Sangue se espalha no chão, jorrando dos corpos que o machado de Maria atinge. E ela segue avançando, derrotando homens em estado de transformação inicial, com poucos já transformados em bestas completas. Ela se sente dançando com seu machado, que se estica quando existe a necessidade de atacar algo com mais força ou quando se precisa de mais alcance. Seu corpo gira para desferir os golpes, a arma se erguendo e despencando rápido o bastante para fazer o ar assobiar. Um homem acaba se movendo lento demais e a arma de Maria se choca violentamente contra a clavícula do sujeito, não apenas quebrando-a, mas criando um extenso talho, por onde o sangue jorra. Ele cai, já morto, e Maria não para, seu corpo está na Zona, tomada pela batalha. Seu corpo e mente agem como um só.
Eles haviam avançado um bom tanto desde o lugar que usaram para fazer um acampamento. Atravessaram a ponte e acabaram por encontrar um assentamento onde essas pessoas residiam. Algo bastante oposto da opulência de Yharnam. Casebres simples de madeira, quase caindo aos pedaços. Chão barrento. Poucas construções de pedra.
Johannes, que está defendendo Pyrrha, vê três cachorros raivosos passando por Maria, concentrada demais em derrotar dois oponentes. O Executor morde o lábio, nervoso e se concentra. Leva sua roda para trás do corpo e aplica um golpe horizontal, pesado, que consegue acertar dois dos cachorros com força. Johannes agilmente gira a roda, fazendo cair sobre o cachorro que escapou do primeiro golpe.
— Pyrrha, se afaste! — ele pede, com dificuldade.
Ele odeia ter que lutar contra cachorros. Por quão ridículo que fosse, Johannes lida melhor com uma fera que se ergue maior que um ser humano, urrando por sangue, do que com um cachorro raivoso. Talvez algo da infância? Talvez a lembrança dormente de alguma vez que um cachorro latiu e pulou contra ele. Ele hesita um ou dois segundos a mais para iniciar seu golpe e um dos cães pula em seu peito, mordendo-o e o arranhando. Graças a roupa que usa, aquilo não o feriu. O caçador agarra o cachorro raivoso e o joga para longe.
Pyrrha, que estava pronta para agir, aproveita e atira contra o cachorro, que morre por causa disso. O som e o cheiro do disparo ainda inundando seus sentidos. Caçadores não usam balas de ferro e tampouco prata para as caçadas. Eles usam balas de mercúrio contra as feras. Outro cão salta para cima de Pyrrha, atraído pelo som, e a roda de Johannes acerta o animal quando ele está no ar. Johannes sente seu corpo todo formigando. Essa é a sensação da caça nele. Agir ou não agir. “Agora” ou “ainda não”. Atacar já ou esperar por um momento melhor. Isso ressoa dentro de seu corpo a cada golpe.
Maria Hazenflug continua batalhando a frente, atraindo mais e mais oponentes. Ela se pergunta por onde iriam em seguida. Claramente tem dois caminhos. Um através de uma rota por baixo de algumas pontes, logo a frente, com o que aparenta ser um fraco riacho; ou se iriam por cima, contornando e subindo um morro. Precisa limpar essa área logo para ser seguro parar para debater o caminho. Passar por debaixo das pontes soa arriscado. Pode ter gente atacando de cima. Um homem fera vem para cima dela e Maria traz o machado, estendido, para trás de seu corpo. Assim que ele entra no seu alcance, Maria roda o machado, com toda a força acumulada, e faz a besta ser arremessada até um chão de madeira. Que despenca.
— Eu quase pisei ali — Maria resmunga, um tanto irritada.
— Maria, você ativou duas armadilhas vindo para cá e não suspeitou do chão coberto de tábuas de madeira? — Johannes comenta, atrás dela, conseguindo ouví-la com clareza.
— Isso não importa, vamos dar a volta — ela fala, andando na direção do colega, encurtando seu machado e o guardando nas costas.
— A volta? — Johannes questiona, confuso.
Maria faz que sim e antes que a voz saísse de sua boca, um som de tiro encobre sua voz. Pyrrha dispara contra um sujeito que havia saído de um dos casebres com um longo rifle e estava pronto para atirar contra eles.
— Acertei! — a garota comemora, ainda surpresa.
