Pyrrha está bastante ofegante. Aquilo foi diferente das outras batalhas que já tiveram. Sente seu corpo formigar, ainda sentindo a adrenalina em seu corpo, apesar de estar preenchida por um enorme alívio. Acabou. Ela olha para suas mãos, ainda segurando a pistola, e vê que elas tremem. A garota respira fundo. O lobisomem havia dito sobre ela ter escapado. Escapado das feras no caminho para cá? Enquanto ela precisa se indagar sobre significados e tenta fugir de certas presunções, Maria havia visto mais de Euthymos. Havia visto como ele reagiu a ela e a Johannes, na primeira tentativa de derrotá-lo. Viu bem mais de como ele protegeu a garota.

Maria sacode a cabeça. Melhor deixar isso para conversar com Johannes, a sós. Ela tira um frasco de sangue de seu bolso e aplica-o em sua coxa. A dor da agulha sempre faz todo seu corpo se arrepiar, como se mãos geladas e com unhas afiadas percorressem suas costas. Consegue sentir seu corpo se aliviando, conforme se cura.

— Vamos subir as escadarias, que tal? Não aguento mais sentir água nas minhas botas — ela fala, caminhando na direção da escadaria onde, outrora, Euthymos esteve sentado.

Pyrrha corre atrás da caçadora, com Johannes demorando para ir atrás das duas, ainda contemplando a fera que abateu. Não sente glória, tampouco vitória. Também não sente remorso por ter matado aquele antigo caçador, tomado pela praga. Não havia jeito.

“Não havia, certo?” ele se pergunta.

Ele coloca sua arma em suas costas e ruma para as escadarias, lentamente. Ela é longa, e ele alcança Maria e Pyrrha numa quebra de lances, que dá para uma área aberta onde podem observar toda aquela caverna de cima. Maria e Pyrrha encontram o que parece ser resto de refeições, animais e bestas mortas e várias balas de mercúrio.

— Senhor Johannes, venha aqui, encontramos balas! — a garota diz, indo até o caçador.

— Oi? Ah, ótimo. — Ele a segue, para coletar as balas.

— Encontrei alguns frascos de sangue aqui — Maria avisa. — Johannes, use alguns. Tu apanhou bastante. Parece cansado.

Ela joga um frasco para ele, que pega sem dificuldade. Johannes respira fundo e aplica em si. Pyrrha termina de encher seus bolsos com balas quando vê isso. Ela ergue a sobrancelha.

— Posso tirar uma dúvida?

— Claro — Johannes responde.

— Por que vocês injetam o sangue, ao invés de beber? Eu geralmente vejo pessoas bebendo ele — ela indaga.

Maria leva a mão ao queixo, pensativa. No começo ela bebia, até que Johannes explicou para ela que injetar era mais rentável.

— Bem, o consumo popular costuma ser oral, sim, sim. Mas em questões medicinais, que acaba sendo o caso meu e da Maria, aplicar diretamente é mais efetivo. Mais rápido — ele explica. — Mas já vi vários caçadores que ingerem oralmente, também. Os da Igreja.

— Mas eles não sabem que é mais eficiente usar, é, injetável? — Pyrrha indaga, curiosa.

— Sim, sim, acaba sendo mais pelo costume popular — o caçador responde.

Maria, vendo que os dois começam a se engajar no assunto, começa a prestar atenção na formação daquele local, daquela escadaria. Está longe de ser uma formação natural. As pedras possuem formas muito bem feitas, o chão onde estão agora, possuem padrões cravados nele, um padrão circular, com cada círculo avançando a história que elas contam. Maria caminha até a parede, levando a mão até as gravuras que tinham ali. Várias imagens de lobos, da natureza, e de caça. Um lobo caçando um coelho. Um lobo caçando um grupo de homens. E então homens caçando um grupo de lobos. Primeiro com arcos e flechas, lanças e outras armas antigas. E então com armas de fogo. E então os homens começaram a ser caçados por homens. E os homens, caçados por feras. E as feras, por caçadores. O centro dessa gravura, daquele lado da parede, é um círculo perfeito com o que parecem ser nuvens na em volta dela.

“A lua?” Maria se pergunta.

— Sempre tem alguém caçando e sendo caçando, não é? — Ela ouve ao seu lado.

Maria move o rosto e vê Johannes e Pyrrha ao seu lado.

— Mas então quem caça os caçadores? — Pyrrha pergunta, se virando para os caçadores, segurando seu próprio braço.

Johannes abre a boca, indo responder a pergunta, mas se torna pensativo.

— Essa é uma boa pergunta — ele resmunga. — Que certamente a resposta se mostrará para nós, caçadores, eventualmente.

Maria sabe a resposta, já ouviu mais de uma vez Johannes divagar e elaborar sobre o assunto. Já viram caçadores que acabam cedendo a bestialidade, a loucura, a violência. Euthymos, por exemplo. Não é a toa que existem os “caçadores de caçadores”, que trajam roupas semelhantes a corvos, sempre atrás de um caçador que cedeu a bestialidade.

