A Esposa Perfeita
34 O Homem que Restou
Notas iniciais
💍 A ESPOSA PERFEITA
Capítulo 34 — O Homem que Restou
A chuva típica do estado de Washington caía fina e persistente sobre o cemitério municipal de Forks, transformando o gramado em um tapete úmido e gélido. Não havia tapete vermelho, não havia fotógrafos da imprensa internacional e nenhum acionista de Wall Street. O funeral de Charlie Swan foi exatamente como ele viveu: simples, silencioso e cercado apenas pelas poucas pessoas que realmente faziam parte de seu mundo de verdade.
O caixão de madeira clara repousava sobre as alças de metal acima da cova aberta. Sue Clearwater permanecia amparada por Leah e Seth, os olhos fixos no vazio, exaurida de tanto chorar. Mais atrás, Carlisle e Esme mantinham uma distância respeitosa, acompanhados por Emmett e Rosalie, que segurava um guarda-chuva preto com as mãos trêmulas.
Bella não parecia a mulher que, dias atrás, usava um vestido de alta-costura verde-esmeralda. Vestia um casaco preto simples, sem maquiagem, com as olheiras profundas denunciando as noites em claro. Ela não era uma peça no tabuleiro do conselho de administração ou a esposa contratada do CEO; era apenas uma filha de luto, sentindo o peso esmagador da ausência do pai.
A poucos metros dali, sob a sombra de um salgueiro chorão na extremidade do cemitério, um carro preto de vidros escuros permanecia estacionado. Pelo vidro semiaberto, Alice e Jasper observavam a cena. O silêncio dentro do veículo era sufocante. Pela primeira vez desde que orquestrou a explosão no centenário, Alice sentiu o estômago revirar com um sentimento incômodo e gélido. A destruição que ela planejara deveria atingir apenas o orgulho de Edward, mas o estilhaço da bomba havia ricocheteado direto no peito de Charlie.
— Eu queria destruir o Edward... — Alice sussurrou, a voz falhando enquanto via o caixão começar a descer. — Mas eu não queria matar o Charlie, Jazz. Eu me sinto culpada... Isso foi longe demais.
Jasper, mantendo as mãos firmes no volante, olhou de soslaio para ela, com a expressão rígida de quem assumira o controle do império.
— Você não teve culpa de nada, Alice. Os únicos culpados por essa tragédia são o Edward e a Bella, que sustentaram aquela mentira por um ano inteiro. Nós só expusemos a podridão.
Alice desviou o olhar para o irmão, que permanecia um passo atrás de Bella, segurando o guarda-chuva sobre ela enquanto a chuva castigava suas próprias costas. Ele parecia menor, despido de toda a arrogância corporativa.
— Minha mãe me mandou uma mensagem hoje cedo, Jazz... — Alice engoliu em seco, com os olhos marejados. — Ela disse que a Bella está grávida, de verdade, desta vez... Já chega de vingança, você já conseguiu o que queria, você já é o CEO e o Edward já está sofrendo o bastante...Acabou!
O momento que mais chocou os presentes, no entanto, foi a aproximação de uma figura que ninguém esperava ver ali. Renée Dywer caminhou pelo gramado encharcado. Ela não usava sua habitual maquiagem de guerra ou suas joias extravagantes, estava de preto, com os cabelos loiros presos de forma simples e o rosto limpo. Sem o sarcasmo ou o veneno que destilara nas últimas semanas, ela caminhou até a beira da cova.
Bella ergueu os olhos, tensa, esperando um ataque ou um comentário cínico, mas Renée sequer olhou para os lados. Com os dedos trêmulos, ela deu um passo à frente e colocou uma única rosa branca sobre o caixão de Charlie que terminava de descer.
— Me perdoe, Charlie... — Renée sussurrou, a voz embargada por um arrependimento genuíno que há anos não transparecia em suas feições. — Eu amei você de verdade... e eu nunca quis que você sofresse assim. Me perdoe.