Maria bate palmas, alegre e em comemoração, enquanto Johannes caminha até o corpo e retira as balas que possuía com eles, aproveitando para ver se não havia mais nada da onde ele havia saído. Maria se aproxima de Pyrrha e tira um punhado de balas do bolso.
— Peguei essas no caminho para cá — ela diz, com um sorriso. — Espero que sua mira continue boa.
Maria se volta para Johannes, relembrando o que queria falar.
— Eu acho perigoso irmos por debaixo — Maria comenta, apontando adiante. — Tem pontes por ali. Acho que a gente consegue acessar indo por cima.
Johannes já conseguiu entender o ponto da colega, acenando a cabeça positivamente.
— Entendo — resmunga. — Já vi onde quer chegar. Vamos.
Johannes começa a caminhar para trás, olhando para o fosso onde a fera caiu, por causa de Maria. Ela ainda parece estar viva. Ferida o bastante para estar imóvel, mas não o bastante para morrer. Se vê ali como uma criança, muitos anos atrás. Aquela fera seria igual aquela borboleta? Deveria pisar nele? Seria isso um ato de bondade, tal qual o Mestre Logarius, fundador dos Executores, dizia que devia-se buscar? Não percebe quanto tempo se passa, com ele ali encarando aquele abismo.
Uma voz ecoada começa a chamar por ele.
— Jojo! — A voz de Maria o arranca do abismo de seus pensamentos.
Ele ergue o olhar para Maria, devagar.
— Eu… — ele resmunga, confuso.
Ele faz uma pausa, respirando fundo e engolindo o que atormenta sua cabeça.
— A fera que você matou ainda está viva. Incapaz de se mover, você acha que é…
— Uma boa ideia finalizar? — Maria completa.
A caçadora olha para o fosso e dá os ombros.
— Vai lá, de todo modo não quero você chorando porque levou uma patada nas costas — ela diz, rindo.
Johannes assente a cabeça e desce para lá usando uma escada de madeira que havia ali.
Maria se espreguiça.
— Como você está, senhorita Maria? — Pyrrha pergunta.
— Estou bem — Maria responde olhando para si mesma, verificando se havia algo de errado consigo.
— Não ficou cansada?
Maria ri e nega com a cabeça.
— Poderia caçar por bem mais que isso. Uma vez que você entra na caçada, isso vira algo tão… Normal.
Pyrrha olha para o machado preso nas costas da caçadora. Parece tão pesado. Sente que qualquer pessoa usaria duas mãos para segurá-lo, mesmo na forma pequena e curta. E ainda assim, Maria o empunha com casualidade.
— E qual a sensação? — Pyrrha inclina a cabeça para o lado. — Digo, como você se sente usando essas armas e lutando assim.
O semblante de Maria se torna pensativo.
— Certamente deve parecer incrível. E é bastante edificante quando me vejo usando as armas dos caçadores e enfrentando besta atrás de besta — ela explica. — Mas se tornou banal. Sim, matar uma fera é incrível, e muitas vezes comemoro ao fim de uma batalha, mas as vezes só vejo meu corpo tremendo de medo ou com adrenalina demais.
Pyrrha morde o lábio, baixando o lábio. Sente que Maria ficou desconfortável. Ela dá dois passos na direção da caçadora. Ela toca o braço de Maria e a encara nos olhos.
— Desculpa ter perguntado isso, te deixou desconfortável? — pergunta.
Maria, surpresa, nega.
— Não, Pyrrha. Só acabei divagando um pouco. — Ela ri, passando a mão na cabeça de Pyrrha.
— Eu não quis parecer estar ridicularizando o que você faz — Pyrrha explica. — É que eu vejo você lutando e sendo tão incrível e, sei lá, sinto que eu poderia também. Você é uma mulher estrangeira: a pessoa que mais seria julgada por ter se juntado a caçada, aqui em Yharnam, e mesmo assim você o faz. Eu… Eu queria ter tanta coragem. Digo, ser tão forte quanto você, ter tanta garra. E eu achei seu cabelo lindo. Minha família não me deixava cortar curto.
Maria olha para a garota sem saber o que dizer direito, mas sentindo empatia por ela, conseguindo entender o sentimento que Pyrrha tenta explicar. Ela só conseguiu sair para fazer essa jornada para Yharnam em um ato de rebeldia, contra as vontade de sua família, que insistia que isso não era um trabalho para ela. Mesmo com seu irmão enfermo e sem ajuda ou solução sendo encontrada onde morava. E assim, Maria rumou para a batalha. Ela reconhece certos grilhões em Pyrrha que já estiveram nela. Alguns ainda estão atados em Maria.
