O voo de Nova York para São Paulo pareceu durar uma eternidade, mas nada se comparava ao gelo que Eloise sentiu ao cruzar o portão da mansão. O jardim de Marianne, antes vibrante e caótico, agora estava milimetricamente podado, transformado em uma vitrine estética de luxo, desprovido da "alma" que Derick tanto defendia.

​Eloise subiu as escadarias de mármore e parou na porta do escritório. A cena que encontrou não era a de um pai amoroso e um cientista apaixonado.


​Derick estava sentado na poltrona que um dia pertenceu a Richard. Ele usava um terno de corte impecável, o cabelo perfeitamente alinhado e um olhar que parecia capaz de congelar o oxigênio da sala. No canto, em um cercadinho de design minimalista e caro, o pequeno James brincava em silêncio absoluto.

​— Você demorou, Lâfrer — disse Derick, sem tirar os olhos de um relatório financeiro. A voz dele não tinha mais aquele sotaque da periferia ou o calor das discussões botânicas. Era uma lâmina de aço, idêntica à de Richard, ou talvez mais afiada.

​Eloise sentiu um arrepio. O homem que se sujava de terra para provar uma essência morrera junto com a partida de Suzana. No lugar dele, nascera um monstro corporativo moldado pela traição.

​— Eu vim pelo James. E pela empresa — respondeu Eloise, mantendo a postura, embora o coração doesse ao ver o primo... não, o tio... tão transformado. — Soube que a Suzana levou o que restava da sua humanidade junto com o dinheiro do divórcio.

​Derick finalmente levantou os olhos. Eram orbes vazios, destituídos de qualquer brilho.

​— Humanidade é um erro de cálculo, Eloise. Eu aprendi com o melhor — ele fez um gesto vago em direção ao retrato de Richard na parede. — Suzana foi um investimento mal planejado que eu liquidei. James é o meu sucessor, o herdeiro legítimo. Ele não precisa de "afeto", ele precisa de estrutura e de um império sólido.

​Ele se levantou, caminhando até a mesa de destilação, onde agora não havia plantas, mas apenas sensores digitais de última geração.

​— Se você veio esperando encontrar o Derick que te beijou no jardim, pode voltar para Nova York. Aquele homem era um amador. Este aqui — ele apontou para si mesmo — comanda a maior holding de cosméticos da América Latina com mão de ferro.

​Eloise aproximou-se do cercadinho e pegou James no colo. O menino não chorou; ele apenas a observou com os mesmos olhos tristes do pai.

​— Você está transformando o seu filho em um robô, Derick. Exatamente como o papai fez comigo antes da vovó Marianne aparecer. Você não percebe? Você se tornou o que mais odiava.

​Derick soltou uma risada curta e sem humor.

​— Eu me tornei o que era necessário para sobreviver a pessoas como você e Suzana. Agora, coloque o menino no chão e vá se trocar. Temos uma reunião de conselho em trinta minutos. E Eloise... — ele se aproximou, o cheiro do seu perfume agora era puramente sintético, frio e dominante — ...não tente usar o passado para me amolecer. O jardim da Marianne está morto. Agora, nós só trabalhamos com o que o mercado pode pagar.

​Eloise sentiu o peso do desafio. Ela voltara para salvar Derick, mas percebeu que teria que lutar contra uma versão dele que era muito mais perigosa que o próprio Richard. O império Lâfrer Jones agora tinha dois imperadores de gelo, e a guerra pelo coração daquela família estava apenas começando.