Ela deu um passo para trás, posicionou-se ao lado de Bella e, em um gesto inédito, segurou a mão fria da filha. Não havia câmeras para registrar, não havia status em jogo. Era apenas uma mãe, quebrada pelo remorso, tentando oferecer o único apoio que lhe restava.
Quando o funeral terminou e o pequeno grupo começou a se dispersar, Carlisle e Esme se aproximaram devagar. Carlisle mantinha o olhar severo, a mágoa profunda ainda visível na linha rígida de sua mandíbula. No entanto, ao observar Edward, com as roupas úmidas, sem dinheiro, sem cargo, tendo passado as últimas 48 horas organizando a papelada do enterro, cuidando de Sue e servindo Bella sem pronunciar uma única reclamação, uma pequena rachadura surgiu na muralha de sua raiva. Não era o perdão, mas era a dúvida de um pai que começava a ver o filho se transformar.
Esme, incapaz de conter o instinto materno diante da dor, deu um passo à frente e envolveu Edward e Bella em um abraço triplo e apertado.
— Eu perdoo vocês pelas mentiras... — Esme sussurrou contra o ouvido do filho, chorando baixinho. — A dor já cobrou o preço dela. Agora, a vida precisa seguir. Cuidem desse bebê.
Assim que se afastaram, um homem de terno cinza e postura impessoal se aproximou de Edward. Era o representante legal enviado por Jasper. Sem qualquer traço de empatia, ele estendeu uma pasta de couro.
— Senhor Cullen... desculpe o momento, mas trago a notificação oficial do conselho. O bloqueio integral do seu patrimônio corporativo foi concluído. O senhor tem o prazo de 24 horas para desocupar a mansão Cullen e entregar as chaves do veículo oficial da presidência. Seus cartões e o aparelho celular da empresa já foram cancelados.
Edward sequer olhou para os papéis. Ele apenas retirou o telefone corporativo e a chave do carro do bolso, entregando-os na mão do homem.
— Já está tudo pronto. Não preciso de 24 horas. Pode levar agora.
O advogado assentiu friamente e se retirou. Humilhante, definitivo e necessário. O último laço com o império estava desfeito.
Mais tarde, na antiga casa de Charlie em Forks, o silêncio era absoluto. Bella estava trancada no antigo quarto de solteira, vestindo uma camisa de flanela velha do pai, aquela que ainda guardava o cheiro suave de tabaco e loção pós-barba. Ela estava deitada de lado na cama estreita, chorando escondida, encolhida como uma menina que só queria acordar daquele pesadelo.
Na cozinha, Edward terminava de limpar o balcão. Ele havia passado a tarde ajudando Sue a guardar os pertences mais urgentes e preparando uma refeição simples para Bella, que mal havia tocado na comida. Ele limpou as mãos na toalha de prato e olhou para os próprios dedos, sem o relógio de ouro de milhares de dólares. Sentia-se vazio, mas, paradoxalmente, sentia-se mais leve do que nunca.
Ele subiu as escadas rangentes de madeira e empurrou a porta do quarto com cuidado. Ao ver Bella chorando contra o travesseiro, Edward não disse nada. Ele apenas caminhou até a cama, sentou-se na borda e começou a acariciar os cabelos castanhos dela, oferecendo sua presença silenciosa no meio do luto.
Ao final da tarde, a chuva deu uma trégua, transformando-se em uma névoa densa que cobria o horizonte de Forks. Bella pediu para voltar ao cemitério uma última vez. Ela queria ver o túmulo agora coberto pela terra fresca e pelas flores que começavam a murchar sob o frio.
Ela permaneceu parada diante da lápide que agora ostentava o nome de Charles Swan. Suas mãos repousavam sobre o ventre, onde a nova vida crescia alheia ao caos do mundo exterior. O vento frio da floresta bateu contra seu corpo, fazendo-a encolher os ombros.