Ela toca o ombro da garota e fala, baixinho para ela, em um gesto de confidência:
— E eu acho que tu ficaria incrível de cabelo curto. — Ela volta o rosto para trás, colocando as mãos na cintura. — Além disso, cabelo longo só atrapalha para lutar. Podem agarrar, pode prender e pode ir no rosto.
Pyrrha sorri, seu rosto ficando vermelho conforme ela tenta conter um sorriso. Johannes sai do poço, terminando de subir as escadas e as encara.
— Demorei demais? — ele indaga.
— Na verdade, não. Mas por pouco! Mais um pouco e eu ficaria brava — Maria fala, com um sorriso travesso.
Johannes solta um baixo e breve riso, andando na direção das duas.
— Nenhum sinal de algum inimigo? — ele pergunta, sacudindo seu longo cabelo.
Maria cutuca Pyrrha com o cotovelo, piscando com um olho, e as duas riem. Johannes apenas expressa certa confusão.
Maria respira fundo, engolindo o riso.
— Bem, por hora eu não percebi nada, mas não tenho um quinto dos teus sentidos aguçados — ela conta. — Você que deveria ir na frente.
Johannes morde o lábio.
— Bem, mas é que você que é mais… — ele faz uma pausa, notando que está se acovardando. — Só não saía do lado da senhorita Pyrrha, okay?
— Jojo, vamos lá. Confie em mim.
Johannes respira fundo, sentindo vergonha de si mesmo, e começa a andar na frente, retornando pelo caminho até chegar numa subida simples, de terra barrosa. Através dos barracos e pobres vilas, que ocupam esse bosque escuro e lamacento. Eles passam por algumas casas, de madeiras e pedra. Johannes passa reto por elas. Sem feras aqui. Ao menos ainda. Jaulas com cachorros enfermos que latem e corvos, gordos e doentes demais para poderem voar. Maria percebe o medo nos movimentos do amigo. Ele nunca avança de imediato. Johannes primeiro recua. Primeiro ele sempre recua. Seu corpo preso entre o momento de fuga e o de ataque, reunindo coragem.
Passam andar nos telhados de casas que ficam no relevo mais baixo, que atuam como uma ponte. Johannes martela sua arma contra corpos de pessoas já tomadas pela praga. Seus braços alongados demais, mãos batendo no joelho. Rostos com tufos de pelos brotando e bocas cheias de espuma e dentes afiados, dentes de um predador. Tudo que sai das bocas deles são brados e gritos, urros que buscam formar palavras, em vão.
Atravessando aquele local, eles descem para um caminho que conduzia para uma espécie de torre, dentro de um vale rochoso e com mais casebres de madeira. Johannes caminha à frente, sentindo os cheiros e os sons dali. Tem uma fera à esquerda. E o caminho a frente é cheio de todo tipo de gente.
— Maria, tem uma fera ali. — Johannes aponta. — Quero que você limpe tudo que estiver nos nossos flancos. Eu vou continuar indo em frente, servindo de escudo para a Senhorita Pyrrha.
— E não se esqueçam — Pyrrha fala. — Eu tenho a pistola da Senhorita Maria para atirar contra o que quer que se aproxime da gente.
— Senhorita Pyrrha, não tem porque lutar — Johannes fala, se virando para ela. — Se concentre em se manter segura.
A garota se volta para seu protetor.
— Senhor Johannes, eu não posso me manter em passividade vendo vocês lutando tanto em prol de me proteger — ela explica, juntando as mãos e olhando Johannes. — Não quero ser o “bom homem fazendo nada”. Eu tenho uma arma e vocês se manterem vivos garante a minha proteção. Então preciso que você confie em mim, assim como eu confio em vocês. Okay?
Maria concorda com o que a garota diz, com um sorriso. Johannes suspira, baixando o olhar e então o erguendo-o com um sorriso.
— Estarei confiando para que cubra-nos então — ele diz. — Que sua mira seja tão afiada quanto sua capacidade de argumentar.
O rosto dela se ilumina com um largo sorriso, repleto de alegria por terem confiado nela para isso. Maria tira seu machado das costas e estende o cabo do mesmo. Assim que Johannes começa a andar em frente, Maria começa a rumar para a esquerda, para atacar a fera que havia ali.
