A Estrangeira, o Executor e o Capuz Vermelho

6 3.2 - Precisa (continuar indo em frente)


Ao chegarem no fim da escadaria, para sair da torre, o trio olha os arredores. Oficialmente fora de Yharnam. Johannes tira um papel enrolado de sua roupa e o abre.

— É o mapa? — Pyrrha indaga, tentando espiar.

O Executor faz que sim, pensativo. Pyrrha fica confusa. Ele está lendo o mapa vendado? Ela não sabe como trazer esse assunto sem ser desconfortável. Por sorte, Maria estava pensando o mesmo.

— Johannes, meu bom amigo — Maria chama, com a voz macia.

— Sim? — ele responde, um pouco confuso.

— Você está lendo um mapa, muito importante por sinal, vendado em um lugar relativamente escuro — a caçadora diz, calmamente. — Pode me passar o mapa?

Johannes, silenciosamente, entrega o mapa para a colega. Ele põe as mãos no bolso, tímido. Maria e Pyrrha começam a analisar o caminho, que no geral é um percurso reto. Alguns pequenos desvios, apenas. Até chegar numa área depois do que parece ser uma torre. Uma nota diz para se tomar cuidado.

— “Cobras” — Maria lê, a voz mal saindo de sua boca, pensativa.

Ela olha para Johannes.

— Sabe algo sobre?

Ele balança a cabeça, negando. Maria respira fundo e entrega o mapa para Pyrrha, que reage a isso com surpresa.

— Espera, pra mim? Mesmo? — Seus olhos crescem.

Maria faz que sim, sorrindo.

— Eu e Johannes provavelmente vamos ter que lutar. O mapa pode se danificar durante a luta — ela explica. — Logo é melhor que você cuide dele.

— O que viu no mapa, aliás? — Johannes indaga.

— Caminho reto. Vai ter aparentemente algumas casinhas no caminho? — ela diz, a última parte em dúvida.

— Casas? Esse lugar está abandonado — Johannes pontua.

— Bem, no mapa tem claramente desenhos de casinhas — Maria explica. — Você até poderia ver, mas, opa. Você não pode tirar as vendas, né?

Johannes respira fundo. Pyrrha solta um riso tímido.

— Não vamos brigar. Talvez sejam casas de quem um dia já morou por aqui — a garota fala, movendo os braços enquanto fala. — Ou, não sei… Se existe uma porta é para que ninguém entre aqui e veja ou talvez ninguém aqui vá para Yharnam. Faz sentido?

Maria para e pensa, com a mão no queixo e meneia a cabeça, concordando com o que a garota diz. Johannes olha para a floresta, pensativo. Esperando que Maria estivesse pensando na mesma coisa que ele. O velho na torre deixou claro que outras garotas, como Pyrrha, já vieram para cá. Com o capuz vermelho, que a mãe da garota tanto insistiu que ela usasse. Talvez, nessas casas, exista alguma resposta. As mãos de Johannes vão instintivamente para sua testa, começando a batucá-la.

Maria percebe que o amigo está pensativo, pensativo demais, e dá dois tapas em suas costas.

— Vamos nessa. Precisamos avançar um bom tanto antes de escurecer — ela fala, saindo da torre.

— Avançar? Não é melhor começarmos a avançar amanhã? Isso parece um porto seguro — Johannes retruca, seguindo a colega.

— Jo, nós não temos provisões para sempre, e principalmente, precisamos levar a garota…

— Com segurança e prudência — Johannes pontua, interrompendo-a.

Maria respira fundo, revirando os olhos. Sempre prudente demais.

— Olha — Pyrrha diz, se aproximando dos dois. — Que talvez tentarmos irmos um pouco a frente seja bom. Talvez não muito. Mas aqui ó...

Ela puxa o mapa novamente e o abre.

— O caminho até onde tem esse primeiro símbolo de casas não é muito distante daqui — ela aponta no mapa.

Johannes encara o papel com concentração, se focando para tentar ver. Está com vergonha de dizer que não está conseguindo vê-lo. Pyrrha por sua vez não fez isso por maldade, apenas queria que a discussão acabasse.

— Bem, okay então — ele fala, em um suspiro. — Maria vai na frente, já que você é mais…

— Forte! — Maria complementa, interrompendo-o.

— Imprudente. — Johannes a corrige.

— Humpf. — Maria cruza os braços.

— Eu vou junto da senhorita Perrault, protegendo-a. Maria cuida de qualquer coisa que tente nos atacar — Johannes explica. — E no menor caso da gente se ver sendo sobrepujado, a gente para de avançar e voltamos. Não temos porque arriscar a segurança da senhorita à toa. Combinado?

