A Essência do Amor

9 Entre o Luxo e a Realidade


O trajeto de volta para a cobertura de Richard foi mergulhado em um silêncio sufocante, interrompido apenas pelo som da chuva fustigando o vidro do carro blindado. Richard mantinha o olhar fixo na janela, a mandíbula tão travada que parecia prestes a quebrar. Elara, por outro lado, mantinha o cartão metálico de Julian Sterling entre os dedos, girando-o distraidamente sob a luz dos postes de rua.

​— Jogue essa porcaria fora, Elara — a voz de Richard surgiu baixa, rouca de uma fúria que ele mal conseguia conter.

​— Por que? — Elara perguntou, a voz suave mas carregada de desafio. — O senhor sempre diz que tudo é uma questão de negócios. O Sr. Sterling me ofereceu uma diretoria. Isso é crescimento de carreira. Ou o senhor tem medo da concorrência?

​Richard virou-se para ela, os olhos cinzentos faiscando na penumbra do carro.

​— Concorrência? Sterling é um abutre. Ele não quer o seu talento, ele quer me atingir usando você. Você é ingênua demais para perceber que é apenas uma peça em um tabuleiro muito maior.

​Elara soltou uma risada curta e amarga.

​— Engraçado o senhor falar de "peças", Richard. Porque é exatamente assim que o senhor me trata. Como uma ferramenta útil que o senhor comprou pagando uma cirurgia. Pelo menos o Julian pareceu enxergar uma pessoa atrás do jaleco.

​— "Julian"? Já estão na base do primeiro nome? — Richard aproximou-se, invadindo o espaço dela no banco traseiro. O perfume amadeirado dele, agora misturado ao cheiro do uísque, era inebriante. — Você não vai para Nova York. Você tem um contrato. Você me deve.

​— Eu não sou sua propriedade! — disparou Elara, encostando as costas na porta do carro, mas sem desviar o olhar. — O senhor pode ter pago a conta do hospital, mas não comprou a minha alma. Se eu decidir que prefiro trabalhar para um homem que sabe dizer "por favor" em vez de um que só sabe dar ordens e rosnar, eu vou. E o senhor pode mandar seus advogados atrás de mim, eu não ligo.

​Richard segurou o braço dela, não com força, mas com uma urgência desesperada. A máscara de gelo estava rachando, revelando algo cru e perigoso por baixo.

​— Você acha que ele se importa com você? Que alguém naquele mundo de tubarões se importa? — ele sibilou, o rosto a centímetros do dela. — Ninguém vai te proteger como eu protejo. Ninguém vai ver o que eu vejo em você.

​— E o que o senhor vê, Richard? — Elara desafiou, a respiração acelerada. — Uma química talentosa? Uma auxiliar de cozinha eficiente? Ou apenas alguém que o senhor gosta de humilhar para se sentir superior?

​— Eu vejo a única pessoa que me faz odiar o silêncio desta cidade! — gritou ele, perdendo o controle pela primeira vez na vida.

O motorista estacionou o sedã preto em frente à casa de Elara. A rua estreita, com algumas poças de lama refletindo a luz alaranjada dos postes, parecia um cenário de outro mundo comparado ao salão de gala de onde tinham acabado de sair.

​— Chegamos, Srta. Jones — anunciou o motorista, mantendo os olhos fixos no retrovisor, sem coragem de encarar a tempestade que acontecia no banco de trás.

​Richard olhou pela janela para a casa pequena, com a pintura desgastada e um vaso de flores simples na janela. Aquela visão o incomodava. Era real demais. Era o tipo de lugar de onde ele fugira a vida toda, mas que Elara chamava de lar com um orgulho que ele não compreendia.

​— Saia do carro, Jones — repetiu Richard, a voz agora num tom baixo e vibrante, como um trovão distante. — Amanhã cedo, quero o relatório da essência de sândalo na minha mesa. E se eu vir aquele cartão do Sterling de novo, eu mesmo o transformo em pó.

​Elara abriu a porta, mas antes de sair, ela se virou para ele. O vento frio da noite balançou seus cabelos, e o brilho de indignação em seus olhos desafiava a escuridão do carro.

​— O senhor pode quebrar o cartão, Richard. Mas não pode quebrar a vontade de alguém que já não tem nada a perder. Pense nisso enquanto dorme sozinho naquela cobertura imensa, cercado de mármore e silêncio.

​Ela bateu a porta com força. O som ecoou pela rua silenciosa. Richard ficou imóvel, observando-a caminhar com os saltos altos batendo no asfalto irregular até entrar em casa. Ele viu uma luz se acender lá dentro — um brilho quente e acolhedor que ele nunca teria em sua vida perfeitamente calculada.

​— Vamos embora — rosnou ele para o motorista.

​No dia seguinte, o laboratório estava mais frio que o normal. Richard não disse "bom dia". Ele mal olhou para Elara. Ele agia como se ela fosse invisível, comunicando-se apenas através de bilhetes curtos e ordens secas deixadas na bancada.

​Elara, porém, não era de ficar calada. Enquanto misturava uma nova base para o perfume de inverno, ela deixou o cartão de metal de Julian Sterling em cima da mesa de Richard, bem em cima do relatório que ele estava lendo.

​Richard parou de ler. Seus dedos apertaram o papel até amassar as bordas.

​— O que isso significa? — perguntou ele, a voz perigosamente calma.

​— Significa que recebi um e-mail de Nova York hoje de manhã — mentiu Elara, sustentando o olhar furioso dele com um sorriso cínico. — Eles querem saber se eu prefiro um escritório com vista para o Central Park ou para o Hudson. O que o senhor recomenda, "Senhor Lâfrer"? O senhor entende de vistas caras.

​Richard levantou-se tão rápido que a cadeira quase tombou. Ele caminhou até ela, parando a centímetros de distância. O cheiro de ódio e atração entre os dois era quase palpável.

​— Você está blefando. Você não teria coragem de me deixar depois de tudo o que eu fiz por você.

​— O senhor fez por mim ou fez por você mesmo, para se sentir o dono da situação? — Elara retrucou, a língua mais afiada do que nunca. — Eu não sou um dos seus vidros de perfume que o senhor rotula e guarda na prateleira. Se o senhor quer que eu fique, vai ter que aprender a ser algo mais do que um caixa eletrônico ambulante com complexo de Deus.

​Richard soltou uma risada amarga, aproximando o rosto do dela.

​— Você quer que eu seja o quê, Elara? Quer que eu peça desculpas? Quer que eu diga que a sua "humanidade" é irritante? Pois bem: você é a funcionária mais insolente, mal-educada e petulante que já tive. E eu não vou te dar o prazer de pedir para você ficar.

​— Ótimo — disse ela, pegando o cartão de volta. — Então prepare a minha rescisão. Vou começar a praticar meu inglês.

​Ela se virou para sair, mas Richard segurou o pulso dela com uma urgência que ele não conseguiu esconder. Por um segundo, a máscara de empresário caiu, e Elara viu apenas o homem desesperado por trás do gelo.

​— Elara... não se atreva — sussurrou ele, a voz rouca.