Notas iniciais
Demoro mas está.

Tarja-preta

Quando você está vivendo, você raramente pensa no que você faz. “Life is automatic”, diz a música Listen Up, Oasis. E a vida deve sim ser automática, pois quando você presta atenção em suas ações, vê que ela é muito mais surreal do que qualquer coisa que possa estar fora da realidade. Encaremos os fatos: eu acordo feliz, alguma coisa rolou entre eu e uma garota linda. Essa é a parte normal da vida. Então olhemos o outro lado: essa garota está em coma desde Deus sabe lá quando e nós só nos vemos enquanto eu durmo... Certo. Isso definitivamente não faz sentido!

Começo a pensar que eu deveria ser alguém mais normal, deveria aceitar ficar na friendzone com todas as garotas da escola, aceitar ser um virgem de quarenta anos jogando League Of Legends com crianças de doze anos no supercomputador do meu quarto, enquanto limpo migalhas de Cheetos da minha camiseta tamanho GG.

É, comparando as opções, ter uma namorada... virtual? Não seria virtual a palavra. Talvez imaginária... Que seja! Naquele sábado de manhã, tinha a certeza de que tinha tudo o que precisava desde que dormisse. Aliás, eu poderia “dormir” com a minha garota toda noite. Desculpe a piada ruim, mas ela estará lá. Ela sempre estará quando eu fechar os olhos. Ela nunca irá a lugar nenhum... E isso certamente não é tão bom quanto parece à primeira vista. Ela é real! Mas onde ela se está agora?

Eu preciso salvá-la, preciso acordá-la. Desespero-me. Sonhar com ela poderia ser tudo de bom, mas isso seria egoísmo meu. Ela merece viver. Aquele lugar, aqueles sonhos, aquele mundo louco onde o impossível acontece não é lugar para ninguém viver. Eu preciso pensar em como fazer isso.

Certo, como se acorda alguém que está em coma? Isso não me parece algo que se encontre no Google. Procurei de toda forma, em vão. Talvez sonhar com ela novamente me trouxesse mais respostas. Precisava de mais informações, embora nem soubesse para quê. Era algo que valia à pena tentar.

Foi o que fiz. Deitei-me novamente. A adrenalina, o medo, a ansiedade e toda a urgência de agir são inimigos do sono. Havia também ignorado o fato de que tinha acordado minutos antes. Ficar acordado, ficar sem ela, no entanto, não era opção. Levantei e passei o dia tentando imaginar o que faria.

Em algum momento dentro de meu tédio eterno, reparei algo inusitado que até então não tinha visto: o que ela estava fazendo nos meus sonhos? Ela é alguém real, certo? Pela lógica ela também está sonhando, e sonhos de pessoas normais não se misturam uns com os outros. Então eu estava invadindo os sonhos de uma pessoa? Sonhos que não eram meus? Ou seria ela que estava invadindo os meus?

A noite caíra e minhas dúvidas só apareciam mais fortes. A ânsia por dormir não me deixava fazê-lo. Eu levantei suado às quatro da manhã do domingo. Via que tentar dormir não daria mais certo, não havia sequer cochilado. Sabia também que meu domingo seria outro dia incrivelmente tedioso. Assim foi. Passei o dia quase sem comer, tentando dormir. Ouvia batidas na porta e minha mãe perguntar se estava tudo bem. Eu não dava a mínima para isso.

Quando dei por mim já era duas horas da manhã do domingo daquele que parecera o final de semana mais tedioso da minha vida. Fui até a gaveta de remédios. Minha mãe sofria de ansiedade, tinha um seríssimo problema com isso. Provavelmente teria algo para dormir.

Achei tudo o que precisava: havia alguns remédios de tarja-preta, remédios de força máxima contra a insônia. Tomei dois compridos de um deles e achei que fosse o suficiente. Deitei novamente, mas não fui tão feliz na tentativa. Suava mais do que na noite anterior, tive de levantar e tomar mais alguns remédios. Passei mal, fiquei tonto. Por pouco não consigo chegar de volta à cama, mas deito novamente e deixo o efeito das drogas me levar.

Provavelmente você já ouviu falar na “bad trip”. É como se você estivesse pulando pela janela para dentro de um trem em alta velocidade, mas não tivesse calculado o momento do salto: você bate na parede e cai rolando nos trilhos, sozinho, no meio do nada.

Acordei num cenário estranho: o céu era de um azul vivo e maligno, embora toda a terra estivesse escura, imersa em sombras. Via ao horizonte seres correndo em minha direção. Eles eram seres que poderiam ter fugido de quaisquer pesadelos. Aliás, eles eram a personificação da palavra pesadelo.

Notas finais
Reviews?