— Combinado — as duas respondem em uníssono.

O caminho todo parece uma eterna descida. Primeiro uma escada de pedra ainda, ainda parecendo Yharnam, e então se torna uma estrada de terra e pedras, apesar de um pouco de grama às vezes entrar no caminho. O chão está úmido, escorregadio. Algumas lápides enfeitam o caminho que eles andam, com árvores sem folhas se erguendo como uma mão esquelética para um céu, distante demais. E então, tochas a distância.

Maria torce a boca. A Floresta Proibida ainda tinha gente nela? Ela se pergunta qual tipo de gente. Yharnam já é demasiadamente complicada de lidar com toda a xenofobia, a aversão aos estrangeiros. Talvez as pessoas aqui sejam normais e só maltratadas por serem “de fora”. Johannes vê o brilho e seus passos se tornam mais receosos e uma de suas mãos vai instintivamente para a alça de sua roda. Os passos de Maria tomam a atitude oposta da do colega, se apressam. A caçadora pega seu machado e segura-o com mais firmeza. Johannes pensa em chamá-la mas teme que possam ser ouvidos. Ele ouve a respiração de um homem-fera.

Maria vê, conforme anda, a luz de uma tocha se aproximar, junto dos sons guturais de uma fera. Ela sorri e avança, instintivamente. O homem, desfigurado completamente pela praga, mal tem tempo de reagir a sombra que surge e avança para cima dele, desferindo dois golpes em seu peito. A fera grunhe e afasta a caçadora com uma tocha. Johannes, que está a mais de dez passos para trás, bem acima deles, vê que tem um outro homem, em um estado de transformação bem menos grave, se preparando para jogar algo. Johannes poderia tentar impedir. Poderia tentar se pôr na frente, mas seus pés não querem se mexer. Se vê travado ali.

“Preciso proteger Pyrrha”, ele pensa, repetidamente. “Ela não deveria ter sido tão inconsequente avançando.”

Maria pula para trás, vendo a fera erguer o braço com a tocha, provavelmente para tentar queimá-la. Por sorte ou acidente, conseguiu fazer isso na hora certa. Alguém atrás dela jogou algo, um pequeno vidro, que explode contra o homem-fera. Um líquido cobre a fera e entra em contato com fogo, incendiando-o.

“É óleo”, Maria deduz.

Ela estende seu machado, girando o corpo todo, decapitando a fera no processo e se virando para trás. Ela vê quem tacou o óleo, um homem em transformação. Braços longos demais que acabam em garras, com tufos de pelo vazando por sua roupa.

“Então a Floresta também tem isso”. Ela ri. “Ótimo, assim não perco a mão para matar esses bastardos.”

Maria corre, dando um golpe de ponta que atinge o homem no meio do peito, mas que não atinge fundo. Ela puxa a arma para trás e atinge a arma contra a clavícula do homem, derrubando-o com tudo contra o chão. Maria ri e olha para Johannes com orgulho, mas só vê no rosto do colega desaprovação.

— Poderia ter se dado mal feio por ter atacado daquele jeito — ele fala, irritado.

— Ah qual é! — Maria exclama, encurtando o machado e o guardando nas costas. — Foi uma vitória perfeita, eu não levei nenhum golpe, consegui enfrentar os dois...

— Por pouco — Johannes a interrompe. — Estamos em uma missão séria, se você tivesse se machucado…

— E por que não foi ajudar? — Maria o interrompe agora, cruzando os braços.

Johannes respira fundo.

— Protegendo a Pyrrha. Nosso trabalho — ele diz isso reunindo calma. — Enfim, vamos em frente. E tenha mais cuidado.

Pyrrha pega o mapa e o lê, tentando fingir que não está ali durante a discussão.

— O caminho é por ali — ela aponta para a esquerda. — Depois de lá vai ter uma ponte e então as casas que têm desenhadas.

— Então vamos, minha trupe feliz, vamos explorar mais a fundo essa misteriosa Floresta Proibida — Maria diz isso com uma voz dramática, andando a frente em passos confiantes e heróicos.

Johannes não consegue não sorrir com isso, dando dois tapinhas nas costas de Pyrrha para que eles andassem. E então ele ouve, vindo por trás dos dois. Passos pesados e acompanhados de um som cruelmente metálico. O Executor não tem tempo de olhar para trás e compreender o que está vindo e raciocinar um plano. Seu corpo apenas se vira para trás, empurrando Pyrrha para trás dele, para longe, e começa a tentar puxar sua arma — e Johannes a amaldiçoa por ser tão pesada nessas horas.

