A Escolhida

13 Capítulo 12


Notas iniciais
Já estou escrevendo o treze, calma. É que fora essa semana (que já está quase no fim), eu só tenho mais três de férias e um bilhão de coisas pra fazer. Fiz até uma lista. Ficou gigante. E ainda tenho Game of Thrones e Eragon para terminar, o que vai me dar bastante trabalho... Enfim. Muita coisa. Então acabou a farra e um capítulo só por semana não rola

O sonho começou exatamente como o outro: Alexei lançando trevas pelas mãos. Dessa vez ele estava no tamanho de uma pessoa normal, o que me fez suspirar aliviada. O mago em si já era bastante assustador, mas ampliado em duzentas vezes? Não podia ser pior.

Reparei que seus traços eram extremamente iguais os de Cristopher, e me perguntei se isso não teria me feito suspeitar dele desde o primeiro momento. Provavelmente vi nele o mesmo cara que ameaçara destruir o planeta. Talvez seja isso.

Olhei para seu rosto, e percebi que estava tão focado que não se tocou da minha presença. Eu não sabia exatamente onde estava, mas o frio na espinha e a sensação constante de que alguém estava me observando entregavam que o lugar não era uma das dimensões legais de Sócera. E também não era a Terra.

Na Terra não existem demônios.

Ao seu lado, também com as mãos erguidas na frente do corpo, estava o demônio mais feio que eu já havia visto. Ele tinha a aparência de uma múmia de dois mil anos, mas era inteiro negro e conseguia se mover perfeitamente bem, envolto numa camada grossa de trevas. No lugar dos olhos, possuía apenas dois buracos. Virou sua cabeça lentamente em minha direção, e então fugiu. Eu não consegui entender exatamente o porquê. Resolvi ignorar.

Esperei mais alguns segundos para ter certeza de que Alexei não abriria os olhos, ergui minhas mãos na frente do corpo e fiz o que minha mente mandava, sem ter a certeza que precisava de que aquilo daria certo. Observei a luz branca sair de minhas mãos, e senti o mesmo incômodo que sentira da última vez que tentara praticar a magia sem um canalizador. Vi a luz atingir as trevas e engolir toda a escuridão, e só abaixei os braços quando o incômodo se transformou em algo muito além do que meus limites humanos me permitiam suportar.

Gastei a minha energia, meus poderes e talvez o meu tempo de sono, mas a expressão no rosto de Alexei Lound foi suficiente para compensar aquilo tudo. Ele olhava fixamente para onde eu estava, mas não conseguia me enxergar. Seus olhos brilhavam com pura raiva e desgosto ao ver as trevas se dissipando. Entrei em sua mente da forma como Castell me ensinara, e apesar de um bloqueio não me permitir lê-la, eu consegui perceber que ódio era pouco para descrever o que ele sentia.

Juntos, observamos as trevas se dissiparem. Quando o ambiente ficou claro o suficiente para que eu pudesse tentar descobrir onde estava, voltei a focalizar apenas em Alexei, sem prestar atenção em nenhum detalhe. Uma parcela de minha mente me dizia que era errado estar ali, que eu nunca deveria ter mandado minha essência para aquele lugar. Outra parte berrava “você não consegue controlar isso!” e me deixava dividida entre dar uma espiadinha ou não na dimensão, até então totalmente desconhecida.

No final, a primeira parcela ganhou. Voltei a minha visão para o Lound em minha frente e observei sua careta de raiva se transformar em um sorriso de escárnio. Agora ele olhava diretamente para mim, dentro de meus olhos. Oh-ou, pensei, recuando alguns passos e batendo minhas costas em algo duro. Precisei reunir toda a minha força de vontade para não olhar para trás.

— Então você anda me bisbilhotando, Savanna? — ele riu, e mesmo um ato tão simples parecia utilizar 90% de sua energia. — Quer saber o que eu ando fazendo?

— Como sabe que sou eu? — perguntei, me sentindo estúpida por abrir o bico. Respirei fundo, agora já está feito. — Você não estava me vendo até alguns segundos atrás.

— Não mesmo. — concordou Alexei. — Mas nenhum outro mago ou Electi conseguiria fazer isso que você fez. A única escolhida de Onum com o poder de dissipar as trevas com um sopro de pura bondade é você, afinal.

Ele deu alguns passos em direção, e eu senti a coisa dura que eu presumira ser uma parede apertar meus pulsos para que eu não conseguisse me mexer. Droga, é uma pessoa.

— Quem você pensou que era, minha querida? Um muro com braços? — ele riu de sua própria piada, mas eu e o armário atrás de mim não achamos a menor graça. — Pode soltá-la, Stevan. Savanna não vai sair daqui tão cedo.

— Como quiser, pai. — o homem me soltou, e Alexei esperou que ele se afastasse o suficiente para voltar seu olhar a mim, um desejo brilhando fortemente. Um desejo que ia muito além de me machucar. O que ele queria era me matar. Acabar comigo antes que eu acabasse com ele. A minha guerra começava ali.

Pisquei forte, tentando, a todo custo, voltar para Stonewood. É só um sonho, ele não pode me fazer mal...

Pode?

— Não. — Alexei respondeu ao meu pensamento. —Não posso te fazer mal em um sonho. Mas posso te machucar quando você invade o território dos Luditors. Não te ensinaram o quanto isso é perigoso, querida Electi? Não. Parece que não ensinaram. Então eu vou ter que ensinar, não é mesmo? Para que tal erro não seja cometido nunca mais... Até porque, não será possível.