Pyrrha se sente bem por terem confiado nela. Mantém a arma fora do coldre, em sua mão. O dedo fora do gatilho, por segurança. Saber que pode argumentar e que pode ser ouvida foi reconfortante. Nunca conseguiu ir contra o que sua família lhe dizia, mesmo ficando com a garganta cheia de amargor ao notar que poderia, sim, argumentar. E ainda assim, foi tão natural argumentar contra Johannes. E não sente que isso vem de inimizade. Ela aprecia o modo como o caçador age. Seu jeito mais contemplativo e quieto, mas que pode falar sem parar se você cutucar o assunto certo.
Por algum motivo, se sentiu mais a vontade de falar o que sente, prefere, pensa e quer com ele e Maria do que jamais conseguiu fazer com sua família. Talvez se conseguisse ter feito isso alguma vez, ela poderia ter cabelo curto. Ou não ter que usar tantos vestidos. Talvez não estivesse aqui, mas se não tivesse vindo para cá, jamais teria conhecido os dois que lhe mostraram tudo isso. Johannes entende isso, em partes.
Segue protegendo Pyrrha, enfrentando dois homens feras, um empunha uma espada e o outro um machado. Ele golpeia os corpos daqueles pobres coitados com sua arma, fazendo-os serem jogados, visto o peso dos golpes que recebem. Ele pensa como o “Johannes da Igreja da Cura” estaria agindo. Seriam os golpes daquele Johannes, sob o olhar da Igreja, mais raivosos? Mais cheios de ódio contra as feras?
Se pergunta se aquele Johannes, todos aqueles anos, não era ele? Era só uma farsa para agradar os outros? Ou, em algum momento, aquilo foi ele? O que é ele agora e o ele de antes? Ele pisando na borboleta foi ele? Ou foi uma pressão social? Ele pisou nela por querer? Johannes sente vontade de gritar, mas não o faz.
Enquanto Johannes pesadamente abre caminho à frente, Maria continua dançando pelo pequeno vale, matando todos que ficam aos cantos. Ela gira, acerta, mata, corre e fatia mais bestas. Todos em formas híbridas, entre o homem e a fera. Johannes diversas vezes é salvo de um oponente mais ágil que seus golpes por disparos de Pyrrha, que atrasam e desviam movimentos inimigos por tempo o bastante para que o Executor termine seus movimentos e os acerte violentamente. Um barulho violento inunda os ouvidos de Johannes, junto com um impacto próximo dele. Pyrrha grita.
Maria vê aquilo e automaticamente entende.
— Se escondam! — ela berra. — Eles têm um canhão!
— Um canhão? — Pyrrha pergunta, atordoada mas fascinada.
— A porcaria de um canhão!
Johannes puxa Pyrrha e a leva para trás de um rochedo, usando sua roda de escudo e os escondendo.
— Maria! Você cuida daquilo? — Johannes pergunta.
Maria não responde, não tem porque responder. Ela pode só ir fazer. Ela vê no caminho para o canhão, casebres abertos, com pessoas enfermas caídas ali. Algumas convulsionando. De frente para o canhão, corpos e mais corpos de feras completamente transformadas, com os corpos empilhados e destruídos por tiros de canhões. Membros decepados e caixas torácicas estouradas pelas balas de canhão.
Aquilo não é difícil para Maria. Desviar de tiros como esse se tornou fácil. E fazer seu machado acabar com a vida do homem no canhão? Simples. Ela salta e, com o machado atrás do corpo, a lâmina se crava nas costelas do enfermo. Ele cambaleia para trás enquanto Maria gira a arma conforme se ergue, com o machado atingindo o peito dele. Ele cai. Maria corre. O machado arrastando no chão, apenas para ser erguido em um arco cruel no ar e dividir o crânio do sujeito em dois.
O ar sai do corpo de Maria e seus músculos relaxam. Ela se vira para trás e Johannes já está vindo, olhando para as pessoas enfermas. Ele deve estar confuso. Deve se sentir em um conflito que Maria não sabe como abordar apropriadamente. Juntos, eles adentram a torre. Ela parece ser algum tipo de torre de relógio abandonada. Maria novamente é colocada como quem protege Pyrrha, visto como está cansada após derrotar aquele número de inimigos nos flancos e no canhão de uma vez só.
