O tempo em Nova York tinha uma velocidade diferente. Para Eloise, os últimos dois anos foram uma sucessão de invernos rigorosos e reuniões de diretoria que serviam como anestesia. Ela se tornara a face de ferro da Lâfrer & Jones na América, uma mulher que exalava o perfume do sucesso, mas que, no fundo, guardava a fragrância estática de uma vida interrompida.

​Enquanto isso, no Brasil, o império passara por uma metamorfose sombria.


​A saída de Suzana não fora a tragédia romântica que ela ensaiara. Quando o pequeno James nasceu, a botânica revelou sua verdadeira faceta. O ressentimento pela humilhação no jardim e o peso de um casamento sem amor se transformaram em uma transação fria. Ela aceitou uma fortuna obscena de Richard e desapareceu no mundo, deixando para trás o filho e um papel assinado de divórcio.

​Suzana não queria ser mãe de um herdeiro que ela considerava o fruto de um refúgio. Ela vendeu seu lugar na família Lâfrer e partiu, deixando Derick com os destroços de sua dignidade e um bebê nos braços.

​O Alquimista e o Berço

​Derick não era mais o jovem audacioso que desafiava Richard. O rosto agora exibia olheiras profundas e uma barba por fazer que lhe dava um ar de bicho acuado. Ele se desdobrava entre o laboratório e o berçário na mansão.

​Richard e Elara, sentindo o peso da culpa pelo que a família se tornara, transformaram-se nos pilares de James. Richard, o homem que um dia foi abandonado em um orfanato, agora passava as noites observando o neto, garantindo que o menino nunca sentisse o frio que ele sentiu.

​— Ele precisa de você inteiro, Derick — Richard disse certa noite, entrando no laboratório onde o irmão tentava ninar James enquanto analisava uma amostra de óleo essencial. — Você não pode ser pai e cientista 24 horas por dia. Deixe a babá levar o menino.

​— Eu não confio em ninguém, Richard — Derick respondeu, a voz rouca, ajeitando o pequeno James no colo. — Ele já foi vendido por quem deveria amá-lo. Eu sou tudo o que ele tem de real.

​O Chamado do Destino

​Em Nova York, Eloise recebeu um pacote. Não era um relatório financeiro. Era um frasco de amostra sem rótulo, enviado por Elara. Ao abrir, o cheiro a atingiu como um soco: era a "Linha Orvalho", mas com uma nota nova, algo que cheirava a talco, leite e a mesma terra úmida do jardim de Marianne.

​Era o cheiro de James.

​Eloise fechou os olhos, as lágrimas molhando os papéis sobre sua mesa na Quinta Avenida. Ela sabia que Derick estava sozinho. Sabia que a "intrusa" se fora e que o sangue Lâfrer agora clamava por ela de uma forma diferente. Ela não era apenas a ex-amante proibida; ela era a tia daquela criança, a herdeira daquele legado e a única pessoa que realmente entendia o que Derick estava passando.

​Ela pegou o telefone e ligou para o pai.

​— Pai... prepare o meu antigo quarto. E diga ao Derick que eu estou levando as fórmulas de Nova York. James precisa conhecer a botânica que vai cuidar do futuro dele.