Sentindo o calafrio dela, Edward se aproximou por trás. Sem dizer uma palavra, ele retirou seu próprio casaco escuro e o colocou delicadamente sobre os ombros de Bella, ajustando-o para protegê-la da brisa cortante.
Bella segurou as lapelas do casaco dele, sentindo o calor do corpo de Edward a envolver. Ela olhou para a lápide do pai e depois ergueu o rosto, encarando os olhos verdes de Edward, que agora refletiam apenas a verdade nua e crua do homem que restara.
— O que nós vamos fazer agora, Edward? — Bella perguntou, a voz saindo em um sussurro trêmulo, carregado de incerteza pelo futuro.
Edward olhou para a cova do homem a quem fizera uma promessa sagrada, depois desceu o olhar para a mão dela sobre a barriga. Ele estendeu a mão e entrelaçou seus dedos aos dela, apertando-os com firmeza.
— Eu não faço a menor ideia, Bella — Edward respondeu com sinceridade, dando um meio sorriso triste, mas absolutamente focado nela. — Mas, desta vez... nós vamos descobrir juntos.
Ele se virou, guiando-a para longe do túmulo. Os dois caminharam lado a lado pelo gramado do cemitério, deixando para trás os escombros do Cullen Group, a ganância dos acionistas, as mansões de luxo e as mentiras do passado. Não havia mais império. Havia apenas os dois, a dor da perda e a promessa de uma nova vida que estava prestes a começar.
A caminhada de volta do cemitério foi silenciosa, interrompida apenas pelo som dos sapatos pisando nas folhas molhadas de Forks. Quando o carro antigo de Charlie, o único veículo que restara a eles, estacionou no cascalho em frente à residência dos Swan, a silhueta de uma picape escura estacionada logo atrás chamou a atenção de Edward.
Ao empurrarem a porta de entrada, o calor da lareira acesa contrastou com o clima gélido lá fora, mas o que realmente paralisou o casal foi a cena na sala de estar.
Renée estava sentada no sofá de estofado gasto, com uma xícara de chá entre as mãos. Ao lado dela, um homem de terno alinhado e expressão extremamente profissional organizava uma série de pastas de couro sobre a mesa de centro.
— Mãe? — Bella deu um passo à frente, a voz rouca pelo choro do funeral. — O que está acontecendo aqui? Quem é ele?
Renée colocou a xícara na mesa com um som suave e olhou para o genro e para a filha. Não havia mais o semblante vulnerável do cemitério, mas também não havia a arrogância do passado. Era o olhar de uma estrategista que havia jogado o jogo mais perigoso de sua vida.
— Este é o Dr. Harrison, meu advogado de total confiança — Renée começou, a voz calma e firme. — Sentem-se, por favor. O que tenho para dizer exige que vocês prestem muita atenção.
Edward franziu o cenho, o instinto de proteção fazendo-o dar um passo à frente de Bella.
— Renée, se isso for mais um plano de exposição ou...
— Cale a boca por um minuto e escute, Edward — Renée o cortou, mas sem veneno. Ela respirou fundo e apontou para os documentos. — Duas semanas atrás, o Jasper e a Alice me procuraram em segredo. Eles sabiam do meu histórico de ressentimento contra você e contra o que o casamento de vocês representava. O Jasper me ofereceu uma porcentagem massiva de ações do Cullen Group em troca da minha "ajuda" para desestabilizar vocês publicamente e garantir que o conselho expulsasse você por quebra de decoro.
Bella arregalou os olhos.
— Você se aliou a eles para nos destruir? No dia do centenário?
— Eu fiz eles acreditarem que sim — Renée corrigiu, olhando fixamente para a filha. — No começo, a raiva me cegou. Mas no momento em que a Alice me contou, em um momento de pura soberba, sobre o plano de expor a mentira do aborto e humilhar vocês na frente do Charlie... eu parei. Eu conhecia o coração do seu pai, Bella. Eu sabia que ele não aguentaria a pressão e tentei alertar o Jasper de que aquilo seria um assassinato emocional, mas ele estava cego pelo poder. Alice também estava, até ver o corpo do Charlie cair no chão. —;Renée se levantou e caminhou até a mesa, pegando uma das pastas.
