrha. — E vou proteger a garota.

— Vai? — o Executor indaga, desconfiado.

Lamia faz que sim com a cabeça, um movimento delicado.

— Ninguém merece o destino que a Vila Edda quer dar para ela. — Ela leva a sua mão até seu peito, fechando a mão, com amargor. — Confiem em mim quando digo que irei defender Pyrrha. E confiem em mim quando digo que qualquer fera que chegar perto de mim não sairá viva.

Maria assente com a cabeça.

— Vamos nos sentar, Pyrrha. Beba um pouco de água — a caçadora fala, baixinho.

As duas se sentam e a garota pega seu cantil de água, dando um longo gole. Lamia desce da cama, andando de quatro. Ela passa por Johannes, que dá um passo para trás. Tanto para dar licença, tanto por receio. Por mais que tenha entendido que Lamia não oferece perigo, ainda tem anos de caçada lhe dizendo que ela vai atacar. Que ela é um perigo.

— Caçador, venha comigo — ela pede.

Johannes move a cabeça para Maria, que também sente uma confusão com aquela situação, contudo Lamia até então não ofereceu hostilidade, fora o primeiro momento. Até agora, deu motivos para confiar nela. Maria meneia a cabeça na direção da onde a mulher-fera está indo, com um sorriso encorajador. Johannes suspira e a segue.

Eles saem daquele cômodo, retornando ao hall. Johannes olha com certa curiosidade para Lamia. O estado de transformação dela e como afetou o jeito como ela se move, como ela se anda. Como os trapos e o capuz mesclam seu corpo. Pernas e cauda de uma fera. E então panos. E então braços humanos. E uma cabeça humana, sim, mas com as orelhas de uma fera.

— Você é da Igreja da Cura, certo? — ela pergunta, quebrando o silêncio.

— Sim, digo, acho que sim — ele responde, desconcertado. — É complicado. Já era antes e depois do que você contou… Se torna ainda mais difícil.

— Como se sente tendo que conversar com alguém como eu?

Johannes não consegue responder, sua boca se movendo sem sair som algum, sem conseguir formular uma resposta adequada. Lamia sorri, sem olhar para o caçador. Ela para, no meio do hall, e se vira para Johannes.

— Juro que eu entendo como se sente — ela fala. — Nem sempre fui assim, afinal. Já fui uma cidadã de Yharnam. Logo, deve imaginar como foi me ver ficando assim, dia após dia.

— Peço perdão pelo meu comportamento — Johannes resmunga, envergonhado.

Lamia move a mão para o arco de pedra na frente dela.

— Essa passagem leva para uma escada que levaria vocês até a Vila Edda. — Ela começa a andar na direção dela. — Eu e Euthymos viemos por aqui.

Eles adentram um pequeno corredor, que logo se inclina levemente para cima, em uma espiral, se tornando uma escada.

— Tivemos que selar a entrada. As feras da Vila tentavam entrar por aqui. Para me capturar — relata Lamia. — Por sorte aqui haviam vários móveis. Conseguimos impedir a entrada. E daí só sobrou a entrada externa, pela qual vocês vieram. Que Euthymos defendia.

— Você não nos odeia? Por ter matado ele? — o Executor indaga, logo atrás dela.

— Creio que era inevitável — ela diz, devagar, pensativa. — Caçadores diantes de uma fera, depois de tantas outras. Lamento a morte dele e queria que tivesse sido diferente, mas… Essa é a realidade em que estamos. De nada me adianta criar e alimentar ódio contra vocês. Vocês “são” Euthymos, em essência. Assim como eu “sou” Pyrrha.

Ela tosse e passa um momento em silêncio, descansando a voz.

— Caçador, eu posso lhe pedir algo? — Pergunta Lamia. — Na verdade, duas.

— Claro.

— Primeiro: caso eu me torne uma fera sem razão, não hesite e me mate.

Johannes engole em seco, mas assente com a cabeça. Lamia ri tristemente.

— Claro que você faria. O que mais caçadores fazem, não é mesmo? — Ela tenta soar brincalhona, forçando um riso que acaba em tosse.

Johannes, em sua mente, pensa em uma borboleta. Caída. Se ela pedisse para ser pisada, seria correto acatar? Lamia para de tossir, e se vira para Johannes. Ela está degraus acima dele, o que a permite encará-lo olho no olho.

— Segundo: não deixe Pyrrha ser levada para lá. Ser pega. Não deixe. Eu imploro. Vocês não tem ideia do que eles fazem. — Sua voz é repleta de súplica e desespero. — O que fizeram comigo!