Um brutamontes está vindo para cima de si, robusto e alto, com uma armadura e vestes negras. Empunhando um machado que a lâmina tem o tamanho do torso do caçador. Ao ver que não teria tempo de sacar sua arma, Johannes apenas vira o corpo novamente, para que o golpe atinja antes a roda e não seu corpo.

— Maria! — A voz de Pyrrha Perrault chega aos ouvidos da caçadora como um estampido de um tiro, até mesmo com a mesma força de um.

A caçadora corre, não muito diferente de uma fera, até a voz, vendo a garota caída ao chão, com um brutamontes prestes a descer a lâmina de sua arma contra a garota. Maria sente seu coração bater mais forte e o sangue preencher e correr pelo seu corpo mais rápido. Ela saca sua pistola e atira contra o inimigo. Não o mata, longe disso, mas foi o bastante para fazê-lo ir para trás, perdendo o equilíbrio. Maria corre, como um lobo atrás de um coelho, e sua mão atravessa a carne do pescoço da criatura, indo fundo. Ela sente veias se rompendo e a carne se rasgando. Quando ela puxa a mão para fora, sangue jorra, agressivamente, da ferida. Ela então pega o machado de suas costas e golpeia contra o pescoço do inimigo ainda sem reação. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Quatros vezes. A cabeça rola para o lado, ainda presa ao corpo por leves fiapos de pele e músculos.

Maria está ofegante. Não chegou a entrar na Zona, mas aquilo claramente foi intenso. Ela então corre para Pyrrha.

— Você está bem? — a caçadora, nervosa, indaga. Seus olhos procurando por machucados em Pyrrha.

Pyrrha nega, assustada.

— O senhor Johannes… — ela balbucia.

Os olhos de Maria se arregalam e seu corpo se vira em cento e oitenta graus, indo até o corpo do amigo. Ela o sacode, seu corpo um tanto quanto mole.

— Johannes! — ela grita, com medo.

Mesmo a imortalidade trazida pelo Sonho do Caçador não tornam momentos como aquele menos horríveis, para os dois. Ainda é alguém querido, ali, caído.

Em resposta ao chamado de Maria, Johannes tosse. Uma tosse pesada e que reivindica ar para o corpo, deixando-o entrar em súplica. Maria sente um peso horrendo sair de seu peito, a necessidade retornar ao Sonho, para conferir se Johannes está lá.

— Ó céus, Johannes, foi culpa minha, me...

— Shh... — ele resmunga, fraco. — Você não tem culpa nisso. Seu trabalho era proteger a frente. Eu reagi devagar demais.

Johannes até pensa que o grandalhão foi atraído pelos gritos de Maria mas... Não precisa, nem tem porque, jogar a culpa assim na colega. Já é um alívio não ter morrido. Mesmo tendo o Sonho como uma apólice que não seria definitivo, o ato de morrer ainda é desagradável. Ainda é real.

— Podemos parar por hora? — ele pede, com dor na voz.

Maria ri, com Pyrrha se aproximando dos dois. Ela tem um frasco de sangue nas mãos.

— Por favor use. Você se machucou assim para evitar que fosse eu — ela diz.

— E te proteger não é meu trabalho, senhorita Pyrrha? — Johannes retruca.

— Sim, mas… Ainda assim você se machucou assim. — Ela aproxima mais o braço, insistindo para que ele pegue o frasco.

Johannes suspira e pega o frasco e injeta aquela injeção de sangue curativo em sua coxa. A dor daquilo passou a ser algo tão banal. Quando virou algo banal? Ele sente que, alguma hora, isso lhe causava medo. Ele respira fundo, sentindo o sangue preencher ele, atravessar seu corpo.

— Bem, eu cheguei a ver o que tem adiante. Tem uma construção e uma ponte. As duas parecem vazias. Podemos passar a noite ali — fala a caçadora Maria.

— A construção, o que tem nela? — Johannes pergunta, sua voz ainda fraca.

Ela dá os ombros.

— Vou ir conferir — ela responde.

Maria começa a se levantar mas volta a ficar de joelhos. Ela tira a pistola de seu coldre e oferece para Pyrrha.

— Sei que é nossa protegida, mas, acho que é mais seguro você ter algum jeito de se defender — ela explica. — Aceita?

Pyrrha olha para aquilo com olhos que brilham.

— Posso mesmo? — ela pergunta, com certo receio misturado no desejo de aceitar.

— Sim, mas estou confiante que você vá saber usar. Posso confiar em você pra ter sua primeira arma? — Maria sorri.