— Eu percebi que o Jasper ia engolir vocês vivos. Então, eu usei a ganância dele contra ele mesmo. Eu aceitei a transferência das ações que ele confiscou de você, Edward. Ele assinou a transferência de titularidade para o meu nome como pagamento pelo meu "serviço" de relações públicas na destruição da sua imagem. O Jasper achou que estava me controlando, achou que eu guardaria aquele dinheiro por puro egoísmo.
O Dr. Harrison deu um passo à frente, abrindo a pasta e revelando os documentos timbrados.
— No entanto, no mesmo dia em que as ações deram entrada no patrimônio da senhora Dywer, nós executamos uma operação fantasma em absoluto sigilo. Toda a porcentagem de ações recuperadas foi transferida em caráter irrevogável para o nome de Isabella Marie Swan Cullen.
Edward sentiu o sangue congelar nas veias, mas desta vez não de pavor.
— O que você está dizendo?
— Estou dizendo, Edward, que graças à vaidade do Jasper e à culpa de última hora da Alice, que me ajudou a assinar os papéis finais de liberação sem que o Jasper percebesse, nós enganamos o novo CEO do Cullen Group.— Renée deu um meio sorriso calculista, a velha Renée de volta por apenas um segundo. — Vocês têm tudo de volta. Na verdade, legalmente, a Bella agora detém uma das maiores fatias individuais do conselho do Cullen Group. O patrimônio que o Jasper achou que tinha limpado de você está salvo.
Bella olhou para a papelada, com as mãos trêmulas cobrindo a boca.
— Mãe... por que você fez isso?
— Porque eu perdi o Charlie, Bella — a voz de Renée fraquejou pela primeira vez, os olhos enchendo-se de lágrimas legítimas. — E eu passei a vida inteira fazendo escolhas erradas por ambição. Quando vi você grávida de verdade, protegendo aquele bebê no chão daquele salão com seu pai nos braços, eu percebi que se eu não fizesse algo, eu perderia você também. O Jasper achou que tinha jogado vocês na miséria, mas ele é um inútil que não sabe de nada.
O Dr. Harrison puxou um último documento, estendendo uma caneta para Edward.
— Há apenas uma condição legal que a sua sogra exigiu, senhor Cullen. As ações estão e permanecerão no nome da sua esposa, para proteção familiar. Mas este contrato anexo concede ao senhor os direitos plenos e vitalícios de representação, voto e administração desses ativos. Em suma: o senhor está de volta ao conselho de administração do Cullen Group amanhã de manhã. Mas não como o herdeiro, senhor volta como o representante legal e protetor dos interesses da sua esposa e do seu filho.
Edward olhou para a caneta, depois para Renée, e finalmente para Bella. O silêncio na sala era denso, quase sagrado. O homem que horas atrás aceitara a ruína absoluta com os ombros curvados, agora via o tabuleiro virar de cabeça para baixo pelas mãos da mulher que ele achava ser sua pior inimiga.
— O Jasper acha que venceu — Edward sussurrou, os olhos verdes brilhando com uma intensidade que há muito tempo não se via. Ele pegou a caneta da mão do advogado. — Ele acha que herdou um império limpo.
— Mostre a ele, Edward — Renée disse, cruzando os braços, uma lágrima solitária escorrendo por seu rosto. — Mostre a ele como um homem de verdade protege a sua família. Pelo Charlie.
Edward assinou o documento com firmeza. A queda havia sido brutal, mas a reconstrução dos Cullen estava prestes a começar de dentro da própria sala do conselho, e o novo CEO não fazia a menor ideia do que o esperava.
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