A Escolhida
14 Capítulo 13
Notas iniciais
— Parabéns, Sav. — Josh sorriu para mim, dando tapinhas em minhas costas enquanto eu encarava, levemente assustada, a varinha em minhas mãos. — Você foi a primeira Electi a aprender a usar um canalizador.
Sorri de volta. Com Rebeca brava comigo, comecei a passar mais tempo com Josh. Apesar de saber que não era uma aluna fácil e que ele provavelmente estava gastando toda a sua paciência comigo, sua amizade me deixava realmente feliz.
— Posso fazer de novo?
Não sei por que perguntei, já que eu repetiria o feitiço de qualquer forma, Josh querendo ou não. Sacudi a varinha em movimentos circulares e repeti as palavras em latim que ele me ensinara. Uma luz roxa saiu de minha varinha, se dissipando alguns segundos depois para dar lugar a uma maçã. Meu primeiro feitiço de conjuração.
Castell, que estivera sentada a aula inteira, se levantou e aplaudiu.
— Eu pensei que não viveria para ver a cena de uma Electi de Onum seguarando uma varinha.
— Você é imortal. — fiz questão de relembrar.
Ela deu de ombros.
— Eu posso morrer. A imortalidade me foi concedida para que eu pudesse continuar o meu trabalho treinando Electis e os ajudando quando eles vão para Ligentia. Mas isso não significa que eu não posso ser morta.
Franzi o cenho e virei-me para Josh em busca de explicação, mas ele apenas concordou com o que ela havia dito e tomou a varinha de minhas mãos.
A minha varinha, segundo Castell, foi feita por Noimosynis de outras dimensões especialmente para mim. Segundo eles, os Electis que conheci e os deuses também, eu realizaria um grande feito com uma varinha mágica e precisava de uma que não explodisse quando eu tentasse canalizar meu poder – sim, isso já aconteceu. É uma longa história. De qualquer forma, a varinha foi blindada com uma espécie de feitiço de proteção vinda de Ectione para que isso não acontecesse novamente. Mas não era como se eu confiasse nele. Afinal, o próprio disse que me odiava.
Josh, apesar de tentar não demonstrar, também não estava cem por cento confiante de que o deus não tinha feito nada para antecipar a minha morte. Foram necessários dias de testes até que ambos achássemos seguro treinar com a varinha.
— Castell, preciso da sua...
Nós três nos viramos para de onde a voz tinha saído. Parada na porta, com uma cara de quem viu fantasma, estava a menina mais bonita que eu já tinha visto em toda a minha vida. Ela possuía olhos violetas que brilhavam intensamente, o rosto perfeitamente simétrico e um cabelo longo e loiro que batia na metade das costas. Ela usava um vestido simples e branco, mas que realçava perfeitamente seu corpo escultural. Uma pontada de inveja me atingiu, mas fiz questão de não demonstrar.
— Avril? — Castell perguntou. — O que você faz aqui, estou treinando.
Ela não respondeu.
— Cosplay de Lavigne? — Josh andou lentamente até ela e estalou os dedos na frente de seu rosto. Ainda assim a menina não se mexeu. Seus olhos estavam fixos em mim.
— Tudo bem? — perguntei.
Ela finalmente “acordou” do seu estado preocupante e sorriu gentilmente, mostrando seus dentes absolutamente perfeitos. Tive vontade de berrar fecha essa boca antes que eu a feche para você com um soco, queridinha, mas nada falei e bloqueei meus pensamentos para que Josh, Castell ou até mesmo Avril lessem.
— Ah, oi, ahn... Foi. Mal. — ela deu de ombros e voltou a se retirar da sala de treinamento.
Josh puxou-a pela mão para dentro do salão novamente. Ouch, essa pontada de ciúmes doeu ainda mais que a de inveja.
— Essa é Avril, uma das Electis de Sione. — ele caminhou com ela em minha direção. — Avril? Essa é Savanna, a Electi de Onum.
— Eu sei, Josh. Você fala sobre ela o tempo todo. — e revirou os orbes violetas, o que fez com que eu corasse levemente. — Mas o que é isso?
— Ah, uma varinha. — sorri, embaraçada.
— Eu não sabia que você já usava varinhas. Sempre quis ver o que uma escolhida de Onum pode fazer com um graveto gordo e levemente modelado nas mãos. Mostre-me alguma coisa.
O tom rude em sua voz fez com que eu quisesse enfiar a ponta da varinha em seu olho. Porém, no lugar da agressão, agitei a varinha em movimentos circulares, entoando as palavras mágicas que ele me ensinou. Em pouco tempo, a borboleta branca e rosa que eu tinha imaginado estava voando alegremente em torno de nossas cabeças, quando pousou no ombro de Avril. Ei, fui eu que te conjurei. É em mim que você tem que pousar.
Ela sorriu. (Avril, não a borboleta, é claro).