E foi quando seu sorriso aumentou, e eu percebi que a minha visão estava ficando mais nítida. De alguma forma, ele conseguira mover meu corpo de uma dimensão a outra. Agora não era apenas a minha essência visitando a dimensão dos magos das trevas. Meu corpo também estava ali. Era Savanna Jones, inteira, em carne e osso, se preparando para um combate mortal com seu pior – e primeiro – inimigo.

Alexei estalou os dedos, e eu ouvi alguém andando até nós. Pensei em virar para trás, mas logo mudei de ideia. Ele, provavelmente, queria isso. Me mataria enquanto eu estivesse de costas, distraída demais para desviar do ataque.

Por outro lado, ele poderia estar jogando comigo. Enquanto eu pensava que ele me mataria, a pessoa atrás de mim faria o serviço. E então eu me vi sem saída a não ser respirar fundo e esperar pelo pior.

— Cristopher, meu filho... Acho que você pode fazer isso agora.

Cristopher?

Não resisti e me movi para atrás, somente a tempo de ver o Lound mais novo se aproximando de mim, marchando da mesma forma que um soldado faz, com seus movimentos tão robotizados que eu me perguntei se ele não estava enfeitiçado.

Mas quando eu vi seus olhos negros, percebi que não era feitiço algum.

Ele oscilara mais uma vez, dessa vez para o mal.

E não parecia próximo de voltar a ser do bem.

Fechei os olhos e imaginei uma espada na minha frente. Grande, com cabo de couro e lâmina prateada e reluzente. Boa o suficiente para que eu conseguisse lutar sem ter muitos problemas com o fato de ela ser muito pesada ou desconfortável. Imaginei a mesma espada que usava nos treinos com Josh, e senti ela na minha mão.

Minha primeira materialização. Mas eu não tinha tempo para me sentir orgulhosa.

Cristopher atacou.

Era uma grande besteira tentar lutar contra um Luditor que tinha séculos de treinamento. Seus movimentos eram rápidos e precisos, quase impossíveis de adivinhar se eu não conseguisse ler mentes. Vez ou outra ele mudava o ataque na última hora para que eu não pudesse aparar, mas esquecia de bloquear seus pensamentos e eu conseguia contra-atacar.

Não percebi o tempo passar – talvez porque nas dimensões além da Terra não existisse tempo –, mas notei os primeiros sinais de cansaço aparecerem no rosto de Cristopher. Apesar de me sentir muito, muito cansada mesmo, estava em melhores condições do que ele.

Quer dizer, eu conseguia restabelecer o equilíbrio do meu corpo usando um de meus poderes de Onum.

Mas ele não.

Esperei até o momento certo, e ataquei quando ele estava cansado demais para se defender. Minha lâmina fez um corte profundo em seu braço esquerdo, e ele largou a espada para cobrir o talho com a mão. Me surpreendi ao ver que seu sangue era negro, mas não havia tempo para hesitar. Ouvi uma voz em minha cabeça, extremamente parecida com a de Onum, pronunciar algumas frases que eu apenas repeti.

— Eu te condeno ao Exílio. — falei. — À pena de permanecer na escuridão eternamente. Você, Cristopher Lound, traiu a minha confiança e a dos deuses. Não merece permanecer em sua dimensão. — e então, repeti a mesma frase do começo, sentindo meu coração se comprimir de pena e culpa. — Eu te condeno ao Exílio.

Observei os olhos de Cristopher oscilarem novamente, e pude observar o dourado se preenchendo de dor e mágoa. Ele murmurou meu nome pela última vez e caiu no chão, desacordado. Precisei conter a vontade de correr até ele e sacudi-lo para ver se estava morto.

Não, ele não morreu. Foi condenado ao Exílio por tempo indeterminado, Onum falou.

Pensei que era eternamente.

O que é um para sempre para imortais, eu lhe perguntou. Não existe eternamente para quem não morre, Savanna. Ele permanecerá lá até que seu julgamento seja feito, e então decidiremos se ele merece retornar ao corpo ou se ficará exilado para sempre. Agora repita o mesmo discurso para Alexei.

Assenti, mesmo sabendo que ela não estava me vendo, e me virei para o Lound mais velho.

Mas ele não estava lá.

E quando eu pisquei, também não estava.

Eu estava deitada em minha cama, em Stonewood, na Terra mesmo, e tinha a sensação de ter acabado de acordar de um pesadelo. Eu arfava e chorava, mas não alto o suficiente para acordar alguém da casa.

A única confirmação que a batalha realmente tinha acontecido eram os hematomas roxos nas minhas palmas, com o símbolo de Onum. E eles ardiam muito mais do que da última vez. Comecei a repassar o sonho (sonho?) inteiro, até a imagem congelar na minha visão de Cristopher, jogado no chão, desacordado.

Você o exilou, Savanna. Você exilou o único garoto que já se sentiu atraído por você, minha consciência ponderou. Tem noção do que acabou de fazer?

E quando eu ia responder com uma grosseria, me calei. Porque além de ser inútil discutir comigo mesma, eu sabia que aquela parte do meu cérebro falava a verdade. Eu havia mesmo feito aquela besteira gigante, e não tinha como voltar atrás.

O único garoto que, um dia, foi apaixonado por mim...

Me peguei pensando no que Josh tinha dito para mim, alguns dias atrás. “Se não te conhecesse, diria que você se interessou pelo californiano...”

Até onde você me conhece, Josh?

Notas finais
Rsrs beijão.