A Esposa Perfeita
27 Estilhaços de Vidro
Notas iniciais
Capítulo 27 — Estilhaços de Vidro
O silêncio na cobertura de Milão era cortante. Edward havia acabado de entrar, com os nós dos dedos ainda inchados e manchados com o sangue de Jasper. Ele não disse uma palavra, apenas caminhou até o bar e serviu-se de um uísque puro. Bella o observava da penumbra, sentindo um calafrio; o homem que ela amava agora carregava a marca da violência necessária para proteger o trono do Cullen Group.
A porta do quarto de hóspedes se abriu e Alice saiu. Ela parecia um fantasma. Seus olhos, antes cheios de vida, eram agora poços de mármore frio. Ela caminhou até Bella, ignorando a presença de Edward.
— Você é muito boa nisso, não é, Bella? — A voz de Alice era um sussurro letal.
— Alice, por favor... — Bella tentou tocar seu braço, mas a cunhada recuou como se tivesse sido queimada.
— Você chora, você deita naquela cama, você aceita as flores que a mamãe mandou por intermédio da secretária... e o mundo inteiro para em luto por você. Enquanto isso, o meu filho, o único que era real, foi tratado como um resíduo médico e jogado no esquecimento para que o seu "personagem" de mãe enlutada fosse convincente. — Alice deu um passo à frente, as palavras saindo como facas. — Eu olho para você e para o meu irmão e não vejo mais família. Vejo dois estranhos ambiciosos que usaram a minha maior tragédia como um degrau corporativo. Eu não quero a proximidade de vocês. Eu quero distância desta família e desta teia de mentiras que vocês teceram. Voltem para Forks. Eu vou ficar em Milão. Vou sumir na Europa onde ninguém saiba o nome dos Cullen.
Bella sentiu a garganta fechar. A depressão, que vinha rastejando pelas bordas de sua mente desde o casamento, finalmente a envolveu por completo. Ela era uma fraude. Uma ladra de luto.
O interfone tocou. Minutos depois, Jasper entrou na cobertura. Ele estava com o rosto desfigurado pela surra de Edward, um curativo no supercílio e o braço em uma tipoia improvisada. Ele não olhou para Edward; seus olhos estavam fixos em Alice. Sem dizer uma palavra, ele colocou um envelope pardo sobre a mesa de centro.
— O divórcio, Alice. Como você pediu. Está assinado. — A voz de Jasper estava sem vida. — Eu achei que a verdade me libertaria, mas ela só me tirou tudo o que importava.
Alice olhou para o envelope. Edward, encostado no balcão, observava com um triunfo sombrio, esperando que a irmã finalmente se libertasse do "vilão". No entanto, em um movimento que paralisou o ambiente, Alice pegou os papéis e, com uma calma assustadora, rasgou-os em mil pedaços, deixando os fragmentos caírem como neve sobre o mármore.
— Alice, o que você está fazendo? — Edward deu um passo à frente, a voz carregada de pavor.
Ela não respondeu ao irmão. Alice caminhou até Jasper e, ignorando o sangue e a dor dele, envolveu o pescoço do marido e o beijou com um desespero faminto, uma reconciliação selada no sofrimento. Jasper a segurou como se fosse sua última âncora no mundo. Edward assistia à cena com horror absoluto; ele havia batido no primo, mentido e manipulado, apenas para ver a irmã retornar para os braços do homem que ele mais odiava. Alice não contou a verdade a Jasper; ela preferiu deixar que ele vivesse com a culpa, contanto que essa culpa o mantivesse preso a ela para sempre.
No dia seguinte, o jato privado do Cullen Group cruzava o Atlântico de volta a Forks. Bella estava encolhida na poltrona de couro, olhando para o vazio, perdida em uma apatia profunda. Edward estava sentado à sua frente, revisando relatórios de acionistas no tablet, como se nada tivesse acontecido.
— Precisamos planejar o retorno, Bella. — Edward disse, sem desviar os olhos da tela. — Carlisle e Esme estarão no aeroporto. O conselho vai querer um período de luto, mas em seis meses, a pressão vai voltar.
Bella não respondeu. O silêncio dela finalmente irritou Edward, que desligou o aparelho com força.
— Isabella, eu estou falando com você. Precisamos manter a fachada.
— Fachada? — Bella riu, uma risada seca e sem alegria. — Nós destruímos a Alice, Edward. Eu não consigo mais respirar sob essa barriga de borracha que nem sequer estou usando agora. Eu estou morta por dentro.
Edward inclinou-se para frente, e pela primeira vez, Bella viu a frieza pura do CEO que ele se tornara. O castelo de vidro que eles construíram começou a rachar ali mesmo, a dez mil metros de altura.
— Ouça bem. O contrato de cinco anos exige estabilidade. Os acionistas aceitaram a perda deste herdeiro, mas eles não aceitarão um útero vazio para sempre. — A voz de Edward era dura, desprovida da ternura do altar. — Para o Cullen Group sobreviver ao Jasper e à transição, nós vamos precisar de um herdeiro de verdade. Um bebê real, Isabella. Não mais silicone. Não mais mentiras médicas. Eu exijo que comecemos a providenciar isso assim que chegarmos.
Bella olhou para ele, o coração se partindo em mil pedaços. O homem que prometera protegê-la agora a via como uma máquina de sucessão. O conflito que eles haviam enterrado sob a farsa de Milão emergiu com uma força devastadora. Eles não eram mais "parceiros de crime", eram dois prisioneiros de uma ambição que os tornara estranhos.
