A Esposa Perfeita
28 O Aniversário de Papel
Notas iniciais
Capítulo 28 — O Aniversário de Papel
Um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias de um teatro impecável, onde cada beijo em público era uma transação comercial e cada sorriso para as câmeras era um prego no caixão do que um dia foi real. A mansão Cullen brilhava sob a luz de candelabros de cristal para celebrar o primeiro aniversário de casamento do casal de ouro de Seattle. Para Carlisle, Esme e Charlie, sentados à mesa, o amor de Edward e Bella era a prova de que a tragédia de Milão não os havia quebrado, mas unido.
No entanto, entre quatro paredes, o quarto principal era um campo de gelo. Eles dormiam na mesma cama King Size, mas o espaço entre eles parecia um oceano infestado de tubarões. Bella deitava-se de costas para ele, sentindo o calor do corpo de Edward, mas recusando-se a tocá-lo. O desejo ainda estava lá, latente e perigoso, mas o ressentimento era um muro mais alto que qualquer desejo.
Após o brinde final, Bella retirou-se, alegando uma enxaqueca. O peso do vestido de seda e das joias de família parecia esmagar seus pulmões. Ela subiu as escadas, mas parou no corredor ao ouvir o som de uísque sendo servido e vozes baixas vindas do escritório.
Lá dentro, Edward estava desabado em sua poltrona de couro, a gravata frouxa e o olhar perdido nas chamas da lareira. Emmett estava de pé, observando o irmão com uma mistura de pena e irritação.
— Até quando, Edward? — a voz de Emmett ecoou, grave e direta. — Você conseguiu. O conselho está aos seus pés, o faturamento do Cullen Group dobrou e o Jasper recuou para as sombras na Europa. Você ganhou o império, mas olha para você... você está definhando. E a Bella? Ela é um fantasma que você mantém acorrentado a esse contrato.
Edward soltou uma risada amarga, o som quebrando o silêncio como vidro estilhaçado.
— Você acha que eu não sei, Emmett? — Edward levantou-se, a voz embargada. — Eu olho para ela todas as noites e vejo o que eu fiz. A maior culpa da minha vida, o meu maior pecado, foi ter destruído a luz que ela tinha por causa desse maldito cargo. Eu a transformei nisso. Eu a envolvi em mentiras até que não sobrasse nada da mulher que eu amava.
Ele parou diante da janela, os ombros tremendo.
— O pior é que eu ainda a amo tanto que sinto que vou morrer se ela me deixar. Mas eu sou o monstro que ela não consegue parar de olhar. Eu ganhei o mundo, Emmett, mas eu perdi a única coisa que me fazia querer estar nele.
Escondida no corredor, Bella apertou a mão contra a boca para abafar um soluço. Ouvir a vulnerabilidade na voz de Edward, o remorso cru e a confissão de amor em meio à ruína emocional, fez seu coração, que ela julgava estar morto, dar um solavanco violento.
Minutos depois, Edward entrou no quarto. A luz estava baixa, apenas o abajur de cabeceira aceso. Bella estava de pé junto à janela, ainda usando o vestido de seda que abraçava suas curvas, mas seus olhos estavam fixos nele com uma intensidade que ele não via há meses.
— Os convidados já foram? — a voz dela saiu rouca.
— Foram. — Edward respondeu, parando a poucos passos, a tensão sexual entre eles subitamente tornando o ar denso, quase impossível de respirar. O ódio e o desejo lutavam por espaço.
— Eu ouvi, Edward. Ouvi o que você disse ao Emmett.
Edward congelou. O silêncio que se seguiu foi carregado de eletricidade. Ele deu um passo à frente, e Bella não recuou. Pela primeira vez em um ano, não havia mentiras, não havia contratos entre eles. Apenas dois corpos que se desejavam desesperadamente enquanto suas mentes se odiavam.
— Então você sabe. — Edward sussurrou, a mão subindo devagar, hesitando antes de tocar o rosto dela. — Sabe que eu me odeio por cada segundo que tirei de você.
Bella sentiu o calor dos dedos dele e, em um impulso que misturava raiva e paixão reprimida, ela o puxou pelo colarinho da camisa.
— Você me destruiu, Edward. Você nos transformou nisso. — Ela sibilou, os lábios a milímetros dos dele.
— Eu sei. — Ele murmurou, os olhos escurecendo de desejo. — Me castigue, me odeie... mas não me peça para parar de te querer.
