A Esquina Esperanza
5 A realidade se torna única.
Notas iniciais
Quando se vê dois pesadelo (nomeei eles assim depois de pensar um pouco.) correndo em sua direção em um cenário nada convencional acho impossível qualquer pessoa ter um pensamento muito diferente do meu. Corri como se não tivesse amanhã, talvez não tivesse. Algo me dizia que não seria muito agradável receber um golpe daquelas coisas (sinceramente, se tivesse prestado atenção o suficiente para descreve-los, diria que são uma leve fusão de tudo que há de ruim no mundo.), um beijo teve todas as qualidades de um beijo normal para mim. Por que um soco não teria?
Teria corrido para sempre, porém meus passos pareciam não valer nada em metros. Se me pedissem para dizer a velocidade que eu estava, provavelmente diria “três passos por milênio”. Quando olhei para trás tomei um susto. E não foi só porque a fusão do inferno estava a poucos metros de mim, mas também porque eu não acreditava no que via. Correndo daquelas miniaturas de capeta (Na minha imaginação capeta é um gigante, pois aquilo devia ter 5 metros de altura, pera... Ele segurava uma espada?) estava o meu amigo de escola. Matheus estava correndo de capetas espadachins?
Todas as ideias vieram na minha cabeça como um furacão. Eu tinha invadido o pesadelo do Matheus. Não tinha tempo para pensar naquele tipo de coisa. Tinha que salva-lo! Em um súbito momento de adrenalina (finalmente ela me foi útil depois de tanto tempo sem conseguir dormir.) senti meu corpo mais leve. Reduzi e corri em direção aos espadachins do inferno (Acho que foi nessa hora que decidi chamar eles de pesadelos.), os pesadelos pararam confusos. Era tudo que eu precisava, peguei o Matheus e como em um filme de ação rolei por baixo das pernas dos pesadelos. Não dei muito tempo para o garoto respirar, repeti o movimento para o lado contrário. Foi o suficiente para deixá-los confusos por um tempo, ganhei uma pequena vantagem com isso.
– O que raios você está fazendo aqui? – Perguntou Matheus.
– Salvando sua vida! – Respondi em euforia.
– Eu não estou entendendo nada. Isso não é um sonho? – No momento em que ele me disse aquilo percebi. Ele estava tendo um sonho lúcido. Ou pior, um pesadelo lúcido (Se bem que, se você está correndo de dois bichos daqueles, não acho muito difícil descobrir que é um sonho).
– Bom, sabe tudo que você sabe sobre sonhos? Esquece. Se você está se perguntando se eu estou certo, eu estou de rolo com um sonho. Quer mais experiência que isso? – Ele pareceu aceitar bem os argumentos, começou a me acompanhar e começou a me indagar coisas que eu nem sabia responder.
– Se isso é um sonho meu, o que você está fazendo aqui? – Indagou ele.
– Boa pergunta! – Eu disse. Sinceramente não sabia a resposta.
– Pera, você está de rolo com um sonho? Como assim?!
– Só agora que a ficha caiu? Sério? – Eu devia estar corado porque ele começou a rir. – Não temos tempo para isso. Acho que tive uma ideia.
– Ok, eu vou esquecer que estou dormindo, e vou deixar você tomar conta da situação. Qualquer coisa, amanhã você se explica.
– Ok. Se eu fui capaz de invadir seu sonho, provavelmente existe uma possibilidade de invadir o sonho de outra pessoa e fugir desse pesadelo.
– Deixe-me ver se eu entendi. A gente vai procurar uma fronteira com o sonho de outra pessoa? Sério? Como se fosse o armário de Nárnia?
– Não tinha pensado nisso ainda. Mas é uma boa ideia. Faremos isso então.
Continuamos correndo, porém não víamos nenhum sinal de outro sonho. Além do mais, se entrássemos em outro sonho, seria motivo para os pesadelos pararem de nos perseguir? Acho que não. Depois de todos os esforços que fiz para dormir. Tudo que eu queria era acordar. Acordar! Era isso! Eu só precisava acordar!
– Matheus! Só precisamos acordar para que... – Não tive tempo de terminar a frase. Levei tempo demais pensando que esqueci que os monstros se aproximavam. Foi tudo muito rápido. Olhei para o lado e vi Matheus com uma espada encravada no peito. A tranquilidade no olhar dele dizia que ele já tinha passado por isso antes. Me pergunto se Matheus já tivera aquele pesadelo. Tenho que parar de me perder em pensamentos, sinceramente! Olhei para minha frente e vi um dos pesadelos com um sorriso no rosto (não sei se posso chamar aquilo assim.) e com a espada pertíssimo do meu rosto, se não estivesse com adrenalina por causa da corrida teria sido morto ali. Pulei para trás fechando os olhos com a maior força que eu podia e desejando acordar. A última coisa que me lembro foi de sentir a lamina tocar meu braço.
Tudo tinha escurecido, sentia meu corpo úmido de suor. Ainda estava tonto por causa dos remédios, levei uns trinta minutos para me recuperar completamente. Levantei da cama para me recompor por completo. No momento em que me movi para cima, senti uma ardência no meu braço esquerdo, o que me molhava não era suor. Era sangue! Eu realmente recebi aquele golpe com a espada. Entrei em desespero, estava pálido e fraco. Graças aos céus minha faculdade seria medicina. Tinha noção do que tinha que fazer. Estanquei rapidamente o sangue e enfaixei meu braço. Improvisei uma maneira de imobiliza-lo. Finalmente sentei na cama exausto. Desci e comi algo para recuperar o sangue perdido, estava com sorte, sozinho em casa. Coloquei a roupa de cama para lavar e sentei no sofá de casa já exausto.
A cor começara a voltar para meu corpo e meus pensamentos estavam mais calmos e ordenados. Nesse momento veio como a erupção de um vulcão toda a adrenalina e medo que sentira antes. Lembrei da frase “Qualquer coisa, amanhã você se explica.”, se meu braço estava sangrando, o que acontecera com o Matheus?
Me vesti com a primeira roupa que vi (Parecia uma versão grunge do Restart.). Corri em direção da casa do Matheus. Tantos pensamentos me invadiam naquela hora que não levei em consideração nada. Meu ferimento. Os carros. Todos eram apenas vultos na minha visão. Ao adentrar a rua da casa dele tudo que eu menos queria ver ou ouvir se concretizou em poucos segundos. Ouvi sirenes e acompanhada com elas seus respectivos carros: um carro de patrulha de polícia e uma ambulância. Também do lado deles havia um carro de repórter. A repórter estava posicionada ao lado de uma faixa amarela escrita “Cena do crime. Não ultrapasse.”.
– Matheus Silva Santos fora encontrado morto hoje em sua cama. Os ferimentos, dizem a perícia, parecem com os de uma espada da época medieval. – Dizia a repórter. Não precisei ouvir o resto. Comecei a chorar. Ele morrera por minha culpa. Eu não fui bom o suficiente para salva-lo. Os sonhos de alguma forma estão se juntando com o mundo real.
Abri o navegador do meu celular para procurar algumas informações. O que eu suspeitava era verdade. Matheus não era o primeiro. Em todo mundo várias pessoas tem morrido dormindo nos últimos três meses. Não acho que seja coincidência. Mas também não acho que mais alguém tenha reparado nesse tipo de coisa. Eu era o único que sabia. Eu era o único que podia ajudar. E eu tinha que ajudar! Precisava descobrir o que estava acontecendo. E precisava faze-lo logo!
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