A Escolhida
5 Capítulo 5
Notas iniciais
“Aqui no Orfanato para Meninas da Sr. Margo acreditamos na ordem e na disciplina. Há anos de tradição, nossas paredes já receberam milhares de garotas assim como você e as transformou em exemplos de mulheres dedicadas, disciplinadas e acima de tudo...”
“O quarto está pronto, madame.”
“Obrigada Selna.” –Ela fez uma pausa e olhou para a garota a sua frente- “Onde eu estava... Ah sim, somos uma instituição de ordem e disciplina.”
A Sr. Margo olhou para os papeis em cima da mesa e com uma caneta de marfim assinou e ticou nos espaços em branco. Quanto tudo já estava preenchido, ela voltou sua atenção para a nova acolhida.
“Eu sei que não há nenhum pertence valioso com você, mas é importante acentuar que todos os objetos de valor devem ser guardados no cofre especial. Também quero lembrar que os dias de visita e passeio são aos sábados.” –Em um movimento rápido, porém elegante, Margo se levantou e deu a volta sobre a larga mesa que ocupava sua sala- “Queria me acompanhar, senhorita.”
“Nossa cozinha fica no andar de baixo, Selna é responsável pela comida e segurança, apenas isso. Funções como lavar, arrumar, organizar, são obrigações suas. Todas devem estar acordadas as sete e as oito no salão principal para a primeira refeição. A segunda refeição é feita as onze, e a presença é obrigatória. O chá ta tarde é servido as três e em seguida a ceia. “
“As duas alas dos dormitórios são divididas por idade, a sua ala é a B, onde dividirá com outras meninas da sua idade. A organização de cada quarto é responsabilidade do grupo que a ele usufrui. Ou seja, deve fazer sua cama e limpar seu chão.”
“Um banheiro para cada ala, sendo que neles há dez chuveiros. O horário para banho e higiene é do intervalo de uma hora após cada refeição, sendo que cada garota tem o tempo máximo de quinze minutos para higiene própria. Ou seja, deve ser respeitado cada minuto.”
“As oito todas as luzes são apagadas, é proibida a circulação pelos corredores, cozinha, salão, biblioteca, salão principal, jardim, salas. Apenas os quartos e banheiros podem ser transitados. Nos sábados o horário se estende até as nove.”
“Se algumas das regras forem quebradas, acarretará em punições com a severidade de acordo com a regra quebrada. Bom comportamento gera benefícios, então se esforce para ser boa.”
As duas pararam em frente a uma porta grossa de madeira com o número 3 em dourado. Alexa olhou para a Sr. Margo e esperou.
“Este é seu novo quarto, dividira-o com as outras garotas. Tudo o que eu disse está em uma folha em cima de sua cama. Seus pertencem já estão organizados e guardados, um conjunto do seu uniforme estará também em cima da cama, vista-o. Os outros conjuntos devidamente guardados e são de uso obrigatório.”
Alexa assentiu.
“Te vejo no jantar.” –A mulher alta e esbelta sorriu e deu as costas a Alexa.
Segundo depois de aquela ter desaparecido no corredor, Alexa criou coragem e abriu a porta do quarto. Este era composto por seis camas, sendo três de cada lado. Todas as camas tinham o mesmo lençol e eram acompanhadas com um criado-mudo de madeira escura. No final do quarto, de frente para porta, ficavam dois guarda-roupas e de cada lado um biombo.
Grandes janelas se estendiam entre as camas, tendo duas de cada lado. As paredes eram cinza claro sem nenhuma decoração ou quadro. No chão de madeira não havia tapete, nas camas não havia cor. Três luminárias seguiam o corredor e ao lado de cada cama uma vela no suporte.
Alexa seguiu até sua cama, aquela com uma folha no travesseiro. Seu uniforme estava dobrado em cima da cama, ela não pensou duas vezes antes de trocar seu vestido por eles. Atrás do biombo tinha um banquinho de madeira, ela colocou o conjunto lá e tirou seu vestido dado por Valéria.
O uniforme era feito de uma camisa de botão branca, uma saia preta e um colete preto, meias três quartos e sapatos pretos lustrados. Quando terminou de se vestir, decidiu prender seu cabelo em uma trança, assim evitaria a oportunidade de alguém chamar sua atenção. Ao sair do biombo, viu que uma garota tinha entrado no quarto.
“Olá.” –A garota cumprimento.
Alexa levantou a mão e foi até a sua cama, onde deixou seu vestido e sapatos.
“Essas roupas devem ficar no guarda-roupa.” –Disse a garota dando um sorriso de lado- “Eu sei que são muitas regras e é difícil de lembrar, mas com o tempo você as decoram.”
“Espero que sim.”-Respondeu Alexa.
“Sou Elisa.”
“Alexa.”
As duas trocaram um aperto de mão.
“Eu sei que as coisas podem parecer difíceis no começo, porém ficarão melhores com tempo, pode acreditar.”
Alexa forçou um sorriso simpático e sentou na cama. Ela não queria estar ali, queria estar em casa com a sua mãe e agradecendo por nada ser verdade.
“Pediram-me para passar as regras, então vou fazer isso.” –Elisa tirou do bolso um papel, desdobrou-o e começou a ler- “É proibido circular pelo prédio nos horários proibidos, é proibido falar palavrões, xingar, usar palavras ofensiva, é proibido o não uso de uniformes mesmo nos dias de visitas e lazer, é proibido comer nas horas inapropriadas, é proibido fumar ou portar bebida alcoólica, é proibido qualquer porte de...”
O dia estava acabando, o sol começava a se por no horizonte, seus últimos raios de luz entravam pelo quarto e beijavam a mão de Alexa sobre a cama. Ela sentia falta do sol, sentia falta do calor. Dentro do seu peito havia um incômodo, uma dor agridoce, uma pontada de medo e ansiedade. Tentou pensar que aquilo era o melhor para ela... E que ela merecia isso por ter feito todo aquele estrago.
Porém, ao mesmo tempo em que se sentia culpada, não se sentia arrependida. Na verdade, pouco se lembrava daquela noite e quando a imagens de seus pais mortos vinham em sua mente, não sentia nada.
“Se seguir essas regras, não terá problema.”
“Obrigada.”
Elisa a ficou olhando com seus grandes olhos azuis e seu sorriso natural na face. Alexa tentou entender como uma garota podia transparecer tanta calma e paz sendo que estava em um orfanato, abandonada e sozinha.
“Quando virão as outras garotas?” –Alexa perguntou, olhando para as camas vazias que restavam no quarto.
“Não há mais garotas.” –Elisa respondeu, se levantando e indo para sua cama- “Todas foram levadas pela mulher sem rosto.”
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