Pyrrha faz que sim e pega a pistola com um cuidado exagerado, fascinada com aquilo. Maria também lhe deixa com o cinto onde fica o coldre e a munição, suas balas de prata. A caçadora bagunça os cabelos da garota e vai para investigar o lugar onde acampariam, caso estivesse tudo bem.

— Obrigada por me salvar — Pyrrha fala, com a voz baixa.

— É meu trabalho — Johannes responde.

Pyrrha faz uma cara zangada, que de mais a mais, é apenas adorável.

— Ainda assim, você me salvou e eu sou grata. Aceite isso — ela braveja. — E agora eu vou te proteger.

Ela ergue a pistola, com um sorriso bobo, se sentindo poderosa. Johannes sorri, se ajeitando no chão, se encostando em um tronco.

— Posso tirar uma dúvida? — Johannes questiona. — E já peço perdão desde já caso eu seja indelicado pela minha curiosidade.

Pyrrha olha para ele e pisca duas vezes, mas faz que sim com a cabeça.

— Claro, Johannes. — Ela vira o corpo totalmente na direção dele.

— Você sabia do que o… O velho guardando a porta disse? De outras garotas, com uma capa como a sua, virem pra cá — ele pergunta.

Pyrrha enche as bochechas com ar, pensativa, apenas para negar com a cabeça.

— Sinceramente eu não sabia. Fiquei até um pouco assustada, acho. — Ela começa a contar. — De repente, me fez ver essa ida para ver minha vó parecer mais... Pretensiosa. Me dá medo.

Ela olha para o Executor nos olhos.

— Você sabe de algo, senhor Johannes? — indaga, receosa com respostas.

Barulhos parecidos com gritos começam a vir na direção para onde Maria foi. Johannes respira fundo e nega com a cabeça, reconhecendo o que são aqueles sons.

— Sei tanto, ou talvez menos que você — ele comenta e seu rosto se ilumina um pouco. — Mas já ouvi uma história antes! Sobre um caçador que foi anos atrás para cá e não voltou mais. Dizem que caiu em desgraça. Usam ele para nos manter sem querer vir para a Floresta, lá na Igreja da Cura.

— E que caçador foi esse? — Pyrrha pergunta, curiosa, sorrindo.

Os gritos param, enfim.

— Euthymos, ele não era da Igreja da Cura. Um caçador da Oficina. Ele usava um canhão, era a marca dele — Johannes começa a contar, seu rosto se iluminando com um sorriso. — E quando o canhão não podia resolver, Euthymos usava dos próprios punhos para abater as feras.

— Que incrível! — Pyrrha bate palmas, alegre. — E por que você usa uma roda? Tipo, não é melhor um machado?

— Hm. — A feição de Johannes se fecha, com ele sem saber o que responder.

Pyrrha ri.

— Estou apenas brincando. — Ela desvia o olhar e seu sorriso lentamente some. — Mas, sabe, eu sempre notei que as garotas amigas da minha família, dessas famílias que vinham de Edda, sempre ficavam… Tão diferentes depois que faziam dezoito anos. E um diferente ruim. E eu sempre tive medo disso acontecer comigo…

Johannes sente um peso no ar. Não sabe o que dizer para consolar ela. Ela ergue o olhar para o caçador. Sente que falou demais.

Maria retorna, batendo os pés e xingando, bastante irritada, em sua língua natal. Ela dirige o olhar para Johannes, ainda bufando.

— Eu odeio corvos em Yharnam. Eles são grandes, gritam como se fossem uma velha sendo morta. Enfim, descobri que a construção está vazia porém fechada e que do outro lado da ponte não parece ter ninguém — ela relata, com uma voz cansada. — E, bem, acho que podemos ir ficar lá, desde que a gente faça turnos de vigia. Todos de acordo?

Johannes e Pyrrha fazem que sim com a cabeça.

— Corvos da onde você veio são como? — ela pergunta, curiosa.

— Só pássaros! — a caçadora braveja. — Do tamanho normal, que voam normalmente, fazem barulhos normais! São só passarinhos normais.

Johannes sorri e se levanta, arrastando sua roda. Os corvos em Yharnam sempre foram assim. A pancada que recebeu foi forte, e sua arma recebeu boa parte no lugar dele. Precisaria ver como ela está, ver se não quebrou nem nada. Por sorte a fortaleceu antes de vir para cá.

O coração dele se sente aliviado vendo Pyrrha e Maria a sua frente, conversando. É bom saber que não está sozinho. É bom saber que está em boa companhia.

— O Johannes fica com medo de matar os corvos — Maria conta.

Pyrrha arqueia as sobrancelhas.

— Os cachorros infectados também. O barulho assusta ele.