A Essência do Amor

10 O Espelho e o Monstro





​Richard segurava o pulso de Elara com uma força que beirava o desespero. Seus olhos cinzentos, geralmente tão frios e calculistas, estavam injetados de uma fúria impotente. O silêncio no laboratório era opressor, quebrado apenas pela respiração pesada de ambos.

​Elara olhou para a mão dele prendendo-a e depois diretamente nos olhos dele. Ela não parecia com medo. Parecia exausta de lutar contra uma parede de gelo. Com um movimento brusco e preciso, ela girou o pulso, usando a própria força de Richard contra ele, desvencilhando-se do aperto com facilidade.

​Ela deu três passos para trás, invadindo o espaço de segurança dele, e respirou fundo. O ar parecia queimar em seus pulmões, misturado ao cheiro de sândalo e ódio. Elara ajeitou o jaleco e endireitou a coluna, a língua mais afiada e perigosa do que nunca.

​— O senhor está furioso, não é, Richard? — a voz dela surgiu calma, mas carregada de um veneno que ele nunca ouvira antes. — O grande Richard Lâfrer, o mestre do controle, o homem que nunca amou, está com medo. Medo de que a única peça do seu tabuleiro que tem alma decida que não quer mais ser jogada.

​Richard apertou os punhos, os nós dos dedos brancos de tanta tensão. Ele queria gritar, queria quebrá-la, queria beijá-la até que ela esquecesse o nome de Julian Sterling. Mas ele estava paralisado pelas palavras dela.

​— Eu não tenho medo de nada, Jones — sibilou ele, a voz rouca e vibrante de úria contida. — Você é apenas uma funcionária que está se esquecendo do seu lugar.

​— Meu lugar? — Elara soltou uma risada amarga e seca. — Meu lugar é onde eu sou valorizada, Richard. Não onde eu sou tratada como uma ferramenta útil que o senhor comprou pagando uma cirurgia. O senhor acha que pagar a conta do hospital te dá o direito de me humilhar todos os dias? Pois bem: o senhor pode ter comprado a cirurgia da minha mãe, mas não comprou a minha dignidade.

​Ela deu mais um passo à frente, forçando-o a recuar um centímetro.

​— O senhor é um monstro, Richard. Um monstro de gelo que destila perfume para esconder o cheiro da própria podridão interior. O senhor foge do amor como se fosse uma doença, porque no fundo, sabe que não é digno dele. O senhor é tão vazio que precisa de um império de cosméticos para preencher o buraco que sua mãe deixou quando te abandonou naquele orfanato.

​Richard travou. O nome "mãe" e a menção ao orfanato foram como um soco no estômago. Aquela era a sua ferida mais profunda, o segredo que ele passara a vida protegendo. Elara acabara de expor sua maior fraqueza na frente dele. A fúria dele, antes uma tempestade controlada, agora explodiu como um vulcão.

​Ele avançou para ela, o rosto a centímetros do dela. O cheiro de uísque e ódio era avassalador.

​— Como você se atreve... — rugiu ele, a voz quase inaudível de tanta raiva. — Você não sabe nada sobre mim! Nada!

​— Eu sei o suficiente — rebateu ela, sem recuar, os olhos castanhos faiscando com uma intensidade que o desarmava. — Eu vejo o menino assustado que mora atrás desse terno caro. O menino que prefere ser odiado do que abandonado novamente. Mas quer saber de uma coisa, Richard? O ódio também é uma forma de abandono. E o senhor está se abandonando a cada vez que trata alguém como lixo para se sentir superior.

​Richard levantou a mão, o punho cerrado, não para agredi-la fisicamente, mas como se quisesse calar aquela boca atrevida que dizia verdades que ele passara a vida escondendo. Elara não piscou. Ela apenas sustentou o olhar dele, um espelho implacável que refletia toda a sua monstruosidade e solidão.

​— Vá em frente, Richard — desafiou ela, a voz num sussurro perigoso. — Mostre para mim o que o senhor realmente é. Prove que eu estou certa sobre o monstro que mora aí dentro.

​A mão dele tremeu no ar. Ele olhou para o rosto dela, para os lábios que ele tanto desejava e que agora o feriam com tanta precisão. O silêncio entre os dois parecia gritar todas as palavras que nunca seriam ditas. Richard lentamente baixou o punho e deu dois passos para trás, a expressão voltando a ser uma máscara de pedra, embora seus olhos estivessem úmidos de uma raiva impotente.

​— Saia do meu laboratório, Jones — disse ele, a voz fria e desprovida de emoção. — Amanhã quero sua rescisão na minha mesa. E não se preocupe com o pagamento da cirurgia. Considere isso um presente de despedida para uma funcionária que eu nunca deveria ter contratado.

​Elara olhou para ele uma última vez, o coração apertado, mas a alma em paz. Ela sabia que tinha ganho a guerra, mas perdido o homem.

​— Obrigada, "Senhor Lâfrer" — ironizou ela, retirando o jaleco. — Foi uma experiência... instrutiva. Vou começar a praticar meu inglês para Nova York. O café de lá deve ser muito melhor.

​Ela deu as costas a ele e caminhou em direção à porta. Richard ficou ali, parado no meio do laboratório, cercado por frascos de perfumes caros e pelo silêncio opressor. Ele tocou o lugar onde o braço dela o pressionara por um segundo. O perfume de Elara — aquele toque de baunilha e esperança — parecia ter grudado em sua pele. Ele odiava aquilo. E, ao mesmo tempo, era a primeira vez em décadas que ele se sentia completamente sozinho. Ele acabara de quebrar o espelho que lhe mostrava a verdade, e agora, tudo o que restava era o monstro que ele passara a vida tentando esconder.