Caminhando dentro da torre, rumo a base dela, Johannes ouve algo vindo de cima. Ele cochicha para Maria, que percebe a luz de uma tocha vindo de cima.
— Eu vou dar um jeito naquilo — ele avisa. — Fique de guarda alta.
Maria concorda com a cabeça.
— Boa sorte — ela deseja.
— Tô com a pistola pronta — Pyrrha avisa, erguendo a pistola.
— Gostou disso, né? — a caçadora brinca.
— Me sinto mais poderosa do que nunca — ela responde, soltando uma risadinha.
As duas continuam descendo e ouvem Johannes gritar, seguido de sons de batalha. Ouvem vários barulhos de sibilar e de disparos da arma de Johannes. As duas se olham, confusas. Elas chegam na base da torre e só encontram uma saída para uma outra ponte e um fosso com correntes, que Maria presume ser um elevador. Pyrrha tira o mapa de suas coisas e o analisa.
— Aqui diz que haveriam duas portas mesmo. Mas não é por elas que devemos ir. É por outro caminho. — Ela olha em volta, passando o mapa para Maria. — Escondido.
Johannes chega onde elas estão, com a respiração ofegante, e se depara com as duas virando o lugar, tirando barris e feno do lugar, à procura de algo.
— O que estão fazendo? — ele pergunta.
As duas se viram para o caçador, supresas.
— Você tá bem? — Maria ergue a sobrancelha. — A gente ouviu alguns… Barulhos.
— Tinha um sujeito lá em cima. Com um saco na cabeça. Invés de cabeça ele tinha um monte de cobras.
— E daí você gritou? — Maria pergunta, com um sorriso nos lábios.
Johannes respira fundo.
— E daí eu gritei — ele responde.
— E como ele era? — Pyrrha pergunta, curiosa.
Johannes se vira para ela, que está procurando por marcas de luta que poderiam ter sido causadas por esse último inimigo.
— Ele parecia ser uma pessoa normal, não muito diferente dos infectados que encontramos no caminho daqui — Johannes fala, devagar.
— Ele estava com a praga da fera, então? — a garota pergunta, levando a mão ao queixo.
— Eu acho que não, digo, talvez estivesse mas aquilo, seja lá o que for, parecia algo diferente… Deixe-me elaborar melhor.
Johannes adota um semblante pensativo parecido com o da garota, e Maria vê que a conversa ia ficar mais profunda. Ela procura por uma saída para o lugar, a tal porta que supostamente estaria escondida. Olha em volta e confere o mapa. Vê a direção que ficaria a saída para a Vila Edda no mapa e leva o olhar para a parede correspondente. Enrola o mapa e guarda no bolso de dentro de seu casaco. Afasta os barris e o feno que havia ali, começando a tatear as paredes, batendo nelas. Alguma parte precisa ser oca.
Pyrrha e Johannes escutam um som de alegria e conquista.
— Encontrei! — ela exclama enquanto tenta puxar uma parede.
Johannes inclina a cabeça para o lado, confuso.
— Ela encontrou a parede que leva para a Vila Edda, senhor Johannes — Pyrrha explica. — Vamos ajudá-la a abrir.
— Tá pesado — Maria diz, com dificuldade.
Johannes se aproxima, tocando Maria no ombro com dois tapinhas leves.
— Me deixa tentar — ele pede, calmamente.
Johannes empurra calmamente para o lado oposto que Maria fazia, e com um leve tranco e um empurrão, a parede desliza. Maria abre a boca, indignada. Pyrrha se aproxima da caçadora.
— Ele talvez não tenha visto para qual lado você tava empurrando — a garota sussurra para ela.
— Eu vi — Johannes responde com um riso na voz, caminhando para dentro do túnel. — Você consegue por a parede no lugar, Maria?
— Vai se ferrar, Johannes — Maria bufa.
Pyrrha entra antes de Maria, com Johannes lhe passando uma tocha acessa, para que possam enxergar na penumbra. Atravessam o túnel, que possui uma suave descida. Do outro lado do túnel encontram a saída aberta, que dá para um pequeno pedaço de terra com um casebre de madeira vazio, com alguns humildes móveis. E também há uma ponte, que liga eles até um outro bosque. Johannes fica de frente para a ponte e respira fundo. Está tudo estranhamente calmo demais.
— Ei, Jojo, vem aqui — Maria o chama.