Johannes engole em seco, assustado.

— O que fizeram contigo? Enquanto você esteve presa, no caso.

Lamia apenas baixa ainda mais o olhar, e se encolhendo.

— Eu tive dois filhos — sussurra a fera, sua voz sendo um crescendo de ansiedade, conforme ela relembra e traz à tona aquelas memórias. — Não queria mas… Mas… Bem, eu não queria eles. Eu estava assustada…

A voz, já rouca e fraca de Lamia, se torna trêmula.

— Demorou para eu notar. Demorou! Eu tive eles aqui e… Eles eram feras. Pelos, o rosto, as garras! E… E eu…

Ela começa a gaguejar, sem conseguir terminar de falar e Johannes não sabe o que fazer. Deveria abraçá-la? Consolar ela? Uma fera. Ela é uma fera? Ou é humana? Não sabe onde começa a fera em Lamia, e onde começa o ser humano. Ele é um caçador ou não? Um Executor! Deveria matar todas as feras. E ainda assim! Ainda assim Johannes sente seu peito se apertar ao ver Lamia tentando conter um choro.

Lamia sente os braços de Johannes a envolvendo, em um abraço receoso. Com medo.

— Tá tudo bem — sussurra Johannes. — Eu vou proteger Pyrrha custe o que custar. Não vão encostar um dedo sequer nela.

— Obrigado. — Lamia funga, respirando fundo. — Posso perguntar se tem ideia do que vão fazer?

Johannes nega com a cabeça, soltando-a do abraço.

— Não. Não sabemos se é uma boa ideia levar Pyrrha de volta para Yharnam mas… Maria precisa voltar para lá.

— A Vila Edda possui um pequeno porto. Um cais, por assim dizer — interrompe Lamia. — Poderiam ir embora através dele.

— Se tiver um barco lá quando chegarmos — Johannes pontua.

Os dois fecham a expressão, pensativos.

— Queria que isso fosse um livro e eu pudesse apenas apressar a leitura para chegar logo na resposta — Johannes resmunga, bufando.

Lamia solta um fraco riso.

— Sinto falta da vida em Yharnam. Eu gostava muito de ler — Lamia comenta. — Eu pensava em trabalhar em alguma biblioteca em Yharnam. Seria… Teria sido interessante.

— Presumo que ninguém iria em uma biblioteca onde eu fosse a atendente. — Lamia faz uma pausa. — Talvez caçadores fossem, pensando bem, mas por outros motivos.

Os dois dão um triste riso e começam a descer as escadas. Lamia pede para que o caçador descanse mas tenha em mente que precisam decidir o que fazer. E para ficarem atentos. Não sabe quando (não “se”) iriam atrás deles.

Ao chegarem no hall, encontram Maria e Pyrrha sentadas em volta de uma fogueira, reacesa. Pyrrha cutuca Maria com o cotovelo, que estava distraída, de olhos fechados.

— Ah, voltaram — diz a caçadora, se espreguiçando. — Posso falar contigo por um momento, Jojo?

Johannes assente com a cabeça. Maria se levanta e vai até o corredor que levaria de volta a escadaria que dá para onde lutaram contra Euthymos, com Johannes seguindo-a.

Pyrrha está sentada próxima ao fogo, se esquentando. Havia ficado com roupas úmidas e frias por causa da última luta, e Maria achou que faria bem para a garota ficar perto do fogo, aquecida. Está abraçando as pernas, respirando devagar. Tentando manter sua mente calma, afastando os pensamentos confusos sobre a Vila Edda. Sobre sua família. Sobre si mesma.

— Se importa de eu ficar aqui também? — Lamia pergunta, andando em círculos.

A garota sai de seus pensamentos, encarando Lamia. Pyrrha sorri e nega com a cabeça, sentindo seu cabelo sacudir com isso. Lamia sorri e deita no chão, próxima a fogueira, de frente para Pyrrha. Uma parte dela sente medo de Lamia, seja por ela ser uma fera, seja por ela talvez ser um aviso para si mesma. Contudo, uma parte de Pyrrha sente pena da mulher. E também sente uma vontade enorme de conversar com Lamia. De fazer perguntas. De querer entender ela, saber quem ela foi.

— Então, é, você é de Yharnam também? — A voz de Pyrrha quebra o silêncio do lugar.

Lamia ergue a cabeça, vendo a expressão curiosa de Pyrrha, que a faz sorrir. A mulher-fera endireita sua postura, enquanto Pyrrha aguarda ansiosamente a resposta.