O beijo não foi doce. Foi uma colisão de fome, arrependimento e uma necessidade animalesca que havia sido sufocada por um ano de frieza. Edward a prensou contra a porta, as mãos subindo pelas coxas dela, rasgando a seda do vestido enquanto Bella cravava as unhas em seus ombros. Era violento, desesperado, uma tentativa de recuperar através da carne o que eles haviam perdido na alma.
Edward a carregou para a cama, e o contato de suas peles foi como um incêndio em uma floresta seca. Não havia mais CEO, não havia mais esposa perfeita. Eram apenas Edward e Bella, tentando se encontrar no meio dos destroços. Os movimentos eram urgentes, marcados por gemidos abafados e uma entrega que nenhum contrato poderia exigir. Naquela noite, a cama não foi um campo de batalha gélido, mas o altar de uma reconciliação sombria, onde o prazer era o único idioma que restava para falarem a verdade.
Enquanto a chuva batia no vidro e eles se perdiam um no outro, Bella soube que, embora o castelo de vidro estivesse quebrado, as chamas que eles criaram ainda eram capazes de queimar qualquer mentira. Pelo menos, até o sol nascer.
O suor esfriava em seus corpos enquanto a respiração de ambos voltava ao ritmo normal, mas o peso do que acabara de acontecer permanecia ali, flutuando no escuro. Edward ainda a envolvia em seus braços, os dedos traçando padrões ausentes nas costas de Bella, como se tivesse medo de que, ao soltá-la, ela evaporasse ou voltasse a ser a estátua de gelo dos últimos meses.
Bella estava com o rosto enterrado no peito dele, ouvindo as batidas do coração de Edward. Era o único som honesto naquela casa.
— Isso não muda o que aconteceu, Edward — ela sussurrou, a voz abafada contra a pele dele, mas sem se afastar. — O luto da Alice, as fotos em Milão... o contrato. Nada disso sumiu porque passamos uma noite juntos.
Edward fechou os olhos, apertando-a um pouco mais forte. O perfume dela ainda o embriagava, mas a sobriedade das palavras de Bella era o seu castigo.
— Eu sei. — A voz dele vibrou no peito. — Mas por um momento, no meio desse caos, eu senti você de volta. Não a "Esposa Perfeita" do conselho administrativo, mas a minha Bella. Aquela que me desafiava antes de tudo isso se tornar uma prisão.
Ele se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. A luz da lua atravessava as cortinas entreabertas, revelando as cicatrizes emocionais que nenhum de dois conseguia mais esconder.
— Eu exigi um herdeiro naquele jato, Bella, porque eu estava apavorado. — Edward confessou, a honestidade agora saindo sem filtros. — Eu achei que, se tivéssemos algo real, algo de carne e sangue que não fosse uma mentira de marketing, você teria um motivo para não me deixar quando os cinco anos acabassem. Eu agi como o CEO porque o homem aqui dentro estava perdendo a única coisa que importava.
Bella sentiu uma pontada de dor. A ambição dele era, no fundo, uma forma distorcida de desespero. Ela levou a mão ao rosto dele, sentindo a barba por fazer.
— Nós não podemos construir uma vida sobre um cemitério de mentiras, Edward. Se quisermos que esse "nós" sobreviva além do papel, as regras precisam mudar.
Edward segurou a mão dela e beijou a palma, um gesto de submissão que ele nunca mostraria a ninguém no Cullen Group.
— As regras são suas, Bella. Desta vez, eu não vou arquitetar o próximo passo. Eu só quero saber se, depois de tudo o que eu fiz, ainda existe um lugar para mim no seu futuro.
O silêncio que se seguiu não era mais frio, mas carregado de uma possibilidade frágil. Bella não respondeu com palavras; ela apenas se aninhou novamente no abraço dele, fechando os olhos. O castelo de vidro ainda estava em ruínas, mas ali, no calor daquela cama, eles tinham parado de fingir. Pela primeira vez em um ano, Edward e Bella não estavam jogando. Estavam apenas tentando sobreviver ao que restava de si mesmos.
Lá fora, a chuva de Forks continuava a cair, lavando as marcas da festa no jardim, enquanto dentro do quarto, o herdeiro do império e a mulher que ele quase destruiu dormiam um sono sem sonhos, protegidos temporariamente pela verdade que o prazer lhes permitiu enxergar.
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