— Você quer um herdeiro para os acionistas, Edward? — Bella perguntou, a voz gélida. — Ou você quer um motivo para não ter que olhar na minha cara e admitir o monstro em que você se transformou?
O jato seguiu em direção a Forks, levando de volta um casal que, embora casado perante Deus e a lei, nunca estivera tão distante um do outro. A guerra contra Jasper estava ganha, mas a guerra entre Edward e Bella estava apenas começando.
O pouso em Forks não teve o brilho das celebrações anteriores. A chuva típica do Noroeste Pacífico fustigava a fuselagem do jato, e o céu cinzento parecia um reflexo exato do estado de espírito de Bella. No asfalto molhado, as luzes dos carros de Carlisle e Charlie piscavam, aguardando o retorno do casal que, para o mundo, carregava o peso de uma tragédia.
Dentro do carro, a caminho da mansão, o silêncio entre Edward e Bella era uma barreira física. Edward mantinha os olhos fixos no tablet, os dedos tamborilando impacientemente sobre o couro do banco. Ele já estava em "modo de contenção".
— Quando descermos, Bella, eu quero que você use os óculos escuros. Não fale muito. Deixe que eu lide com os detalhes médicos. Vou dizer que a recuperação física foi rápida, mas que o trauma emocional exige isolamento total nas próximas semanas. — A voz dele era técnica, desprovida de qualquer vestígio de conforto. — Precisamos que o conselho veja uma mulher fragilizada, mas resiliente. Isso nos dará tempo para...
— Tempo para quê, Edward? — Bella interrompeu, a voz saindo como um sussurro oco. Ela estava encolhida contra a porta, olhando para os pinheiros que passavam como vultos sombrios. — Para você planejar a próxima fase do contrato? Para decidirmos quando vou ser obrigada a gerar o seu herdeiro corporativo?
Edward suspirou, fechando o aparelho com um estalo seco.
— Para mantermos o que construímos. O Jasper está neutralizado por agora, mas a morte "desse" bebê criou uma lacuna de poder. Eu preciso que você seja a esposa perfeita agora mais do que nunca. O luto é a nossa melhor armadura.
Bella sentiu uma náusea profunda. A depressão não era mais uma névoa; era um oceano de chumbo onde ela estava se afogando. Cada mentira que Edward arquitetava parecia tirar mais um pouco do oxigênio que lhe restava. Ela olhou para a própria mão, onde a aliança de diamantes brilhava como uma algema.
A chegada à mansão foi um exercício de tortura psicológica. Carlisle e Esme os receberam com abraços silenciosos e olhos marejados. Charlie, com o rosto vincado pela preocupação, apertou a mão de Bella com uma força que quase a fez gritar.
— Sinto muito, minha pequena. Tanto... — sussurrou Charlie.
Bella enterrou o rosto no ombro do pai, mas não conseguiu chorar. As lágrimas haviam secado em Milão, deixadas no chão daquela clínica clandestina junto com a dignidade de Alice. Ela sentia-se um autômato, uma boneca de porcelana que Edward posicionava conforme a necessidade do cenário.
Enquanto Esme guiava Bella para o andar de cima sob o pretexto de "descanso necessário", Edward permaneceu na sala com Carlisle e Charlie. Bella, do topo da escada, olhou para baixo e viu o marido assumir a postura do herói trágico. Ele falava sobre a "dor de perder um filho", sobre como Bella estava "devastada" e como ele dedicaria cada segundo a cuidar dela.
Era uma performance magistral. Edward estava usando a dor real que sentia pela irmã e transmutando-a na mentira que salvava o Cullen Group.
Mais tarde, no quarto que agora parecia uma cela de luxo, Bella estava sentada na beira da cama, ainda com o casaco de viagem. Edward entrou, fechando a porta e trancando-a. Ele começou a retirar o relógio que Carlisle lhe dera, colocando-o sobre a cômoda.
— Charlie e Esme compraram a história. Amanhã, o setor de relações públicas vai soltar uma nota oficial pedindo privacidade. — Edward olhou para ela pelo reflexo do espelho. — Você precisa se alimentar, Bella. Não pode definhar agora. Temos reuniões com os acionistas por vídeo na próxima semana.
Bella finalmente levantou o olhar. Seus olhos castanhos, antes cheios de admiração por ele, agora estavam vazios.
— Você percebe que não existe mais "nós", não é? Existe apenas o CEO e a sua ferramenta de marketing.
— Não seja dramática. Estou garantindo o nosso futuro — Edward rebateu, a frieza de Milão retornando à sua voz.
— O futuro de quem, Edward? Porque o meu morreu naquela clínica com o bebê da Alice. — Bella levantou-se, a voz ganhando uma força desesperada. — Eu estou farta disso! Farta de ser o seu escudo, farta de mentir para o meu pai, farta de ver você agir como se a minha alma fosse uma cláusula negociável!
Edward caminhou até ela, parando a centímetros de seu rosto. A tensão entre eles era elétrica, mas não havia mais paixão, apenas o atrito de dois egos colidindo.
— O contrato de cinco anos continua valendo, Isabella. E as condições mudaram. Eu não vou aceitar uma esposa em depressão que prejudique a imagem da empresa. Você vai se recompor, vai desempenhar o papel com perfeição e, quando eu decidir que é o momento, nós daremos a este império o que ele exige.
Ele saiu do quarto, deixando Bella sozinha com o silêncio de Forks. Ela deitou-se na cama imensa, sentindo o peso da traição e da ambição de Edward esmagá-la. O castelo de vidro não estava apenas rachado; ele estava estilhaçando, e Bella sabia que, quando ele caísse, os cacos cortariam muito mais do que apenas a reputação dos Cullen.
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