Ele demora para começar a ir até ela, como se estivesse encarando ou intimidando algo do outro lado.
— O que houve, Maria?
— Bem, já está muito escuro — ela explica. — Avançar numa penumbra assim só é bom para seres que podem ver na penumbra. Só nos deixaria em um constante perigo. Além disso, eu estou com fome. Vamos comer.
Johannes suspira, em um riso, e concorda com a amiga. Além de escuro, a mata é densa, e Maria parece cansada. Ele ergue o olhar para o céu. Nublado. Uma noite sem lua.
Maria toca o ombro dele ao notar como ele está distante.
— Fico feliz que esteja bem — ela fala. — Você mandou bem hoje.
Johannes retorna o olhar para a amiga, com um sorriso.
— Você também lutou bem, caçadora — Johannes fala. — Não foi uma caçada usual, mas você com certeza você atuou muito bem.
— Eu também? — Pyrrha, na cabana, indaga.
Os dois caçadores riem, se voltando para a protegida.
— Sua pontaria se mostrou realmente afiada — Johannes fala, com uma mão na cintura e outra segurando a alça de sua roda, em suas costas. — Você me prestou uma ajuda imensa hoje, senhorita Pyrrha.
Ela sorri orgulhosa. Johannes começa a ver materiais para se fazer uma fogueira, para que, assim, possa fazer alguma coisa para eles comerem.
— Podemos fazer turnos de noite — Maria sugere.
— De acordo — Johannes resmunga.
— Eu posso participar? Quero ajudar — Pyrrha pergunta, sentada em cima de um caixote.
— Nem pensar. — Maria empurra a cabeça dela, pressionando seu dedo indicador contra a testa da garota.
— Mas eu tenho uma pistola. — A garota ergue a mão, que simula uma pistola, com o dedo indicador e o dedo médio erguidos enquanto os outros estão fechados.
Maria suspira, rindo, e nega com a cabeça. Pyrrha bufa, cruzando os braços e enchendo as bochechas com ar, mas terminando por rir junto com a caçadora.
Enquanto dorme, em um sonho, Johannes se vê novamente uma criança. Ouve o som de algo se quebrando sob seus pés. E ao erguer o pé, vê uma pessoa. Johannes tropeça, ofegante, e seu corpo agora possui as roupas do clero. Sente como se estivesse sufocando. Ao tatear seu rosto, não sente a textura de sua pele, e sim de cerâmica. Começa a tentar remover o que está em seu rosto. Dói.
A máscara em seu rosto voa para longe. E então ele percebe a multidão ao seu redor, vultos com as roupas da Igreja, encarando não só Johannes, mas o corpo que jaz morto ali. E então eles começam a aplaudir. Alto. Parabenizando Johannes, que sente novamente um desconforto facial, e ao tocar uma vez mais seu rosto percebe que a máscara ainda está ali. Outra máscara? Olha suas mãos e vê que empunha uma armas de caça da Igreja da Cura. Ele a bate contra seu rosto. Contra a máscara. Quando abre os olhos novamente, a lanterna que o leva para o Sonho do Caçador está a sua frente. Cercado de mais corpos caídos.
Ele é puxado para fora daquele sonho antes de qualquer conclusão, com Maria o acordando.
— Sua vez, garotão — ela resmunga.
Ele vai até a entrada do casebre. Em determinado momento, Johannes escuta o rosnado de uma fera, que parece próximo o bastante para arrepiar os pelos de sua nuca. Ele se levanta da cadeira com um sobressalto, trazendo sua roda consigo. Ele olha ao redor, para o breu, e procura por algo. Barulhos além do assobiar do vento e do farfalhar das folhas nas árvores. Tentou procurar por algum odor, mas só sente os de suas duas companheiras e de uma fogueira apagada há um bom tempo, mas que ainda possui o odor sendo erguido pelo vento.
Nada.
Anda pela saída do túnel, o pequeno espaço que existe antes da ponte que levaria até a continuação da estrada para a Vila Edda. Um lugar que já recebeu outras jovens além de Pyrrha. Sua cabeça borbulha com teorias, a contragosto. A luz da lua, subitamente banha Johannes e ele ergue o olhar para ela. O medo pela fera subitamente some.
"Minha cabeça está me pregando peças" o Executor conclui. "Comer duas vezes não me fez bem mesmo."
Fale com o autor