“Nunca se sabe quando você vai se tornar a fera ou ceder a ela. Será que vamos notar? Será que é algo entendível? Ou apenas vamos ver nossos antigos companheiros, em horror e ira, erguendo suas armas contra nós?” Johannes disse para Maria, certa vez.

— Bom — Pyrrha diz, juntando as mãos em uma alegre palma. — Temos mais escadas pela frente. Então, de certo modo, é melhor irmos em frente, não? Devemos estar perto da Vila Edda.

Os caçadores se entreolham. Os dois querem perguntar a mesma coisa, mas sentem receio em deixar a jovem garota desconfortável. Maria respira fundo e dá um passo à frente, colocando a mão no ombro de Pyrrha.

— Pyrrha, tem certeza que ainda deseja ir em frente com isso? — ela pergunta, com a voz baixa.

Pyrrha ergue a sobrancelha, dando um suspiro que vira um riso.

— Não quero voltar, ao menos não agora. Vai fazer isso tudo ser em vão.

Ela fica quieta por um momento, baixando o olhar e mordendo o lábio.

— E, não sei se sou só eu, mas eu quero entender o que se passa por aqui. Com a Vila Edda, com a minha família. — Ela desvia o olhar. — Comigo.

Maria olha para Johannes, que respira fundo.

— Também sinto essa mesma curiosidade, não posso negar — ele resmunga. — Se voltarmos agora, talvez encontremos coisas piores.

Maria bufa e anda em círculos, impaciente e estressada.

— Não sabemos o que vamos encontrar a frente — ela pontua.

— Bom, isso não resume toda nossa jornada até aqui, senhorita Maria? — Pyrrha gentilmente indaga, inclinando a cabeça.

Maria abre a boca, pensando em responder algo, mas acaba soltando um riso. Ela bufa e caminha, em passos pesados, até a escada. Ela olha para trás, para seus dois colegas. E sorri.

— Vamos subir logo essa joça, que tal? Bando de curiosos, vocês dois.

Johannes sorri, ajeitando a alça que repousa sua roda, e tocando as costas de Pyrrha, que olha ele e sorri. Os três começam a subir as escadas, juntos. A escadaria é longa, mas nada difícil. Nada pula contra eles. Nada de assustador surge para atacá-los. E olhando para trás, Pyrrha vê não somente o local onde ocorreu a batalha contra o caçador outrora perdido Euthymos, mas toda sua jornada. Talvez curta. Talvez nem tenha sido tanta coisa, mas… Sente que viveu e passou por tanta coisa. Sente que viu tanta coisa. Sentiu tanta coisa.

Ela respira fundo. Tem muito mais a frente.

Já Maria e Johannes percebem uma lanterna de caçador ali. Eles se entreolham e Johannes, sutilmente, a acende, com um estalo de dedo próximo ao objeto. O grupo segue em frente, passando por um arco de pedra que leva por um corredor, longo, e com espaços para tochas. O lugar, que é de fato escuro, exige que Johannes e Pyrrha reacendam suas tochas.

Eles chegam em uma área mais aberta, como um hall. Existem alguns móveis ali, além de três outras portas. Maria anda pelo lugar. Observa os móveis ali, velhos, e percebe alguns pratos e canecas. Um resto de fogueira. Maria se ajoelha e passa a mão por esse resto de fogueira. Pyrrha vai até ao que parece ser duas tochas apagadas e as acende, apagando e guardando a sua.

— É recente — ela diz em um tom baixo, levando a mão ao cabo de seu machado conforme levanta.

Johannes fareja o ar, inalando os odores presentes naquele ar.

— Cheiro de fera — Pyrrha resmunga, olhando ao redor e sacando sua pistola.

Maria ergue o olhar, respirando fundo e só sentindo cheiro de lugar ruim. Está ficando para trás de Pyrrha nos sentidos?

— Conseguem dizer de onde vem? — Maria cochicha. — Ou melhor, não é só o cheiro do Euthymos? Ele morava aqui pelo jeito.

Pyrrha balança a cabeça, negativamente.

— É diferente — ela fala. — Mas não sei dizer de onde vem. Senhor Johannes?

Johannes ainda não havia chegado nessa conclusão, e estava disposto a assumir que poderia haver outras feras apenas pelo medo e sua atitude sempre receosa. Ele se aproxima das passagens, uma a uma, e inalando a fundo o ar. Não somente a isso, mas ficando atento com sons. Rosnados, por exemplo.

— Vem daqui — Johannes fala, ficando próximo a saída à direita do caminho que trouxe eles até ali.

Os três falam em um tom baixo, e Johannes passa para Maria sua tocha. Johannes adentro pela passagem à direita, em passos cuidadosos. Ele até mesmo tenta conter sua respiração, com medo do barulho dela ser o bastante para atrair a fera que sentiu o cheiro. Johannes engole em seco e adentra no ambiente escuro. Tem uma cama ali, junto com cadeiras e algumas pilhas de roupas. Uma pequena mesa, servindo como uma escrivaninha ao lado da cama, com um copo sobre ela.

