A Escolha Perfeita
4 Convites e Coincidências
O envelope chegou no início da tarde.
Era discreto demais para chamar atenção, mas elegante o suficiente para ser imediatamente reconhecido. O papel era espesso, de um tom claro, e o lacre trazia um brasão simples — firme, seguro, inconfundível.
Lady Beatrice Talbot segurou-o por alguns segundos antes de abrir.
Não por hesitação. Mas porque, no fundo, ela já sabia de quem vinha.
Lady Talbot
Caso não considere ousadia excessiva, ficaria honrado em acompanhá-la em um passeio pelos jardins de Kensington amanhã à tarde.
Lorde Hawthorne.
Não havia floreios. Nem justificativas longas.
Apenas intenção.
— Ele é direto — comentou sua mãe, observando por cima do ombro dela. — Isso é… raro.
Beatrice dobrou a carta com cuidado.
— Direto demais com alguém que acabou de chegar à cidade — respondeu, mas não havia reprovação em sua voz.
Aceitou.
Os jardins estavam especialmente vivos naquela tarde. O sol filtrava-se pelas árvores, iluminando os caminhos de pedra clara, enquanto grupos pequenos caminhavam em conversas baixas e risos controlados. Era o tipo de lugar onde nada parecia acontecer e, ainda assim, tudo era observado.
Lorde Hawthorne a aguardava próximo a uma fileira de arbustos floridos.
Ele se voltou assim que a viu se aproximar.
— Lady Talbot — disse, inclinando levemente a cabeça. — Agradeço por ter vindo.
— Agradeço o convite — respondeu ela, com um sorriso contido.
Caminharam lado a lado, mantendo a distância adequada, mas havia algo diferente naquela proximidade. Não era desconforto. Era atenção. Como se cada palavra fosse escolhida com cuidado — não por formalidade, mas por significado.
— Londres é… intensa — comentou Beatrice . — Observa demais.
— Observa apenas o que lhe interessa — respondeu ele. — E, ultimamente, parece interessada na senhora.
Ela o encarou de lado.
— E isso o incomoda?
Ele sorriu de forma lenta.
— Não. Apenas me faz ser mais cuidadoso com o que faço em público.
Houve um silêncio breve, confortável.
— No baile — continuou ele — eu deveria ter pedido esta conversa antes.
— E por que não pediu?
— Porque quis ter certeza de que meu interesse não era apenas curiosidade.
Beatrice sentiu o impacto daquelas palavras.
Antes que pudesse responder, perceberam uma movimentação à frente. Um cavalheiro aproximava-se, caminhando em sua direção.
Ela o reconheceu imediatamente.
Henry Calloway.
Ele também a viu.
O encontro foi inevitável.
— Lady Talbot — disse Henry, parando à frente deles. Seu tom era educado, mas o olhar demorou um segundo a mais do que o necessário. — Que coincidência.
— Senhor Calloway — respondeu ela, surpresa. — Que prazer revê-lo.
Henry então voltou-se para Hawthorne.
— Lorde Hawthorne — disse, com um leve aceno. — Londres não para de falar de sua chegada.
— Londres fala demais — respondeu Hawthorne, com calma. — Mas fico satisfeito em vê-lo bem.
O silêncio que se seguiu não foi hostil, apenas carregado.
Henry sorriu, mas havia algo diferente em sua expressão.
— Não desejo interromper — disse, por fim. — Imagino que estejam aproveitando o passeio.
— Estamos — respondeu Hawthorne, sem hesitar.
Henry voltou-se para Beatrice .
— Espero revê-la em breve, Lady Talbot .
— Assim espero — respondeu ela, sincera.
Quando Henry se afastou, Beatrice percebeu o quanto aquela breve interação havia alterado o ar ao redor deles.
— Londres é pequena demais — comentou ela.
— Pequena demais para coincidências — respondeu Hawthorne. — Grande o bastante para escolhas.
Ela o encarou.
— E qual escolha o senhor acredita estar fazendo?
Ele parou de caminhar e a olhou diretamente.
— A de conhecê-la melhor, Lady Talbot. Com tempo. E intenção.
O coração dela bateu mais forte do que gostaria de admitir.
Enquanto retomavam o passeio, Beatrice soube, com uma clareza inquietante, que algo havia mudado.
Não apenas na forma como Londres a observava, mas na forma como ela começava a olhar para si mesma.
E isso, ela sentia, não passaria despercebido por ninguém.

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