A Escolha Perfeita
3 Primeiras Intenções

Lady Beatrice Talbot não esperava vê-lo outra vez tão cedo. Ainda assim, Londres tinha esse hábito incômodo de colocar pessoas exatamente onde elas não planejavam estar.
O som das carruagens interrompeu seu passeio logo após deixar a livraria. A rua, antes tranquila, começou a se encher de curiosos e sussurros apressados.
— Lorde Hawthorne chegou…
Beatrice parou instintivamente.
A carruagem negra avançava com calma, seguida por criados e cavaleiros. Não havia ostentação exagerada, mas tudo ali falava de poder, tradição e expectativa. Quando a porta se abriu, ela soube — antes mesmo de vê-lo.
Lorde Hawthorne desceu com a mesma presença firme da noite do baile.
Ele parecia ainda mais à vontade à luz do dia. O casaco escuro, o olhar atento, a postura segura de quem não precisava se apressar para provar nada. Cumprimentou algumas pessoas ao redor, mas seus olhos percorriam o ambiente com atenção deliberada. Até encontrarem os dela.
Dessa vez, ele não desviou.
Ao contrário — avançou.
— Lady Talbot — disse, parando a uma distância respeitosa, mas próxima o bastante para que ela percebesse o tom baixo de sua voz. — Espero que não me considere ousado.
Ela sustentou o olhar, surpresa consigo mesma por não recuar.
— Considerarei após ouvir o motivo.
Um leve sorriso surgiu nos lábios dele.
— No baile, não tive a oportunidade de lhe dizer o quanto sua presença me chamou atenção. — Ele fez uma breve pausa. — Não pelo vestido. Nem pelo mistério que Londres insiste em criar. Mas pela forma como a senhora observava tudo… como se não estivesse disposta a se perder no espetáculo.
O coração de Beatrice acelerou.
— E o que o fez acreditar que eu gostaria de ouvir isso em plena rua? — perguntou, mantendo o tom calmo.
— Porque imaginei que a senhora prefere verdades simples a elogios ensaiados.
Houve um silêncio curto, denso.
— Londres não costuma ser gentil com verdades — ela respondeu.
— Nem comigo — ele concordou. — Ainda assim, pretendo ser honesto.
Ela percebeu então: aquele não era um homem acostumado a rodeios. O interesse dele não era um jogo. Era uma escolha.
— Espero vê-la novamente, Lady Talbot — disse ele, dando um passo atrás. — Em circunstâncias menos apressadas.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Londres decide isso melhor do que nós.
Ele sorriu — não como no baile, mas de forma mais contida, mais real.
Quando se afastou, Beatrice sentiu o peso daquela breve conversa se instalar lentamente. Não havia promessas, nem gestos exagerados.
Apenas intenção.
E isso, ela sabia, podia ser muito mais perigoso.
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