A Esquina Esperanza
6 Paredes
Notas iniciais
Caminhei para casa devastado, por sorte, permanecia sozinho. Deitei no sofá e me perdi em pensamentos. Por quê? Como? Essas perguntas nunca sairiam da minha cabeça se não respondesse-as, mas como faria isso? – E lá vem a pergunta de novo. – Precisava de respostas. Precisava dormir. Por sorte, dessa vez o terror da situação, e talvez o sangue que perdi com o ferimento, facilitaram o ato.
Acordei em um gramado. A serenidade do local levava embora um pouco do sentimento de culpa e tristeza que tinha no momento, Lilian estava deitada nele olhando para o céu. Nunca tinha a visto assim, ela estava pensativa. Seus olhos cinza se encontravam com o arco-íris de maneira tão perfeita que podia jurar que eram eles que refratavam a luz.
– Bom dia. – falei sem nem mesmo saber o horário no qual estávamos. – Tenho que conversar com você.
– Ah, Liam! Bom dia. – Ela levantou e me cumprimentou com um beijo – Meu deus! O que foi?
Finalmente percebi que estava chorando, dessa vez, de felicidade. Estava feliz por ela estar bem. Nunca me perdoaria se algo acontecesse com Lilian. Porém, como sempre, a felicidade logo se transformou em medo e receio. Abracei-a e deixei que minhas lagrimas saíssem. Me sentia confortável perto dela, não tinha porque tentar segurar.
– L-Li-Liam, O que houve? – Ela perguntou. Senti em sua voz um tom desconfiado, como se já soubesse o que estava por vir.
– Aconteceu algo maluco! – Como se algo do que já aconteceu não fosse tão maluco quanto. – Eu estava sonhando junto com o Matheus, estávamos fugindo de pesadelos e eu não consegui protege-lo. Foi tão rápido que...
Lilian deu um pulo para trás com a informação. Queria ter certeza do que tinha ouvido.
– Quer dizer que já chegou até aqui? Estamos perdidos.
– Como assim já chegou até aqui? – Ela sabia de algo. Precisava descobrir o que era.
– Você tem certeza de que quer saber?
– Lilian, meu amor, meu amigo morreu e eu quase perdi um braço! Se eu não precisasse saber, não perguntaria para você.
– Ok, me siga.
Lilian começou a andar em direção à uma árvore, porém, o campo começara a descolorir como desenho de tinta guache no pátio da escola. Tudo se transformara em um local cinza e com cheiro de terra molhada. Ao olhar para o lado vi ruinas, o que parecia ser anteriormente uma muralha foi reduzida ao pó.
– O que é isso? – perguntei-a.
– O resto disso é o alicerce do que já foi a parede de contenção. Era ela que dividia os limites reais e imaginários. – Lilian coloca a mão na terra molhada do chão e retira seu excesso do que parece ser uma camada de cristal. – Agora tudo que sobrou separando os dois mundos é o chão.
Acordo com o barulho dos meus pais chegando, levando rápido e me dirijo para o banho. Limpo meu ferimento – Nada agradável por sinal. – e o enfaixo. Ao terminar coloco minha roupa e desço normalmente, como se não tivesse quase perdido um braço para um espadachim infernal de um pesadelo, e ajudo minha mãe com a janta. Tive sucesso em convence-la que machuquei o braço jogando futebol.
– Mãe, vou dormir.
– Não quer sair um pouco? Esses dias o que você mais anda fazendo é dormir. Os vestibulares estão chegando perto, vá pegar um ar.
Minha mãe estava lendo livros de psicologia demais para o meu gosto, como se fosse a primeira vez.
– Se dormir demais vai acabar engordando, ai que não vai conseguir pegar ninguém mesmo. – Disse meu pai que eu podia jurar que não estava na cozinha. – Nem parece que é meu filho.
– Diz o cara que casou com a primeira namorada. – Eu disse e minha mãe soltou um sorriso. – Mas vocês estão certos, vou dar uma volta. Não me esperem.
Coloquei um casaco por cima da roupa e saí daquele jeito mesmo. Não tinha cabeça para me vestir, tinha que dar um jeito de, por mais irônico e hollywoodiano que pareça, salvar o mundo.
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