Maria entra em seguida e vê alguém em cima da cama, uma mulher. Vários trapos cobrem seu corpo. Parece estar dormindo, encolhida. Somente podem ver seu rosto. Ela possui uma pele branca e parece estar bastante magra. Seus cabelos, negros, correm desgrenhados por cima dos panso que usa de coberta e de seu rosto, impossibilitando mais análises. Maria traz a tocha mais a frente, na direção da cama, buscando iluminar melhor a região. Segura o machado com a mão firme, receosa. Johannes possui em mãos somente sua arma de fogo. O ambiente é pequeno demais para viabilizar o uso da roda.

Maria percebe que a mulher usa um capuz. Um capuz vermelho. E, mesmo através do cabelo, pode ver que ela usa bandagens na região dos olhos, igual Johannes. Mas é Pyrrha quem nota primeiro o que jaz na mesinha. O copo. O copo com dois olhos boiando. O copo, cheio de sangue, que tem dois olhos boiando. Pyrrha pensa em recuar para trás, mas controla seu corpo, e ao invés disso, seu olhar retorna para a pessoa que repousa na cama. Não quer fugir. Não quer se acovardar. Ela vê o capuz vermelho que a mulher traja e lembra das palavras do porteiro, que guardava o caminho para a floresta sombria. Mais que isso, também se lembra de Euthymos.

Não foi a primeira chapeuzinho vermelho.

Ao descer os olhos pelo corpo coberto da mulher, os olhos de Pyrrha se arregalam mais uma vez, assim que vê os pés dela. Só um pouco é visível, os panos e trapos usados de cobertor deixando um pouco para fora. Pyrrha vê somente um pouco dos pés e aquilo não são pés humanos. São pés de uma criatura lupina, digitígrados. Não são pés que se adequam ao rosto que aparece no lado oposto da cama. Pyrrha abre a boca para gritar, mas tapa sua boca com a mão e dá dois passos para trás.

Maria e Johannes percebem a reação da garota e voltam sua atenção para ela, sussurrando perguntas.

— Os pés dela — Pyrrha diz, apontando, tentando controlar seu próprio nervosismo. — Os pés.

Johannes volta seu olhar para a cama, mesmo sem poder ver.

— O que tem ali, Maria? — Johannes sussurra.

E da boca da caçadora sai:

— São os pés de uma fera — a caçadora responde, confusa.

“Por que só os pés?” É o que se passa na mente de todos. A mão livre de Johannes, mesmo sem ele notar, sobe até a alça de sua roda. Mesmo ali não sendo o lugar ideal. O instinto da caçada, o instinto do caçador diante de sua presa faz seu corpo inteiro formigar em inquietação. Seus dedos e seu punho se fecham contra a alça de sua roda. Afinal, bestas são bestas não? Não é o trabalho de um caçador — o trabalho dele — de por tais feras para descansar? Essas existências dolorosas e corrompidas, a linha entre homem e fera quebrada. Elas devem ser abatidas sem um segundo pensamento, não?

A expressão da mulher na cama muda um pouco. Sua boca, antes aberta, se fecha. Seu nariz funga, duas vezes. Maria não sabe se viu isso. A boca dela se mexeu? Ela fungou? Pensa ter visto isso, mas pode ter apenas sido sua mente, assustada, lhe pregando uma peça. Ela dá meio passo à frente. Pyrrha pensa em impedir a caçadora, mas não consegue reagir a tempo. Sua mão não foi rápida o bastante e acabou segurando o ar invés do pulso da caçadora.

Pyrrha escutou não somente as fungadas, mas a respiração da pessoa na cama ficando tensa, quase suspensa.

E tudo, em seguida, ocorre muito rápido. A gritaria ensurdecedora entre o nada e o momento em que a mulher na cama subitamente se levanta. Com um pulo, ela fica de quatro na cama e agilmente corre e salta, derrubando Johannes no chão. A pistola do caçador cai longe de seu alcance, rolando pelo chão e por sorte não disparando. Tanto Pyrrha quanto Johannes somente viram uma sombra, de panos cinzas e uma capa vermelha, que se moveu como um vulto para cima do caçador.

Maria, ao ver isso, tropeça para trás, querendo tomar distância e proteger Pyrrha. Ela a empurra com as costas para trás, para retornar a aquele hall. A caçadora leva a tocha para frente, buscando afugentar a fera, enquanto segura seu machado sem saber como proceder. Johannes está no chão, logo abaixo daquela mulher-fera.

A fera sobre Johannes inclina a cabeça para baixo e então para cima, abrindo a boca, com um som rouco saindo de dentro de sua boca, com dificuldade.

— Quem… — a fera profere, com uma voz assustada. — Quem são vocês?