— Então é mesmo uma Electi de Onum.
— Você estava duvidando? — ergui uma sobrancelha.
— Claro que sim. Nos tempos atuais eu não posso confiar em ninguém. Qualquer um pode ser do exército de Alexei e estar se infiltrando em Nostrae para espionar os escolhidos e os deuses.
Não discordei. Afinal, eu mesma andava desconfiando de todo mundo que me olhasse torto ou que fosse legal demais.
— Então por que ficou com medo quando viu minha varinha? — questionei.
Avril deu de ombros.
— Se você fosse uma inimiga, podia usar isso para me matar ou matar meus amigos. — e, então, virou-se para Castell. — Preciso de uma ajudinha. Pode vir comigo até o meu chalé?
— Ah, claro. — Castell sorriu. — Até mais.
— Até. — eu e Josh repetimos junto.
Esperei até que as duas estivessem longe demais para ouvir nossa conversa e falei:
— Eu tive um sonho.
Josh levantou o olhar de sua espada e franziu o cenho, como fazia sempre que estava preocupado com alguma coisa.
— Como foi?
Eu lhe contei, com todos os detalhes possíveis. A cada palavra meu coração parecia diminuir. Ver aquilo foi horrível, mas pior ainda foi falar e relembrar cada detalhe que eu adoraria que desaparecessem de minha memória.
Quando terminei de contar, Josh arfou.
— A coisa vai ficar feia pro seu lado, Savanna. Muito, muito feia mesmo. Alexei, provavelmente, vai querer se vingar pelo Cristopher e você estará ferrada. Por isso precisamos treinar, entendeu? E sem mais distrações. Aprendendo a controlar perfeitamente os seus poderes, nenhum mago das trevas poderá com você.
Ele sorriu amigavelmente e voltou a citar feitiços que eu repetia.
***
Comecei a perceber que ele estava, de fato, falando sério quando cinco demônios nos atacaram antes de entrarmos para a aula no dia seguinte. Consegui matar três, e Josh parecia conseguir se virar com os outros dois, mas eles simplesmente ressurgiam. Demos um jeito de atraí-los para perto da floresta, onde não machucariam nenhum mortal.
— Certo, e o que a gente faz agora? — perguntei, sentindo minha força diminuir a cada golpe que desferia com a adaga. Não importava onde eu enfiava a lâmina, eles morriam e reviviam o tempo todo. Um sentimento de desespero estava começando a me dominar, e eu não tinha descansado o suficiente durante a noite para conseguir lutar.
— Você precisa usar o mesmo poder que utilizou no seu sonho. — ele tomou cuidado com as palavras, provavelmente sabendo o sentimento que eu tinha ao me lembrar da luta com Cristopher. — Os demônios surgem do medo, da descrença, desunião, cansaço mental, tristeza, depressão...
— Eu entendi, Josh. Agora fale logo o que eu preciso fazer.
— A luz. Sua aura traz sentimentos bons, mas não é forte o suficiente para agir sozinha.
— Mas e os seus poderes? Aquantis não é o deus da purificação? — perguntei, desconfiada.
— Agora me diga como eu faço para purificar demônios, Savanna. —ele me respondeu no mesmo tom de escárnio.
— Ok, Josh. Apenas distraia esses monstrengos enquanto eu reúno energia.
Ele assentiu, mas no fundo vi que estava quase tão desesperado quanto eu. Me amaldiçoei por ter deixado a mochila na entrada da escola. Minha garrafa de Sangue Divino estava guardada lá dentro, e poderia ter me ajudado no quesito reunir energia, mas não tinha tempo para ir buscá-la. Vi as feições de Josh tornando-se mais duras a cada golpe, e percebi que ele, assim como eu, estava completamente esgotado. Mas ele era mais orgulhoso, e jamais deixaria o cansaço transparecer no meio de uma batalha. Eu, mais do que ninguém, sabia disso.
Não me lembrava exatamente como havia feito no sonho, mas sabia que precisava procurar meu equilíbrio interior e deixá-lo atingir o ambiente inteiro. De algum modo, as energias positivas eram capazes de matar os demônios definitivamente. Eu não sabia como faria isso, mas precisava controlar as emoções dentro deles também.
E então e me vi reproduzindo o sonho. A luz branca saindo de mim e destruindo tudo o que era feito de trevas. O cansaço desapareceu do rosto de Josh, e ele aparentou estar mais saudável. Assim como todas as plantas, a grama, as árvores e as pessoas que estavam perto da floresta. Provavelmente a cidade inteira se beneficiou.
O problema era que eu havia gastado toda a minha energia produzindo a luz. E quando Josh veio em minha direção sorrindo e falando “viu? Você conseguiu” não consegui sustentar o peso do meu corpo, e senti a inconsciência me abraçando antes mesmo de atingir o chão.
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